Ao adotar políticas DEI mais com a intenção de ganhar visibilidade ou mitigar crises de reputação, as empresas em nada contribuem para que o problema seja solucionado. Nesse ritmo atual, mais por conveniência do que convicção, o risco é de segmentação cada vez maior, com extremistas de ambos os espectros delimitando quem conversa com quem. Mas uma vez, perde a maioria que, sob a fachada da inclusão, segue sacrificada e excluída.
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A
diversidade e a inclusão (DEI) estão em xeque;
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Empresas
dos EUA abandonam políticas de inclusão
nas quais provavelmente nunca acreditaram e às quais aderiram por conveniência,
e não convicção.
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A
cultura corporativa ensaiou uma
transformação nos últimos anos. Departamentos de RH foram redesenhados para
acomodar profissionais mais diversos, no intuito de “disciplinar” a força de
trabalho de modo a evitar comportamentos discriminatórios.
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Cotas
para mulheres, negros e gays foram adotadas por diversas empresas, que passaram
ainda a explorar a imagem destes mesmos funcionários em campanhas de
comunicação interna e externa. Agora, sob pressão de um barulhento ativismo
conservador, empresas nos EUA têm abandonado a DEI, numa demonstração de que
provavelmente tenham adotado tais políticas menos por convicção e mais pelo
desejo de figurarem em listas de melhores empresas para trabalhar (as empresas
também adotaram políticas DEI na esteira de eventos de grande comoção);
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30%
da geração Z se identifica com a comunidade LGBTQI+.
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A
Ford, por exemplo, acaba de comunicar aos funcionários que não vai mais participar
de um indicador de qualidade corporativa (HRC), uma ONG que atua pelos direitos
LGBTQI+, nem adotar cota para minorias quando estiver tratando com
fornecedores. Isso também acontece com a Harley-Davidson (fabricante de
motocicletas).
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Havia
nos bastidores um movimento que tentava puxar essas empresas para essas causas,
tentando argumentar que os dois lados tinham a ganhar: boa imagem e
produtividade da empresa, por um lado, inclusão e mais visibilidade do outro.
Basicamente, ativistas de bastidores “mapeavam” empresas populares entre o
público conservador com políticas – como patrocínios a paradas de orgulho gay –
que desagradam a essa parcela da população. Essas empresas eram expostas nas
redes sociais, incitando seus seguidores a boicotá-las. Quando a empresa tinha
a suspeição de que seriam expostas pelo conservadorismo, ela se antecipava a
ele e revertia a política preventivamente. Afinal, não é comum que consumidores
insatisfeitos com uma empresa ameacem abandoná-la, mas no mais das vezes tais
iniciativas não prosperam.
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Agora
as empresas estão apostando (a estratégia conservadora) em homens de meia idade
(tendência da população brasileira e mundial), sobretudo fabricantes de
veículos e redes de material de construção.
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O
sinal mais claro no Brasil do afastamento dessas empresas da DEI foi o show de
Madona no RJ. Patrocinado pelo Itaú e a Heineken, expôs ao ridículo e de forma
pejorativa negros e gays, dos quais agora buscam se afastar, alegando crises de
reputação.
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Não
é de hoje que políticas DEI têm sido questionadas por, na tentativa de gerar
inclusão, terem criado um clima de medo, fazendo com que muitas pessoas temam
dizer ou fazer qualquer coisa por receio de ofender alguém ou de sofrer os
chamados “cancelamentos”, banimentos temporários ou duradouros.
· Nem por isso a correção de distorções que mantêm mulheres, negros e gays em situação de desvantagem no mundo corporativo deve deixar de ser perseguida. Fato é que, ao adotar políticas DEI mais com a intenção de ganhar visibilidade ou mitigar crises de reputação, as empresas em nada contribuem para que o problema seja solucionado.
Enfim, ao buscar políticas de inclusão,
empresas deveriam fazê-lo com a mesma convicção que adotam quando, por exemplo,
decidem investir recursos financeiros em um projeto de expansão. Quando, sem
reflexão, embarcam em projetos apenas pensando nas aparências, as empresas
acabam por aprofundar a polarização, seja a dos ativistas conservadores ou a de
radicais para os quais até mesmo a palavra “mulher” é discriminatória, imagina
a palavra “gay”.
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