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Ø Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados. :)



“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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domingo, 8 de setembro de 2024

Ativismo conservador: conveniência x convicção.


Ao adotar políticas DEI mais com a intenção de ganhar visibilidade ou mitigar crises de reputação, as empresas em nada contribuem para que o problema seja solucionado. Nesse ritmo atual, mais por conveniência do que convicção, o risco é de segmentação cada vez maior, com extremistas de ambos os espectros delimitando quem conversa com quem. Mas uma vez, perde a maioria que, sob a fachada da inclusão, segue sacrificada e excluída.

·       A diversidade e a inclusão (DEI) estão em xeque;

·       Empresas dos EUA abandonam políticas de inclusão nas quais provavelmente nunca acreditaram e às quais aderiram por conveniência, e não convicção.

·       A cultura corporativa ensaiou uma transformação nos últimos anos. Departamentos de RH foram redesenhados para acomodar profissionais mais diversos, no intuito de “disciplinar” a força de trabalho de modo a evitar comportamentos discriminatórios.

·       Cotas para mulheres, negros e gays foram adotadas por diversas empresas, que passaram ainda a explorar a imagem destes mesmos funcionários em campanhas de comunicação interna e externa. Agora, sob pressão de um barulhento ativismo conservador, empresas nos EUA têm abandonado a DEI, numa demonstração de que provavelmente tenham adotado tais políticas menos por convicção e mais pelo desejo de figurarem em listas de melhores empresas para trabalhar (as empresas também adotaram políticas DEI na esteira de eventos de grande comoção);

·       30% da geração Z se identifica com a comunidade LGBTQI+.

·       A Ford, por exemplo, acaba de comunicar aos funcionários que não vai mais participar de um indicador de qualidade corporativa (HRC), uma ONG que atua pelos direitos LGBTQI+, nem adotar cota para minorias quando estiver tratando com fornecedores. Isso também acontece com a Harley-Davidson (fabricante de motocicletas).

·       Havia nos bastidores um movimento que tentava puxar essas empresas para essas causas, tentando argumentar que os dois lados tinham a ganhar: boa imagem e produtividade da empresa, por um lado, inclusão e mais visibilidade do outro. Basicamente, ativistas de bastidores “mapeavam” empresas populares entre o público conservador com políticas – como patrocínios a paradas de orgulho gay – que desagradam a essa parcela da população. Essas empresas eram expostas nas redes sociais, incitando seus seguidores a boicotá-las. Quando a empresa tinha a suspeição de que seriam expostas pelo conservadorismo, ela se antecipava a ele e revertia a política preventivamente. Afinal, não é comum que consumidores insatisfeitos com uma empresa ameacem abandoná-la, mas no mais das vezes tais iniciativas não prosperam.

·       Agora as empresas estão apostando (a estratégia conservadora) em homens de meia idade (tendência da população brasileira e mundial), sobretudo fabricantes de veículos e redes de material de construção.

·       O sinal mais claro no Brasil do afastamento dessas empresas da DEI foi o show de Madona no RJ. Patrocinado pelo Itaú e a Heineken, expôs ao ridículo e de forma pejorativa negros e gays, dos quais agora buscam se afastar, alegando crises de reputação.

·       Não é de hoje que políticas DEI têm sido questionadas por, na tentativa de gerar inclusão, terem criado um clima de medo, fazendo com que muitas pessoas temam dizer ou fazer qualquer coisa por receio de ofender alguém ou de sofrer os chamados “cancelamentos”, banimentos temporários ou duradouros.

·       Nem por isso a correção de distorções que mantêm mulheres, negros e gays em situação de desvantagem no mundo corporativo deve deixar de ser perseguida. Fato é que, ao adotar políticas DEI mais com a intenção de ganhar visibilidade ou mitigar crises de reputação, as empresas em nada contribuem para que o problema seja solucionado.

Enfim, ao buscar políticas de inclusão, empresas deveriam fazê-lo com a mesma convicção que adotam quando, por exemplo, decidem investir recursos financeiros em um projeto de expansão. Quando, sem reflexão, embarcam em projetos apenas pensando nas aparências, as empresas acabam por aprofundar a polarização, seja a dos ativistas conservadores ou a de radicais para os quais até mesmo a palavra “mulher” é discriminatória, imagina a palavra “gay”.

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