A (des)confiança na classe política.
A cultura e a moral guiam ou desvirtuam a política?!
Há uma jogada de Mercado em instigar a desconfiança da sociedade sobre a classe política.
Não que a classe política seja imaculada e digna de toda a nossa credibilidade, mas há aí uma manobra de Mercado, e também da ala conservadora e extremista, em deteriorar os representantes do povo. Porém, é uma questão delicada sobre a qual devemos ter cautela e cuidado.
Tanto para o Estado de Bem-Estar Social quanto para o Mercado Financeiro, há as aspirações de prosperidade e de aumento do padrão de vida. Entretanto, a forma e os caminhos para conquistá-los são bem diferentes. Enquanto os avanços sociais promovidos pelo Estado deveriam ser públicos, para o Mercado não é interessante uma sociedade feita por cidadãos cooperativos, em que serviços, bens e ascensões sociais seja conquistados de forma coletiva. O Mercado deseja consumidores ávidos, individualistas e apáticos. Logo, é por baixo que a sociedade é manipulada – em suas crenças e valores. A cultura e a moral guiam ou desvirtuam a política.
Quando o sentido da nossa existência é canalizado para o TER e não temos, o vazio se abre e aprofunda. O sonho inviabilizado pode se somar à indignação e ser transformados em raiva. Mas a questão crucial é: “raiva contra quem?”. Em qual foco depositamos nossa raiva e indignação? Aí entra a mídia controlada pelo Mercado. E a raiva é jogada contra os políticos e as instituições democráticas (todo dia mostradas como corruptas e ineficientes). E aí o sentimento de pertencimento se esvaiu.
“[...] alguns hoje entendem liberdade e direito como uma propriedade ou como um objeto de consumo. Por essa razão, o indivíduo reivindica o direito de fumar, a viver sua sexualidade, ou seja o que for, mas a partir de uma visão consumista. Como é dono do carro, pensa que o utiliza como quiser. Como tem o direito de votar, acha que se trata apenas de uma questão de consumo. Nos dois casos, tende a pensar que são direitos sem obrigações. Isso reduz muito o alcance do direito e da justiça [...] Vivemos numa sociedade em que o consumismo chegou ao ponto de entender os próprios sentidos jurídicos – como direito, dever e liberdade – enquanto objetos de consumo. Então, é muito fácil uma pessoa dizer: ‘Faço isso porque quero, porque tenho’.” (Mario Sergio Cortella em: Política para não ser idiota, p. 14).
Faz sentido! Será que a mídia ao bater na classe política está preocupada em fortalecer as instituições e a democracia ou fortalecer quem a financia? Por que não vemos reportagens críticas sobre o capitalismo e sua produção de desigualdades com a mesma intensidade e frequência com que vemos as manchetes de escândalos nas instituições. Os empresários são mais santos que os políticos? Quem corrompe quem? Por que esse fetiche todo pela criminalização da política?
“[...] há um jeito mais fácil de extinguir a corrupção. Como, para existir corrupção, tem de haver um corrupto e um corruptor, e como o corruptor, de maneira geral, é aquele que tem dinheiro para corromper, basta então que este indivíduo não corrompa a outros. Do ponto de vista operacional, não é difícil. Se o empresário é aquele que possui dinheiro e a corrupção é feita com esse capital, não o utilize para fazer isso e a corrupção acaba. Pode parecer óbvio, mas o espanto é grande, porque sempre se supõe que o processo de higiene política tem de ser feito num outro lugar que não aquele em que estou” (Idem, p. 47).
Olhemos mais profundo a (des)função da MÁQUINA ESTATAL e sua Delinquência que não é Ineficiência. Ou seja, a delinquência da máquina estatal não é a mesma coisa que ineficiência estatal.
A delinquência estatal é consequência de má-fé ou incompetência. E isso acontece porque não há participação política pública do cidadão no cotidiano da sociedade (a delinquência é gerada pela deficiência). O cidadão trata o Estado como uma coisa e ele outra. Ou, dito de outra forma: consolidou-se no país a ideia de que de um lado existe a sociedade, um pelotão homogêneo de gente, de outro lado o Estado que a extorque, mas que parece ter vindo de Marte. Já a deficiência estatal está ligada à capacidade de ação pública (neste caso, insuficiente). Estado e Cidadão não são coisas separadas, de modo que um reflete o outro. Ou seja, sociedade política e sociedade civil são reflexos uma da outra. Ora, nós que elegemos o Estado, somos responsáveis por ele, deveríamos colocar gente prestativa, mas colocamos corruptos ou incompetentes (é a deficiência que produz a delinquência). Em matéria de política estatal, nada cai do céu ou do inferno sobre nós. É politicamente humano.
Enfim, não que a classe política seja santa, mas a classe empresarial também não é. O difícil, nestes dias, é achar quem tenha limpeza moral para distinguir com clareza a vítima do perseguidor. Afinal, em terra de desiguais, todo mundo é passível de purgatório. Ah, políticos! Essas vítimas (e porta-vozes) do sistema...
Nenhum comentário:
Postar um comentário