“Qual das hipóteses está certa? Talvez um pouco de todas, em maior ou menor grau, para contextos ou espécies distintas. A natureza da não heterossexualidade é complexa, e o único fato é que algo a mantém viva na história evolutiva. Caso contrário, ela não seria tão comum”.
“A sexualidade de alguém não é uma doença e é impossível mudá-la à força – as supostas ‘terapias de reversão’, mesmo que não envolvam violência física explícita, só causam mais sofrimento psíquico. A prática é, inclusive, banida em boa parte do mundo, e repudiada por toda organização de saúde de respeito.”
“Nenhuma hipótese, isoladamente, explica todo o leque de atrações e amores que nós exibimos. Todos os estudos que temos até agora só nos permitem tirar uma conclusão: a sexualidade humana é um fenômeno muito complexo, determinado por combinação de fatores genéticos, intrauterinos, evolutivos e, possivelmente, muitas outras variáveis que ainda nem começamos a desvendar”.
“Nossa sexualidade não é uma doença, não é uma escolha e não pode ser mudada na marra (ainda que variações na sexualidade de uma pessoa possam ocorrer naturalmente – há quem sinta atrações diferentes depois de adultos, por exemplo). Só há uma maneira de saber a orientação sexual de alguém: perguntando à pessoa. E, claro, respeitando-a o suficiente para que ela se sinta confortável de expressá-la como bem entender”.
·
A homossexualidade já foi registrada em mais de 1.500 espécies
animais (cobras, libélulas, estrelas-do-mar, moscas, patos, vermes nematoides,
girafas, morcegos, raposas, primatas, etc.) – sinal de que não é uma corrupção
humana. A homossexualidade é algo natural. Em média, algo entre 4% e 10% de não
heterossexuais. Sinal de que há um componente biológico universal em jogo.
·
Aqui, “no comportamento sexual entre o mesmo sexo”, não falamos
só de penetração, mas também de cortejo de parceiros (usando música
e danças), estímulo de genitais, ejaculação ou formação de núcleos familiares,
por exemplo. Enfim, hoje, há um consenso de que o comportamento não
heterossexual é bastante comum na natureza.
·
Logo, em humanos, a orientação não pode ser mudada na marra – terapias
de “cura gay” não passam de aberrações;
· Um dos principais argumentos para justificar a perseguição e opressão de minorias sexuais: “qualquer orientação diferente da heterossexual é algo antinatural”. Baseado nesse falso argumento, estados americanos criaram leis “antissodomia”, excluindo esses atos de proteções constitucionais.
NOTAS:
·
Cientistas LGBTQ são mais propensos a sofrer discriminação,
exclusão e assédio.
·
O estupro acaba sendo uma relação de poder, porque se trata da
imposição de um indivíduo mais forte sobre um mais fraco.
·
Estudos científicos sobre as causas da homossexualidade podem
levar à patologização do tema ou a conclusões deterministas. Por décadas, a
ciência viu o comportamento como uma doença a ser corrigida, levando a
iniciativas no mundo todo para tentar “curar” gays – com torturas físicas e
psicológicas, castração química, choques elétricos, etc. Hoje, tais atos
abjetos são claras violações aos direitos humanos e anticientíficas.
·
É um tema difícil de estudar na ciência justamente porque o
próprio conceito de sexualidade não é óbvio. Em vez de pensar em caixinhas
(hetero, homo, bi), pensar em espectro, que descreve melhor a orientação humana
– há uma predominância, mas pode sentir atração ou pintar um clima em contextos
específicos, por pessoas específicas – são
nuances.
·
A homossexualidade tem alguma influência genética – há uma
mãozinha dos genes nas nossas atrações. O DNA pode explicar algo entre 8% e 25%
da sexualidade humana.
·
Há uma diferença entre “comportamento” e “orientação”
homossexual. Pessoas que já tiveram relações íntimas com outras do
mesmo sexo não são automaticamente não heterossexuais, e vice-versa.
·
Além dos genes, o útero. A sexualidade não pode ser
moldada à força ou “ensinada”, em nenhuma fase da vida, por conta de
influências externas, com exceção do útero – um ambiente capaz de influenciar
nossa orientação, porque é nele que nossos corpos e cérebros se formam. E a
exposição a diversos tipos de hormônios é, sim, responsável por diversas
características do indivíduo. Não é conclusivo isso. As poucas evidências que
temos hoje sugerem que a hipótese dos hormônios na gestação não é uma grande
influência na homossexualidade masculina... mas talvez seja na feminina.
· Projetos de “cura gay” já se basearam na ideia errada de que a homossexualidade é fruto de falta de testosterona, e torturavam homossexuais com injeções de hormônio. Que absurdo! Ser gay não é fruto de um desbalanço na tireoide ou qualquer coisa do tipo.
A homossexualidade já foi explicada por várias razões.
As mais absurdas:
1.
Esse comportamento anormal, obscuro, é
fruto de espécies que não são muito boas em distinguir machos e fêmeas, então o
sexo gay acaba sendo fruto de um mal-entendido;
2.
A baguncinha entre indivíduos do mesmo
sexo não permite fazer bebês, ela não deveria existir na natureza de um ponto
de vista estritamente evolutivo. A matemática da seleção natural é clara: se um
comportamento não ajuda na reprodução, os genes que causam esse comportamento
não são passados para as próximas gerações e tendem a desaparecer.
3. Animais que apresentam comportamento homossexual ainda podem copular com indivíduos do sexo oposto e procriar - não são, afinal, estéreis. Mas flertar sempre exige energia e tempo – não dá para atirar para todo lado o tempo todo. Quanto mais relações homossexuais existirem em um grupo, menos relações hétero ocorrerão, e menores serão as chances de novos nascimentos. Ou seja: propor a bissexualidade animal não resolve todo o paradoxo.
As mais revolucionárias:
4.
Talvez algumas espécies simplesmente
preferem aquilo.
5.
O comportamento homossexual está
ligado a um grupo de vários genes que, em outros contextos, têm efeitos
diferentes e benéficos para a produção de bebês – como mulheres mais férteis,
por exemplo. Um mesmo gene, afinal, pode ter (e com frequência, tem) vários
papéis bioquímicos em vários contextos diferentes. Logo, a não
heterossexualidade seria um subproduto de outra característica que,
normalmente, se dá bem na seleção natural. É viável a manutenção de alguns
poucos indivíduos que se reproduzem pouco ou nada se a contrapartida é a
existência de vários outros indivíduos mais férteis, passando esses genes para
a frente.
6.
A não heterossexualidade é um
subproduto de outra característica que, normalmente, se dá bem na seleção
natural. É viável a manutenção de alguns poucos indivíduos que se reproduzem
pouco ou nada se a contrapartida é a existência de vários outros indivíduos
mais férteis, passando esses genes para a frente.
7.
Ajudando do ninho: o comportamento
evoluiu via um mecanismo ecológico conhecido como seleção de parentesco. Nesse
cenário, características de um indivíduo continuam se perpetuando na espécie
mesmo que ele não se reproduza porque seus parentes diretos têm um alto grau de
sucesso reprodutivo, graças a ele. Explicando: indivíduos de espécies sociais
que não têm filhos ainda podem ajudar na perpetuação de seus próprios genes ao
cuidar de irmãos, sobrinhos, primos etc. (afinal, como seu DNA é muito parecido
com o de seus parentes, cuidar deles é quase como cuidar de si mesmo). Esse é o
mesmo mecanismo que explica o sucesso das colônias de abelhas, em que a maioria
dos indivíduos são operárias inférteis com 75% de similaridade genética entre
si – cuidando da rainha para que ela produza cada vez mais dessas irmãzinhas
com ¾ de DNA idêntico.
8.
Pelo menos nos mamíferos, o comportamento
homossexual pode ter surgido por razões sociais, e não puramente reprodutivas. A
prevalência dele já foi analisada nas relações de mais de 260 espécies de
mamíferos – a homossexualidade era especialmente comum nos que vivem em
sociedade, com destaque para os primatas. Essa característica evoluiu várias
vezes entre esses animais porque traz benefícios sociais. Fazer sexo não serve
apenas para reprodução. Essas relações ajudariam essas sociedades a estabelecer
e reforçar vínculos e alianças, reduzir conflitos e tensão e garantir
mais cooperação – gerando mais harmonia no grupo e, assim, mais
chances de sobrevivência para cada indivíduo. A liberação do hormônio
oxitocina ajuda não só na reconciliação como faz com que haja ajuda mútua –
compartilhando comida ou ficando do mesmo lado em outros conflitos.
9.
Em muitas espécies sociais, machos
disputam fêmeas e território, o que resulta em assassinatos dentro da espécie.
E acontece que as espécies com maior nível de comportamento não heterossexual também
apresentam menores taxas de assassinatos, reforçando o argumento de que o
comportamento homossexual surgiu como uma espécie de válvula de escape para reduzir
a tensão e evitar conflitos. Faça amor, não faça guerra.
10. Transar
com todo mundo pode ser mais certeiro do que escolher demais e acabar sem nada
(a ideia nos parece absurda porque seres humanos exibem diferenças físicas
óbvias entre os sexos, mas esse não é o caso de todo bichinho). O sexo gay pode
existir na natureza desde que o próprio sexo foi inventado. Essa noção nem é
algo inerentemente negativo e custoso do ponto de vista evolutivo. Animais
ancestrais teriam adotado a estratégia de acasalamento indiscriminado porque
não sabiam distinguir (ou para não perder tempo distinguindo) machos de fêmeas.
11. A
ordem de nascimentos de filhos homens influencia a homossexualidade masculina.
Esse fenômeno peculiar foi confirmado várias vezes, com amostras de diferentes
tamanhos e países, e hoje é tido como fato. Se as chances do primogênito ser
homossexual forem 2%, a probabilidade do segundo passa a ser algo como 3%, a do
terceiro, 5% e assim por diante. Para cada filho homem que nasce da mesma mãe,
as chances de ele ser gay aumentam em algo entre 33% e 50% em relação ao irmão
anterior, mais velho. Note que isso não significa que, em algum momento, um
irmão caçula vai ser necessariamente gay. As chances só são maiores.
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