Os primeiros humanos eram servos da natureza ou servos de divindades mágicas idealizadas por eles.
Nas primeiras formas de organização social e econômica, não havia propriedade privada (da terra ou dos meios de produção) e nem classes sociais. O trabalho e os recursos eram divididos coletivamente entre o grupo ou clã, pois não havia excedente nem exploração. Ao ser servido pela natureza, o homem era servo de si mesmo.
A força do coletivo sobre a vida individual trouxe a servidão comunitária. A necessidade de prestar serviços ao coletivo, cuidando da agricultura, da pecuária, das obras públicas e da gestão da água ou das forças hidráulicas para sustentá-la. Ao servir o grupo ou Estado, o homem passou a experimentar a servidão coletiva.
A servidão de um homem a outro homem nasceu na transição do escravismo (séculos I a V) para o feudalismo (séculos V a XV), graças a formulações “jurídicas” e tributárias. O escravismo foi imposto pelo trabalho forçado na agricultura, no artesanato ou em grandes construções por prisioneiros de guerra ou envolvidos em dívidas. Essa base sustentava os homens livres. Quando ruiu, esses “escravos” fugiram para o campo em busca de abrigo e sobrevivência. Os grandes proprietários de terras passaram a oferecer proteção e lotes para cultivo em troca de obrigações e trabalho. O antigo escravismo deu lugar a um modo de organização político e social baseado nas relações entre senhor feudal e servos.
Também aqui se destacou (e se destaca até os dias atuais) o feitio de ordens religiosas que funcionaram (e funcionam) como grandes proprietárias de terras e de dízimos, exercendo controle e utilizando o trabalho de servos de maneira similar à estrutura senhorial feudal, mediante a arbitrariedade da fé cega. É a servidão religiosa.
Ao transferir esse poder de coerção pela posse da terra para a máquina estatal, os monarcas centralizaram as decisões, os impostos e as leis como se fosse “um poder divino”. A servidão a um rei só foi rompida pela nobreza que, para garantir seus privilégios, iluminaram novas formas de trabalho, arrendamento monetário, organização nacional e burocrática. Em vez de servir para o consumo local, passou-se a servir para a exportação. Produzir para exportar e acumular riquezas nas nações comerciais. O mercantilismo (séculos XV e XVIII) e os privilégios da nobreza foram substituídos pela livre iniciativa, leis iguais para todos e garantia de direitos individuais, graças a revoluções (francesa e inglesa, séculos XVII e XVIII). É a servidão ao comércio.
O grande acúmulo ou concentração de riquezas e a geração de profundas desigualdades promovidas por esse modo de produção capitalista causou crises, guerras e protestos contra o Estado Liberal e a aclamação de um estado de bem-estar, o Estado Social (séculos XIX). O Estado passou a intervir na economia e a garantir direitos sociais básicos (saúde, educação, previdência, leis trabalhistas, etc.). O homem passou a servir Cartas, Leis e Constituições. Um novo estado passou a combinar as garantias políticas e individuais do liberalismo clássico com a forte proteção de direitos sociais e a centralidade da constituição e da democracia.
Sem desejar largar o osso, as elites que experimentaram a centralização do poder no curso histórico apostaram no neoliberalismo (século XX: 1970/1980) como uma resposta à crise do Estado Social, propondo a redução do tamanho do Estado, privatizações e desregulamentação da economia. A ideia no novo liberalismo é retomar alguns princípios liberais adaptados ao cenário da globalização. É a servidão ao mercado financeiro. Para isso, utiliza aparatos midiáticos e industriais para captar a consciência e a capacidade de escolha das pessoas. É a servidão voluntária ou do desejo do servo em ser Senhor por meio da indústria, do capital, do ideal de “ser rico”, do entretenimento e do consumo. Também com o acúmulo e desenvolvimento de tecnologias, o avanço das Big Techs, dos Data Centers e da IA, uma sociedade da Matrix, poder-se-ia teorizar a servidão às máquinas no alvorecer do século XXI.
E foi assim que chegamos aos dias atuais. O governo passou a ser visto como representante do povo ou da nação, e não mais dono do Estado. A democracia e o ideal de soberania popular é uma tensão dos nossos tempos, que ora esclarece ora confunde, recebendo tensão de todas as formas de servidão. O homem passou a ser servido ao servir. É o servidor público!
Enfim, são muitas as servidões. Se olharmos para a história da humanidade em geral, e a história do Brasil em particular (300 anos de escravidão e 21 anos ditadura declarada), tivemos mais experiências autoritárias que democráticas. Essa herança cultural maldita ajuda a explicar nossa dificuldade em estabelecer a liberdade e a igualdade pelas relações não hierarquizadas do diálogo.
COMUNISMO PRIMITIVO – SERVIDÃO
COMUNITÁRIA - ESCRAVISMO ANTIGO - FEUDALISMO – ABSOLUTISMO – MERCANTILISMO - ESTADO
LIBERAL – DITADURAS - CONSTITUIÇÕES – ESTADO SOCIAL – DEMOCRACIA – MATRIX.