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Ø Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados. :)



“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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sábado, 9 de novembro de 2024

O voto de ressentimento.

  “Procurando sarna para se coçar”.

Não é só uma questão de manipulação ou fascismo. Há um perigoso consentimento sendo soerguido na população, com o teor de responsabilizar a vítima pelo mal que sofreu.

TESE: há uma ou mais indignação reprimida no inconsciente individual e coletivo, e ela vem sendo canalizada para o “voto de ressentimento”.

Como foi possível Trump ser reeleito depois da invasão do Capitólio, das condenações judiciais, das declarações racistas e tudo o mais? E não foi uma escolha hesitante, foi direcionada. Ganhou o voto até dos homens latinos, gente!

Formou-se um abismo gigantesco entre progressistas e conservadores. Por quê? É preciso escutar a população e buscar entendê-la.

HIPÓTESES:

1. MANIPULAÇÃO: o povo é enganado e iludido pelas fake news, pelos algoritmos das plataformas e pela genialidade dos estrategistas conservadores; os cidadãos são manipulados. Preconceito.

2. FASCISMO: o povo foi tomado pelo ressentimento e aderiu de peito aberto à homofobia, à misoginia e ao racismo. Os cidadãos estão aderindo ao fascismo. Condescendência.

A mais provável:

3. CONSENTIMENTO: Quando uma injustiça é feita e não há reparação, fica um sentimento reprimido de indignação (e quem é que não tem uma injustiça não reparada na vida?). Inconscientemente o oprimido vive esperando sentir essa reparação de alguma forma. A forma de aliviar essa indignação sufocada é ver um terceiro devidamente punido.

“Quem foi que mandou caçar? Pois é, achou!” Há um sentimento reprimido de indignação no povo, cujas atitudes por ele tomadas são justificáveis e faz sentido e lógica (na cabeça desse povo). O povo hoje acredita que certas brutalidades são merecidas e aceitáveis porque a culpa é da vítima.

É a indignação reprimida que sente e acredita que a invasão do Capitólio não foi uma invasão e nem teve Trump como insuflador, mas foi um protesto espontâneo. É a indignação reprimida que acredita que ele não é racista nem xenofóbico, mas movido por preocupações sinceras com sua política anti-imigração. Sabe aquela chama conservadora que teme o inferno, que a tudo olha com a visão de pecado e punição, que nega o prazer e condena os “ousados”? Ela está bem acesa no nosso interior. As declarações violentas feitas contra o aborto, os homossexuais, a liberdade das mulheres e dos negros, por mais violentas que sejam, são amortecidas por essa “indignação reprimida”, de tal modo que tais controversas são tomadas como apenas formas de falar ou brincadeiras que não deveriam ser levadas a sério. Logo, passam a acreditar, com boa-fé, boas razões.

A perspectiva do opressor é bastante sub-representada no debate público porque a imprensa tem inclinação liberal e porque existem condutas coletivas que preferimos não descortinar porque elas dizem muito sobre nós. Por que o envolvimento com uma atriz pornô não chocou tanto? Por que palavrões não abalam mais? Por que roubos e ilegalidades não são aterradores? Seriam coisas proibidas pelo nosso consciente, mas permitidas pelas escondidinhas do nosso inconsciente? Há maridos que traem suas esposas por dinheiro e acreditam fielmente que fazem isso pela necessidade de manutenção do lar. Há esposas que até desconfiam, mas fazem vista grossa porque acham que seu esposo faz de tudo para honrar os compromissos com ela, os filhos e a casa. Todos embarcam num faz de contas, embora lá no íntimo se fabrica esse sentimento de indignação que um dia há de ser canalizado ao vizinho.

A quem caberia trazer à tona essas coisas dubiamente proibidas e justificáveis? Se o coletivo acostumou a encobertá-las, quem seria o ousado a desnudar? Assim, os problemas da vida passam a ser engolidos e intocáveis, de tal modo que trazê-los à luz seria uma postura potencialmente antidemocrática (já que a maioria consente ao anonimato). O resultado é que a opinião sustentada por metade da população está ausente de debate público ilustrado. É uma clivagem política entre liberais e conservadores.

Tanto o trumpismo como o bolsonarismo são construídos sobre um antagonismo discursivo que opõe o povo comum a elites tidas como corrompidas. Os que conseguiram subir na vida não são mais vistos como exemplos de respeito. A indignação pela falta de oportunidades e condições para também não chegar lá vira uma revolta não contra o sistema, mas os seus vitoriosos. O sistema capitalista produz poucos vencedores e muitos derrotados. O que fazer com tanto sentimento de derrota, de revolta, de indignação? Canalizar, não para cima dos ricos, mas do professor, do servidor público, da pessoa que conseguiu vencer honestamente na vida (geralmente com muito estudo e capacidade). E é por isso que discursos políticos que defendem o fim da estabilidade do servidor, a diminuição de salários das mulheres, entre outras perdas, passam a ganhar popularidade e aceitação. É o famoso: se eu não pude ter, ninguém também terá. Abre-se espaço para linchamentos coletivos e seus cancelamentos.

“Kamala obteve 56% do voto de quem tem curso superior, e Trump 55% do voto de quem não fez faculdade. Trump obteve 63% do voto protestante e 58% do voto católico, Kamala 71% dos votos de quem não tem religião. Trump obteve 64% do voto rural; Kamala, 59% do voto urbano. São diferenças significativas, mas, também, não tão grandes. Apesar disso, são diferenças suficientemente verdadeiras para sustentar a imagem de que o trumpismo/bolsonarismo é o movimento da classe trabalhadora, da gente comum de fé cristã, que vive no interior e se opõe à elite educada, progressista e arrogante das grandes cidades”.

CONCLUSÃO: Vem se aprofundando uma desconexão entre as elites e o povo comum. Esse abismo se preenche com debate público, jornais populares e universidades sem pedestais acadêmicos. Precisamos compartilhar mais o óbvio, pois algumas verdades que consideramos evidentes não são tão amplamente divulgadas. Há uma necessidade urgente de construir pontes de entendimento que vão além do preconceito e da condescendência. Afinal, o populismo tem o estranho poder de moldar o mundo a seu discurso. Quanto mais gente adere ao populismo e quanto mais as elites ilustradas o rejeitam, mais a separação que anuncia vai se tornando verdadeira. A boa notícia é que o abismo social ainda não é tão grande. A má notícia é que ele vem se ampliando. Precisamos tampar! 

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