Nossa sociedade estabeleceu uma regra ameaçadora ao pensamento. Não é qualquer um que pode dizer a qualquer outro qualquer coisa em qualquer lugar e em qualquer circunstância. O emissor, o receptor e o conteúdo da mensagem, assim como a forma, o local e o tempo de sua transmissão dependem de normas prévias que decidem a respeito de quem pode falar e ouvir, o que pode ser dito e ouvido, onde e quando isso pode ser feito.
“A regra da competência” decide de antemão quais são os incluídos e os excluídos do circuito de comunicação e de informação. Ela reafirma a divisão social do trabalho como algo “natural” e “racional”, entendendo por racionalidade a eficiência da realização ou execução de uma tarefa. É criada uma separação entre “os que sabem” e os que “não sabem”. Quem não sabe precisa receber informação por técnicos, burocratas e especialistas “sobre”. Na área da educação, por exemplo, se tem a Secretaria e suas Gerências que regulamentam e controlam o trabalho pedagógico.
De tal modo que, se você for a uma entrevista de emprego e pensar criticamente, será desclassificado. Se você for um trabalhador e pensar criticamente dentro da empresa, será demitido. Se for um político e pensar criticamente será rejeitado. Se tiver gosto musical, será taxado. Se for seletivo sobre as marcas, os programas e os produtos será isolado e excluído, tido como estranho e antissocial. E se existir alguma racionalidade é para administrar ou ser aplicada à organização e planejamento, visando a produção – fragmenta para render (hierarquia) e reunifica para (ex)apropriar (autoritarismo).
A ignorância é estrutural porque se criou um discurso do poder que se pronuncia sobre a educação formal e informal, definindo seu sentido, finalidade, forma e conteúdo. Ao corpo técnico indicado pela política é dada a autoridade para falar e decidir. Aos que experienciam a educação, como professores, estudantes e a comunidade escolar, apenas quando muito, participa. Tornou-se proibido o discurso crítico.
Enfim, se se silencia o discurso da base para que o poder do topo fale sobre ela, então é proibido proibir! Por uma educação que fale de si mesma! Por uma aprendizagem como trabalho do corpo e do espírito perante obstáculos pelo saber – uma descoberta de si e do mundo real.