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“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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sexta-feira, 11 de novembro de 2022

“Gente, desculpas!”

 

Nessa semana a Meta demitiu 11 mil funcionários num único deslizar da foice (13% da força de trabalho). A mensagem de Mark Zuckerberg foi: Desculpas!”.

“Gente, é que durante a pandemia, o uso das plataformas digitais se ampliou muito, e eu acreditei que a mudança seria permanente, mas não foi. Entendi o momento errado. Desculpas!”.

A verdade é que tem mais informação escondida por trás dessa situação. A Meta é uma nau pesada, grande, de difícil manobra. E, nos últimos anos, os acontecimentos não estão colaborando. Vejamos quais:

1.     A Meta é um conglomerado estadunidense de tecnologia e mídia social com sede em Menlo Park, Califórnia. Foi fundado por Mark Zuckerberg, junto com seus colegas de quarto e alunos de Harvard. Antes se restringia em ser o Facebook, um popular site de rede social global, hoje uma das empresas mais valiosas do mundo. É considerada uma das cinco grandes empresas de tecnologia, juntamente com a Microsoft, Amazon, Apple e Google. A Meta oferece outros produtos e serviços além de sua plataforma de rede social Facebook, incluindo Facebook Messenger, Facebook Watch e Facebook Portal. Também adquiriu Instagram, WhatsApp, Oculus VR, Giphy e Mapillary, e tem 9,9% de participação na Jio Platforms.

2.     O Fecebook tem 2,96 bilhões de usuários ativos mensais. O Instagram, 1,28 bilhão. E o WhatsApp, 2 bilhões. A holding toca, todos os meses, mais da metade da população on-line no planeta. 40% de todos nós, humanos! Quantas companhias, na história da humanidade, podem dizer o mesmo? É difícil crescer quando se tem esse tamanho, neh não?

3.     Foi assinado recentemente por toda a União Europeia o “Ato dos Serviços Digitais” que proíbe empresas como a Meta de usar um de seus serviços para beneficiar outros, o que fecha o espaço para concorrentes. Agora há imensos e novos limites para o ouso dos dados pessoais de usuários para veicular publicidade digital. Mesmo os algoritmos que escolhem que posts veremos terão de ser mais transparentes.

4.     A Apple também impôs mudanças dificultosas. Todos sabem que os iPhones são a porta de entrada para uma quantidade desproporcional de usuários do Facebook e, desde o ano passado, a Apple começou a impor restrições pesadas para todo app que coleta informação pessoal. Nas contas que o Facebook tornou públicas, só neste ano de 2022 a mudança no sistema dos iPhones custará à companhia US$ 10 bilhões. Há quem preveja bem mais. Com limitações ainda mais rígidas agora valendo em todo o território europeu, o prejuízo só ganhará escala.

5.     Há também o TikTok. A rede chinesa rapidamente chegou à posição de número um no ranking de uso dos mais jovens – vale para o Brasil, para os EUA, para a Europa e para um bom naco do mundo. A Meta respondeu a isso tentando tornar o Instagram mais parecido com o app chinês, mas sem sucesso, e, simultaneamente, alienando boa parte de seus usuários tradicionais. Face e Insta estão começando a ficar com cara de velhos. Isso não quer dizer que não tenha gente lá dentro – porque tem. Ora, tem aos bilhões. Só que não chega ninguém novo faz um tempo.

6.     E aí tem o problema da aposta que Mark Zuckerberg fez no metaverso. Chegou a mudar o nome da holding por isso. O problema é que a tecnologia de infraestrutura necessária para criar ambientes tridimensionais de realidade virtual onde as pessoas possam se encontrar não está pronta. Exige óculos caros, desconfortáveis, necessariamente ligados por cabos ao computador. Pois é: celular, mesmo dos melhores, não aguenta o tranco. Zuckerber talvez contasse que a aposta demoraria menos tempo para se mostrar viável. Mas, por enquanto, está ainda muito longe de atrair público e se tornou uma draga interna de investimento e cérebros.

Enfim, esta é só a primeira demissão em massa da história inicial da Meta. No inovador Vale do Silício, sempre que um bando de gente assim perde emprego, funciona como semente. Dá um ano e startups inovadoras começam a pipocar.


NOTA: A crise não pegou só a Meta. 

·       Também a Amazon, gigante do ‘e-commerce’ planeja demitir 10 mil funcionários em cargos corporativos e de tecnologia. É o maior corte de empregos da história da empresa.

·       Também o Elon Musk reduziu à metade o número de funcionários do Twitter.

·       Lyft, Stripe, Sanp e outras empresas de tecnologia também demitiram nos últimos meses.

·       E o próprio Google também se envolveu em escândalo de rastreamento de localização sem permissão ns EUA e vai pagar US$ 391,5 milhões a 40 estados dos EUA. A empresa andou registrando os deslocamentos dos usuários e repassava os dados. Depois que a Suprema Corte dos EUA voltou atrás em relação ao direito ao aborto, levantou um temor de levantamento de dados de mulheres movimentando clínicas de aborto. O Goolge “registra seus movimentos mesmo quando você explicitamente diz para não fazer isso”. A empresa concordou em pagar o total e de melhorar significativamente a transparência de suas regras de rastreamento de localização a partir de 2023. E fica essa questão no ar para todos nós: como nossos dados estão sendo usados na rede? Quem garante segurança ao nosso histórico de navegação e localização? Nossa privacidade na rede é garantida e segura?

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