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"Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados" (Myles Horton, p. 138).

“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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segunda-feira, 11 de maio de 2026

A História como erro/acerto.

Um script não é suficiente para viver.

“A vida é vivida para frente, mas compreendida para trás” (Søren Kierkegaard).

Os fenômenos psicológicos sociais estão todos à nossa volta. É preciso (re)conhecê-los de modo o mais preciso possível. Não é tão simples quanto parece – é o comportamento social. São pessoas pensando, influenciando e se relacionando umas com as outras. É o significado de uma expressão facial, o convencimento de alguém a fazer alguma coisa ou se podemos considerar alguém amigo ou inimigo.

Em nosso cotidiano não esperamos que algo aconteça até que acontece. Depois, subitamente vemos com clareza as forças que ocasionaram o evento e não sentimos surpresa. Além disso, também podemos lembrar incorretamente nossa visão anterior. Aí vem os erros combinados ao julgar a previsibilidade do futuro como os do recordar nosso passado para criar o “viés de retrospectiva” ou fenômeno do “eu sabia o tempo todo” (a tendência a exagerar/generalizar, depois de saber de um desfecho ou nossa capacidade de ter previsto como algo aconteceria – quando nem sempre acontece). É por isso que quase qualquer resultado de um experimento psicológico pode parecer senso comum – só depois que você sabe o resultado. Em retrospectiva, os eventos parecem óbvios e previsíveis.  

“Dia após dia cientistas sociais saem pelo mundo. Dia após dia eles descobrem que o comportamento das pessoas é quase o que você esperaria” (Cullen Murphy, 1990).

(???)

Diante do acervo e do arsenal de experiências corriqueiras, qualquer resultado científico não será surpreendente para a percepção do senso comum. Se você dividir um grupo de pessoas em duas partes, para uma metade contar uma descoberta psicológica e para a outra metade o resultado contrário, depois da posse dos resultados todos dirão: “É óbvio!”. Os dois grupos de pessoas terão boas explicações para os dois resultados opostos. Há um estoque de ditados para fazer qualquer resultado ter sentido, e ambos dirão que “não é surpreendente”.

Vejamos:

1.     Foi descoberto que, seja ao escolher amigos ou se apaixonar, somos mais atraídos a pessoas cujas características diferem das nossas.

2.     Foi descoberto que, seja ao escolher amigos ou se apaixonar, somos mais atraídos a pessoas cujas características são semelhantes às nossas.

Uma metade dirá, por exemplo: “Os opostos se atraem”. A outra metade dirá: “Diga-me com quem andas e direi-te quem és”.

Outro exemplo:

1.     A separação intensifica a atração romântica.

2.     A separação enfraquece a atração romântica.

Uma metade dirá, por exemplo: “Longe dos olhos, perto do coração”. A outra metade dirá: “Quem não é visto não é lembrado”.

Contra o passado (história) há o futuro (pós-história). Desfechos são mais “óbvios” depois que os fatos são conhecidos. Esse viés de retrospectiva ou “eu sabia o tempo todo” muitas vezes torna as pessoas excessivamente confiantes sobre a validade de seus juízos e previsões (para não dizer arrogantes em seus poderes intelectuais). Quando tudo parece previsto, somos mais propensos a culpar (e condenar) os tomadores de decisão (pelo que em retrospectiva são más escolhas ‘óbvias’ do que elogiá-los por boas escolhas, que depois também parecem “óbvias”).

Mais um exemplo:

1.     Soldados com melhor nível de instrução sofrem mais problemas de adaptação do que aqueles com menor nível de instrução. Logo, intelectuais estão menos preparados para as tensões das batalhas do que pessoas com experiência de rua.

2.     Soldados brancos estão mais ávidos por promoção do que soldados negros. Logo, anos de opressão têm um efeito adverso na motivação para realização.

Todas as conclusões desses problemas parecem óbvias. Porém, descobertas apontam que todas essas afirmativas são exatamente o contrário do que foi de fato descoberto.

É muito impasse, não é? Filósofos, romancistas e poetas observaram e comentaram sobre o nosso comportamento social. Eis a força (e um grande problema) do senso comum – o invocamos depois de conhecer os fatos. Por que fazemos isso? Porque os eventos são muito mais “óbvios” e previsíveis em retrospectiva do que de antemão (planejado ou previsto futuramente). Mas, e sob a perspectiva mais precisa da Ciência? 1) documentar ou formalizar o trivial e o óbvio; 2) realizar descobertas rigorosas que podem ser usadas para conscientizar ou manipular as pessoas.

Vamos analisar mais provérbios reais e seus opostos (duelo):

Outros exemplos:

1.     “O medo é mais forte do que o amor”. Ou “Quem caiu não pode ajudar quem está no chão”.

2.     “O amor é mais forte do que o medo”. Ou “Quem caiu pode ajudar quem está no chão”.

DUELOS DE PROVÉRBIOS

Ditados Concorrentes

É mais verdade que

Ou que

 

Cozinheiros demais entornam o caldo.

A inteligência supera a força.

Cavalo velho não pega andadura.

O sangue fala mais alto.

Quem hesita está perdido.

Um homem prevenido vale por dois.

 

 

Duas cabeças pensam melhor do que uma.

Gestos valem mais do que palavras.

Nunca é tarde para aprender.

Muitos parentes, poucos amigos.

Antes que cases, vê o que fazes. 

Não sofra por antecipação.

A felicidade vem de saber a verdade ou de preservar ilusões? De estar com os outros ou de viver em tranquila solidão? Opiniões é o que não faltam. Em geral, o censo comum é válido e está certo (depois do fato). Fica bem compreensível porque Sócrates chegou à conclusão de que “Só sei que nada sei”. Nós facilmente nos ludibriamos pensando que sabemos e sabíamos mais do que de fato sabemos e sabíamos. Não importa o que viermos a descobrir, sempre haverá alguém que o previu. Nesses duelos de ideias concorrentes, cabe ao pensamento crítico e científico encontrar aquela que corresponda melhor à realidade.

Ambas as formas (invertidas) são verdadeiras. São verdadeiras?

Último exemplo:

1.     “Os sábios fazem provérbios e os tolos os repetem” (Autêntico).

2.     “Os tolos fazem provérbios e os sábios os repetem” (Contrapartida inventada).

Tudo é verdade e pode não ser. Depende das condições e dos contextos complexos, inclusive aqueles que ainda nem existem (estão lançados no futuro). Isso é psicologia social. O que parece claro em retrospectiva raramente está claro no lado da frente da história (um diagnóstico ou prognóstico não é tão fácil). As decisões de médicos e júris não são tão simples de serem tomadas. Para evitar erros, é preciso descartar pilhas de “ruídos de informação”, considerar os sinais ou os raros retalhos de informações realmente úteis, ser seletivo ao decidir o que considerar e ligar os pontos. E é exatamente por isso que precisamos da ciência para nos ajudar a separar a realidade da ilusão e as previsões genuínas da retrospectiva fácil. Afinal, o que parece ser óbvio para nós agora não o era naquele momento – isso é pensar se colocando num futuro que logo vai embora. Isso também serve para não sermos nem muito duros conosco mesmos nem arrogantes, pois do outro lado de retrospectiva existe a difícil antecipação. 

Enfim, um script não é suficiente para viver sempre de modo assertivo...

“É fácil ser inteligente depois do acontecido” (Sherlock Holmes).

“Tudo que é importante já foi dito antes” (Alfred North Whitehead).

“Adão foi a única pessoa que, quando dizia uma coisa boa, sabia que ninguém a havia dito antes” (Mark Twain). Kkkk

Pesquisadores e teorias.

 Necessitamos de pesquisadores e teorias com vieses diferentes para realizar a análise científica. Afinal, a própria ciência tem seu lado subjetivo, já que é inevitável que as crenças e os valores prévios influenciem as escolhas e decisões dos próprios cientistas.

Entretanto, a observação e a experimentação sistemáticas nos ajudam a limpar as lentes através das quais vemos a realidade. Então, vamos conhecer alguns pesquisadores e suas descobertas que assim o fizeram.

1.     Brett Pelham: Tese do “egoísmo implícito” – a predisposição de gostarmos daquilo que associamos a nós mesmos.

2.     Mathias Mehl e James Pennebaker: Quantificação do comportamento social. Os relacionamentos representam uma parte considerável do ser humano (uns 30% são só conversação).

3.     Stanley Milgram (1974): Tese da “obediência à autoridade”: pessoas comuns obedecem a ordens de figuras de autoridade, mesmo que isso envolva prejudicar outros. Revela a influência do contexto social na moralidade individual.

4.     Hazel Markus (2005): “As pessoas são, acima de tudo, maleáveis”. Adaptamo-nos a nosso contexto social. Nossas atitudes e comportamentos são moldados por forças sociais externas.

5. Abraham Maslow (1943): “Os seres humanos buscam realizar seu pleno potencial (autorrealização), mas precisam atender às necessidades mais básicas primeiro para evoluir”. É a “Teoria da Hierarquia das Necessidades Humanas” ou "Pirâmide de Maslow" – as ações humanas são motivadas pelo desejo de satisfazer necessidades organizadas hierarquicamente, da mais básica para a mais elevada. 1) um nível de necessidade só precisa ser relativamente satisfeito para que o indivíduo foque no nível seguinte; 2) foco no que dá certo nos seres humanos e na sua busca por crescimento (psicologia humanista), ao contrário de focar apenas na doença ou disfunção...

A Pirâmide (da base para o topo):

1.     Fisiológicas: Alimentação, sono, respiração, sexo.

2.     Segurança: Emprego, saúde, propriedade.

3.     Sociais (Amor/Pertencimento): Amizade, família, intimidade.

4.     Estima: Autoestima, respeito, status.

5.     Autorrealização: Realização do potencial, criatividade.