O imaginário social é um conjunto compartilhado de ideias, símbolos, imagens, mitos, crenças e valores que um grupo humano utiliza para dar sentido à sua realidade e construir a sua identidade coletiva. Ele não é algo natural ou fixo, mas moldado ao longo do tempo pela história, pela cultura, pela literatura, pela religião e pelos meios de comunicação de uma sociedade.
Assim, o imaginário social funciona como uma "lente" através da qual as pessoas enxergam o mundo, influenciando comportamentos, expectativas, leis e estilos de vida. Ou seja, não é neutro e, por isso mesmo, um território de luta política onde diferentes grupos tentam impor seus próprios símbolos e visões de poder — o chamado poder simbólico. Portanto, as principais características desse imaginário são a construção coletiva, o funcionamento como guia de conduta e um campo de disputas de classe.
Quais elementos são usadas para (des)construir esse imaginário? Por exemplo, se o objetivo for construir a ideia de “nação” ou “brasilidade”, isto é, a identidade ou o sentimento de pertencimento ao país, podem entrar em jogo ou disputa os heróis nacionais, as datas cívicas, as bandeiras e narrativas históricas, etc. Outro exemplo vem do Direito e as Leis. A própria aceitação do funcionamento de normas e instituições dependem do modo como a sociedade imagina a justiça e a autoridade.
Getúlio Vargas x Sérgio Buarque de Holanda.
É Getúlio Vargas quem cria a primeira “identidade nacional” do Brasil de modo a que todos pudessem se sentir incluídos e participantes do destino nacional. Para tanto, ele tinha de afirmar e elevar aqueles que anteriormente haviam sido excluídos. Alguns dos elementos que Vargas trouxe para alimentar esse imaginário social inclusivo foram políticas reais: a proteção das classes trabalhadoras urbanas, direitos trabalhistas, a indústria de base, a fundação da Petrobras, a projeção da Eletrobras e a criação da Vale do Rio Doce, a criação do IBGE, a importância para a herança africana, o samba, o futebol, a capoeira, o carnaval e, no embalo, CLT (o salário mínimo, carteira de trabalho, jornada de 8 horas, férias remuneradas e descanso semanal), política de cotas raciais, o voto feminino, o código eleitoral e direitos universalizados para todos... Daí o operário moral e patriótico e o “ser brasileiro” (foi quem criou o DASP visando a profissionalização do funcionalismo público, instituindo o concurso público e acabando, em parte, com o clientelismo oligárquico).
Para se contrapor a ele, um novo imaginário social dominante foi construído em 1936 com a interpretação de Sérgio Buarque de Holanda – que se torna leitura oficial e dominante do país em todas as dimensões até hoje – e procura reverter a concepção de mundo inclusiva getulista. Já os elementos que Buarque trouxe para alimentar esse imaginário foram o homem cordial (que age pelo coração e não as regras impessoais), a ética da aventura e não do trabalho (improviso e busca de lucros fáceis), o mito do paraíso (do acaso como naturalidade ou como bênção que substituem a organização social refletida) e o patrimonialismo (ou a incapacidade histórica de separar a esfera privada da esfera pública). Tudo isso dificulta o Estado Democrático de Direitos, pois substitui a sociedade organizada e bem intencionada por uma aposta no destino. O Estado acaba sendo encarado como uma extensão dos interesses familiares ou pessoais dos governantes (o chamado funcionário patrimonial ou "vagal"/malandro), o que explica a resistência crônica a instituições republicanas modernas e impessoais em favor de laços de favor, compadrio e personalismo.
Partindo dessa visão dúbia, o imaginário social da elite
brasileira é construído sobre uma complexa herança histórica que mistura
traços do período colonial, dinâmicas de exclusão e uma busca constante por
modernização e distinção. Suas características são: não é homogêneo; tem
herança colonial e patrimonialismo ou privatização do espaço público; enxerga
as profundas divisões sociais e econômicas do país como "naturais" ou
inevitáveis, em vez de históricas; os privilégios corporativos, jurídicos ou
fiscais são vistos como direitos adquiridos; busca sua validação cultural,
estética e intelectual no exterior (EUA, França); sentimento de desconexão ou
estranhamento em relação à cultura popular do próprio país, que por vezes é
vista como "atrasada" (eurocentrismo, cosmopolitismo ou o complexo de
superioridade local); o discurso do sucesso individual e do esforço pessoal é
amplamente adotado para justificar a manutenção da riqueza e do status (a forte
Meritocracia em um País desigual, e que serve como uma barreira moral que
absolve o indivíduo de responsabilidade direta pela vulnerabilidade social do
outro – é a “blindagem social”); preferência por relações baseadas no afeto e
na intimidade em detrimento das leis universais (um tratamento
"paternalista" com subordinados: “amigão” ou “irmãozão”); preza por
uma arquitetura da exclusão: forte isolamento físico e geográfico por meio de
condomínios fechados, carros blindados e shoppings de alto padrão; medo para
além da violência, mas ao risco social e a perda de privilégios: demanda
constante por hipervigilância, privatização da segurança e controle social.
“[...] Os ricos podem roubar o que quiserem que serão admirados
como homens de negócio, já que ladrão é apenas o povo pobre, especialmente o
negro, e seus representantes políticos. Se alguma coisa sair do arranjo
predeterminado, basta inundar a própria imprensa (propriedade privada dessa
mesma elite do saque) com denúncias infundadas de corrupção para provocar um
linchamento público sem deixar espaço para o contraditório. Esse expediente tem
assegurado a posse irrestrita do Estado à elite, mesmo sem o voto popular, nos
últimos cem anos. Ninguém pensa nisso, inclusive a imensa maioria dos próprios
intelectuais, mas a ciência dominante, ou seja, aquela versão supostamente
científica que se torna identidade nacional da maioria dos indivíduos, é
produzida “cientificamente”. Depois é essa ciência, e não qualquer outra coisa,
que vai permear canções, filmes, romances, peças de teatro, séries e novelas,
ajudando a criar um imaginário social muito próprio a partir de uma identidade
nacional compartilhada. O peso e a importância de uma explicação coerente e
totalizante acerca de mundo social são tamanhos que no nosso caso vão colonizar
até os partidos de esquerda que deveriam se contrapor a esses elementos” (p.
108).
“[...]
corruptos entre nós vão ser apenas os pobres, os negros e os mestiços, já que
os brancos imigrados da Europa e que seguem para São Paulo e o sul do país vão
se ver, até hoje, como “europeus” na África, sem ter nada a ver com o “povinho”
mestiço e preto que tanto desprezam e odeiam. Por conta disso, como vimos, quem
sai às ruas em todos os golpes de Estado, posando de defensores da “moralidade
pública”, são brancos de classe média bem-vestidos. Nesse imaginário elitista
hoje ainda dominante, o atraso e a miséria do povo vão ser postos na sua
própria conta. Culpa-se a vítima pelo próprio atraso e por sua desfortuna. Que
bela tradição de pensamento, não é mesmo? Isso tudo professado pelas “vacas sagradas”
do pensamento social brasileiro, que tiram onda de “crítica social” [e faz acreditar que a culpa é do voto, da política e do Estado, nunca das nossas sagradas elites do dinheiro]” (JESSÉ: p.
106).
Diante dessas três imagens sociais conflitantes, a esquerda precisa assumir a luta simbólica e cultural como sua maior bandeira. É preciso travar “a luta cultural” permanentemente, assim como a fazemos tão bem como marketing nos períodos eleitorais. Por que não continuamos? Afinal, essa é uma luta muito bem assumida pelo Capital e pela Direita, que sabem que “sem dominação simbólica não existe capitalismo”. O que não podemos, jamais, é abraçar o imaginário social do inimigo de classe. Precisamos, sim, criar e estabelecer um discurso articulado e coerente permanentemente. Um projeto nacional articulado e forte o bastante para transformar o imaginário social da sociedade brasileira. “[...] Qualquer projeto de esquerda que não tenha como foco mudar o imaginário social de forma radical está condenado ao fracasso ou aos voos de galinha que jamais chagam à transformação social duradoura. Vargas, por sua vez, havia compreendido que não basta transformar “materialmente” o país, provendo modernização, inclusão social, urbanização e industrialização. É necessário mudar o imaginário, ou seja, como o país inteiro se compreende e se percebe” (JESSÉ: p. 103). Enfim, abraçar a luta cultural, com força e permanentemente!
"Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. (...) Saio da vida para entrar na História" (Trecho da Carta-Testamento deixada por Vargas, antes do seu suicídio em 24 de agosto de 1954).










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