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“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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quarta-feira, 14 de junho de 2023

Ah, políticos! Essas vítimas (e porta-vozes) do sistema...

A (des)confiança na classe política.

A cultura e a moral guiam ou desvirtuam a política?!

Há uma jogada de Mercado em instigar a desconfiança da sociedade sobre a classe política.

Não que a classe política seja imaculada e digna de toda a nossa credibilidade, mas há aí uma manobra de Mercado, e também da ala conservadora e extremista, em deteriorar os representantes do povo. Porém, é uma questão delicada sobre a qual devemos ter cautela e cuidado.

Tanto para o Estado de Bem-Estar Social quanto para o Mercado Financeiro, há as aspirações de prosperidade e de aumento do padrão de vida. Entretanto, a forma e os caminhos para conquistá-los são bem diferentes. Enquanto os avanços sociais promovidos pelo Estado deveriam ser públicos, para o Mercado não é interessante uma sociedade feita por cidadãos cooperativos, em que serviços, bens e ascensões sociais seja conquistados de forma coletiva. O Mercado deseja consumidores ávidos, individualistas e apáticos. Logo, é por baixo que a sociedade é manipulada – em suas crenças e valores. A cultura e a moral guiam ou desvirtuam a política.

Quando o sentido da nossa existência é canalizado para o TER e não temos, o vazio se abre e aprofunda. O sonho inviabilizado pode se somar à indignação e ser transformados em raiva. Mas a questão crucial é: “raiva contra quem?”. Em qual foco depositamos nossa raiva e indignação? Aí entra a mídia controlada pelo Mercado. E a raiva é jogada contra os políticos e as instituições democráticas (todo dia mostradas como corruptas e ineficientes). E aí o sentimento de pertencimento se esvaiu.

“[...] alguns hoje entendem liberdade e direito como uma propriedade ou como um objeto de consumo. Por essa razão, o indivíduo reivindica o direito de fumar, a viver sua sexualidade, ou seja o que for, mas a partir de uma visão consumista. Como é dono do carro, pensa que o utiliza como quiser. Como tem o direito de votar, acha que se trata apenas de uma questão de consumo. Nos dois casos, tende a pensar que são direitos sem obrigações. Isso reduz muito o alcance do direito e da justiça [...] Vivemos numa sociedade em que o consumismo chegou ao ponto de entender os próprios sentidos jurídicos – como direito, dever e liberdade – enquanto objetos de consumo. Então, é muito fácil uma pessoa dizer: ‘Faço isso porque quero, porque tenho’.” (Mario Sergio Cortella em: Política para não ser idiota, p. 14).

Faz sentido! Será que a mídia ao bater na classe política está preocupada em fortalecer as instituições e a democracia ou fortalecer quem a financia? Por que não vemos reportagens críticas sobre o capitalismo e sua produção de desigualdades com a mesma intensidade e frequência com que vemos as manchetes de escândalos nas instituições. Os empresários são mais santos que os políticos? Quem corrompe quem? Por que esse fetiche todo pela criminalização da política?

“[...] há um jeito mais fácil de extinguir a corrupção. Como, para existir corrupção, tem de haver um corrupto e um corruptor, e como o corruptor, de maneira geral, é aquele que tem dinheiro para corromper, basta então que este indivíduo não corrompa a outros. Do ponto de vista operacional, não é difícil. Se o empresário é aquele que possui dinheiro e a corrupção é feita com esse capital, não o utilize para fazer isso e a corrupção acaba. Pode parecer óbvio, mas o espanto é grande, porque sempre se supõe que o processo de higiene política tem de ser feito num outro lugar que não aquele em que estou” (Idem, p. 47).

Olhemos mais profundo a (des)função da MÁQUINA ESTATAL e sua Delinquência que não é Ineficiência. Ou seja, a delinquência da máquina estatal não é a mesma coisa que ineficiência estatal.

A delinquência estatal é consequência de má-fé ou incompetência. E isso acontece porque não há participação política pública do cidadão no cotidiano da sociedade (a delinquência é gerada pela deficiência). O cidadão trata o Estado como uma coisa e ele outra. Ou, dito de outra forma: consolidou-se no país a ideia de que de um lado existe a sociedade, um pelotão homogêneo de gente, de outro lado o Estado que a extorque, mas que parece ter vindo de Marte. Já a deficiência estatal está ligada à capacidade de ação pública (neste caso, insuficiente). Estado e Cidadão não são coisas separadas, de modo que um reflete o outro. Ou seja, sociedade política e sociedade civil são reflexos uma da outra. Ora, nós que elegemos o Estado, somos responsáveis por ele, deveríamos colocar gente prestativa, mas colocamos corruptos ou incompetentes (é a deficiência que produz a delinquência). Em matéria de política estatal, nada cai do céu ou do inferno sobre nós. É politicamente humano.

Enfim, não que a classe política seja santa, mas a classe empresarial também não é. O difícil, nestes dias, é achar quem tenha limpeza moral para distinguir com clareza a vítima do perseguidor. Afinal, em terra de desiguais, todo mundo é passível de purgatório. Ah, políticos! Essas vítimas (e porta-vozes) do sistema...

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