Assim, quanto mais se move no interior da contradição entre o distanciamento e o empunhar de posições radicais e transformadoras da ordem implicadas com o povo — entre a recusa das modalidades de opressão material e ideologia, “o conjunto da ideologia decretada de cima”, dos trabalhadores, e o desejo de ser sujeito de desejo e de reconhecimento do outro; de evocar o ponto de vista dos que produzem a riqueza e dela estão apartados, mais o papel do intelectual estará sendo cumprindo.
Têm o prazer e a paixão incandescente de se deixarem ser arrastados e de se juntarem “ao movimento pela universalização das classes desfavorecidas, pois elas têm o mesmo fim que ele”, o intelectual. A saber: têm por fim a liberdade, a igualdade, a felicidade e o reconhecimento humano-universal de si – ou, se se preferir, “o surgimento de uma sociedade sem classes”.
Qual a relevância, hoje, dos intelectuais e/ou acadêmicos para a sociedade? Qual é a função histórico-social, histórico-política e histórico-cultural dos intelectuais?
Algumas
conclusões iniciais:
- Eles estão em crise porque
foram perdendo prestígio público e social, até sua total decadência a partir da
consolidação dos especialistas.
- Teriam sido eles também
tragados pela picada da mosca azul e sua febre de prestígio, reconhecimento,
influência, autoafirmação (grupal), apropriações indevidas mais
para forjar méritos que por motivos intelectuais?
- Ficamos reféns de explicações técnicas em detrimento de disseminar a cultura reflexiva e a construção do pensamento crítico.
NÃO É SER Intelectual:
·
Professores
e professoras universitários de qualquer nível, pesquisadores e pesquisadoras
acadêmicos de excelência, analistas políticos que se propõem a comentários com
pretensão de objetividade;
·
Eruditos
que se dispõem a transcender as contingências da ordem técnica;
·
O exercício cotidiano de proferir aulas, em
particular nos cursos de ciências humanas, expor um tema didaticamente, avaliar
discentes;
·
Construir
objetos de estudo a partir de problematizações específicas (permeadas por
mecanismos condicionantes para a execução, como o jogo burocrático no acesso a
recursos financeiros, a técnica sociocomportamental de firmar relações corretas
e estratégicas, a adequação ao mainstream sob risco de ocultamento caso se
recuse) desenhadas na perspectiva de bibliografia pontual, procedendo por
restrições e padronizações na publicidade (sempre limitadas) dos resultados
através de artigos científicos (papers);
·
A
análise de fatos políticos e culturais da vida das sociedades se portando por
sobre os interesses materiais em litígio, evocando sofisticação e em nome do
bem público;
·
O
conhecimento fino e elegante, aprofundado e diversificado mesmo, de assuntos e
disciplinas várias com a presunção de renúncia às coisas brutas do cotidiano;
·
Não
é alguém que simplesmente se propõe a abordagens científicas, a comentar
eventos da vida política das sociedades humanas a partir de técnicas
(supostamente) imparciais e a buscar a pretensão em se alçar por sobre as
disputas materiais;
·
Não
é “a contradição que sofre e é vivida apenas como sofrimento […] [pois] se
pretendesse se estabelecer no povir […] se tentasse se por, idealmente, fora da
sociedade para julgar a[s] ideologi[as]”, terminaria em “identificar-se com […]
as classes dominantes […] e as classes médias [altas]” que se querem acima dos
conflitos sociais e políticos, que se querem despidos dos seus próprios
interesses e objetivos.
·
Não
é todo esse academicismo estéril, de cínicas posturas de neutralidade técnica,
de oportunismos de pôr-se à sombra do poder estatal como se isso correspondesse
à ação intelectual;
·
Não
estão em busca de universalismos frívolos, vazados de insignificância racional.
·
Não
são os que se restringem (consciente ou inconscientemente, não importa…) suas
formas de trabalho “letrado” ao âmbito do específico — âmbito esse dado e
forjado pela cultura e pelas ideias burguesas — e, nos dias de hoje,
orientam-se pelas exigências das agendas de pesquisa, pelas demandas do
establishment e pela contribuição neutro-técnica na imprensa comercial são, por
um lado, meros “técnicos do saber prático” e, por outro, repercutem (e até
legitimam em certos casos) a “violência sofrida” e a impossibilidade de suprir
“as necessidades [mais] elementares [dos trabalhadores]”.
· Não se trata, simplesmente, de mera erudição, por vezes muito mais um conjunto de tecnicidades adquiridas em bancos universitários, e exibidas em cenários e espaços amorfos das elites dominantes.
ATRIBUTOS DOS INTELECTUAIS:
·
Universal,
humanista, radical e revolucionário (contraditório e inconveniências);
·
São
pessoas engajadas em diversos “conflitos de nosso tempo porque todos são —
conflitos de classe, de nações [e] de raças — efeitos particulares da opressão
dos desfavorecidos pela classe dominante e porque em cada um deles ele está,
ele, o oprimido consciente de sê-lo, do lado dos oprimidos”;
·
São
escritores e escritoras comprometidos com a humanidade e que reivindicam a
responsabilidade em falar pelos desvalidos.
·
É
a inconveniência do fato histórico de estar só. De se lançar no tempo concreto
da política, da cultura e das artes sem possuir o “mandato de ninguém”; sem que
lhe seja atribuída a representação de falar, de enunciar, de locucionar as
questões que mais afetam certos grupos sociais — os oprimidos em primeiro
lugar.
·
É
justamente a vivência da negação, articulado com os desejantes do reconhecimento
da força intrínseca do intelectual enquanto defensor “do ponto de vista dos
mais desfavorecidos”.
·
É
um ser-contradição. Emerge do sistema de dominação — são individualidades que
se autoconstituem na trama da própria divisão social do trabalho intensificada
pela modernidade burguesa; mas que se erguem com a força das letras, sejam elas
escritas ou faladas, transfigurando-as em dispositivos de ação prática.
·
É
a estrutura do eu atormentado de-si que experienciam.
·
Têm
de se posicionar a partir “do ponto de vista dos mais desfavorecidos”.
·
É
alguém que diante das exigências impostas pelas sociedades orientadas pela
ordem do capital, configuradas por arranjos morais e culturais burgueses,
expressa a universalidade por-vir.
·
São
escritores e escritoras engajados em uma universalidade concreta de origem
negativa”. Permitem se transfigurar em catalisadores de subjetividades (a sua própria,
inclusive) que tenham no horizonte o desmoronamento efetivo dos
“particularismos”.
·
Diante
da “particularização absurda” da vida estabelecida pelas estruturas de classe,
o escritor e a escritora comprometidos devem invocar para-si e
para-o-outro-social-trabalhador a “universalidade concreta ori[ginada] no negativo”.
·
É
justamente a extinção das relações de
classes assentadas no ordenamento capitalista o que aspira o/a intelectual.
·
São
as estruturas da sociedade burguesa a originar os particularismos
desumanizantes, explorando as energias criativas humanas (dos “proletários”,
sobretudo) e esmagando qualquer vislumbre de liberdade e igualdade efetivas que
o literato comprometido deseja superar.
·
É
saber exercer a ação do negativo e pelo negativo.
· O dever do intelectual está lá onde as sociedades reificadas não apresentam aos desvalidos de todo tipo as condições mínimas de subsistência, de tal maneira que os ultrajes e atrocidades sofridos resultados de relações sociais de classe se convertem, pelas ideias dominantes, em lei natural imutável e transcendente.
Enfim, é a “afirmação vivida da vida [e da] liberdade” de si e dos desfavorecidos pela imposição violenta da ordem burguesa — o que implica o desabamento desta, algo que não será pacífico —, “[o] valor absoluto e [a] exigência” para todos e todas que se querem intelectual.
NOTAS:
·
Como
os pensadores podem resgatar a voz e a escuta dos desvalidos?
·
Necessária
reconfiguração das esquerdas.
·
São
tempos de academicismo estéril, imprensa cínica e falácias de neutralidade
técnica.
·
Academicismo: aparatos
inúteis, mais para forjar méritos que por motivos intelectuais, referências circulares
a autoridades na matéria, obsequiosas citações dos próprios trabalhos.
·
reflexões
sobre as universidades
·
CRISE
CIVILIZATÓRIA.
· A migração generalizada de intelectuais da esquerda para instituições de educação superior.
· O esvaziamento de organizações políticas e a idiotização das casas editoriais.
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