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São Francisco do Conde, Bahia, Brazil
Professor, (psico)pedagogo, coordenador pedagógico escolar e Especialista em Educação.
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"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 205 da Constituição de 1988).

Ø Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados. :)



“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Nobel de Literatura – 2025.

 O fim das ilusões...

Literatura contemporânea... Apocalíptica, misteriosa, preocupante, longa e sinuosa, expressão de sentimentos indescritíveis, inquietante...

O autor? László Krasznahorkai (húngaro, 71 anos). Com frases longas e parágrafos extensos, com estilo denso e único, o autor cria uma atmosfera pesada e obsessiva, numa obra complexa e visionária, com alegoria profunda, olhar irônico e apocalíptico sobre o colapso social e a fragilidade das esperanças humanas. Tudo isso sob a capa de uma história aparentemente simples.

A personagem? O retorno do barão de Wenckheim (tradução de Zsuzsanna Spiry). Falido por jogo e exilado na Argentina, o cara retorna à Hungria, cansado, buscando apenas reencontrar um amor antigo de juventude (a Marika) e reconciliar-se com o mundo. Mas... Sua cidade, afundada em poeira, desespero e ressentimento, projeta nele a esperança de quem vai trazer redenção e prosperidade.  

A obra? Um romance monstruoso. Narra o regresso de um aristocrata falido (Béla Wenckheim) à sua cidade natal (na Hungria). Ali, os habitante o recebem como um salvador messiânico (tem festa de recepção, ciganos são expulsos e uma crescente expectativa de que o barão resolverá os problemas locais, tanto materiais quanto espirituais). A partir disso, são explorados temas de declínio, esperança e loucura. Ou seja, a população acredita que ele é rico e trará prosperidade (o cara cheio de dívidas rsrs); e ainda acredita mais, que suas origens nobres trará uma renovação moral, eliminando todos os excessos indesejáveis (o cara está perdido, interessado em rever um amor de juventude kkk). Enfim, é uma história de ilusões e expectativas rompidas, com destaque para a violência - a síndrome da bestialidade pretensiosa com agressividade de idiotas grosseiros e desejos de vingança ardilosa. 

O que tem de novidades? A inventividade: 1) desequilíbrio entre aquilo que acontece (os "fatos") e as reações geradas por esses eventos (sempre na ordem do excesso); 2) um traço de escrita em que a narração entra e sai da consciência dos personagens; 3) existe uma indistinção entre aquilo que acontece no pensamento e aquilo que acontece na realidade - as frases misturam os dois registros; 4) liberdade de movimento que dá o ar muito singular da poética do autor; 5) o modo como as diferentes tramas se atravessam e se complementam. 

O contexto? O livro é uma continuidade de Sátántangó (Hungria, 1985), outro romance visionário, implacável e fascinantemente sombrio. Imagine um lugar com habitantes desajustados e enlouquecidos (camponeses esfarrapados; um médico alcoólatra observando obsessivamente seus vizinhos; jovens perdidas num moinho destroçado; uma garota com deficiência tentando matar seu gato, uma gangue de motociclistas fascistas, um professor recluso que observa o mundo em colapso com ironia e terror (o melhor personagem do romance), enfim, vigaristas de toda ordem). Essa gente acredita que em algum dia chegará um homem (Irimiás) com poderes extraordinários para salvá-los daquela realidade (pilhas de lixo e o colapso total).

As entrelinhas? Ao fugir de suas dívidas de jogatina em Buenos Aires, e voltar para sua cidade de origem também para encontrar um amor do passado, encontra personagens perdidos e afim de redenção. 1) a partir da pequena cidade do barão, o aturo fala da Hungria; 2) a partir do relacionamento tenso dos personagens, fala também do gênero humano em geral, e de forma bastante pessimista. 

A crítica? De braço dado com Kafka, o cenário é e não é a Hungria sob o comunismo – sob a fé depositada na aparição de um líder salvador, com assombrosa atualidade. Paraíso? Inferno? Mundo do além? Bobagem. Nesse delírio em que se enfiou a contemporaneidade, a extrema-direita explorou para lançar seus líderes políticos nos EUA, na Argentina, em Israel, no Chile e aqui no Brasil. Em todo o mundo...

O que pode acontecer quando a linguagem é levada além das regras que ela própria estabelece? Distopia: riso, vertigem e devastação em uma polifonia de vozes do nosso tempo. Uma reflexão sobre o pertencimento e sobre o nacionalismo. É muito difícil atravessar indiferente essa leitura. Afinal...

Aqui estamos!

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