Traumas centenários e oportunidades de se olhar no espelho e progredir...
“A psicanálise não apazigua, trabalha na direção do enfrentamento com a verdade singular, a de cada um, contrariando muitas vezes as expectativas”.
O Brasil está dividido e carente de tratamento. Fosse um paciente, estaria partido ao meio, com traumas centenários por resolver, mas também com oportunidade singular de se olhar no espelho e melhorar de fato após, claro, bons anos de terapia.
Alguns diagnósticos do estado do Brasil:
1. Uma
criança em meio à separação litigiosa dos pais.
2. Um ser
cindido, em quadro de psicose, com um lado delirante e outro satisfeito com a
realidade.
3. Alguém
não exatamente desprovido de memória, mas condicionado a cultivar
esquecimentos.
4. Ou ainda alguém a contrapor a fantasia do “bem total” ao “mal radical”.
Do
que NÃO precisamos?
· De se submeter ao prazer de julgar o outro.
·
Da fantasia de um “Rei”, porque isso revela alienação sobre figuras
de autoridade e, ao mesmo tempo, o próprio caráter autoritário do paciente.
·
É perigoso pegar tudo o que temos de subjetividade e depositar tudo
em um “mito”, um poder, um saber, uma onisciência sobrenatural que oferece um
sentimento de irmandade, de pertencimento. Por quê? Porque esse mito pode cair,
e o vácuo aberto é profundo, a ponto de rezar na frente de um quartel em busca
de um novo salvador.
·
É hora de parar de jogar os traumas e as tragédias embaixo do
tapete.
·
Não cultivar uma memória do esquecimento.
·
Não podemos enxergar em metade da população milhões de racistas e
misóginos. Nem tirar conclusões precipitadas, mas ouvi-lo, escutá-lo por
inteiro.
·
Ter que ser (só) isso ou aquilo é empobrecedor.
·
De sufoco. Não precisamos ser sufocados. O brasileiro, especialmente
o nordestino, é criativo – e o artista necessita de liberdade.
· De divisão. Enquanto indivíduo e coletivo, não necessitamos viver na divisão. Toda divisão gera conflito. A radicalidade desagua na fragilidade, porque muita gente radicaliza justamente para se defender dessa fragilidade (no pensar e no agir). Quem suporta viver oposição o tempo todo e ainda nos variados ambientes: família, amigos, trabalho, escola?
Do que precisamos?
·
De relações mais horizontais e o desejo melhor colocado.
· De nos livrarmos do autoritário.
·
Se vê no espelho, inclusive seus temores, que, ao serem enfrentados,
libertam.
·
Dos que perderam ou tem o sentimento de perda, precisa fazer o luto,
reconhecer a perda. E depois entender o que de fato perdeu: a fantasia da
salvação da vida, do preenchimento de algum vazio, do amor que nunca teve, da
falta de paixão em sua vida ordinária?
·
Deixar claro que a situação mudou, a briga acabou e o inimigo não
organiza mais quem você é.
·
De disponibilidade à escuta e de deixar o inconsciente falar para
alguém confiável, que pode ser você mesmo.
·
De memórias, muitas memórias. É preciso obter da história algo que
se atualize no aqui e agora da relação transferencial. No Brasil, essa memória
vem sendo sistematicamente apagada, produziu-se esquecimentos.
·
Encarar os traumas, pessoais e coletivos, o genocídio dos indígenas,
o holocausto dos negros. Deixar de ter vergonha de sua origem, superar o
recalque.
· Aceitar que a casa caiu para os dois lados – quem perdeu a eleição embora convicto de que iria ganhar, mas também os que viram metade do paciente optar por algo genocida, golpista, autossabotador. Em vem de evocar mais culpas, reconstruir experiências.
Algumas conclusões:
·
A desorientação geralmente é causada por alguma situação de
desagregação. Dois discursos opostos ou mais discursos conflitantes. Daí você
tem que tomar partido quando na verdade gostaria da união inicial (porque todos
ganhariam com isso). No meio desse conflito, geralmente há o desconhecimentos
das razões mais profundas dele.
·
Quando a raiva domina a posição egoica que prevalece é a de que quem
errou foi o outro.
·
A manipulação da carga afetiva do paciente é enorme quando o objeto
de adoração de uma de suas partes perde seu lugar.
·
Em momento de vácuo, é fundamental a responsabilização dos atos e
não se passar uma borracha.
·
Se uma parte do paciente se fecha e passa a odiar a outra, o
resultado será a desagregação.
·
O luto recusado traz respostas violentas. O conflito evolui a tal
ponto que nos sentimos impotentes e em estado demissionário.
· Acolher a singularidade é uma coisa, o coletivo é outra coisa. O coletivo é plural, formado por diversidade. E pluralidade acolhe mal movimentos restritivos.
Conselhos
psicanalíticos:
1. É
central perceber onde errou.
2. O amor
é a chave que nos permite reduzir, enfrentar e superar nossas diferenças. Se os
afetos são manipulados pela política, que os sejam através do amor.
3. Se um
amor passado não floresceu tem que aprender a desejar de novo, a mirar novos
horizontes, a não apenas fugir do desprazer, mas ser capaz de amar novamente.
Não vai ser fácil, mas só assim conseguiremos crescer (se você não for capaz de
se reconstruir, entrará em estado de melancolia e depressão).
4. Só
precisamos de novos horizontes e bons projetos. Vivemos um momento
pós-traumático de neurose de guerra discursiva, sanitária, política. É natural
está desconfiado, angustiado, desmotivado e com dificuldade de se envolver
novamente. Então só precisamos aprender a desejar de novo.
5. É exagero idealizar demais, tanto de um lado como do outro.
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