Uma via de mão dupla...
Gosto dessa obra de arte: “Desenhando mãos” (1948), de Maurits Cornelis Escher. É surreal!
O artista assume o desafio de representar no papel bidimensional imagens tridimensionais, e o processo criador é incrível! São criadas imagens “impossíveis”, que desafiam o nosso cérebro sobre a percepção da realidade. Chega gerar um estranhamento!
Reparem
bem, não são apenas duas mãos! São dois elementos que dependem um do outro para (co)existir. Lembra conexão e reciprocidade.
Na obra, uma mão parece desenhar a outra. A representação de um lápis em cada uma das mãos, que aparentam emergir da folha de papel, bem como a posição delas, contribuem para criar a impressão de que elas não estão apenas sendo desenhadas, mas também são responsáveis pela ação de desenhar. Os detalhes anatômicos das mãos conferem a ideia de tridimensionalidade e reforçam o fato de que as mãos estão em ação, desenhando-se mutuamente; as mangas da camisa e as abotoaduras, com traços de lápis, são elementos que reforçam a ideia de que as mãos estão em processo de criação.
Uma mão parece estar desenhando e, ao mesmo tempo, sendo desenhada pela outra, criando um ciclo sem fim. Como não estão definindo qual das mãos começou a desenhar a outra, já que uma depende da outra para existir, estamos diante de um paradoxo – um desafio à lógica tradicional de causa e efeito, criando uma ilusão visual que contraria as leis da realidade.
Onde há fumaça, há fogo. Se sai na chuva é para se molhar. Ora, parece que tudo é apenas um conjunto de “causa” e “efeito”, mas a realidade humana não se limita à mesma realidade da Natureza. Nossa complexidade também pode ser explicada pela dialética ou o fato de que transformamos e somos ao mesmo tempo transformados; criamos e ao mesmo tempo somos criados. Quando participamos de atos de trabalho e produção, também nos autoproduzimos.
Enfim, nessa obra não há início nem fim, mas um ciclo infinito de criação e autorreferência, com total interdependência entre o criador e a criatura. Ela dá um tapa na razão ao tentar explicar a si mesma, acalantando sistemas que se criam e se mantêm de forma independente – autopoiese.