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Ø Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados. :)



“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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quinta-feira, 8 de junho de 2023

O que é preciso para perdoar?

Todo sujeito é mais do que o seu ato.

Olho por olho e o mundo acabará cego.

A vingança é um copo de veneno que você toma esperando que o outro morra.

O que é preciso para perdoar? O que ganhamos com esse processo?

O perdão faz parte de um processo civilizatório. E, sem dúvida nenhuma, nos últimos anos as pessoas ficaram mais raivosas no Brasil. O perdão combina com democracia. Quando você tem uma sociedade mais totalitária ela não dá segunda chance. Culturas que não aceitam a democracia, como foi o bolsonarismo no Brasil, não lidam bem com a ideia de perdão. Muito pelo contrário. É a pena máxima. É a vingança máxima. É uma cultura do imediato. Logo, precisamos sair em defesa do perdão para fortalecer as relações humanas democráticas.

O ato de perdoar é uma possibilidade, e pode ser um processo longo, tanto individual quanto coletivamente. Ele se apresenta diariamente para cada pessoa. Da fechada no trânsito e o parceiro infiel, ao assalto e o apartheid. Simples e complexo. Cotidiano e atemporal. Possível e impossível. O perdão é um gesto cheio de paradoxos que demanda tempo e esforço diferentes dependendo de muitas variáveis.

O perdão não pode ser visto como um gesto banal, mas como algo extraordinário, que exige maturidade psicológica, espiritual e existencial. Tanto esforço compensa. Individualmente, o perdão traz liberdade. Coletivamente, é o avanço civilizatório.

Mas, é importante dizer que o perdão é um horizonte, uma possibilidade – ele é condicional, não uma obrigação. O perdão é o extraordinário, não é uma regra. No fundo é um processo de luto (uma pessoa pode até se reconciliar com a outra, mas aquele indivíduo não existe mais, “morreu” ou “é outro” agora, nesse sentido, como que eu lido com essa ausência? É um luto, uma perda. Porém, tenho que entender o que aquela pessoa representava). A pessoa não tem obrigação de perdoar. A dor dela não pode ser banalizada. Cada um sabe – ou nem sabe porque às vezes mexe em questões inconscientes – até onde vai a ferida. Logo, o perdão é um caminho, e não sem memória. Porém, não restam dúvidas de que perdoar é um caminho melhor porque traz paz em vez de imputar o ódio.

É também bom saber que o perdão tem um caráter espiritual, e isso pode ajudar ou atrapalhar. Se essa espiritualidade parte do princípio de entender o humano com um ser vulnerável, que nós não somos perfeitos, pode ajudar. Mas quando a gente entra numa espiritualidade muito utilitária, do perdão para me santificar, entrar no reino dos céus, pode ser muito negativo. Assim, o perdão tem que ser entendido não como uma troca ou salvação, mas como algo incondicional. No cristianismo, o perdão é uma graça, é oferecido, é um gesto divino no humano. No judaísmo, existe um Dia do Perdão coletivo, e é uma possibilidade ética, de retomar um caminho, um refazer.

A outra face do perdão é a vingança. E a vingança é você querer fazer um processo contrário do que foi aquele ato, para que a pessoa sinta a mesma dor. É a ideia do olho por olho, dente por dente, a proporcionalidade da pena. E isso tem tido muito peso e reforço na sociedade atual. E aí caímos na cultura do cancelamento e do ódio. Às vezes as pessoas cumpriram a pena, se foi pouca ou ruim é uma questão da Justiça, mas elas cumpriram e mesmo assim a sociedade ainda acha que têm que pagar mais. Assim criamos um caminho de vingança atrás de vingança. Aí você não vai desamarrar esse processo da sociedade. O problema é que, para muitas pessoas, receber é muito difícil, por mais que elas necessitem, porque elas se sentem “humilhadas” ao receber sem dar nada em troca. Por isso elas reclamam ou revidam, é uma maneira de manterem a própria dignidade. Então até saber dar é preciso. Dar de maneira que a pessoa que recebe não se sinta ferida em sua dignidade.

Não somos estimulados a perdoar no mundo tecnológico. Isso acontece porque somos cada vez mais afetados pelo que nós vemos – estamos vendo o tempo todo coisas bizarras nas telinhas, sabemos de tudo, de todos. É uma cultura do imediato e o perdão está distante de tudo isso. O perdão está num outro nível – o de maturidade, em entender a origem dos problemas, criar reflexões para que criemos a memória e possamos alcançá-lo.

Perdoar é um bom investimento porque o perdão faz com que a gente quebre um círculo de ficar focado em algo que aconteceu. Quando você fica obcecado por algo, não olha para outros lados e não se liberta. Por isso que esse entendimento de que o perdão liberta é muito importante. Não sabemos quando nem se vamos alcançar isso, mas quando alcançamos liberta porque você olha outros caminhos na existência.

Enfim, todo sujeito é mais do que o seu ato. Nós somos mais do que nós agimos. Sim, podemos ser narrados e renarrados.

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