O social existe, está dividido, mas tem força instituinte.
Historicamente, existem 03 perspectivas predominantes na esquerda brasileira que precisam ser reformuladas. Por mais que se esforcem e tenham “boas intenções”, desejam fazer as coisas “do Alto”. Vejamos:
03 perspectivas predominantes na esquerda brasileira:
1ª – O Estado como protagonista: explica e narra a história do Brasil tendo apenas o Estado como personagem principal. A ideia é a de que o Estado é anterior à sociedade, institui essa sociedade e determina todos os acontecimentos. A História como história feita pelo Alto (Estado e burguesia).
2ª – Teoria da dependência: foi elaborada por FHC e Enzo Faletto. A intepretação do Brasil e demais países dependentes é assentada sobre um tripé: Estado, capital nacional e capital internacional. São esses três os protagonistas sociais, políticos e históricos. Estão ausentes a classe trabalhadora e as camadas populares em geral. Assim como a anterior, também pensa a política e a história como ação do Alto (Estado e burguesia).
3ª – Política como ação de uma Vanguarda: essa concepção
está presente em formas variadas das múltiplas tendências da esquerda
brasileira. De um lado, funda-se em uma ideia pedagógica da política como
educação das massas por um partido que tomaria o Estado; e de outro lado, na
direção política das massas por uma vanguarda, portadora da consciência de si e
para si, capaz de decifrar o sentido da história. Novamente, a política e a história se fariam referidas ao Alto, ao
Estado.
Como reformular tudo isso?
Um grupo de esquerda forte será formado também por intelectuais, vindos de diversas tendências de esquerda: movimento operário e sindical, trabalhadores rurais, movimentos sociais urbanos, cultura popular, violência e marginalidade, Igreja em suas relações com os movimentos populares, partidos políticos e ideologia. Precisam formar centros de estudos, sobretudo com a intenção de refletir sobre o Brasil atual, consolidando espaços para a realização de pesquisas e debates sobre aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais da realidade brasileira, com ênfase especial na problemática das classes populares. Repare: a referência não é o Estado, mas a sociedade. Isto é, o papel dos movimentos sindicais, sociais e populares como os sujeitos da política e da história.
O Brasil tem uma tradição de grupos de
resistência, muitos produzidos na época da Ditadura Militar: movimento sindical
ou o novo sindicalismo, movimentos sociais urbanos e rurais, Comunidades
Eclesiais de Base inspiradas na Teologia da Libertação, movimentos estudantis,
grupo Tortura Nunca Mais, famílias de presos e desaparecidos políticos sob a
proteção da Comissão de Justiça e Paz, comissões de fábricas com a conquista do
direito à greve e a organização independente dos trabalhadores, os loteamentos
clandestinos nas cidades e as ocupações no campo como início da reforma
agrária, os movimentos contra o custo de vida, por transporte, creches, escolas
e hospitais, pela urbanização das favelas, contra o racismo e as discriminações
de gênero, contra a tortura e o desaparecimento de presos políticos, contra os
assassinatos de lideranças populares pelas forças policiais e pelo Esquadrão da
Morte, e por aí se vai...
Uma reinvenção ou inovação do coletivo, que agora também precisa lidar com os novos desafios do século: bolhas das redes sociais, IA, novas tecnologias dos meios de produção, retóricas refinadas das mídias, desalento distópico dos tempos atuais...
Um coletivo assim, não surge do nada nem da cabeça de alguns intelectuais. Pelo contrário, o que o torna possível é a existência de uma ação social como resistência (ao autoritarismo, à exclusão, à retirada ou negação de direitos), como luta pela liberdade. AÇÕES DE CRIAÇÃO E AFIRMAÇÃO DE DIREITOS, UMA INVENÇÃO DEMOCRÁTICA!
“Um grupo que estuda e se engaja profundamente nas greves, tomando parte delas, fazendo debates e discussões com os trabalhadores, dando entrevistas a jornais, rádios e televisões e escrevendo artigos em defesa das comissões de fábrica, do direito à greve e da legitimidade das ações. É uma verdadeira experiência de formação política e de compreensão da ação democrática não apenas como luta de classes, mas sobretudo como participação direta nas práticas políticas para uma nova sociedade. Tudo o que escrevermos sobre democracia, sobre cultura popular, sobre crítica da ideologia da competência precisa nascer nessa experiência extraordinária e única, na qual, em vez de um partido político ou uma vanguarda que imaginam poder levar a consciência aos trabalhadores, dar-se exatamente o contrário: nós é que aprendemos com os trabalhadores” (Marilena Chuai, p. 57).
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