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“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Esquerda?! O voto ficou mais complexo...

“A esquerda  tem que encontrar um caminho para retomar território, voltar à juventude, trabalhar com as redes e atualizar a nossa mensagem”.

Estamos entrando em um período de águas turbulentas. Caos. Nos próximos anos, uma praga de desordem descerá sobre a América, e talvez sobre o mundo, abalando tudo. Se você odeia a polarização, espere até experimentarmos a desordem global. Mas no caos há oportunidade para uma nova sociedade e uma nova resposta ao assalto político, econômico e psicológico. Estes são tempos que testam as almas das pessoas, e veremos do que somos feitos.

A esquerda se perdeu em pautas identitárias (gerando em si mesma uma crise de respeito), e a direita mergulhou fundo na guerra de classes e ganhou uma maioria multirracial da classe trabalhadora. Seu apoio aumentou entre trabalhadores negros e hispânicos.Os insatisfeitos são facilmente manipuláveis, e os semeadores do Caos sabem se aproveitar muito bem disso.

A praga da desordem cairá sobre a América. Esquerda e Centro não souberam dialogar com os trabalhadores, que estão frustrados. Direita não representa trabalhador, mas sabe manipulá-lo até certo grau. O caos vai partir do abandono dos mais frágeis na primeira esquina. A esquerda foi picada pelo desejo de se tornar elitista. A extrema direita percebeu o declínio e humilhação de grande parte da classe média americana e se aproveitou disso. Haverá muito estrago e destruição, incerto sobre o que sobrará. Não está "endereçado" de forma legítima as expectativas dos que buscam melhores condições de vida. O que poderemos fazer contra a desinformação em escala industrial de Musk (do X) o que poderiam fazer os adversários? Tanto nos EUA como aqui os que se pensam esquerda, abandonaram as classes baixas. A esquerda até pode abraçar pautas identitárias (racismo, lgbt, aborto, metoo, etc), mas sua essência é a luta de classes. Ela não pode cancelar OS SEUS que pensem diferente sobre essas pautas. Rejeição e cancelamento não ajudam no quesito credibilidade. Enquanto isso, a direita abraçará definitivamente o proletariado e todo o povo em geral, e estará mais forte pois já sabe, e aprendeu, com o Trump 1 e Bolsonaro 1. 

·       Esquerda, e mesmo sociais-democratas, precisa repensar ligação com eleitor, bem como posições desconectadas do mundo, com novas reivindicações da sociedade.

·       A esquerda virou uma posição elitista, vista por grande parte dos cidadãos, seja no Brasil, seja nos EUA, como instrumento de opressão social da elite.

·       Hoje, os eleitores já não procuram o “pai dos pobres”, mas aquele que mostrará o caminho da redenção social, que pode levá-los a um mundo onde terão oportunidade de melhorar de vida. Aí está o perigo: pode ser um coach (como Pablo Marçal), um milionário populista (como o Trump), um capitão sem papas na língua que se veste com camisa de clube de futebol (como o Bozo).

·       Melhora da economia no Brasil não é percebida pela população (“vibecession” = descompasso entre os indicadores e o que a população de fato sente no dia a dia). Há a necessidade de melhorar a percepção das pessoas sobre a economia, que não acompanha o bom desempenho do governo em indicadores macroeconômicos. Precisamos melhorar a avaliação entre os que hoje consideram o governo regular, e conquistar quem avalia como negativo. Superar a “vibe” e “recessão” = suposto clima de crise econômica, apesar de os números dizerem o contrário.

·       Lula não vê a percepção econômica melhorar, mesmo com o PIB surpreendendo, inflação controlada e desemprego baixo. A inflação dos pobres, do feijão, do arroz, da carne, subiu. Não adianta fazer o discurso de números se as pessoas não acham que a vida está melhorando.

·       Há uma mudança no comportamento do eleitorado no mundo todo, com novos temas em jogo e convicções mais consolidadas. Nos EUA, os componentes que entraram em cena foram migração e aborto.

·       A direita se organizou no mundo todo e a esquerda não tem conseguido acompanhar.

·       A economia será decisiva em 2026, sobretudo inflação e poder de compra. A pressão sobre os preços já vem sendo utilizada pela oposição para atacar o governo Lula.

·       Houve um “efeito moral” favorável para a direita, que também resultou na vitória de Trump. A ótica econômica tem principal peso, mas não só. Existem outras questões, tais como: migração, segurança, “woke”, etc. Além dos aspectos econômicos, também muitos aspectos comportamentais. O voto ficou mais complexo.

·       A eleição de 2022 não terminou. As redes sociais, hoje, fazem as campanhas não terminarem.

·       Lula precisa saber mostrar indignação com o que não funciona no Estado, algo difícil para quem é governo.

·       Reeleição não é mais regra. Ela pode não vir. Uma demonstração de insatisfação com governos.

·       No Brasil, PT e governo vão ter que disputar a narrativa da economia e do que não funciona.

·       Saímos do mundo do voto meramente econômico e da “gratidão”, da lógica de que eu melhor a economia e recebo o voto em troca, para uma era da identidade. As pessoas querem entender que fazem parte dos projetos.

         Uma das heranças malditas da pandemia é a inflação, que no período disparou. Apesar de ter estabilizado, é sentida até hoje. Ou seja, é verdade que os preços estabilizaram, mas lá em cima. Houve um aumento de preços lá atrás, a maior inflação de 50 anos (nos EUA), e hoje os preços não crescem, mas também não caem. E a renda não acompanha, apesar do índice de desemprego baixo.

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