O fim das ilusões...
Literatura contemporânea... Apocalíptica, misteriosa, preocupante, longa e sinuosa, expressão de sentimentos indescritíveis, inquietante...
O autor? László Krasznahorkai (húngaro, 71 anos). Com frases longas e parágrafos extensos, com estilo denso e único, o autor cria uma atmosfera pesada e obsessiva, numa obra complexa e visionária, com alegoria profunda, olhar irônico e apocalíptico sobre o colapso social e a fragilidade das esperanças humanas. Tudo isso sob a capa de uma história aparentemente simples.
A personagem? O retorno do barão de Wenckheim (tradução de Zsuzsanna Spiry). Falido por jogo e exilado na Argentina, o cara retorna à Hungria, cansado, buscando apenas reencontrar um amor antigo de juventude (a Marika) e reconciliar-se com o mundo. Mas... Sua cidade, afundada em poeira, desespero e ressentimento, projeta nele a esperança de quem vai trazer redenção e prosperidade.
A obra? Um romance monstruoso. Narra o regresso de um aristocrata falido (Béla Wenckheim) à sua cidade natal (na Hungria). Ali, os habitante o recebem como um salvador messiânico (tem festa de recepção, ciganos são expulsos e uma crescente expectativa de que o barão resolverá os problemas locais, tanto materiais quanto espirituais). A partir disso, são explorados temas de declínio, esperança e loucura. Ou seja, a população acredita que ele é rico e trará prosperidade (o cara cheio de dívidas rsrs); e ainda acredita mais, que suas origens nobres trará uma renovação moral, eliminando todos os excessos indesejáveis (o cara está perdido, interessado em rever um amor de juventude kkk). Enfim, é uma história de ilusões e expectativas rompidas, com destaque para a violência - a síndrome da bestialidade pretensiosa com agressividade de idiotas grosseiros e desejos de vingança ardilosa.
O que tem de novidades? A inventividade: 1) desequilíbrio entre aquilo que acontece (os "fatos") e as reações geradas por esses eventos (sempre na ordem do excesso); 2) um traço de escrita em que a narração entra e sai da consciência dos personagens; 3) existe uma indistinção entre aquilo que acontece no pensamento e aquilo que acontece na realidade - as frases misturam os dois registros; 4) liberdade de movimento que dá o ar muito singular da poética do autor; 5) o modo como as diferentes tramas se atravessam e se complementam.
O contexto? O livro é uma continuidade de Sátántangó (Hungria, 1985), outro romance visionário, implacável e fascinantemente sombrio. Imagine um lugar com habitantes desajustados e enlouquecidos (camponeses esfarrapados; um médico alcoólatra observando obsessivamente seus vizinhos; jovens perdidas num moinho destroçado; uma garota com deficiência tentando matar seu gato, uma gangue de motociclistas fascistas, um professor recluso que observa o mundo em colapso com ironia e terror (o melhor personagem do romance), enfim, vigaristas de toda ordem). Essa gente acredita que em algum dia chegará um homem (Irimiás) com poderes extraordinários para salvá-los daquela realidade (pilhas de lixo e o colapso total).
As entrelinhas? Ao fugir de suas dívidas de jogatina em Buenos Aires, e voltar para sua cidade de origem também para encontrar um amor do passado, encontra personagens perdidos e afim de redenção. 1) a partir da pequena cidade do barão, o aturo fala da Hungria; 2) a partir do relacionamento tenso dos personagens, fala também do gênero humano em geral, e de forma bastante pessimista.
A crítica? De braço dado com Kafka, o cenário é e não é a Hungria sob o comunismo – sob a fé depositada na aparição de um líder salvador, com assombrosa atualidade. Paraíso? Inferno? Mundo do além? Bobagem. Nesse delírio em que se enfiou a contemporaneidade, a extrema-direita explorou para lançar seus líderes políticos nos EUA, na Argentina, em Israel, no Chile e aqui no Brasil. Em todo o mundo...
O que pode acontecer quando a linguagem é levada além das regras que ela própria estabelece? Distopia: riso, vertigem e devastação em uma polifonia de vozes do nosso tempo. Uma reflexão sobre o pertencimento e sobre o nacionalismo. É muito difícil atravessar indiferente essa leitura. Afinal...
Aqui estamos!
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