"A moralidade saiu da igreja e caiu sobre nós! Virou possibilidade de aprendizado individual e coletivo a partir do diálogo por meio de um debate público cujas reivindicações de valor precisam ser fundamentadas e criticadas. Isso tem o poder de produzir uma solidariedade pós-tradicional inédita! E essa nova forma de racionalidade também produz frutos revolucionários"!
A sociedade moderna é, basicamente, formada por um Mercado capitalista competitivo e um Estado centralizado. Na esteira estão os vários campos sociais ou a “Esfera Pública”.
O Mercado é o campo social da acumulação de capital e do lucro tornado infenso às avaliações morais. Já o Estado centralizado é a instância reguladora da sociedade como um todo, dado seu monopólio da violência legítima. Por sua vez, a “esfera pública” é a dimensão social responsável pela “possibilidade” de aprendizado coletivo. Posto assim, como pensar uma alternativa para uma sociedade tecnificada e monetarizada que reprime e reduz o espaço da consciência autônoma?
12 Desafios – questões fundamentais:
1.
As
redes sociais pouco ou nada acrescentam de novo à ameaça da colonização da
democracia pelo dinheiro, apenas aprofundam os problemas e complexificam e
dificultam os remédios;
2.
Em
tempos de fascismo e autoritarismo, a democracia é alvo de um ataque comandado
pelo lucro e pela acumulação de capital, isto é, um estrago real causado pela
colonização do dinheiro de todas as outras esferas sociais;
3.
A
entrada das massas trabalhadoras e de todas as classes na política partidária
trouxe ganhos, perdas e danos desse fenômeno na qualidade do debate público;
4.
A
mídia simplifica e muitas vezes distorce eventos complexos, influenciada por
fatores como publicidade e a necessidade de notícias convenientes – a
manipulação da vontade pública (Lippmann). Assim, há uma vulnerabilidade
cognitiva e emocional do público para perceber e compreender os temas centrais
de todo debate público;
5.
Ainda
sobre a mídia, a imprensa se transforma de mero mediador para instrumento dos
interesses privados (disfarçados de públicos), quando na verdade uma empresa
capitalista como qualquer outra, visando o lucro e não à pedagogia do público
(Hebermas);
6.
Muito
teatro burguês e muito romance psicológico preocupados apenas em tematizar,
compreender e debater a subjetividade especificamente burguesa em seus dramas e
contradições (apartado e privatizado do público, confundindo o papel do cidadão
como sendo o papel do consumidor);
7.
A
“fabricação do consentimento”: a opinião pública costuma ser moldada e
direcionada por elites a partir da propaganda e do uso estratégico de símbolos
em dois movimentos: 1) Publicidade como produção pública de opiniões por
pessoas privadas no espaço público; 2) Publicidade como produção, para um “público”,
de opiniões privadas como se fossem públicas;
8.
A
privatização da fé X a liberdade de confissão, esta, duramente conquistada em guerras
sangrentas, marca a primeira forma de liberdade privada no alvorecer da
modernidade;
9.
Também
o nascimento de uma esfera privada de sujeitos com opinião ou literária, tal
como a semente da esfera
pública na qual a sociedade debate seus principais problemas. Trata-se
de uma “esfera pública burguesa”, um grupo
de pessoas privadas com opinião própria reunidas em um público
(profissionais liberais, pastores, professores, estudantes...);
10.
Evitar
a colonização da esfera pública pela influência deletéria do dinheiro, da
violência, da fraude, da piada de mau gosto e do poder – a luta política
principal é por um espaço de reflexividade argumentativa que permita que a
força do melhor argumento floresça;
11.
A
sociedade moderna apresenta uma normatividade inscrita no próprio objeto de
análise, podendo assumir, portanto, a forma de uma crítica imanente;
12. Vivemos hoje um forte ataque à democracia, que nos leva a uma perda descomunal em termos de evolução social.
“[...] sistema público não é sistema estatal. Não são as emissoras de TV e rádio do “Estado” que garantiriam a pluralidade de informações e opiniões. Dependendo do governo do dia, poderia se transformar exatamente no seu contrário. O sistema público implica incluir todas as correntes de opinião importantes na sociedade, que se contrapõem umas às outras por interesses opostos, e deixar que se realize um acordo sobre o conteúdo e a forma das informações e dos produtos culturais” (Jessé: pp. 32-33).
Enfim, o capitalismo se transformou muito rapidamente, com uma forte influência na política. A esquerda não conseguiu acompanhar essa transformação. Nossa economia assumiu um caráter ultraliberal e popular que influencia um comportamento conservador da população de um lado, ao passo que impede o Estado de regular sua exploração, do outro. Necessitamos de uma reorganização das forças populares, mirando uma consciência política (esfera pública democrática e pedagógica, menos midiática e mais plural e reflexiva, com voto consciente e refletido) – a materialidade da esfera pública-popular-profunda-orgânica-autônoma-política: insurgências progressistas, estímulos conflitantes, formação da própria opinião e defesa dos interesses populares (dessas novas formas de exploração).
“[...]. E é precisamente a partir da pluralidade de argumentos que se contradizem que o cidadão pode construir refletidamente sua própria opinião. É absolutamente incompreensível que a luta por um sistema de comunicação pública jamais tenha sido uma pauta importante da “esquerda” entre nós. Grande parte do problema que enfrentamos hoje advém, precisamente, dessa cegueira” (JESSÉ: p. 33).




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