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“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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domingo, 18 de junho de 2023

As raízes das diferenças.

As comunidades primitivas mantinham grau bastante alto de igualdade social. Por que elas passaram a apresentar diferenças de riqueza e de poder? Por que se dividiram em classes sociais? Por que se dissolveram?

É impossível dar uma única resposta a essas perguntas. Surgiram vários tipos diferentes de sociedade. Cada comunidade, cada povo encontrou seus próprios caminhos. Assim, é preciso evitar olhar a História como se houvesse uma fórmula única, um caminho igual para todos os povos. Porque nada na História humana é inevitável. Não existe destino. A todo momento as pessoas poderiam ter escolhido outro caminho.

Vejamos alguns desses caminhos:

1. O aumento da população. Foi causa e efeito de grandes obras (como a construção de canais de irrigação, açudes, portos e estradas). A organização do trabalho coletivo começou a separar o trabalho intelectual (dos que planejavam as obras e orientavam os outros) e o trabalho manual. Os especialistas adquiriram poderes maiores. Aos poucos, o conhecimento deixou de ser compartilhado pela comunidade e passou a ser privilégio de algumas famílias. Os trabalhadores manuais foram perdendo o direito de decidir a vida na comunidade. O poder de planejar e decidir a vida da comunidade começou a se tornar uma propriedade de uns poucos.

2. Quem administra as grandes obras públicas? As grandes obras públicas precisaram mais do que uns líderes; passaram a exigir uma organização mais complexa, capaz de convocar pessoas para o trabalho, organizar um exército, fazer leis e cobrar impostos. Nasce o “Estado” (uma forma de organização para gerir as obras públicas). E quem lidera essa gestão do Estado? O Estado fazia obras que interessavam às comunidades, mas as famílias que ocupavam os postos de comando do Estado passaram a gozar de privilégios. Tinham casas melhores, comiam melhor, não trabalhavam pesado. Essas famílias poderosas eram consideradas nobres, ou seja, é como se fossem “melhores” do que as outras. Repare que aqui, o Estado dar sinais de se tornar uma arma de domínio de classe da aristocracia (nobreza).

3. As guerras. As guerras puderam ser um instrumento de enriquecimento de algumas sociedades. O povo derrotado tinha que pagar tributos aos vencedores. Ou seja, devia entregar parte do que produzia (comida, tecidos, objetos) e trabalhar para os seus novos senhores. Algumas vezes, os derrotados tinham que trabalhar e viver integralmente em favor dos vencedores, ou seja, tinham se transformado em escravos.

4. Estado aristocrático e revoltas sociais. E se as aldeias se recusassem a pagar tributos ao Estado? E se os povos dominados desobedecessem? E se os escravos se rebelassem? O Estado se valia das leis e da força do Exército. Há vestígios de grandes revoltas sociais há milhares de anos. Algumas vezes, eles dissolveram o Estado. Outras vezes, o Exército, comandado pelos nobres, esmagava os rebeldes. Portanto, o Estado tinha se tornado uma arma de domínio de classe da aristocracia (nobreza).

Enfim, para alguns, o fim da comunidade primitiva foi inevitável porque era a única saída racional para aumentar a produção econômica e satisfazer as necessidades de uma população que tinha crescido demais. Outros acham que o surgimento de uma sociedade com Estado e diferenças sociais foi apenas uma entre muitas possíveis escolhas da humanidade. Ou seja, uns povos optaram por um caminho, outros povos preferiram solução diversa.


Daqui podemos tirar DUAS CONCLUSÕES básicas:

1.     Os Contratualistas (é o Estado que determina a organização da sociedade): o Estado surge de um acordo coletivo, de um contrato social. Sua função é atender as necessidades coletivas.

O Estado é originário de um contrato social entre os integrantes da sociedade, o que se dá por meio da coesão social. Para eles, na medida que os grupos humanos foram se ampliando os conflitos e a desordem social (o que Durkheim chamaria mais tarde de anomia) maximizaram a necessidade da existência de normas mais complexas que possibilitassem uma convivência social mais harmônicas. A ampliação dos grupos humanos gerou muitos momentos de desentendimentos entre os indivíduos, e isso demandava um julgamento da causa de forma impessoal. As constantes ameaças de conflitos com outros grupos também maximizavam a necessidade de criar meios que promovesse a segurança dos grupos. Outra necessidade estava na providência de bem coletivos, os quais os indivíduos precisavam se organizar para provê-los de forma que um ou outro indivíduo não assumisse os custos sozinho. Frente a essa situação, os grupos humanos teriam separado alguns indivíduos para serem responsáveis dessas questões que demandariam um custo (de toda ordem) muito grande para os indivíduos. A estes indivíduos separados ficariam o encargo de atuar de forma impessoal, provendo segurança, bens coletivos, justiça e legislação. Em troca, receberiam salários ou outros benefícios como pagamento, bem como recursos, em forma de impostos, para prover essas questões. Surgia assim o “Contrato Social”, onde a sociedade contratava com o “grupo separado” que daria origem ao Estado, recebendo deste segurança, bens coletivos, justiça e legislação e detrimento de pagar-lhes impostos e se subjugar a sua atuação.

2.     Marx (é a composição classista da sociedade que determina a estrutura do Estado): discordaria da leitura anterior e a julga ser uma visão ideologizada que atende aos interesses da classe dominante.

“A história de toda sociedade até hoje é a história de lutas de classes” (MARX, 1996).

O Estado é essencialmente classista, ou seja, representante de uma classe e não da sociedade em sua totalidade como afirmavam os Contratualistas. O poder político do Estado representativo moderno nada mais é do que um comitê para administrar os negócios comuns de toda a classe burguesa. O Estado seria originário da necessidade de um grupo, ou classe social, manter seu domínio econômico a partir de um domínio político sobre outros grupos ou classes. Toda classe que aspira à dominação deve conquistar primeiro o poder político, para apresentar seu interesse como interesse geral, ao que está obrigada no primeiro momento. É por isso que as ideias dominantes de uma época, segundo Marx, são as ideias dos grupos dominantes. É nesse contexto teórico que Marx desenvolverá a ideia de ideologia, a qual, seria uma “peça chave” para transmitir as “ideias invertidas de ponta-cabeça” que lhes possibilitam a manutenção do status quo.

Através da emancipação da propriedade privada em relação à comunidade, o Estado adquiriu uma existência particular, ao lado e fora da sociedade civil; mas este Estado não é mais do que a forma de organização que os burgueses necessariamente adotam, tanto no interior como no exterior, para garantir recíproca de sua propriedade e de seus interesses (MARX, 1993).

·       A função do Estado estaria em defender os interesses das classes dominantes por meio de seus instrumentos de regulação: sistema jurídico e o aparado militar e policial. O que produz coesão social.

·       No intuito de manter a ordem estabelecida, no caso da sociedade moderna, a dominação burguesa, o Estado desempenharia uma função de caráter repressivo capaz de manter o status quo.

·       O poder do Estado foi adquirindo cada vez mais o caráter de poder nacional do capital sobre o trabalho, de força pública organizada para a escravização social, de máquina do despotismo de classe. Depois de cada revolução, que assinala um passo adiante na luta de classes, revela-se com traços cada vez mais nítidos o caráter puramente repressivo do poder do Estado.

·       Porém, nem sempre o Estado está sendo administrado diretamente por um burguês. Sua estrutura é burguesa, representando os interesses da classe dominante. Ou seja, o Estado está estruturado, nas sociedade capitalistas, em função do capital.

 

CONCLUSÃO: sobre a origem do Estado e sua função, há uma clara divergência.  

Contratualistas x Marx.

Diferentemente do que defendiam os Contratualistas, não era o Estado quem determinava a organização da sociedade, mas a composição da sociedade, em suas relações de classe, que determina a estrutura do Estado. Se de um lado o Estado com sua atuação jurídica seria responsável por determinar a estrutura da sociedade, por outro, Marx destacaria que a estrutura de classe da sociedade determinaria e estrutura do Estado.

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