Quem sou eu

Minha foto
São Francisco do Conde, Bahia, Brazil
Professor, (psico)pedagogo, coordenador pedagógico escolar e Especialista em Educação.
Obrigado pela visita!
Deixe seus comentários, e volte sempre!

"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 205 da Constituição de 1988).

Ø Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados. :)



“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

Arquivos do blog

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Notícias relevantes - 2026.

·       Produção de carne bovina. Brasil supera EUA e se torna o maior produtor de carne bovina do mundo (desde a década de 1960)! O pecuarista investiu muito na genética e no manejo moderno do rebanho. 1/3 da nossa produção vai para outros países, por isso os preços altos no mercado interno (acumulado do ano: 2,09%, e só em dezembro subiu 1,54%). Menor oferta doméstica, maior elevação dos preços. É o maior exportador para a China, 1,5 milhão de toneladas (o país nunca colocou tanto produto no mercado externo).

·       Conta de Luz mais barata para pessoas de baixa renda. Cerca de 4 milhões de famílias (renda entre meio e 1 salário mínimo por pessoa, 120 quilowatts h/mês e inscrito no Cad-Único) serão beneficiadas. Desconto social: pode reduzir entre 9%-18%. Os outros consumidores que pagam, e não o governo-União.

·       O principal objetivo dos brasileiros para 2026: economizar dinheiro. Colocar as finanças em ordem.

·       Ano Novo começa com as novas regras de Isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil/mês. São 10 milhões de brasileiros que têm direito a isenção total. Outros 5 milhões entram na faixa progressiva do desconto.

·       Novo salário mínimo.

·       LDO: sancionada com vetos por Lula.

Desculpe, estava só seguindo ordens!?

 A ordem e o mal...

Como os alemães nazistas puderam conceber e executar o massacre de 6 milhões de judeus?

Pois é, em parte, aqueles atos maléficos ocorreram porque milhares de pessoas cumpriram ordens. Elas colocaram os prisioneiros em trens, arrebanharam-nos até “chuveiros” lotados e os envenenaram com gás.

Como puderam praticar atos tão horrendos? Aquelas pessoas eram seres humanos normais?

Stanley Milgram (1974) montou uma situação na qual se pediu às pessoas que aplicassem choque cada vez mais fortes a alguém que estivesse tendo dificuldades para aprender uma sequência de palavras. Resultado! Quase 2/3 dos participantes obedeceram à risca! 

Enfim, baseadas na “obediência à autoridade”, pessoas comuns obedecem a ordens de figuras de autoridade, mesmo que isso envolva prejudicar outros. Assim, há uma forte influência do contexto social na moralidade individual, até que o pensamento crítico os separe. 

(In)felicidade e prejulgamentos.

 

Parece que seu estado de espírito influencia diretamente o modo como você enxerga o mundo à primeira vista. Você pegará mais leve ou mais pesado nas reações, a depender de suas emoções.

Veja um exemplo:

Pessoas felizes no casamento atribuem um comentário azedo do cônjuge “Por que você nunca põe as coisas no seu devido lugar?” a algo externo: “Ele deve ter tido uma dia frustrante”.

Já pessoas infelizes no casamento atribuirão o mesmo comentário a uma disposição mesquinha: “Quanta hostilidade!”, e podem responder com um contra-ataque. Além disso, esperando hostilidade de seu cônjuge, elas podem se comportar com ressentimento, provocando justamente a hostilidades que esperam.

CONCLUSÃO: Nosso comportamento social varia não apenas conforme a situação objetiva, mas também conforme nosso modo de interpretá-la. Desse modo, existe uma realidade objetiva lá fora, mas sempre a enxergamos pelas lentes de nossas crenças, nossos valores e o (des)sabor das emoções do momento. 

Cinderela: o poder da situação.

Era uma vez um homem cuja segunda esposa era uma mulher vaidosa e egoísta. As duas filhas dessa mulher eram igualmente vaidosas e egoístas. A própria filha do homem, contudo, era humilde e altruísta. Essa filha meiga e bondosa, que todos conhecemos como Cinderela, aprendeu cedo que deveria ser obediente, aceitar maus-tratos e ofensas e evitar fazer qualquer coisa que fizesse sombra às meias-irmãs e à madrasta.

Entretanto, graças à fada madrinha, Cinderela conseguiu fugir desse contexto por uma noite e ir a um grandioso baile, no qual atraiu a atenção de um lindo príncipe. Quando posteriormente o príncipe apaixonado reencontrou Cinderela em seu lar aviltante, ele não a reconheceu.

Implausível?

MORAL DA HISTÓRIA: O conto de fadas exige que aceitemos o poder da situação. Na presença da opressiva madrasta, Cinderela era humilde e pouco atraente. No baile, sentia-se mais bonita – e caminhava, conversava e sorria como se assim fosse. Em uma situação, ela se encolhia. Em outra, encantava.

A PREMISSA DE CINDERELA nos ensina que: os seres humanos são “antes de mais nada seres em uma situação. Não podemos ser distinguidos de nossas situações, pois elas nos formam e decidem nossas possibilidades” (Jean-Paul Sartre, 1946).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O Ano Novo de Donald Trump.

Virar a geopolítica de cabeça para baixo tem o propósito de esvaziar os bolsos dos adversários...

O jogo da extrema-direita consiste em investir no caos. Depois, valer-se do desgaste e do desregramento gerados por ele para impor agenda caótica. Da Ucrânia à Venezuela, passando pelo Brasil até chegar na guerra tarifária. É como se Trump sentasse em uma bola de demolição – o planeta.

Seu estilo é iconoclasta. Ele põe em marcha seu plano de desorganização do sistema de regras internacionais vigentes desde o pós-guerra, assentado no papel dos EUA como fiador do equilíbrio global. Por isso que ele corteja autocratas e promove uma nova categoria de isolacionismo e uso desabrido da força.

Resultado? Retrocedeu mais de um século no comércio global e instituiu uma guerra em que tarifas de importação se tornaram meios de combate político, como provam os casos indiano e brasileiro. Sabe aquelas tréguas frágeis em Gaza? Foram obtidas na busca de um Nobel da Paz que felizmente não veio (risos). E a obsessão pela suposta paz entre Rússia e Ucrânia? Muito calor e pouca luz até aqui. E ainda tem o desengajamento da Europa, que por décadas acostumou-se ao guarda-chuva norte-americano. Acabou? Não! Acena à rival China, apontando latino-americanos como alvo e a Venezuela de cobaia.

Enfim, seu caráter é mercurial e seu ego, descomunal. Que os EUA voltem os olhos para seu quintal e negue o multilateralismo é da natureza errática da extrema-direita; que ameacem destituir governos a bel-prazer, e fortes interesses, é só Imperialismo reeditado e muito retrocesso!

Abdômen chapado em 30 dias?!

 Plank Challenge: desafio da prancha.

A “prancha abdominal” é um dos exercícios mais difíceis de manter, apesar de parecer simples. É uma atividade isométrica, estática, isto é, não envolve tanta mobilidade biomecânica articular, já que a pessoa permanece na mesma posição, tornando-a mais eficaz do que as abdominais tradicionais.

Todavia, seus benefícios vão do físico ao muscular, articular e até metabólico – tem alta capacidade de fortalecer o núcleo core (músculos abdominais e lombares), desenvolver a resistência, o equilíbrio, a manutenção da mobilidade, reforço de todas as cadeias musculares do corpo, melhorar a postura, trabalho simultâneo de vários grupos musculares e tonificação da região abdominal.

Sua prática tem diferentes níveis de dificuldade e variações, com menor pressão sobre o pescoço em comparação aos outros abdominais.


Como fazer?
É realizada no chão, apoiando-se sobre mãos e joelhos, com os cotovelos flexionados a 90° abaixo dos ombros, dando um passo para trás com os pés. Recomenda-se manter os pés na mesma largura dos quadris; aproximá-los aumenta o nível de dificuldade. Em seguida, é preciso manter o corpo reto, dos calcanhares ao topo da cabeça, olhando para o chão, ligeiramente à frente do rosto. Uma vez consolidada a posição, deve-se contrair abdômen, quadríceps e glúteos, mantendo-se assim pelo tempo desejado.

Enfim, contraindicação: a prática não é indicada para pessoas com dor nas costas ou nos ombros. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Lições de Marilena.

A biografia de Marilena Chaui é inspiradora! Algumas lições...

1.     O pensamento não se separa da vida coletiva.

2.     Ideologia é manter as relações sociais tais como estão. Ela “cega” social, política e culturalmente o indivíduo. Ela consegue isso por ocultar as contradições e, ao fazer isso, preservar as relações de Poder ali existentes, para o “bem” e para o “mal”.

3.     O Brasil tem uma fábrica de produção de violência operante porque: sua estrutura histórica transforma suas diferenças em desigualdades, e essas desigualdades em hierarquias, ou seja, relações sociais baseadas em mando e obediência. O discurso supostamente democrático que encoberta isso é mero arranjo institucional.

4.     A democracia de fato existe e opera quando direitos são criados, vividos e praticados pela sociedade. E o papel do Estado é o de garantir aquilo que já foi exigido e construído coletivamente. Logo, democracia não se resume ao voto.

5.     Filosofia não é mera prática restrita à academia. É modo de vida e intervenção no mundo!

A força do social.

 O social existe, está dividido, mas tem força instituinte.

Historicamente, existem 03 perspectivas predominantes na esquerda brasileira que precisam ser reformuladas. Por mais que se esforcem e tenham “boas intenções”, desejam fazer as coisas “do Alto”. Vejamos:

03 perspectivas predominantes na esquerda brasileira:

1ª – O Estado como protagonista: explica e narra a história do Brasil tendo apenas o Estado como personagem principal. A ideia é a de que o Estado é anterior à sociedade, institui essa sociedade e determina todos os acontecimentos. A História como história feita pelo Alto (Estado e burguesia).

2ª – Teoria da dependência: foi elaborada por FHC e Enzo Faletto. A intepretação do Brasil e demais países dependentes é assentada sobre um tripé: Estado, capital nacional e capital internacional. São esses três os protagonistas sociais, políticos e históricos. Estão ausentes a classe trabalhadora e as camadas populares em geral. Assim como a anterior, também pensa a política e a história como ação do Alto (Estado e burguesia).

3ª – Política como ação de uma Vanguarda: essa concepção está presente em formas variadas das múltiplas tendências da esquerda brasileira. De um lado, funda-se em uma ideia pedagógica da política como educação das massas por um partido que tomaria o Estado; e de outro lado, na direção política das massas por uma vanguarda, portadora da consciência de si e para si, capaz de decifrar o sentido da história. Novamente, a política e a história se fariam referidas ao Alto, ao Estado.

 

Como reformular tudo isso?

Um grupo de esquerda forte será formado também por intelectuais, vindos de diversas tendências de esquerda: movimento operário e sindical, trabalhadores rurais, movimentos sociais urbanos, cultura popular, violência e marginalidade, Igreja em suas relações com os movimentos populares, partidos políticos e ideologia. Precisam formar centros de estudos, sobretudo com a intenção de refletir sobre o Brasil atual, consolidando espaços para a realização de pesquisas e debates sobre aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais da realidade brasileira, com ênfase especial na problemática das classes populares. Repare: a referência não é o Estado, mas a sociedade. Isto é, o papel dos movimentos sindicais, sociais e populares como os sujeitos da política e da história.

O Brasil tem uma tradição de grupos de resistência, muitos produzidos na época da Ditadura Militar: movimento sindical ou o novo sindicalismo, movimentos sociais urbanos e rurais, Comunidades Eclesiais de Base inspiradas na Teologia da Libertação, movimentos estudantis, grupo Tortura Nunca Mais, famílias de presos e desaparecidos políticos sob a proteção da Comissão de Justiça e Paz, comissões de fábricas com a conquista do direito à greve e a organização independente dos trabalhadores, os loteamentos clandestinos nas cidades e as ocupações no campo como início da reforma agrária, os movimentos contra o custo de vida, por transporte, creches, escolas e hospitais, pela urbanização das favelas, contra o racismo e as discriminações de gênero, contra a tortura e o desaparecimento de presos políticos, contra os assassinatos de lideranças populares pelas forças policiais e pelo Esquadrão da Morte, e por aí se vai...

Uma reinvenção ou inovação do coletivo, que agora também precisa lidar com os novos desafios do século: bolhas das redes sociais, IA, novas tecnologias dos meios de produção, retóricas refinadas das mídias, desalento distópico dos tempos atuais...

Um coletivo assim, não surge do nada nem da cabeça de alguns intelectuais. Pelo contrário, o que o torna possível é a existência de uma ação social como resistência (ao autoritarismo, à exclusão, à retirada ou negação de direitos), como luta pela liberdade. AÇÕES DE CRIAÇÃO E AFIRMAÇÃO DE DIREITOS, UMA INVENÇÃO DEMOCRÁTICA!

“Um grupo que estuda e se engaja profundamente nas greves, tomando parte delas, fazendo debates e discussões com os trabalhadores, dando entrevistas a jornais, rádios e televisões e escrevendo artigos em defesa das comissões de fábrica, do direito à greve e da legitimidade das ações. É uma verdadeira experiência de formação política e de compreensão da ação democrática não apenas como luta de classes, mas sobretudo como participação direta nas práticas políticas para uma nova sociedade. Tudo o que escrevermos sobre democracia, sobre cultura popular, sobre crítica da ideologia da competência precisa nascer nessa experiência extraordinária e única, na qual, em vez de um partido político ou uma vanguarda que imaginam poder levar a consciência aos trabalhadores, dar-se exatamente o contrário: nós é que aprendemos com os trabalhadores” (Marilena Chuai, p. 57). 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A politização do Réveillon.

Em nosso tempo polarizado, tudo ficou mais escandaloso e descontraído.

Pé direito, não (conservador)! Calcinha vermelha, pode (esquerdista)? Artimanha comunista de sedução? Vermelho, vermelhusco, vermelhaço, vermelhão atrai sexo ardente ou moeda na sua bolsa ou as duas coisas? Kkk E tomar um banho de ervas, seria coisa de usuário ou prática de candomblé? E sexo, ficar por cima ou embaixo, quem pode e quem obedece? E a folha de louro na carteira, chamariz de dinheiro ou racismo? E o prato com aves, essas coitadas tão gostosas o ano inteiro e canceladas na ceia pelo fato de ciscarem para trás? Só não pode é virar o ano pulando 07 marolinhas com o pé direito. Fala sério!?

E que tal o “tudo de bom” do moto-uber que pilota feito um louco no corredor dos carros e ao final do trajeto deseja ao passageiro assustado um “feliz ano novo ao senhor e a todos os seus”?! Seria cômico se não fosse trágico! Kkk

Enfim, então vamos manter a tradição mesmo. Melhor! Na virada, vamos comer apenas frutos do mar, seres capazes de nadar contra todas as correntes, para que todos os leitores percebam nisso uma provocação de gastronomia ideológica – uma mensagem subliminar, justo na virada de um ano de eleição, para que o prato à mesa seja, por mais 04 anos, LULA!

Nobel de Literatura – 2025.

 O fim das ilusões...

Literatura contemporânea... Apocalíptica, misteriosa, preocupante, longa e sinuosa, expressão de sentimentos indescritíveis, inquietante...

O autor? László Krasznahorkai (húngaro, 71 anos). Com frases longas e parágrafos extensos, com estilo denso e único, o autor cria uma atmosfera pesada e obsessiva, numa obra complexa e visionária, com alegoria profunda, olhar irônico e apocalíptico sobre o colapso social e a fragilidade das esperanças humanas. Tudo isso sob a capa de uma história aparentemente simples.

A personagem? O retorno do barão de Wenckheim (tradução de Zsuzsanna Spiry). Falido por jogo e exilado na Argentina, o cara retorna à Hungria, cansado, buscando apenas reencontrar um amor antigo de juventude (a Marika) e reconciliar-se com o mundo. Mas... Sua cidade, afundada em poeira, desespero e ressentimento, projeta nele a esperança de quem vai trazer redenção e prosperidade.  

A obra? Um romance monstruoso. Narra o regresso de um aristocrata falido (Béla Wenckheim) à sua cidade natal (na Hungria). Ali, os habitante o recebem como um salvador messiânico (tem festa de recepção, ciganos são expulsos e uma crescente expectativa de que o barão resolverá os problemas locais, tanto materiais quanto espirituais). A partir disso, são explorados temas de declínio, esperança e loucura. Ou seja, a população acredita que ele é rico e trará prosperidade (o cara cheio de dívidas rsrs); e ainda acredita mais, que suas origens nobres trará uma renovação moral, eliminando todos os excessos indesejáveis (o cara está perdido, interessado em rever um amor de juventude kkk). Enfim, é uma história de ilusões e expectativas rompidas, com destaque para a violência - a síndrome da bestialidade pretensiosa com agressividade de idiotas grosseiros e desejos de vingança ardilosa. 

O que tem de novidades? A inventividade: 1) desequilíbrio entre aquilo que acontece (os "fatos") e as reações geradas por esses eventos (sempre na ordem do excesso); 2) um traço de escrita em que a narração entra e sai da consciência dos personagens; 3) existe uma indistinção entre aquilo que acontece no pensamento e aquilo que acontece na realidade - as frases misturam os dois registros; 4) liberdade de movimento que dá o ar muito singular da poética do autor; 5) o modo como as diferentes tramas se atravessam e se complementam. 

O contexto? O livro é uma continuidade de Sátántangó (Hungria, 1985), outro romance visionário, implacável e fascinantemente sombrio. Imagine um lugar com habitantes desajustados e enlouquecidos (camponeses esfarrapados; um médico alcoólatra observando obsessivamente seus vizinhos; jovens perdidas num moinho destroçado; uma garota com deficiência tentando matar seu gato, uma gangue de motociclistas fascistas, um professor recluso que observa o mundo em colapso com ironia e terror (o melhor personagem do romance), enfim, vigaristas de toda ordem). Essa gente acredita que em algum dia chegará um homem (Irimiás) com poderes extraordinários para salvá-los daquela realidade (pilhas de lixo e o colapso total).

As entrelinhas? Ao fugir de suas dívidas de jogatina em Buenos Aires, e voltar para sua cidade de origem também para encontrar um amor do passado, encontra personagens perdidos e afim de redenção. 1) a partir da pequena cidade do barão, o aturo fala da Hungria; 2) a partir do relacionamento tenso dos personagens, fala também do gênero humano em geral, e de forma bastante pessimista. 

A crítica? De braço dado com Kafka, o cenário é e não é a Hungria sob o comunismo – sob a fé depositada na aparição de um líder salvador, com assombrosa atualidade. Paraíso? Inferno? Mundo do além? Bobagem. Nesse delírio em que se enfiou a contemporaneidade, a extrema-direita explorou para lançar seus líderes políticos nos EUA, na Argentina, em Israel, no Chile e aqui no Brasil. Em todo o mundo...

O que pode acontecer quando a linguagem é levada além das regras que ela própria estabelece? Distopia: riso, vertigem e devastação em uma polifonia de vozes do nosso tempo. Uma reflexão sobre o pertencimento e sobre o nacionalismo. É muito difícil atravessar indiferente essa leitura. Afinal...

Aqui estamos!