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Ø Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados. :)



“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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domingo, 10 de novembro de 2024

Homes de lettres: o que é ser intelectual?

Assim, quanto mais se move no interior da contradição entre o distanciamento e o empunhar de posições radicais e transformadoras da ordem implicadas com o povo — entre a recusa das modalidades de opressão material e ideologia, “o conjunto da ideologia decretada de cima”, dos trabalhadores, e o desejo de ser sujeito de desejo e de reconhecimento do outro; de evocar o ponto de vista dos que produzem a riqueza e dela estão apartados, mais o papel do intelectual estará sendo cumprindo.

Têm o prazer e a paixão incandescente de se deixarem ser arrastados e de se juntarem “ao movimento pela universalização das classes desfavorecidas, pois elas têm o mesmo fim que ele”, o intelectual. A saber: têm por fim a liberdade, a igualdade, a felicidade e o reconhecimento humano-universal de si – ou, se se preferir, “o surgimento de uma sociedade sem classes”.

Qual a relevância, hoje, dos intelectuais e/ou acadêmicos para a sociedade? Qual é a função histórico-social, histórico-política e histórico-cultural dos intelectuais?

Algumas conclusões iniciais:

- Eles estão em crise porque foram perdendo prestígio público e social, até sua total decadência a partir da consolidação dos especialistas.

- Teriam sido eles também tragados pela picada da mosca azul e sua febre de prestígio, reconhecimento, influência, autoafirmação (grupal), apropriações indevidas mais para forjar méritos que por motivos intelectuais?

- Ficamos reféns de explicações técnicas em detrimento de disseminar a cultura reflexiva e a construção do pensamento crítico.

NÃO É SER Intelectual:

·       Professores e professoras universitários de qualquer nível, pesquisadores e pesquisadoras acadêmicos de excelência, analistas políticos que se propõem a comentários com pretensão de objetividade;

·       Eruditos que se dispõem a transcender as contingências da ordem técnica;

·        O exercício cotidiano de proferir aulas, em particular nos cursos de ciências humanas, expor um tema didaticamente, avaliar discentes;

·       Construir objetos de estudo a partir de problematizações específicas (permeadas por mecanismos condicionantes para a execução, como o jogo burocrático no acesso a recursos financeiros, a técnica sociocomportamental de firmar relações corretas e estratégicas, a adequação ao mainstream sob risco de ocultamento caso se recuse) desenhadas na perspectiva de bibliografia pontual, procedendo por restrições e padronizações na publicidade (sempre limitadas) dos resultados através de artigos científicos (papers);

·       A análise de fatos políticos e culturais da vida das sociedades se portando por sobre os interesses materiais em litígio, evocando sofisticação e em nome do bem público;

·       O conhecimento fino e elegante, aprofundado e diversificado mesmo, de assuntos e disciplinas várias com a presunção de renúncia às coisas brutas do cotidiano;

·       Não é alguém que simplesmente se propõe a abordagens científicas, a comentar eventos da vida política das sociedades humanas a partir de técnicas (supostamente) imparciais e a buscar a pretensão em se alçar por sobre as disputas materiais;

·       Não é “a contradição que sofre e é vivida apenas como sofrimento […] [pois] se pretendesse se estabelecer no povir […] se tentasse se por, idealmente, fora da sociedade para julgar a[s] ideologi[as]”, terminaria em “identificar-se com […] as classes dominantes […] e as classes médias [altas]” que se querem acima dos conflitos sociais e políticos, que se querem despidos dos seus próprios interesses e objetivos.

·       Não é todo esse academicismo estéril, de cínicas posturas de neutralidade técnica, de oportunismos de pôr-se à sombra do poder estatal como se isso correspondesse à ação intelectual;

·       Não estão em busca de universalismos frívolos, vazados de insignificância racional.

·       Não são os que se restringem (consciente ou inconscientemente, não importa…) suas formas de trabalho “letrado” ao âmbito do específico — âmbito esse dado e forjado pela cultura e pelas ideias burguesas — e, nos dias de hoje, orientam-se pelas exigências das agendas de pesquisa, pelas demandas do establishment e pela contribuição neutro-técnica na imprensa comercial são, por um lado, meros “técnicos do saber prático” e, por outro, repercutem (e até legitimam em certos casos) a “violência sofrida” e a impossibilidade de suprir “as necessidades [mais] elementares [dos trabalhadores]”.

·       Não se trata, simplesmente, de mera erudição, por vezes muito mais um conjunto de tecnicidades adquiridas em bancos universitários, e exibidas em cenários e espaços amorfos das elites dominantes.

ATRIBUTOS DOS INTELECTUAIS:

·       Universal, humanista, radical e revolucionário (contraditório e inconveniências);

·       São pessoas engajadas em diversos “conflitos de nosso tempo porque todos são — conflitos de classe, de nações [e] de raças — efeitos particulares da opressão dos desfavorecidos pela classe dominante e porque em cada um deles ele está, ele, o oprimido consciente de sê-lo, do lado dos oprimidos”;

·       São escritores e escritoras comprometidos com a humanidade e que reivindicam a responsabilidade em falar pelos desvalidos.

·       É a inconveniência do fato histórico de estar só. De se lançar no tempo concreto da política, da cultura e das artes sem possuir o “mandato de ninguém”; sem que lhe seja atribuída a representação de falar, de enunciar, de locucionar as questões que mais afetam certos grupos sociais — os oprimidos em primeiro lugar.

·       É justamente a vivência da negação, articulado com os desejantes do reconhecimento da força intrínseca do intelectual enquanto defensor “do ponto de vista dos mais desfavorecidos”.

·       É um ser-contradição. Emerge do sistema de dominação — são individualidades que se autoconstituem na trama da própria divisão social do trabalho intensificada pela modernidade burguesa; mas que se erguem com a força das letras, sejam elas escritas ou faladas, transfigurando-as em dispositivos de ação prática.

·       É a estrutura do eu atormentado de-si que experienciam.

·       Têm de se posicionar a partir “do ponto de vista dos mais desfavorecidos”.

·       É alguém que diante das exigências impostas pelas sociedades orientadas pela ordem do capital, configuradas por arranjos morais e culturais burgueses, expressa a universalidade por-vir.

·       São escritores e escritoras engajados em uma universalidade concreta de origem negativa”. Permitem se transfigurar em catalisadores de subjetividades (a sua própria, inclusive) que tenham no horizonte o desmoronamento efetivo dos “particularismos”.

·       Diante da “particularização absurda” da vida estabelecida pelas estruturas de classe, o escritor e a escritora comprometidos devem invocar para-si e para-o-outro-social-trabalhador a “universalidade concreta ori[ginada] no negativo”.

·       É justamente a extinção das relações de classes assentadas no ordenamento capitalista o que aspira o/a intelectual.

·       São as estruturas da sociedade burguesa a originar os particularismos desumanizantes, explorando as energias criativas humanas (dos “proletários”, sobretudo) e esmagando qualquer vislumbre de liberdade e igualdade efetivas que o literato comprometido deseja superar.

·       É saber exercer a ação do negativo e pelo negativo.

·       O dever do intelectual está lá onde as sociedades reificadas não apresentam aos desvalidos de todo tipo as condições mínimas de subsistência, de tal maneira que os ultrajes e atrocidades sofridos resultados de relações sociais de classe se convertem, pelas ideias dominantes, em lei natural imutável e transcendente.

Enfim, é a “afirmação vivida da vida [e da] liberdade” de si e dos desfavorecidos pela imposição violenta da ordem burguesa — o que implica o desabamento desta, algo que não será pacífico —, “[o] valor absoluto e [a] exigência” para todos e todas que se querem intelectual.

NOTAS:

·       Como os pensadores podem resgatar a voz e a escuta dos desvalidos?

·       Necessária reconfiguração das esquerdas.

·       São tempos de academicismo estéril, imprensa cínica e falácias de neutralidade técnica.

·       Academicismo: aparatos inúteis, mais para forjar méritos que por motivos intelectuais, referências circulares a autoridades na matéria, obsequiosas citações dos próprios trabalhos.

·       reflexões sobre as universidades

·       CRISE CIVILIZATÓRIA.

·       A migração generalizada de intelectuais da esquerda para instituições de educação superior.

·  O esvaziamento de organizações políticas e a idiotização das casas editoriais.

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