O autoritarismo é um desvio. Porém, não um desvio individual, mas uma estrutura sociopsicológica produzida na vida cotidiana.
Isso significa dizer que o autoritarismo não
chega a ser um distúrbio psiquiátrico ou doença mental, mas um
traço de comportamento ou atitude social, caracterizado pela necessidade de
controle, obediência cega, hierarquia rígida e imposição (“síndrome do pequeno
poder”).
Assim, é sensato falarmos de “comportamento
autoritário”, pois ele se define mais como uma escolha de conduta – deseja concentração de poder pela censura, repressão e
supressão de liberdades. Embora não seja uma patologia, pode estar
associado a inseguranças profundas, traumas, uma forma de lidar com a ansiedade
ou transtornos de personalidade. A raiva que torna o autoritarismo
atraente provém de mágoas e sofrimentos associados a feridas da infância que
não foram suficientemente reconhecidas, lamentadas ou superadas.
O fato é que pessoas autoritárias geram
ambientes de trabalho e relações familiares tóxicas, levando a estresse,
ansiedade e depressão em quem convive com elas, com características de
personalidade muito difíceis.
Ele
possui sinais que ultrapassam fronteiras ideológicas. Pessoas com predisposições autoritárias
tendem: 1) à intolerância ao dissenso; 2) à ambiguidade; 3) ao pensamento
dicotômico; 4) ao apego a normas absolutas; 5) à dificuldade de lidar com
nuances; 6) a moralização da política; 7) a crença de que fins justos autorizam
métodos coercitivos; 8) divergências são transformadas em ameaças existenciais;
9) reduz complexidades a dicotomias morais entre “puros” e “culpados”, “legítimos”
e “ilegítimos”; 10) o debate deixa de se concentrar criticamente nas políticas
de Estado para mirar e atingir a própria presença de indivíduos; 11) adjetivos
são convertidos em ferramenta de conveniência ou uma categoria totalizante que
demoniza e distorce o significado; 12) suspende a singularidade dos indivíduos;
13) legitima agressões simbólicas e materiais; 14) o debate cede lugar a uma
lógica de veto identitário, e a estrutura autoritária se impõe: não se discutem
ideias; elimina-se quem as porta; 15) torna-se um passe-livre moral: basta
aplicar o rótulo para justificar alguém como alvo, neutralizar sua fala ou
normalizar hostilidades que, em qualquer outro cenário, seriam inaceitáveis;
16) atribui-se uma identidade presumida para interditar sua fala; 17) o livre pensamento passa a ser um espaço para o adestramento.
O pior é que a História mostra que
dispositivos de silenciamento nunca permanecem nas mãos de quem os criou. Quando essas predisposições vêm à tona,
a política deixa de operar no campo do argumento e passa a funcionar no regime
da identidade: pessoas são reduzidas àquilo que se presume que elas
representam, e não ao que efetivamente dizem ou fazem.
O que torna o autoritarismo
atraente? Segurança,
conformidade, raiva e medo.
Ele oferece a falsa sensação de segurança em detrimento da
instabilidade (esta associada ao impacto de estrangeiros e imigrantes). Isso
empurra a pessoa para a conformidade
(associada a tradições e a um passado idealizado) e a obediência leal aos
líderes (uma ode a lideranças autoritárias). Também a raiva e o medo produzidos pelo sofrimento financeiro, social ou
emocional é um poderoso catalisador para o autoritarismo, pois geram impotência
e vitimização (líderes autoritários intensificam esses sentimentos em seu
público para obter apoio). A negação e o deslocamento da raiva são uma das
contribuições para a adoção do autoritarismo.
Assim:
·
Os
autoritários seguem um princípio fundamental do marketing: identificar um
problema, criar emoções negativas e oferecer uma solução para o problema;
·
O
pensamento dicotômico está associado ao autoritarismo, pois implica rigidez no
raciocínio, sem espaço para considerar as nuances da vida. Pensar apenas em
"preto e branco" diminui consideravelmente o pensamento crítico;
·
O
fascínio pelo autoritarismo está enraizado em uma variedade de fatores
complexos de ordem emocional, psicológica, social e política. Dedicar um tempo
para refletir sobre esses fatores é essencial para abraçarmos nossa humanidade
— tanto para aqueles que se sentem atraídos pelo autoritarismo quanto para
aqueles que tentam compreender seu fascínio;
·
Em
tom e conteúdo, líderes autoritários intensificam os sentimentos de raiva e
medo em seu público para obter apoio;
·
O
apelo do autoritarismo deriva do nosso medo da solidão — e da ansiedade
inerente ao reconhecermos que estamos sozinhos em nossas escolhas e somos
responsáveis por elas;
·
O líder autoritário adora uma “imagem
negativa” do outro. Vive buscando falhas, defeitos e erros para reforçá-los e
explorá-los. Esse padrão de pensamento o envolve na visão de grupos externos
como sendo “outros”, para criar raiva e medo por suas posições políticas ,
religião, raça, gênero , orientação sexual , etnia ou nacionalidade — como se
fossem eles os responsáveis por seu sofrimento. Ele leva a uma fixação na
imagem do outro criada na mente, em vez de uma abertura para explorar sua
singularidade e humanidade compartilhada. Líderes autoritários reforçam esse
pensamento em declarações genéricas que diminuem a humanidade desses grupos —
como chamá-los de vermes — e, principalmente, atribuindo o sofrimento dos
seguidores (e o seu) a eles. Enfim, eles criam o “bode expiatório”.
É dessa forma que o autoritarismo opera como um modelo
cognitivo: organiza afetos e julgamentos, predispõe à busca de ordem rígida, à
punição do desvio e à conversão de conflitos políticos em batalhas morais
contra um “inimigo”.
O autoritarismo pode se manifestar em
pessoas “boas” ou “más”, no campo da direita ou da esquerda. Qualquer grupo
pode reproduzir práticas de supressão do debate e cerceamento do dissenso
quando transforma divergências em ameaças existenciais. É o “impulso
autoritário”: a substituição do debate pela eliminação do dissenso, a crença de
que a justiça da causa autoriza a supressão da fala alheia e a transformação do
espaço público em unanimidade obrigatória. São essas tendências que atraem
determinados campos políticos a mobilizá-las ou reproduzi-las em benefício
próprio.
Enfim, quem defende censura hoje por
conveniência política cria, sem perceber, o monstro que amanhã esmagará a todos nós.
É preciso parar essa criação enquanto há tempo!