Maior fator de não vacinação contra Covid-19 é econômico.
As desigualdades socioeconômicas do Brasil têm impacto forte na taxa de vacinação, mesmo em campanhas com aplicação gratuita. Durante os últimos 2 anos de imunização para Covid-19, os municípios com pior cobertura da campanha foram aqueles mais pobres, com menor escolaridade média e maior população negra.
As mulheres se vacinam com mais frequência que os homens, e os idosos (grupo mais vulnerável ao coronavírus) se vacinou melhor que os adultos mais jovens.
A Covid-19 permitiu mostrar um problema de base no programa de vacinação do país. Ela é uma nova doença, com uma estratégia de vacinação muito complexa (tem a sequência de doses em períodos e por faixa etária), e nessa situação as desigualdades de acesso tendem a se reproduzir de forma magnificada. Daí o tamanho do desafio para o PNI (que tem como diretor Eder Gatti), presente em todas as regiões do país e que teoricamente deveria alcançar todo o público. Essas disparidades entre locais com diferentes gruas de desenvolvimento comprometem a universalidade do programa.
Ou seja, além do combate ao negacionismo científico, os ataques do movimento antivacina e a um maior reconhecimento do Estado no papel da vacinação, ainda tem esse problema de base das desigualdades. O acesso à vacina, ou seja, o acesso ao serviço de saúde, é muito sensível a determinantes sociais. Infelizmente o nosso país é muito desigual. O sistema deveria ser equânime, mas a desigualdade coloca os mais pobres em desvantagem. Além do Zé Gotinha, o problema terá que ser enfrentado com um desenho de estratégias diferenciadas, um desafio para gestores de saúde planejarem a cobertura dessas lacunas. Isto é, os municípios precisam ter ferramentas de planejamento. Com elas é possível elaborar estratégias de vacinação que fazem com que o serviço de saúde chegue até o não vacinado, incluindo vacinação fora do sistema de saúde e busca ativa de não vacinados.
O problema em muitos casos não é de disponibilização da vacina por si só, mas de planejamento. Envolve administração de doses fracionadas, logística, transporte e comunicação para fazer populações chegarem até o posto de saúde para vacinação no dia certo, ou alcançá-las com postos móveis. Sobretudo em áreas rurais – tudo isso é muito difícil. Infelizmente, essa é uma realidade brasileira que ficou mais crítica nos últimos anos. No médio e longo prazo, é preciso uma reestruturação da atenção primária, que envolve valorização de profissionais de saúde, financiamento e estruturação.
Enfim, tudo isso é muito pior que a ideologia. Em um país ainda surtado com o bolsonarismo, precisamos de menos foco às falsas ideias e nos encontrar nas boas ações. Afinal, não são poucos os municípios mais pobres, com menor escolaridade e maior população negra precisando de assistência de toda sorte.
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