Tudo funciona como enormes experiências.
Personagens inspiradas em pessoas que muito bem observou...
Jorge Amado é um ficcionista que optou pelo romance que acontece na geografia de três regiões: Salvador de Bahia, Recôncavo e o Sul da Bahia, no tempo da conquista da terra.
Desde cedo, escutou muitas histórias das gentes urbanas e rurais, que iriam ser habitantes de seu universo literário. Teve vida prodigiosa, marcada de aventuras e perseguições, por isso nele tudo funciona como enormes experiências. Nesse aspecto, o gênero romance lhe caiu muito bem.
·
Romance:
enredo que desmembra e movimenta com pensamentos e sentimentos a reflexão sobre
a vida com a passagem dos dias e os anos. É a representação em termos amplos. Exemplos:
Jorge Amado, Cornélio Pena, Érico
Veríssimo, José Lins do Rego, Moacir C. Lopes, Assis Brasil e Raquel de
Queiroz.
·
Conto:
reflete um incidente de vida, seu espaço menor onde é situada a trama que serve
para capturar o flagrante que esgota em si mesmo. É o gênero ideal para
expressar visões e metamorfoses de uma humanidade cheia de conflitos, episódios
pulsantes, anseios e lutas, sonhos e quedas, alegrias e tristezas que o vento
levou. Ele diz da problemática da vida através do instante crítico, que fere e
não cura. O conto vai acontecer no percurso de escritor grandão como um simples
episódio. Exemplos: João Antônio, Luís
Vilela, Dalton Trevisan e Caio Porfírio Carneiro.
· Ficcionista: se realiza tanto no romance (vastidão) como no conto (pequenez), num moto contínuo da vida. Exemplos: Machado de Assis, Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro e Rubem Fonseca.
Características do Jorge:
·
Faz
narrador de prosa envolvente, que bem sabe recriar o cotidiano do povo, com
seus costumes, aptidões, façanhas e artimanhas usadas por seus tipos com
caracteres próprios;
·
Na
prosa prazerosa irá absorver a linguagem fluente do narrador admirável,
conhecedor do ofício, íntimo de suas gentes populares, seus valores, alegrias e
tristezas;
·
Expositor
do erótico como essencialidade da natureza humana, contará a história sem
apelar às lubricidades.
·
Prefiro
a amplidão para expressar a vida.
·
Nas
minhas criações, opto por um gênero que corresponde ao meu imaginário fecundo.
·
Busco
uma forma capaz de representar com sobras as visões críticas do mundo.
· O objetivo é cravar no tempo suas questões agudas.
Alguns exemplos: de como Jorge crava...
1.
Muitas injustiças acontecem com verdadeiros cidadãos devido á
ligeireza dos juízos. “Nada mais
perigoso do que confundir o destino irremediável de cada um de nós com
sem-vergonhice, safadeza, falta de caráter. Não é por querer, por falta de princípios
e de firmeza, que o homem repete uma, duas, três, dez mil e tantas vezes a
mesma e irreparável besteira”.
2.
Sentimentos puros de sonho e de emoção. A rigidez do machismo e suas
relações conflitantes e dolorosas, que forjam alegria e drama. “Então as Felizes Borboletas cantaram ainda
mais / alto, tão alto, que Maria dos Reis não pode fingir / que não ouvia e
teve que parar para olhar, apertar / os lábios para que os soluços não
rebentassem”.
3.
Aprendeu com outros romances/romancistas, como Campos de Carvalho (um
amigo, mestre jovem da literatura contemporânea). Romance transgressivo, riqueza
de vocabulário, linguagem com precisão semântica, agilidade nas frases bem
construídas, períodos longos a serviço de uma narrativa inovadora, com enredo
pouco convencional. Estilo realista-anárquico, linguagem carnavalesca, insólito
tomado pela ironia, doses engraçadas de humor e ácida alegria na crítica. Narrativa
que se descarrega com lances intrigantes, aparentes incoerências, diálogo como
recurso pertinente, maluquices (ora irritantes, ora incompreensíveis)... Em
prosa rápida, de fazer sorrir a todo instante, o sábio construtor de frases, em
nível da fala popular (“vou te mandar
para fora da vida”) Kkk. “Estou
pronto para me vingar de quem tentou estuprar e ofender a honra inocente de
homem fiel”.
4. Experimentação da linguagem. Ora de entonação simples e espontânea que prende da primeira à última página sem esforço; fluxo verbal de discurso; histórias para cachaça comprida, ou noite de chuva, ou uma viagem de saveiro em noite de lua, enfim... “Esse Porciúncula era o mulato mais bem falante que eu conheci, o que é muito dizer. Tão cheio de letras, tão de maciota, que, não se sabendo de seus particulares, podia-se pensar ter ele alisado banco de escola, quando outra escola não lhe deu o velho Ventura senão a rua e a beira do cais”.
Enfim, Jorge explora com agudez suas
personagens: conta as diversas vidas e as múltiplas mortes, a reinvenção em
várias ocasiões (dona de casa, madre superiora, dona de prostíbulo, amante,
etc.). Viaja no realismo mágico até as construções que valorizam o homem enquanto
homem, ora preso em suas características regionais (plano rural ou urbano), ora
liberto em sua essência universal.
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