Todo sujeito é mais do que o seu ato.
Olho por olho e o mundo acabará cego.
A vingança é um copo de veneno que você toma esperando que o outro morra.
O que é preciso para perdoar? O que ganhamos com esse processo?
O perdão faz parte de um processo civilizatório. E, sem dúvida nenhuma, nos últimos anos as pessoas ficaram mais raivosas no Brasil. O perdão combina com democracia. Quando você tem uma sociedade mais totalitária ela não dá segunda chance. Culturas que não aceitam a democracia, como foi o bolsonarismo no Brasil, não lidam bem com a ideia de perdão. Muito pelo contrário. É a pena máxima. É a vingança máxima. É uma cultura do imediato. Logo, precisamos sair em defesa do perdão para fortalecer as relações humanas democráticas.
O ato de perdoar é uma possibilidade, e pode ser um processo longo, tanto individual quanto coletivamente. Ele se apresenta diariamente para cada pessoa. Da fechada no trânsito e o parceiro infiel, ao assalto e o apartheid. Simples e complexo. Cotidiano e atemporal. Possível e impossível. O perdão é um gesto cheio de paradoxos que demanda tempo e esforço diferentes dependendo de muitas variáveis.
O perdão não pode ser visto como um gesto banal, mas como algo extraordinário, que exige maturidade psicológica, espiritual e existencial. Tanto esforço compensa. Individualmente, o perdão traz liberdade. Coletivamente, é o avanço civilizatório.
Mas, é importante dizer que o perdão é um horizonte, uma possibilidade – ele é condicional, não uma obrigação. O perdão é o extraordinário, não é uma regra. No fundo é um processo de luto (uma pessoa pode até se reconciliar com a outra, mas aquele indivíduo não existe mais, “morreu” ou “é outro” agora, nesse sentido, como que eu lido com essa ausência? É um luto, uma perda. Porém, tenho que entender o que aquela pessoa representava). A pessoa não tem obrigação de perdoar. A dor dela não pode ser banalizada. Cada um sabe – ou nem sabe porque às vezes mexe em questões inconscientes – até onde vai a ferida. Logo, o perdão é um caminho, e não sem memória. Porém, não restam dúvidas de que perdoar é um caminho melhor porque traz paz em vez de imputar o ódio.
É também bom saber que o perdão tem um caráter espiritual, e isso pode ajudar ou atrapalhar. Se essa espiritualidade parte do princípio de entender o humano com um ser vulnerável, que nós não somos perfeitos, pode ajudar. Mas quando a gente entra numa espiritualidade muito utilitária, do perdão para me santificar, entrar no reino dos céus, pode ser muito negativo. Assim, o perdão tem que ser entendido não como uma troca ou salvação, mas como algo incondicional. No cristianismo, o perdão é uma graça, é oferecido, é um gesto divino no humano. No judaísmo, existe um Dia do Perdão coletivo, e é uma possibilidade ética, de retomar um caminho, um refazer.
A outra face do perdão é a vingança. E a vingança é você querer fazer um processo contrário do que foi aquele ato, para que a pessoa sinta a mesma dor. É a ideia do olho por olho, dente por dente, a proporcionalidade da pena. E isso tem tido muito peso e reforço na sociedade atual. E aí caímos na cultura do cancelamento e do ódio. Às vezes as pessoas cumpriram a pena, se foi pouca ou ruim é uma questão da Justiça, mas elas cumpriram e mesmo assim a sociedade ainda acha que têm que pagar mais. Assim criamos um caminho de vingança atrás de vingança. Aí você não vai desamarrar esse processo da sociedade. O problema é que, para muitas pessoas, receber é muito difícil, por mais que elas necessitem, porque elas se sentem “humilhadas” ao receber sem dar nada em troca. Por isso elas reclamam ou revidam, é uma maneira de manterem a própria dignidade. Então até saber dar é preciso. Dar de maneira que a pessoa que recebe não se sinta ferida em sua dignidade.
Não somos estimulados a perdoar no mundo tecnológico. Isso acontece porque somos cada vez mais afetados pelo que nós vemos – estamos vendo o tempo todo coisas bizarras nas telinhas, sabemos de tudo, de todos. É uma cultura do imediato e o perdão está distante de tudo isso. O perdão está num outro nível – o de maturidade, em entender a origem dos problemas, criar reflexões para que criemos a memória e possamos alcançá-lo.
Perdoar é um bom investimento porque o perdão faz com que a gente quebre um círculo de ficar focado em algo que aconteceu. Quando você fica obcecado por algo, não olha para outros lados e não se liberta. Por isso que esse entendimento de que o perdão liberta é muito importante. Não sabemos quando nem se vamos alcançar isso, mas quando alcançamos liberta porque você olha outros caminhos na existência.
Enfim, todo sujeito é mais do que o seu ato. Nós somos mais do que nós agimos.
Sim, podemos ser narrados e renarrados.
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