De La Boètie (no Renascimento), a M. Foucault (na França dos anos 1970), da Escola de Frankfurt (nos anos 1930), a J. Habermas (nos dias atuais), a humanidade tem se perguntado de diversas maneiras: por que uns mandam e outros obedecem? Por que existe o poder?
Essa questão nos remete à organização do Estado. E tanto sua administração pública quanto a sua estrutura de poder, estão ligadas a interesses de classe. Ou seja, não há um Estado “neutro e bonzinho”. O Estado antigo estava ligado à aristocracia, assim como o Estado imperial brasileiro estava conectado aos interesses dos proprietários de terras e de escravos. Os Estados atuais não podem ser explicados apenas com análises restritas à fórmula stalinista “Estado capitalista = administração dos negócios da burguesia”. O Estado não é só um simples gerente administrativo do capitalismo. É isso, e muito mais!
Um dos aspectos do Estado contemporâneo é o seu caráter de classe. Isto é, a existência de um campo de batalhas e negociações entre classes sociais. Isso quer dizer que, para além do aspecto capitalista, há as diversas formações políticas. Veja um exemplo: o governo da Frente Popular na França de 1936 pôde limitar a jornada de trabalho apesar dos protestos do empresariado e também instituiu as férias pagas. E sabe o que aconteceu nessa época? Inventaram o óleo de bronzear. Isso só nos ajuda a perceber o quanto o cotidiano, a economia e a política estão interligados...
As relações de poder não se dão apenas entre o Estado e os indivíduos (súditos ou cidadãos). É preciso reconhecer os micropoderes no cotidiano: o poder disciplinar na escola, no presídio, no quartel, na fábrica, nas relações homem/mulher, nos preconceitos de raça, na opção sexual, na cultura...
Enfim, é preciso estudar a micropolítica.
NOTA MINHA. Em sua genealogia, o poder tem duas dimensões: 1) O poder (imanente/inerente = que nos eleva de forma vertical, é o tornar-se) nasce da nossa capacidade de inventar e criar (as invenções deram aos seres humanos mais chances de sobrevivência). Nossa inventividade torna-nos exclusivos. 2) O poder (emanente/transborda = vem para o exterior e nos eleva de forma horizontal, é o exercer-se) descobriu que essa capacidade que nos eleva de forma vertical pode ser ampliada e controlada pelo próprio uso e posse dos instrumentos que construímos, de forma horizontal (sobre os demais) - aqui chegamos no campo da filosofia política. Então, há aí uma potência ou capacidade de criar instrumentos (coisa boa!). E também nossa capacidade de posse e uso desses instrumentos voltados para ampliar essa nossa própria capacidade (coisa boa!). Mas, também, o controle do trabalho como forma de subsistência e manutenção do privilégio de inventar/criar (coisa ruim!). Dominação, diria Marx.
Enfim, se você compartilha o poder e a riqueza, há mais possibilidade de igualdade social. Do contrário, se você os concentra, surgem as diferenças sociais. De modo que, hoje, essas desigualdades sociais nada mais são do que diferenças de riqueza e de poder. Estão dadas as classes sociais!
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