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São Francisco do Conde, Bahia, Brazil
Professor, (psico)pedagogo, coordenador pedagógico escolar e Especialista em Educação.
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"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 205 da Constituição de 1988).

Ø O Psicopedagogo é um especialista em análise educacional. Tem capacidade de fazer recomendações a gestores educacionais, orientações de práticas pedagógicas docentes e propor atividades educativas para discentes.



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terça-feira, 12 de junho de 2018

Por que brincamos?


Relatos de um coordenador...

A mamãe está ocupada e a criança ficou ali no chão, sozinha. A criança pega um carrinho ou uma boneca. Se a mãe entra para a cozinha, o carrinho é empurrado para longe. Se a mãe se volta para perto da criança, o carrinho chega ao destino... A criança faz de conta, e vai representando aquilo que a anseia...

Não é só brincar que é interessante na criança. Interessante é o modo como ela brinca. Uma observação atenta do brincar pode revelar as quatro operações necessárias para a formação do eu, claro, de forma velada ou simbólica. Vamos dá um exemplo.

Uma criança da Creche Escola Rural do Gurugé está em cima do colchonete. Ela tem um carrinho, preso a um fio, e alternadamente ela joga o carrinho para fora do colchonete e o puxa para cima, exprimindo vocalização característica a cada um dos momentos. Nesse brincar, a experiência real é representada pela fantasia, substituída simbolicamente. Interpretando os gestos simbólicos dessa criança, temos:

O objeto. A professora/cuidadora representa a imagem do carrinho; assim como a professoras/cuidadora vai e vem, dividida entre seus afazeres e os cuidados a si, o carrinho aparecia e desaparecia de seu campo visual, em cima e fora do colchonete.
A posição. A experiência passiva de está largada ali sozinha, de ser deixada ali pela professora/cuidadora e de ser reencontrada a qualquer momento por elas é transferida pela experiência ativa de controle da situação, assumindo a manipulação do fio.
A relação. O desprazer gerado pela ausência da atenção da professora/cuidadora pelo prazer causado pelo brincar.
O modo. O objeto inerte, representado pelo carrinho amarrado a um fio de linha, por um objeto investido pelo dom amoroso da professora/cuidadora.

No ato de brincar, a criança fantasia e recria a realidade. O produto desse processo é a formação do EU.

A criança que aprendeu a fantasiar, ou seja, representar simbolicamente a realidade, e tirar proveito e prazer disso, aprendeu a suportar a ausência do mundo. Isso significa que ela está formando um EU. Trata-se, portanto, de quatro maneiras diferentes de realizar uma negação: do objeto, da posição, da relação e do modo. No conjunto, esse é o primeiro grande movimento que a criança deve realizar para formar um eu.

Há uma espécie de descompasso entre o que o adulto faz e o que a criança, de fato, recebe e interpreta. Além disso, o adulto reconhece essa ilusão como tal e a sustenta desse modo. A criança tem consciência das imagens sensoriais que a circundam, mas não tem consciência de que possui consciência nem de que essas imagens implicam uma ilusão relativa. Por isso brincamos com nossas crianças. Por isso elas “entram no clima” e brincam com a gente. Compartilhamos dessa ilusão inteligente.

O G3 andou usando a brincadeira para construir disciplina.
Neilton Lima
Coordenador Pedagógico Escolar. 

terça-feira, 5 de junho de 2018

Limitar é censurar.


Cada um de nós decide o que tem significado artístico. Portanto, cabe uma interrogação ao final da frase: “devem existir limites para a arte?”. A paixão oferece, por natureza, um componente necessário para que se dê qualquer contribuição significativa ao conhecimento.

Não se pode perder o equilíbrio argumentativo, mesmo diante do debate e do diálogo sobre gênero, diferença e diversidade. Temas outros de interesse para a vida contemporânea também seguem essa lógica, tais como aqueles que estão no centro da grande discussão pública atual: liberdade de expressão e de escolha, a censura, o acesso ao conhecimento, a verdade dos fatos e as notícias falsas, a difamação e seu impacto social, a tal liberdade de imprensa e seus impactos na democracia.

A censura, seja ela de natureza política, ideológica ou artística, esbarra sobre uma questão basal: o argumento que limita, transforma-se em uma característica subjetiva, que se dissemina pelo território da vontade de cada um, subjugado ao próprio desejo individual. Impor limites à arte seria restringir a produção de conhecimento, porque a arte não é outra coisa. Ela revê muitas das concepções do passado e aponta para outras tantas visões de futuro. Impedir o acesso ao conhecimento também é uma forma de censura.

A Arte é um campo do conhecimento gerado pela expressão, como uma forma de manifestação da criatividade. Sua existência está garantida pela Constituição, logo, é desnecessária uma discussão sobre seu direito de existir, seja numa perspectiva do “como”, do “quando” e da “forma”. Assim, a arte, seja através da sua realidade material ou de seu poder simbólico, não produz objetos criminosos. O máximo que pode acontecer é, ao olharmos para objetos artísticos, projetamos neles nossos preconceitos, crenças e desejos de acordo com expectativas e experiências de vida. Não é diferente de nosso comportamento em relação ao outro.

Nossa liberdade reside em termos a mais ampla possibilidade de escolha, sabendo de antemão que estamos elegendo aquilo que desejamos, de acordo com nossas crenças, história de vida, sensibilidade, generosidade e disposição, na sua presença ou na falta delas.
Neilton Lima
Coordenador Pedagógico Escolar

Rede desigual & uma Associação da Internet.


Na gestão do então presidente norte-americano, Barack Obama garantiu um decreto da “neutralidade da Internet” que ganhou força de lei nos EUA. Segundo esse conceito, o mundo virtual seria composto de uma estrada única, na qual os dados de todos os sites correm na mesma velocidade.

Acontece que, um aval do presidente Donal Trump reverte essa decisão por meio da FCC (Comissão Federal de Comunicação, uma tal de Anatel americana). Sem a neutralidade, as operadoras de telefonia, que controlam a tal estrada, conseguiriam privilegiar certas empresas, como acontece aqui no Brasil – criando duas estradas: uma rápida, pela qual trafegariam aqueles que pagam um “pedágio”; a outra lerda e esburacada, para quem não tem verba para tanto. Aqui em São Francisco do Conde são várias estradas, muitas de chão, que nunca viram sequer uma brita.

A reação foi imediata dos gigantes da Internet. Os representantes da indústria da tecnologia prometeram processar o governo norte-americano (com processos judiciais sobre a FCC) na tentativa de reverter a decisão.  Netflix, Twitter, Pinterest, Kickstarter, Google e Facebook defendem a neutralidade, inovação, liberdade de expressão e, sobretudo, a internet aberta.

O consenso é que existe a necessidade de preservar o acesso igualitário à web para que a competição pelo mercado on-line seja justa para todos. Ou seja, não alimentar uma desigualdade na disputa comercial. O Governo nem pensa em acabar com a neutralidade na rede (o daqui e o de lá).


Neilton Lima
Coordenador Pedagógico Escolar

sábado, 2 de junho de 2018

Virada Subjetiva.

Relatos de um coordenador...

Antes da paralisação, no último dia de aula na Creche Escola Rural do Gurugé, aconteceu um fato que mexeu muito comigo. Duas menininhas estavam brincando na sala, uma com a outra, e de repente os gritos. Uma criança mordeu a outra enquanto brincavam. A agente de apoio as levou para a secretaria no intuito de uma “conversa”. A menininha chorava muito, o rostinho estava molhado de lágrimas. Chorava bastante justamente a menininha que tinha mordido. A dentuça!!!

Vou logo direto ao ponto da questão. Nem sempre as crianças pequenas têm certeza quem é o agente da ação. Exemplo, a criança pode dizer que seu amigo lhe bateu quando foi ela mesma que bateu nele (e ela não acha que está mentindo). Isso fica evidente naquelas confusõezinhas básicas que, quando nos deparamos, ficamos incertos quem é o agente e quem é o paciente. Pois é, existe uma espécie de confusão entre a imagem e o próprio eu, entre o sentido que a criança é capaz de construir e o que ela recebe do outro.

O mais interessante foi o choro. Embora sendo a agente da mordida, um clima de estranhamento tomava conta da criança. A criança mordida também estava assustada. Algo de errado havia acontecido ali, as crianças sabiam disso, mas... Porém, confusas entre o “Eu” e a “Imagem”, uma criança simplesmente chorava sem dor enquanto a outra estava atônita e mordida (eu amo as crianças, e todo cuidador deveria investigar a lógica delas... Rsrsrs...).   

Durante essas paralisações, vários brasileiros revoltados consigo mesmos passaram a dizer: “Brasileiro é burro mesmo”. Ora, se todo brasileiro é burro, e se eu sou brasileiro, logo sou burro também. O raciocínio espelhado parte dessa mesma confusão infantil. Interiorizamos a imagem do brasileiro como sendo um outro, diferente do eu. Queremos nos livrar de uma imagem nossa, não tão boa, mas refletida pelo próprio eu, como se fosse uma sombra que não nos pertencesse. É como se o consciente dissesse para o inconsciente: “Você não sou eu!”. Nosso consciente é um belo moralista, mas nosso inconsciente é um safado. Nosso superego, como todo bom juiz, é quem nos chama a atenção para essas duas faces da mesma moeda.

Voltando às crianças. Claro que a conversa com as duas e o esclarecimento é uma medida pedagogicamente terapêutica. Nesse momento a criança pode assumir uma imagem e rejeitar outra, gesto que cada vez produz uma nova identificação. Mas, no fundo, uma imagem é apenas outra coisa que não um eu, uma projeção de sua superfície corporal. Todavia, é por esse movimento, pelo qual a criança se assume por meio da imagem de si que recebe do outro, que ela pode realizar-se como si mesma.

Em verdade, quem lida com a educação de crianças deveria ter formação para compreender bem a mente infantil. Fica evidente que durante o processo de constituição psíquica, a criança estabelece formas distintas de relação com a imagem de si mesma no espelho. E leva certo tempo para reconhecermos os dois lados da nossa constituição psíquica, viu!? Mas, um dia a ficha cai e descobrimos que o eu é sempre uma espécie de outro interiorizado. Uma verdade inconveniente com a qual temos que conviver e saber lidar: a mesma boquinha que morde, também assopra.

E às vezes dá beijinhos também...

Neilton Lima
Coordenador Pedagógico Escolar. 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Advocacia no paredão...


Temos assistido a ascensão do autoritarismo no Poder Judiciário e no Ministério Público. A advocacia nunca foi tão ultrajada e humilhada por juízes, delegados e promotores. O paradoxo é que é justamente nestes momentos que a profissão de advogado se torna ainda mais imprescindível. Pois, é quando o arbítrio e a injustiça se instalam que a advocacia se torna imperiosa.

Não existe área do Direito que não tenha sido afetada pela inflexão autoritária que ocorreu nos últimos anos no Brasil. A advocacia criminal, por lidar diretamente com a liberdade alheia e se colocar como um contraponto ao poder punitivo, é quem primeiro sente na pele a mudança autoritária. Os exemplos recentes dessa mudança são muitos: a expulsão de um advogado do Plenário da suprema corte, quando atuava em defesa dos direitos de um acusado; as medidas de restrição do Habeas Corpus nas cortes superiores e no STF; a impossibilidade de acesso aos autos em famigeradas operações policiais; e até a despreocupação de ministros do STF quanto ao respeito à Constituição da República de 1988.

A advocacia trabalhista, por sua vez, sofre com os efeitos da alteração radical do sistema de regulação social do trabalho e de sua proteção, uma construção ao longo de décadas no Brasil. O desmonte da CLT em 2017 é eixo central do golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff e se insere em um processo mundial de reorganização do capitalismo, com o ataque e retrocesso em conquistas importantíssimas da classe trabalhadora, ameaçando também suas formas próprias de organização e sociabilidade.

Devemos agir não motivados por questões corporativas, mas porque o exercício pleno da defesa, nesses tempos em que o autoritarismo se impõe como regra no sistema de Justiça, é um antídoto fundamental em defesa da própria democracia. É preciso lutar arduamente contra o autoritarismo legislativo e apresentar propostas para reafirmar e valorizar a advocacia e a democracia.
Neilton Lima

Coordenador Pedagógico Escolar

Estratégia quase suicida: o que tivemos foi o bloqueio da reprodução material da vida.


A paralisação dos caminhoneiros dos últimos dias, que tomou as estradas para expressar as mais difusas insatisfações com o governo e o estado de coisas, serviu para algo – demonstrar que o descontentamento com o sistema político e a condução do país é ainda mais intenso do que antes.

Os dez dias de greve de caminhoneiros levaram ao desabastecimento do país e ao colapso da gestão Michel Temer (MDB). O sofrimento social causado pelos anos de recessão econômica e a quebra de expectativa de que o país melhorasse com a saída de Dilma Rousseff (PT), o que não aconteceu, uniram a população em torno da pauta dos caminhoneiros. Mas, o que de fato a população queria provar? Que pode “desligar os aparelhos do governo”.

A sociedade atentou contra a própria sobrevivência. Ela aceitou o próprio sufocamento para demonstrar revolta contra o sistema político. O que tivemos ameaçou o abastecimento, a produção, a circulação. Vimos a sociedade ameaçando o sistema político de sufocamento. Mas não é um sufocamento do sistema político, é um sufocamento da própria sociedade, que é quem vai ficar sem alimento, sem remédio, sem circulação, sem emprego. Ainda assim, a sociedade resolveu que a única maneira de dizer para o sistema político o quão insuportável está o sofrimento aqui embaixo é sufocando a nós mesmos, até o limite do estrangulamento.

Chegamos ao ponto em que a sociedade aceitou uma coisa absurda, o limite de seu próprio sufocamento para demonstrar a revolta que sente em relação ao sistema político. O governo já acabou, o ponto é saber se Temer chega ao final do mandato. Se depender da grande mídia, sim! Se depender da gente, talvez! Afinal, quem melhor iria substitui-lo nesse curto período de tempo da corrida eleitoral? O clima em que acontecerão as eleições presidenciais, em outubro, depende da construção de um pacto entre as forças políticas que promova alguma estabilidade no país até o fim do ano.
Neilton Lima
Coordenador Pedagógico Escolar

quinta-feira, 31 de maio de 2018

O mercado continua no poder.


As contradições já existentes se acentuaram e outras surgem (surgirão?) como consequência da crise...

Caso a crise dos últimos dias tivesse surtido algum efeito, seria mais provável a saída de Michel Temer da presidência do país do que a saída de Pedro Parente do poder da Petrobras. Tratou-se de uma disputa pelo espólio econômico do Estado e, em segundo lugar, de uma disputa pela direção política do projeto golpista vigente.

Vamos seguir com o alto preço dos combustíveis (a vida cotidiana, como gás e gasolina, simplesmente permanecem como estão, com aumentos permanentes), uma crise econômica acirrada, a política de austeridade liderada pelo projeto neoliberal de Temer, uma base de apoio ainda firmada na burguesia interna e o capital financeiro no comando.

Continua em aberto o espaço que pode ser ocupado pelos setores progressistas. Quem vai pagar a conta desse acordo em que o governo se comprometeu, de modo escandaloso, a continuar drenando riqueza nacional para o capital financeiro? E os impactos das perdas bilionárias oriundas da paralisação?

Um detalhe me chamou a atenção: o comportamento dos militares e setores de segurança. Estes claramente fizeram jogo duplo. Apesar dos anúncios bombásticos do uso da força pelo governo, em muitos lugares foi visível, literalmente, o apoio das forças de segurança. A demora do alto comando das Forças Armadas em negar de modo firme os pedidos de intervenção militar também ficou visível. Entretanto, não se consegue definir se há um apoio amplo em toda a hierarquia ou se é difuso e com mais peso nos setores de patente baixa. Ainda que componham com o governo, também flertaram com o golpismo, fizeram seu teste de até onde possuem apoio popular. As forças militares se consolidaram como força política e com potencial para se tornar um “poder moderador” dos demais poderes da República. Não fazem questão de esconder sua falta de apreço com este governo. Porém, também parece que não querem se arriscar numa aventura golpista.

Enfim, não há respeito ao povo, à nação, aos trabalhadores, nem a democracia. Agora, resta outro cenário de disputa – as eleições de 2018. A política nos salvará? O que você espera do povo? Todas as fichas de desestabilização serão apostadas pelos setores de direita no processo eleitoral para que legitime a força econômica atual.

Para onde vamos? Sem dúvida a conjuntura foi alterada, forças sociais entraram em cena. As eleições de outubro ainda permanecem uma incógnita, o ponto central segue sendo Lula e a falta de opções dos setores golpistas. O governo se mantém, mas já não existe. Não cai porque um novo arranjo neste momento é inviável. Os setores fascistas saíram à luz do dia e ganharam seu espaço. A esquerda ficou atordoada. A inquietação social, o desespero de um país que se esfacela, são combustíveis para novas explosões sociais. Devemos estar preparados!
Neilton Lima
Coordenador Pedagógico Escolar

ESQUERDA x DIREITA

Brilhante texto. Assinei lá embaixo!
(Por Ariano Suassuna)

Não concordo com a afirmação, hoje muito comum, de que não mais existem esquerda e direita. Acho até que quem diz isso normalmente é de direita.

Talvez eu pense assim porque mantenho, ainda hoje, uma visão religiosa do mundo e do homem, visão que, muito moço, alguns mestres me ajudaram a encontrar. Entre eles, talvez os mais importantes tenham sido Dostoiévski e aquela grande mulher que foi santa Teresa de Ávila.

Como consequência, também minha visão política tem substrato religioso. Olhando para o futuro, acredito que enquanto houver um desvalido, enquanto perdurar a injustiça com os infortunados de qualquer natureza, teremos que pensar e repensar a história em termos de esquerda e direita.

Temos também que olhar para trás e constatar que Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e são João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembléia geral” da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva.

De esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de são Lucas, nos “Atos dos Apóstolos”, com o de Euclydes da Cunha em “Os Sertões”. Escreve o primeiro: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Não havia entre eles necessitado algum. Os que possuíam terras e casas, vendiam-nas, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos.

Distribuía-se, então, a cada um, segundo a sua necessidade”. Afirma o segundo, sobre o pré-socialismo dos seguidores de Antônio Conselheiro: “A propriedade tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos beduínos: apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota parte, revertendo o resto para a companhia” (isto é, para a comunidade).

Concluo recordando que, no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita.

Ariano Suassuna (1927 – 2014).
Neilton Lima da Silva (2018).

A Verdade da Petrobras.


Eles querem algo que todos nós também queremos. Então, por que não nos juntamos a eles?

A informação é um dos grandes e atuais problemas do mundo. Guerras são feitas com base nela, principalmente as falsas ou distorcidas. E tudo se agrava quando uma das partes perde o direito da réplica e do contraditório.  

Os petroleiros estão hoje no centro do furacão que está o Brasil. A greve de advertência (de 72 horas) por eles decretada tem o objetivo de protestar sobre a criminosa política de preços praticada na Petrobras, que já provocou aumentos absurdos nos preços da gasolina, do diesel e do gás de cozinha. Isso quer dizer que a greve não tem pauta corporativa (petroleiro não quer aumento de salário ou algo pessoal para a categoria). A greve do petroleiro quer algo que todos nós queremos.

Qual é o custo da Petrobras para refinar derivado hoje no Brasil? Em média, R$ 0,92 o litro. Se você for importar o litro, ele vem custando R$ 1,47 (repare, estamos falando de R$ 0,55 de diferença). Hoje, a empresa tem a capacidade de refinar 2,4 milhões de barris por dia (o que o Brasil consome hoje). O que acontece, a Petrobras está refinando hoje apenas 1,6 milhão de barris por dia (abrindo uma carência de 800 mil barris, que são importados). O Brasil está pendurado no agronegócio. Ou seja, temos capacidade de produzir o necessário para abastecer o mercado interno, tranquilamente (é o que chamaríamos de autossuficiência). Logo, por que o preço no momento tem que está tão alto?

De novo: por que a Petrobras faz esse sucateamento da sua capacidade de refino, e opta pelas importações? Para atender a venda do mercado externo.

Se você é um país que não tem petróleo nem refino, você precisaria importar derivado e seguir o preço internacional. Não é o nosso caso, porque o Brasil tem petróleo e tem refinaria. O país que mais exporta para o Brasil (gasolina e óleo diesel) é os EUA. Nós não temos necessidade de importar derivados. Logo, a Petrobras está subutilizando sua capacidade de refinar petróleo para atender um interesse externo. Então a Petrobras não quer mexer no preço para forçar aqueles que estão importando petróleo, continuar importando.

Tudo agora se coloca o exército na rua. Ora, o exército tem outra missão nobre que não é a de confrontar com o povo brasileiro. O que o povo brasileiro precisa é de uma intervenção social, de reativar sua indústria de óleo e gás, de construção civil, habitação, saúde, educação e segurança pública. Renegociar as dívidas de forma sustentável, e oferecer oportunidades.

Assim, as eleições 2018 tem um foco para quem vai governar e gerir o setor petróleo: mudança de orientação na Petrobras, revisão dos cronogramas de leilões do petróleo, garantia da participação da Petrobras em todos os leilões do Pré-Sal, controle da Petrobras sobre a produção brasileira seguindo nossos interesses e não os ditames estrangeiros, retomada dos investimentos em refino interno e autossuficiente de petróleo, a importância em retomar investimentos em fertilizantes (importamos 80% dos fertilizantes que precisamos, num país de alta agricultura), garantir o controle sobre os nossos ativos e suprir nossas demandas internas. Enfim, atacar e reduzir nossas vulnerabilidades, a maior delas, a desigualdade social.

A Petrobras precisa ser colocada nos trilhos da sociedade brasileira, voltando a trabalhar acreditando e servindo ao povo do país. Podemos reativar a indústria naval, o nosso parque de refino e voltar a investir em pesquisa e desenvolvimento para garantir nosso futuro. Tudo isso aos interesses do Estado, colocando a empresa como Operadora Única.
Neilton Lima
Coordenador Pedagógico Escolar

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Justiça Escroque!


A Polícia Federal já está emitindo multas no valor de R$ 100 mil para as transportadoras de empresários e R$ 10 mil para motoristas autônomos que insistirem nas paralisações. Sobre o anúncio da greve dos petroleiros (aí sim, greve de trabalhadores, e não locaute de empresários), foi como se estivéssemos em outro País, com outra Constituição e outro Judiciário. A justiça mostrou uma agilidade admirável para declarar a greve ilegal e estipular uma multa de R$ 500 mil por dia em caso de descumprimento.

Claro que essa, agora, se trata de uma greve política. Afinal, além da saída do macabro Pedro Parente (e do projeto que está por traz da sua política de preços internacionais – a privatização da Petrobras), a lista de reivindicações dos petroleiros traz a redução dos preços do gás e dos combustíveis, o fim do sucateamento das refinarias e do patrimônio da Petrobras.

Caberia agora à sociedade e seus movimentos organizados assumirem a greve ao lado dos caminhoneiros. Afinal, eles não conseguirão segurar a barra sozinhos. Todavia, parece que a população em massa só irá para rua quando a fome apertar ou se bloquear o Whatsapp.

A política de preços praticada e a importação da gasolina e do diesel têm um objetivo claro que precisamos todos juntos evitar: a volta ao fogão a lenha e o suicídio da Petrobras.
Neilton Lima
Coordenador Pedagógico Escolar.