“A proposta pedagógica que vimos formulando implica o esforço de desenvolver uma pedagogia concreta ou dialética, que supere a pedagogia abstrata, a pedagogia das formas pelas formas. Em relação à opção política assumida por nós, é bom lembrar que na pedagogia histórico-crítica a questão educacional é sempre referida ao problema do desenvolvimento social e das classes. Os defensores da proposta desejam a transformação da sociedade. Se este marco não está presente, não é da PHC que se trata. Estamos sempre buscando a relação conteúdo e forma dentro do processo educativo. Em suma, a passagem da visão crítico-mecanicista, crítico-a-histórica para uma visão crítico-dialética, portanto histórico-crítica, da Educação, é o que queremos traduzir com a expressão PHC ” (Dermeval Saviani).
A “extrema-esquerda” considera que ser crítico é ser intransigente, é negar inteiramente tudo o que a burguesia produziu, e acabam fazendo uma espécie de coro comum com a direita, fustigando a Pedagogia Histórico-Crítica.
Também
os “ultracríticos” tentam reabilitar a ideia de fazer a revolução social
pela revolução educacional, isto é, através da escola. Assim queria o movimento
da Escola Nova, quando foi superada pela crítica da concepção liberal e do
pedagogismo.
10 polêmicas sobre a PHC:
1. Forma e conteúdo. Somos conteudistas, e desconsideramos os processos e os métodos pedagógicos. Mentira! Pelo contrário, a questão central da Pedagogia é a questão das formas, dos métodos e dos processos (não considerados em si mesmos, mas como meios que viabilizam o domínio de determinados conteúdos). O professor não é um cientista. O cientista está interessado em fazer avançar a sua área de conhecimento, em fazer progredir a ciência (o conhecimento é um fim); já o professor está mais interessado em fazer progredir o aluno (o conhecimento é um meio). Logo, o método é essencial ao processo pedagógico (Pedagogia = condução da criança e sua introdução na cultura, o processo através do qual o homem se torna plenamente humano).
2. Transformar o saber elaborado em saber escolar. Todo e qualquer saber é válido. Mentira! É preciso passar do senso comum à consciência filosófica, pois os conteúdos se produzem a partir das relações sociais É preciso transformar e selecionar do conjunto do saber sistematizado os elementos relevantes para o crescimento intelectual dos alunos, organizando-os em uma forma e numa sequência tal que possibilite a sua assimilação (do saber elaborado ao saber metódico, sistematizado, científico = organizando processos e descobrindo formas adequadas). E é para isso que existe a Pedagogia e os/as Pedagogos/as. A produção do saber é social, se dá no interior das relações e práticas sociais. Já o domínio dos instrumentos de elaboração e sistematização, mais lapidada e refinada, implicam o papel da escola (do contrário, o trabalhador ficará estagnado na produção rudimentar do saber).
3. Socialização x produção do saber. Na sociedade capitalista, a tendência é tornar o saber propriedade exclusiva da classe dominante. Ao trabalhador, somente algum tipo de saber para que ele consiga produzir (o técnico profissionalizante). Ora, se a bandeira básica de luta do socialismo é a socialização dos meios de produção. Também cabe à escola pública e gratuita a socialização do saber produzido/elaborado com qualidade. Afinal, o saber produzido socialmente é uma força produtiva, é um meio de produção. Assim como o trabalhador precisa ter acesso aos meios de produção, ele também precisa acessar o saber (não em doses homeopáticas ou fragmentado/parcelado, mas preferencialmente o saber sobre o conjunto do processo), outra forma da força produtiva.
4. Saber x Consciência. Dizem que damos mais importância à aquisição do saber do que da consciência crítica. Mentira! Aliás, é possível desenvolver a consciência à margem do saber? A própria consciência de classe passa pela questão do domínio do saber. O nível de consciência dos trabalhadores aproxima-se de uma forma elaborada na medida em que eles dominam os instrumentos de elaboração do saber.
5. Saber acabado x saber em processo. Nosso foco não é transmitir saberes. O saber “estar sendo” produzido socialmente num processo histórico (e já tem muita coisa boa desenvolvida por obra das lutas, relações e práticas populares e sociais!). O problema da pedagogia é justamente permitir que as novas gerações se apropriem, sem necessidade de refazer a roda ou todo um processo, do patrimônio da humanidade.
6. Saber erudito x saber popular.
Ponto de partida x
ponto de chegada.
Acusam-nos de valorizar a cultura erudita em detrimento da cultura popular. Cultos seriam nós, os que têm acesso à cultura letrada, os “intelectuais”. Mentira! Ou, no outro extremo, a cultura erudita seria espúria, artificial; enquanto a cultura popular é legítima, autêntica (o saber da libertação). 8 ou 80. O saber apurado (muitos o chamam de “saber burguês”, erudito ou da dominação) não é internamente dominante. Ele é apropriado exclusivamente pelas classes dominantes e é utilizado a seu favor ou a serviço de seus interesses. Mentira! Dicotomia falsa! Se as escolas se limitarem a reiterar a cultura popular, qual será sua função? Para desenvolver cultura popular, essa cultura assistemática e espontânea, o povo não precisa de escola. O povo precisa de escola para ter acesso ao saber erudito, ao saber sistematizado e, em consequência, para expressar de forma elaborada os conteúdos da cultura popular que correspondem aos seus interesses.
7. Ênfase nos conteúdos instrumentais. Isso não faz com que os conteúdos assumam uma certa autonomia em relação aos dados presentes na realidade concreta, chegando até a não levar em conta as condições iniciais dos alunos das classes dominadas? Não! Na sala de aula, o professor está lidando com o aluno concreto, vivo, inteiro e real, em suas múltiplas relações sociais (não o aluno empírico, da experiência prática, observável e imediata do agora, como faz e lida a psicologia, que por isso acaba caindo em limitações). E para chegar a esse concreto é preciso superar o empírico pela via do abstrato. Daí a necessidade de se desenvolver uma psicologia que leve em conta o indivíduo concreto e não apenas o indivíduo empírico. Pois, o aluno imediato (empírico) tem determinadas sensações, desejos e aspirações que não correspondem necessariamente aos seus interesses reais, definidos pelas condições sociais que o situam enquanto indivíduo concreto. O objetivo do processo pedagógico é o crescimento do aluno (concreto), logo, seus interesses devem necessariamente ser levados em conta. “Nem sempre o que a criança manifesta à primeira vista como sendo de seu interesse é de seu interesse como ser concreto, inserido em determinadas relações sociais. Em contrapartida, conteúdos que ela tende a rejeitar são, no entanto, de seu maior interesse enquanto indivíduos concretos. Assim, a ênfase nos conteúdos instrumentais não se desvincula da realidade concreta dos alunos, pois é justamente a partir das condições concretas que se tenta captar porque e em que medida esses instrumentos são importantes” (SAVIANI: p. 97).
8. Setores conservadores vêm fazendo recortes isolados de alguns princípios da PHC para justificar um retorno à escola tradicional. Isso é verdade. É o famoso “tirar do contexto”. E isso acontece não só com a PHC, mas com outras propostas. Desnatura-se o quadro original, encaixando-se conceitos de uma proposta em outro esquema teórico. Temos que aprender a lidar com esse fenômeno, explicitando-o.
9. Estado hipertrofiado. Mentira! A PHC não hipertrofia o papel do Estado, em detrimento das relações sociais. O que se destaca é o papel da sociedade civil, do movimento dos trabalhadores como forma de controlar e fiscalizar a ação do Estado na educação. O princípio mais geral é: socialização dos meios de produção. O princípio mais específico/pedagógico: socialização do saber elaborado (uma espécie de tradução pedagógica). É preciso socializar o saber elaborado porque este também é um meio de produção.
10. “Ou-ou” ou “relações”? Relações! Nossas operações mentais são dominadas pelo dualismo lógico. Costumamos pensar na base do “ou-ou”. Não conseguimos pensar por relações. Da mesma forma, pensamos a contradição, mas não pensamos por contradição. Não podemos é ficar com formas sem conteúdos, e vice-versa.
Enfim,
hoje, a Pedagogia Histórico-Crítica (PHC), não descarta completamente a
Escola Tradicional nem a Escola Nova. Muito menos busca “endireitá-las” ou
corrigi-las. Busca, sim, curvá-las do lado oposto (técnica da metáfora de Lênin
da “curvatura da vara”). É mais ou menos assim: se você não pode consertar
completamente uma situação, ao menos a despenque para o seu lado.
“Vivemos há tanto tempo juntos nesse mundo, e mesmo
assim cometemos os mesmos erros: guerra, pobreza, divisões raciais, dinheiro...”.
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