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"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 206, inciso II, da Constituição de 1988).

"Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados" (Myles Horton, p. 138).

“Por que escrevemos? Além de todas as recompensas, escrevemos porque queremos mudar as coisas. Escrevemos porque temos essa convicção de que podemos fazer diferença –uma nova percepção de beleza, um novo insight sobre a autocompreensão, uma nova experiência de alegria, uma decisão de unir-se à revolução" (Robert McAfee Brown). "Escrevo esperando fazer minha parte para restringir a intuição com o pensamento crítico, refinar os juízos de valor com compaixão e substituir a ilusão por compreensão” (David G. Myers, p. 47).

“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Os governos da minha vida.

 A consciência histórica como instrumento educativo...

No ano em que nasci, 1983, o presidente do Brasil era o general João Baptista Figueiredo (o último governante do período da Ditadura Militar) e seu vice era Aurelino Chaves (ambos tomaram posse em março de 1979 e governaram até março de 1985). Nos bastidores de 1980-1983, rolavam projetos de Anistia, retorno de exilados da ditadura militar, reforma partidária e eleitoral. A moeda era o Cruzeiro. A inflação batia 110,2% ao ano. O país tinha 120 milhões de habitantes.


Cédula de 500 cruzeiros de 1980 comemora os 150 anos da Independência do Brasil (sesquicentenário) e traz no anverso o tema "Evolução da Raça Brasileira". 

Antes da Ditadura Militar no Brasil (1964), o país viveu um período de intensa instabilidade política, crise econômica e polarização ideológica. Quando assumiu o governo no início da década de 1960, Jânio Quadros, que havia sido eleito com um discurso moralista, renunciou com apenas 7 meses no governo (1961). A posse do seu vice (setembro de 1961), João Goulart (Jango), o fez enfrentar resistência de setores conservadores, da elite, de empresários e dos militares, que o acusavam de ter simpatias comunistas. Para permitir que Jango assumisse sem plenos poderes, o Congresso derrubou o presidencialismo e impôs o sistema parlamentarista por um curto período (que só foi revertido pelo Plebiscito de 1963). Mesmo assim, o incômodo foi grande: Jango propôs reformas estruturais (agrária, educacional, fiscal e urbana) para tentar diminuir as desigualdades sociais. As propostas assustaram os setores conservadores e a classe média, catalisando um forte sentimento anticomunista no contexto da Guerra Fria (1947-1991: liderada pelos EUA capitalista e a URSS socialista/comunista). Não muito diferente dos tempos atuais, pois a história acontece primeiro como tragédia e depois como farsa, o país sofria com alta inflação, endividamento externo e forte mobilização de sindicatos e liga camponesas, culminando na tragédia que estava por ser estruturada – o Golpe Civil-Militar de 31 de março de 1964. 

O Brasil passou por um duro regime autoritário de Ditadura Militar que durou 21 anos (1964-1985). O período foi marcado por censura, perseguição política, supressão de eleições diretas e violação de direitos humanos.

Em 31 de março de 1964, o presidente do Brasil era João Goulart. Nesse ano, ele sofreu um golpe civil-militar que o derrubou do cargo. Esse golpe foi impulsionado por setores conservadores da sociedade, empresários e militares sob o pretexto de combater o comunismo no contexto da Guerra Fria.

Com a queda de Goulart, quem assumiu foi o marechal Humberto Castelo Branco, que inaugurou os Atos Institucionais (AIs), decretos que davam superpoderes ao Executivo, suspendiam direitos políticos e cassavam mandatos. Ao todo, foram 17 atos institucionais (1964-1969). O AI-2 instituiu o bipartidarismo (ARENA e MDB) e o AI-5 fechou o Congresso Nacional.

O golpe fatal veio com o AI-5, o Ato Institucional nº 5 que fechou o Congresso Nacional, suspendeu o habeas corpus e deu início ao período mais violento da repressão: os “Anos de Chumbo”. O governo era do general Costa e Silva. Também no governo Emílio Garrastazu Médici, houve censura prévia à imprensa, tortura sistemática de opositores e combate implacável aos grupos de guerrilha urbana e rural. Houve uma coincidência, durante esse período, de um forte crescimento do PIB (+10% ao ano), alinhado a uma forte propaganda ufanista (“Brasil, ame-o ou deixe-o”), embora acompanhado também pelo aumento da desigualdade social.

A abertura política desse regime fechado foi lenta e gradual. Só a partir de 1974, no governo do general Ernesto Geisel, foi que iniciou o processo de transição, marcado pela extinção do AI-5 em 1978. Deu-se a “Lei da Anistia (1979)”, agora no governo do general João Batista Figueiredo, que permitiu o retorno de exilados políticos ao país e o restabelecimento do pluripartidarismo. 

Cinco (05) presidentes militares assumiram o poder durante a Ditadura Militar Brasileira (1964-1985):

·       Humberto de Alencar Castello Branco (1964–1967) - General (transferido para marechal).

·       Arthur da Costa e Silva (1967–1969) - Marechal.

·       Emílio Garrastazu Médici (1969–1974) - General de Exército.

·       Ernesto Geisel (1974–1979) - General de Exército.

·       João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979–1985) - General de Exército. 

Um ano antes do meu nascimento, 02 de abril de 1982, ocorreu a Guerra das Malvinas entre Argentina e Inglaterra (a Argentina saiu democratizada em 31 de outubro de 1983). Os aviões de combate ingleses não receberam permissão de pouso aqui no Brasil. Também foi concluída a represa de Itaipu no dia 12 de outubro, a maior hidroelétrica do mundo na época, inaugurada por Figueiredo em 05 novembro daquele ano. A dívida externa brasileira não ia bem, tal como hoje (81,9% do PIB, beirando os R$ 10 trilhões), e buscava-se sua renegociação com bancos e empréstimos para manter sua liquidez, inclusive com o presidente dos EUA, Ronald Reagan e o FMI (que visitou o Brasil no mês do meu nascimento, novembro de 1983).

Os dados mostram o quão difícil foi o ano de 1983, com muitos desempregados, inclusive notícias de saques de supermercados e caminhões de comida. 26 bancos renegociaram a dívida do país, que tomou 2º empréstimo no valor de US$ 4 milhões na época para manter a sobrevivência da Nação. Enquanto isso, o país era o 6º maior exportador de armas do mundo! 

Em 1984, quando eu tinha apena 01 aninho de idade, um amplo movimento popular passou a pressionar o governo militar pela volta das eleições diretas para presidente da República. Por todo o Brasil, houve mobilizações e passeatas que formaram a chamada campanha das “Diretas Já”. Ela envolveu vários setores da sociedade, como representantes sindicais, partidos políticos de oposição, estudantes e trabalhadores. Pipocavam pelo país passeatas e comícios pelas “Diretas-Já!”. Em julho daquele ano, José Sarney (Frente Liberal) aceita ser vice de Tancredo Neves, para, em janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral elegê-los presidente e vice, respectivamente. Mas, logo Tancredo foi operado de um tumor benigno (diverticulite), morrendo no dia 21 de abril do corrente ano após contrair uma infecção hospitalar do procedimento. Em 22 de abril, seu vice José Sarney, assume a presidência. Foi ele quem, no dia 3 de setembro, criou a Comissão Provisória de Estudos Constitucionais (redigia-se uma anteprojeto da Constituição). Em novembro, a Arquidiocese de São Paulo lançou o livro “Brasil nunca mais” onde lista 444 torturados durante a ditadura militar. 

A população foi às ruas na Campanha Diretas Já (1984) exigindo eleições presidenciais diretas, mas a emenda foi rejeitada. A transição se concluiu em 1985 com a eleição indireta de Tancredo Neves.

Já com 02 anos de idade, a direção política brasileira encaminhou a construção da ordem democrática e os seus “progressos” econômicos. O ano era 1985, e havíamos saído de 21 anos de Ditadura Militar (1964-1985), que tinha como oposição partidária o PMDB, PDT, PT. O deputado Paulo Maluf (1931-), candidato alinhado aos militares, recebeu a indicação para disputar as eleições. Já Tancredo Neves (1910-1985), que era governador de Minas Gerais, foi o candidato de oposição.

Os primeiros passos para a redemocratização foram dados com a eleição indireta do primeiro presidente civil Tancredo Neves (14/03/1985), que faleceu no mês seguinte (21 de abril). Coube ao vice, José Sarney, assumir interinamente.

Lá eu estava com 03 anos de idade (1986), quando foi lançada a segunda moeda da minha vida, o Plano Cruzado (02 de fevereiro de 1986). Ocorreu uma reforma monetária, congelamento total de preços, baixa do desemprego para 2,6%, gatilho salarial, aumento do salário mínimo, felizmente. Mas, durou pouco, pois no dia 7 de setembro os combustíveis aumentaram 60% e o aumento de outros preços em até 120%, era o prenúncio da queda do Plano Cruzado e o anúncio do Plano Cruzado II.

Ulysses Guimarães (PMDB) se elege presidente da Constituinte em 1987 (eu entrando nos 04 anos de idade). Enquanto isso, Fernando Collor de Mello (governador do Alagoas) pedia à Justiça a criminalização dos funcionários marajás. Naquele ano, o Exército ocupava todas as refinarias de petróleo do País diante da ameaça de greve. Em julho do corrente ano rola comício em Brasília e em São Paulo por eleições presidenciais em 88. E, no dia 2 de Agosto, o PT lança Lula candidato à Presidência da República. Em novembro finda a moratória, o Brasil volta ao FMI e paga US$ 500 milhões da dívida. 

Minha infância sofreu forte influência da herança maldita da Ditadura. Ainda assim, tive a sorte de me livrar da Constituição de 1967 (feita nos anos de repressão), e usufruir dos primórdios da Nova Constituição promulgada em 1988 por José Sarney e Ulysses Guimarães, a atual Constituição Cidadã e sua democracia liberal. Lá eu estava com 05 anos de idade.

O ano agora é 1988 (eu com 05 anos de idade). Os ministros militares apoiam cinco anos de mandato para Sarney. Naquela época, os EUA já impunham sanções comerciais ao Brasil para forçar aprovação da Lei de Patentes. E a boa notícia vem em 22 de Setembro – a Constituinte aprova a nova Carta Magna. Em 5 de outubro, Ulysses Guimarães a promulga, batizada de “Constituição Cidadã, de 1988”. Na contramão, o Exército mata 03 metalúrgicos em greve no RJ e é assassinado por fazendeiros o sindicalista acreano Chico Mendes. Também uma CPI do Senado denuncia 29 pessoas por corrupção, entre elas, o próprio presidente Sarney.

Chega o ano de 1989. Lá estou com 06 anos de idade para receber a quarta moeda da minha vida – o cruzado novo (NCz$). Sarney anuncia o Plano Verão, com congelamento, desindexação, demissões no funcionalismo. Nessa época, uma greve geral com 42% de adesão vai contra a política econômica e também uma greve de portuários. Em novembro do corrente ano acontece a 1ª eleição presidencial em 9 anos, e Collor e Lula se classificam para o 2º turno. Collor vence Lula por quase 4 milhões de votos, infelizmente. O Brasil entra no 6º mês sem pagar a dívida externa. A inflação do ano acumula 1.764,9%!!!

No dia 12 de julho de 1989, foi lançada a chapa Collor-Itamar Franco para sucessão presidencial. Collor e Lula participam de debates, vão para o 2º turno, e Collor vence e toma posse em 15 de Março de 1990. Eu estava com 7 anos de idade. No Plano Collor 1, há bloqueio das contas correntes e de poupança. O Cruzeiro volta a substituir o Cruzado Novo, mas mantendo o mesmo valor. Zélia Cardoso, sua Ministra da Economia, negocia com os EUA e o FMI e bancos o reinício do pagamento da dívida externa (mas depois propõe plano de conversão da dívida externa em títulos e diz que os US$ 10 bilhões de juros em atraso não serão pagos em 1990). São demitidos 354 mil funcionários públicos. Há uma greve nacional de petroleiros por aumento salarial e contra 1,5 mil demissões. Collor demite 53 mil servidores federais e põe 52 mil em disponibilidade, com corte salarial. Viaja aos EUA e é entrevistado por empresários, banqueiros e tem encontro com o presidente George Bush, que visita Brasília. Em Dezembro de 1990, os EUA arrestam dois navios do Lloyd Brasileiro como garantia de pagamento de dívidas. Collor decide a privatização ou extinção do Lloyd. A inflação no ano bate a maior recessão já registrada: 1.198%. Sem verba, o IBGE não realiza o censo demográfico.

Em 1991, é lançado o Plano Collor 2 e o Projeto de Reconstrução Nacional. Mais desgraças: privatizações, fim da estabilidade do funcionalismo, universidades pagas. Em 12 meses, a renda do trabalhador brasileiro despenca 33%. O Governo propõe o fim da aposentadoria por tempo de serviço.

Felizmente, em abril de 1991 (eu com 08 anos de idade), a ONU dá o Prêmio Global 500, de ecologia, ao brasileiro Herbert de Souza, o Betinho. E em 29 de Setembro de 1992, a Câmara autoriza o Senado a processar Collor e afastá-lo da Presidência. Eu tinha 9 anos de idade. O Vice Itamar Franco assume o posto, governando por 02 anos e 03 dias: de 29 de dezembro de 1992 a 1º de janeiro de 1995, eu tinha 12 anos de idade neste ano (tendo como Ministro da Fazenda aquele que criaria o Plano Real e seria presidente por dois mandatos consecutivos – Fernando Henrique Cardoso: 1995-1998 e 1999-2002). 

Seu governo foi marcado pela consolidação do Plano Real, controle da inflação e por reformas de orientação liberal na economia (vendeu grandes empresas estatais, como a Companhia Vale do Rio Doce, a Telebrás e a Embratel). Facilitou a entrada de capital estrangeiro. Criou a famigerada Lei de Responsabilidade Fiscal (2000), que estabelece regras rígidas de controle de investimentos públicos. Aqui eu já estava com 17 anos de idade. Criou o “Bolsa Escola”, a Lei dos Genéricos e o Enem. Quando terminou sem 2º mandato em 2002, eu tinha 19 anos de idade.  


Lula I e II (2003-2010);

Dilma I e II (2011-2016);

Michel Temer (2016-2018);

Bolsonaro (2019-2022);

Lula.3 (2023-2026). 

Eleições (2026).

Lula.4 (2027-2030).

Os desafios de ontem e hoje continuam sendo: superar uma longa trajetória histórica de autoritarismo e violência, sustentada nas práticas paternalistas e tutelares do poder instituído; lidar com uma situação econômica que oscila entre a deterioração e a opulência, com crises de dívidas e péssima distribuição de renda; enfrentar a inserção do país numa economia cada vez mais globalizada e atacada pelo neoliberalismo; avançar em direitos e nos instrumentos legais de afirmação democrática, superando o fosso entre a elite e a imensa massa de excluídos nacionais; ampliar as conquistas sociais dos trabalhadores (com garantias trabalhistas e assistencialismo) e encontrar os meios para tal sem cair nas mãos do mercado ou viver entre um Estado ineficiente ou falido.

Em resumo:

- General João Baptista Figueiredo e Aurelino Chaves (março de 1979 a março de 1985). O último governante da ditadura militar. 

- Tancredo Neves (14/03/1985).

- José Sarney (1985-1990).

- Fernando Collor (1990-1992), impeachment.

- Itamar Franco (1992-1995).

- FHC I e II (1995-2002).

- Lula I e II (2003-2010).

- Dilma I e II (2011-2016), impeachment.

- Michel Temer (2016-2018).

- Bolsonaro (2019-2022).

- Lula.3 (2023-2026).

Enfim, a redemocratização brasileira é tão jovem quanto eu. No governo passado, vimos uma tentativa de justificar, POR DENTRO, uma nova intervenção dos militares na política, apoiada na formulação obscura da função das Forças Armadas como responsáveis pela defesa da ordem interna, depois de colapsar a nação com uma pandemia e fanatismos. Não conseguiram! Agora, sofremos uma agressão externa com uma tentativa POR FORA da interferência dos EUA. Não conseguirão!!!

domingo, 2 de agosto de 2026

A Crítica da Servidão.

O homem está condenado a ser livre?

Ou é inocente para ser servo?

Os primeiros humanos eram servos da natureza ou servos de divindades mágicas idealizadas por eles.

Nas primeiras formas de organização social e econômica, não havia propriedade privada (da terra ou dos meios de produção) e nem classes sociais. O trabalho e os recursos eram divididos coletivamente entre o grupo ou clã, pois não havia excedente nem exploração. Ao ser servido pela natureza, o homem era servo de si mesmo.

A força do coletivo sobre a vida individual trouxe a servidão comunitária. A necessidade de prestar serviços ao coletivo, cuidando da agricultura, da pecuária, das obras públicas e da gestão da água ou das forças hidráulicas para sustentá-la. Ao servir o grupo ou Estado, o homem passou a experimentar a servidão coletiva.

A servidão de um homem a outro homem nasceu na transição do escravismo (séculos I a V) para o feudalismo (séculos V a XV), graças a formulações “jurídicas” e tributárias. O escravismo foi imposto pelo trabalho forçado na agricultura, no artesanato ou em grandes construções por prisioneiros de guerra ou envolvidos em dívidas. Essa base sustentava os homens livres. Quando ruiu, esses “escravos” fugiram para o campo em busca de abrigo e sobrevivência. Os grandes proprietários de terras passaram a oferecer proteção e lotes para cultivo em troca de obrigações e trabalho. O antigo escravismo deu lugar a um modo de organização político e social baseado nas relações entre senhor feudal e servos (Idade Média).

Também aqui se destacou (e se destaca até os dias atuais) o feitio de ordens religiosas que funcionaram (e funcionam) como grandes proprietárias de terras e de dízimos, exercendo controle e utilizando o trabalho de servos de maneira similar à estrutura senhorial feudal, mediante a arbitrariedade da fé cega. É a servidão religiosa.

Ao transferir esse poder de coerção pela posse da terra para a máquina estatal, os monarcas centralizaram as decisões, os impostos e as leis como se fosse “um poder divino”. A servidão a um rei só foi rompida pela nobreza que, para garantir seus privilégios, iluminaram novas formas de trabalho, arrendamento monetário, organização nacional e burocrática. Em vez de servir para o consumo local, passou-se a servir para a exportação. Produzir para exportar e acumular riquezas nas nações comerciais. O mercantilismo (séculos XV a XVIII) e os privilégios da nobreza foram substituídos pela livre iniciativa, leis iguais para todos e garantia de direitos individuais, graças a revoluções (francesa e inglesa, séculos XVII e XVIII). É a servidão ao comércio.  

O grande acúmulo ou concentração de riquezas e a geração de profundas desigualdades promovidas por esse modo de produção capitalista produziu imperialismos, causou crises, guerras e protestos contra o Estado Liberal e a aclamação de um estado de bem-estar, o Estado Social (século XIX). O Estado passou a intervir na economia e a garantir direitos sociais básicos (saúde, educação, previdência, leis trabalhistas, etc.). O homem passou a servir Cartas, Leis e Constituições. Um novo estado passou a combinar as garantias políticas e individuais do liberalismo clássico com a forte proteção de direitos sociais e a centralidade da constituição e da democracia.

Sem desejar largar o osso, as elites que experimentaram a centralização do poder no curso histórico apostaram no neoliberalismo (século XX: 1970/1980) como uma resposta à crise do Estado Social, propondo a redução do tamanho do Estado, privatizações e desregulamentação da economia. A ideia no novo liberalismo é retomar alguns princípios liberais adaptados ao cenário da globalização. É a servidão ao mercado financeiro. Para isso, utiliza aparatos midiáticos e industriais para captar a consciência e a capacidade de escolha das pessoas. É a servidão voluntária ou do desejo do servo em ser Senhor por meio da indústria, do capital, do ideal de “ser rico”, do entretenimento e do consumo.  Também com o acúmulo e desenvolvimento de tecnologias, o avanço das Big Techs, dos Data Centers e da IA, uma sociedade da Matrix, poder-se-ia teorizar a servidão às máquinas no alvorecer do século XXI.

E foi assim que chegamos aos dias atuais. O governo passou a ser visto como representante do povo ou da nação, e não mais dono do Estado. A democracia e o ideal de soberania popular é uma tensão dos nossos tempos, que ora esclarece ora confunde, recebendo tensão de todas as formas de servidão. O homem passou a ser servido ao servir - o meu Senhor é o povo. É o servidor público!

Enfim, são muitas as servidões e vários os senhores. A escravidão é o sonho da elite. Sua obsessão é disfarçar a servidão em novos rótulos. Se olharmos para a história da humanidade em geral, e a história do Brasil em particular (300 anos de escravidão e 21 anos de ditadura declarada), tivemos mais experiências autoritárias do que democráticas. Essa herança cultural violenta e maldita ajuda a explicar a nossa dificuldade em estabelecer a liberdade e a igualdade pelas relações não hierarquizadas do diálogo.

COMUNISMO PRIMITIVO – SERVIDÃO COMUNITÁRIA - ESCRAVISMO ANTIGO - FEUDALISMO – ABSOLUTISMO – MERCANTILISMO - ESTADO LIBERAL – DITADURAS -  CONSTITUIÇÕES – ESTADO SOCIAL – DEMOCRACIA – MATRIX.

sábado, 1 de agosto de 2026

Ponto de não retorno.

 

Se você tira mais do que repõe, o dinheiro da poupança, por exemplo, um dia ela vai zerar. Se você poda uma árvore mais rápido do que ela brota, um dia ela vai tolher. Se você tira água de um lago mais do que a chuva cai nele, um dia ele vai secar. Se você tira a paciência de uma pessoa ou a sua energia de trabalho mais do que seu descanso, a saúde mental e física dela vai colapsar. Se você come açúcar ou ingere qualquer outra coisa mais do que o seu corpo é capaz de metabolizá-la, isso não é bom. E mais exemplos de volumes extraídos sistematicamente superiores à capacidade de recarga não faltariam...

Porém, os exemplos acima só se encaixam no “ponto de não retorno” se houver o comprometimento da capacidade de reposição de algo ou de alguma coisa, abrindo espaço para o irreversível. Isto é, se atingir o limite sem chances de regeneração (como vem ameaçando de acontecer com alguns biomas brasileiros). É o limite crítico além do qual voltar atrás é impossível, perigoso ou proibitivamente caro. Lembra daquela roupa branca que você deixou encardir? E da infância e adolescência que não voltam mais? 

Tudo bem que nada é para sempre. E que o pra sempre, sempre acaba. Mas, nada deve ser esgotado antes da hora. Então, o que você está fazendo enquanto o mundo está acabando? Só nós, tentando agarrar ao que já se foi? Ora, pior que não poder voltar atrás ou não conseguir ir adiante é não sobreviver sem saída. Após esse marco, a única opção segura é estagnar ou seguir em frente.

Enfim, se não houver um horizonte, e nem a vida for possível na sua própria estagnação, que é direção nenhuma, então é preciso apelar para o óbvio – evitar qualquer ponto que nos impossibilite de se recompor.

Abastecer humanos e máquinas.

 Quem pagará a conta pelo desenvolvimento tecnológico?

Não bastassem os 8,3 bilhões de pessoas para alimentar, o mundo ainda precisa abastecer robôs e máquinas, potenciais consumidores de recursos naturais.

A revolução da IA fez disparar a construção de “Data Centers” no mundo inteiro. Um Data Center é uma central ou processador de dados, local onde as informações são armazenadas, processadas e distribuídas. Segundo a ONU, a água utilizada por eles será o equivalente ao consumo de 1,3 bilhão de pessoas. Quase uma China! E o consumo de energia multiplicado por 3x (equivalente a 2 bilhões de pessoas abastecidas). Estamos preparados para isso? Sozinhos, os EUA têm +3 mil Data Centers em funcionamento e outros 1,5 mil estão em construção. Além dos humanos, as máquinas para sustentar. O Planeta dará conta?

Hoje, a maior Central de Data Center do Brasil fica em Barueri (região central de SP). São 9 prédios, 3 deles com mais de 80 m de altura. Estruturas feitas apenas para abrigar processadores de dados (1/3 de todos os dados de internet do Brasil, principalmente mensagens de texto, compras online e transações bancárias). Um verdadeiro complexo tecnológico!

O Brasil está na mira como destino desses investimentos bilionários, pois o País ainda não tem uma regulamentação para esses grandes consumidores de água, minerais e de energia. Por isso, uma das maiores plataformas digitais do mundo já iniciou as obras para a construção do maior Data Center da América Latina (fica em Caucaia, Fortaleza, CE). Projeto orçado em R$ 200 bilhões vai ocupar uma área equivalente a 100 campos de futebol. A construtora é a Omnia Data Centers e opera para a ByteDance, proprietária do TikTok. Espera estar funcionando já em 2028!

Enfim, se a Internet e seus aparatos chegaram para ficar, e os Datas Center são inevitáveis, uma saída seria adotar tecnologia de ponta nesses equipamentos que promovam o uso racional dos recursos. Afinal, ainda nem encontramos uma forma social sustentável para toda a família humana e agora ainda temos o agravante de incluir na mesa os robôs e as máquinas. 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O legado do insuportável.

 O Trump está vencendo na guerra tarifária?

O uso da política comercial como instrumento de coerção parece que veio para ficar. Porém, ele está se tornando mais seletivo e deliberado, conforme os efeitos causados nas vítimas. Felizmente, o Governo brasileiro não se curvou. A ideia era coagir, intimidar e diminuir o país, e continuará contundente.

Trump insiste a todo vapor com sua guerra tarifária, mas até agora são poucos os resultados. Ele anunciou alguns investimentos, mas sua indústria não vive um boom. O déficit do país praticamente não mudou nada. Os EUA são um país de alta renda que dependem muito de impostos sobre importações para arrecadar receitas. As tarifas geraram alguma arrecadação (5% ou US$ 24 bilhões), com a Suprema Corte por lá considerando parte delas ilegal, como de fato é.

Também a opinião pública continua cética: cerca de 06 em cada 10 norte-americanos não confiam em suas decisões em matéria de política comercial. Por aqui a incredulidade é ainda maior!

Enfim, o presidente está tentando prejudicar outros países dando um soco no rosto dos próprios americanos. O poder de intimidação não surtiu muito efeito, mas ele continuará tentando até as urnas darem um "Basta!". Nem todos estão se dobrando às suas chantagens, e nem precisa. Muitos dos seus anúncios jamais se concretizaram. Afinal, Trump mais se parece com um avô resmungão, sacudindo o punho para as nuvens. Tomara que em breve, nem isso!


Cadê a oposição nos EUA? O que a mídia fez com os Democratas?

Tudo é muito ruim até que gerem lucros. Benefícios ajudam a curar ressentimentos, esquecer mágoas e apagar memórias funestas. Isso sugere que a atual política econômica de Trump, tão nefasta para os interesses do resto do mundo, só será corrigida se produzir grandes estragos internos para a própria economia dos EUA. Caso contrário, vai passando...

Trump transformou o Imposto de Importação (tarifa alfandegária), cuja natureza é regulatória, em taxa arrecadatória. Isso significa que os tarifaços renderam receita extra. Na secura do Tesouro dos EUA, um possível sucessor de Trump será capaz de abrir mão desses recursos? Claro que não!

Muita coisa da política de Trump pode ter vindo para ficar se cifras se mostrarem resilientes. Trump não age sozinho. A política protecionista não é prerrogativa dos redutos trumpistas. É pleito mais amplo e mais arraigado nos EUA.

Prova disso, a administração Joe Biden, que sucedeu em 2021 ao 1º mandato de Trump, manteve muitas de suas políticas e determinações. Quatro exemplos:

1.     As tarifas de importação, de 25%, em 2018, correspondentes a US$ 50 bilhões anuais, foram mantidas. E ainda foram aumentadas para setores estratégicos, tais como: veículos elétricos, semicondutores, painéis para energia solar, aço e alumínio;

2.     Biden reforçou as restrições às importações pela China de chips de última geração e de máquinas para produção de semicondutores, e ainda prometeu bloquear o acesso da China à tecnologia de ponta;

3.     Trump substituiu o Nafta (acordo comercial EUA-México-Canadá) pelo USMCA, que aumentou as exigências de conteúdo local na produção de veículos. Tudo foi mantido;

4.     Manteve, também, as negociações dos Acordos de Abraão, destinados a restabelecer os canais diplomáticos entre Israel e países árabes.

Ora, alguém no capitalismo pode ser muito detestável e transloucado, mas acabará sendo aturável enquanto estiver rendendo dividendos e enchendo bolsos. É a forma de abrir uma exceção para o insuportável. E dessa forma segue Trump produzindo uma reviravolta na ordem econômica mundial, atirando o livre comércio a um lado e decretando o intervencionismo do Estado no outro, enquanto os ganhos o defenderem.  

domingo, 26 de julho de 2026

A escrita sem esforço.

  

A decadência da leitura não acontece sozinha. A escrita também está ameaçada. E uma coisa tem muito a ver com a outra. A principal característica da sociedade pós-letrada é a perda do discernimento porque essa é a habilidade que a IA destrói.

Na era digital, o visual e o oral prevalecem como meio de aquisição de conhecimento, escanteando a linguagem escrita que, por natureza, exige mais repertório e raciocínio. Talvez haja alguma vantagem ainda desconhecida nesse novo modo de aprender, mas está difícil enxergá-la.

Desde o lançamento do ChatGPT, em 2022, triplicou o número de livros à venda na Amazon. Isso não significa alta qualidade nas obras ofertadas. Pense ainda na quantidade inútil de áudios de WhatsApp que são ouvidos ou transcritos, porque suas mãos andam ocupadas ou obsoletas demais. 

De forma muito estranha, estão criando novas bibliotecas artificias que ninguém lerá. Nesse triste aspecto, nossa sociedade já é uma distopia. Dificuldades crescentes de interpretação estão presentes até entre estudantes de renomadas universidades.

Enfim, ler e escrever transformou nossa civilização e nossa consciência profundamente. O declínio da escrita e da leitura já traz mudanças ruins da mesma magnitude. 

sábado, 25 de julho de 2026

A verdade sobre a água.

"Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" (Antoine Lavoisier).

A água é uma só, independentemente da sua origem. Isso significa que a água que existe hoje é praticamente a mesma desde a formação do planeta, porque a Terra é um sistema fechado.

Embora o volume total seja constante, a quantidade de “água potável” (própria para consumo) em locais específicos pode mudar devido à poluição, ao desperdício e às alterações climáticas. Logo, a água não está acabando, mas é a “água fácil” que está cada vez mais difícil.

A água não deixa de ser água, mas vai ganhando conotações conforme o seu uso (“água superficial”, “água subterrânea”, “água potável”, “água fácil”, “água difícil”, “água isso”, “água aquilo”, etc.). O ciclo hidrológico move e recicla a mesma água continuamente entre os oceanos, a atmosfera, o solo e os seres vivos por meio de evaporação, condensação e chuva. Desse modo, ela muda de forma constantemente, transitando entre o estado líquido (rios e oceanos), sólido (geleiras e neve) e gasoso (vapor d’água). Assim, ela não desaparece nem é criada do nada.

Enfim, a quantidade total de água no nosso planeta permanece essencialmente constante ao longo do tempo. A “água comum” não está acabando – está mudando de endereço. No novo normal hídrico, com escassez, seca e eventos extremos se tornando a norma, e não a exceção, a crise exigirá reuso e inteligência/tecnologia para ir buscar a “água que era fácil” onde ela estiver. Trata-se de uma crise com solução, mas é cara. Não teremos mais o privilégio de devolver diretamente a água ao meio ambiente, mas sim, direcioná-la a outro uso. A “água doce” está em falência, mas a “água residual” está aumentando. Seja do mar ou do esgoto, convertê-la exigirá tecnologia, energia e mudança de paradigma regulatório e cultural.

sábado, 11 de julho de 2026

REDAÇÃO I, 2026.

 As Contradições dos EUA.

As 13 colônias britânicas tornaram-se independentes em 1776, depois de muita resistência de seus colonos. Suas lutas foram fundamentadas em princípios iluministas, que fizeram surgir o Estado Liberal como “a verdade econômica”. Todavia, 250 anos depois, o que os 50 estados e o Distrito Federal dos Estados Unidos da América não aprenderam com a sua própria história dita republicana?  

No curso da história, o foco de exploração foi sendo alterado pelos exploradores de riquezas. A princípio, estava centralizado nas commodities, depois passou a ser o comércio, adiante a terra e em seguida chegou no “trabalho humano”. Atualmente, quem domina a tecnologia e os centros de informação tenta controlar todos os focos anteriores e se impõe no mercado e no mundo - são as gigantes tecnológicas e de semicondutores da fase atual do capitalismo financeiro e digital.

Sabemos que o liberalismo econômico é a cartilha do capitalismo, que condena o controle estatal e aposta na exploração do trabalho como fonte de riqueza. Para isso, aplica o racionalismo na produtividade através da concorrência, da divisão do trabalho e do livre-comércio, prometendo uma coisa que não vem se consolidando – o equilíbrio social. A alta concentração de renda pela formação de nichos fechados de bilionários e trilionário, por um lado, e um sistema frágil de seguridade social e má distribuição de renda do outro, escancara as desigualdades sociais produzidas pelo sistema de classes. Esses são os atuais EUA... 

Ora, uma nação que encorajou e valorizou as experiências individuais, mas deixou de lado o princípio da igualdade entre as pessoas. Que deu exemplo de superação dos laços de sujeição e valorização das ciências, mas cujo progresso alcançado tem concentrado tecnologia a serviço da espionagem, do poderio bélico, da tomada de recursos alheios, da monopolização do comércio global e do controle espacial. Que é o berço da democracia na América e exemplo dos movimentos emancipacionistas, mas que nos primórdios de sua nova república ficava restrita às decisões de homens comerciantes e latifundiários, tradicionalmente brancos, ingleses ou descendentes. Que tem uma das mais sólidas e concisas Constituição, mas ainda prega o negacionismo, a barbárie e a negação de direitos. 

O próprio país que lutou para tornar-se independente de taxações abusivas e leis intoleráveis dos ingleses, hoje tenta aplicar tarifaços excessivos a parceiros comerciais. O mesmo país que foi formado por nativos indígenas asiáticos miscigenados com estrangeiros africanos escravizados e europeus, hoje levanta muros xenofóbicos e tentam aplicar uma política intolerante à imigração. A mesma nação que nasceu defendendo os princípios da liberdade, da autodeterminação, da vida, da segurança, da livre expressão, do espaço privado e da felicidade, provoca ou financia guerras mundo a fora, tentando violar a soberania de outras nações e impor a homogeneização de seus valores aos diferentes povos. O país que faz intervenções bélicas em outras nações alegando a contenção do enriquecimento de urânio é também a nação que ocupa o segundo lugar em arsenal de ogivas nucleares e o primeiro no ranking de poluição global. 

Apesar dos EUA serem uma potência tecnológica e cientificamente avançada, com uma aparente separação entre Ciência e Teologia, suas alas conservadoras ainda desejam ensinar a Bíblia nas escolas em pleno século XXI, mostrando o quão essa Ciência não foi liberada da ficção. Pairou aí, graças ao liberalismo (natural, selvagem, radical, original) uma ideia mística sobre a Natureza e seu poder transformador. Uma visão radical que alimentou espíritos vazios e niilistas, dos mais revolucionários radicais aos mais omissos e submissos. 

Tudo isso mostra que a liberdade pode ser perigosa se entendida como um conceito irrestrito, puramente político-ideológico e econômico, desvinculado do compromisso ético e existencial. Vale dizer um populismo anti-institucional e anti-sistema. Imagine um grupo livre e frustrado pela recessão, pela insegurança e pelo desemprego, formado por gente ignorante que, em nome da sua suposta liberdade individual, promove comícios com seguranças armados, retórica racista, misógina e homofóbica, estimula a formação de milícias, rotula e condena medidas e programas sociais como “tirania socialista” ou "comunista" e fala até em uma nova guerra civil. Uma liberdade individual dessas, sobreposta ao Estado, como possibilidade do indivíduo decidir, por si próprio, onde e como deve aplicar seus recursos, priorizando a esfera privada em relação à esfera pública, e a primazia dos interesses pessoais sobre os interesses coletivos, é uma liberdade fantasiada de patriota ignorante – e esperto, com disposição a cometer suicídio democrático ao atacar o próprio voto e as urnas em nome da liberdade de abusos e excessos. Ela existe nos EUA (trumpismo), e por aqui ficou bastante conhecida como “bolsonarismo” ou o populismo averso da extrema direita. 

Enfim, dentro da lei, ninguém é livre para suprimir ou violar a liberdade de outros! Um governante deve estar a serviço dos governados, e não o contrário. Caso não cumpra sua função, é legítimo que os cidadãos se levantem contra ele, nas ruas e nas urnas. Afinal, se há alguma soberania ela deverá ser popular e com qualidade, sem ser negociada, onde a liberdade caminha de mãos dadas com a responsabilidade, a igualdade, a justiça, a Constituição e a Democracia. Caso contrário, esses são os EUA a quem não queremos pertencer e muito menos nos tornar!

REDAÇÃO II, 2026.

Um Projeto Modernizador para o Brasil. 

O Brasil está em desenvolvimento, situado no capitalismo periférico. Séculos de subordinação colonial e de dependência estrangeira geraram entraves à modernização do país. Isso nos coloca na necessidade de um Projeto de Nação que supere obstáculos históricos, promova desenvolvimento social presente e estabilidade futura.

Inspiração de boas propostas ou metas de superação do atraso podem ser extraídas de países como a Noruega, a Dinamarca e o Chile. Exemplos de forte distribuição de renda e eficiência em políticas públicas de bem-estar social, essas nações se destacam pelo alto índice de desenvolvimento humano que desejamos. Aliás, o Brasil vem caminhando nessa direção. Apesar da derrota na Copa recente para a seleção da Noruega, o país venceu ao voltar a ocupar o time das dez maiores economias do mundo, com IDH considerado dos mais elevados.

Claro que diante desse tema tão desafiador, que envolve vultosos investimentos e cifras de dinheiro público, interesses ambiciosos e divergentes colocarão esse Projeto entre a geração de renda social versus a geração de lucros privados e corporativos. Também colocará as cartas entre a política e a economia, em disputas por áreas se de investimento exclusivo de empresas nacionais e estatais ou de exploração da iniciativa privada via privatizações. Nessa ceara entraram, por exemplos: o silenciado Pré-Sal e a barulhenta polêmica atual de exploração de petróleo na Margem Equatorial da Bacia da Foz do Amazonas; o Plano Safra e as acirradas disputas por linhas de crédito ao agronegócio ou a Agricultura Familiar, se pelo Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES ou os Bancos Privados; também a questão da mobilidade, se para o transporte público coletivo ou os megaprojetos logísticos de construção de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos para exportação de commodities; ou ainda a questão da moradia no Brasil, se se alimenta a ganância voraz dos aluguéis do setor imobiliário ou a linha de crédito para compra ou reforma da casa própria. E por aqui se adentram outras disputas público-privadas em áreas estratégicas de educação, saúde, segurança, recursos minerais e energéticos, cultura, ciência e tecnologia, etc. 

Desse modo, qualquer promessa de modernizar o Brasil implica deixar claro o que se entende por "modernização". Se for a diminuição do papel do Estado, a defesa do livre mercado, privatizações, fim dos subsídios, a abertura para importações ou a entrada de grande volume de mercadorias importadas a preços baixos ou o estímulo às compras no exterior (o que faz a atividade industrial nacional despencar), o deslocamento de recursos da poupança para o consumo, a concessão do dinheiro público como benefícios a grupos privados, o violento corte nos gastos públicos com demissão de funcionários do governo e aumento generalizado de impostos e a gradual liberalização e livre negociação de salários... Nesse nível, presidentes de estatais acabarão sendo pressionados a realizar negócios contraditórios aos interesses públicos da empresa e favoráveis a grupos particulares. Ora, isso não será uma "modernização", mas uma corrupção ou "adequação" do Brasil à nova realidade do neoliberalismo conservador mundial. O mercado vai gerar e concentrar riquezas para alguns (que terão maior poder de influência), mas a maioria dos extratos mais humildes da população sofrerá demissões, exclusões e dificuldades sociais. Que democracia é essa? Liberal ou social?

Tome como último exemplo a necessidade de industrialização e inovação nesse Projeto Modernizador do Brasil. Devemos abrir as fronteiras para as multinacionais se instalarem, permitindo a ligação unilateral entre o capitalismo nacional e o internacional como os EUA estão fazendo com o petróleo da Venezuela? Ou fazer uma política industrial multilateral que nos retire da posição de párias e meros exportadores de matérias-primas vendidas em dólar e importadores de máquinas e insumos para só produzir mais, com mão de obra barata e baixa ou nenhuma seguridade social e trabalhista? Aliás, as relações do mundo do trabalho também, e principalmente, estão nesse jogo. Precisamos olhar com mais carinho o BRICS e o MERCOSUL, bem como suas atuais tratativas de parceria com a Europa e a Ásia. Afinal, não será possível modernizar esse país com mera uberização, informalidade e a falácia do “empresário de si mesmo”, sem retirar os trabalhadores de jornadas exaustivas e baixa remuneração. É por isso que o fim da Escala 6x1 está em disputa entre as ideias conservadoras e liberais do Mercado Financeiro e as propostas do socialismo democrático.

Enfim, um Projeto Modernizador do Brasil entra em disputa por interesses divergentes. Uma modernização do País precisa estar alinhada com as metas globais de neutralidade de emissão dos gases de efeito estufa, focada na garantia de direitos e no fortalecimento das instituições democráticas, das capacidades estatais e da soberania nacional. Perpassa, assim, prioritariamente pela união, desenvolvimento, sustentabilidade e reais avanços sociais do povo brasileiro!

REDAÇÃO III, 2026.

Ao 02 de Julho... 

Independência é projeto de igualdade e liberdade. 

A Independência do Brasil não é uma espada levantada ou um simples grito entoado há 204 anos atrás. Com retrocessos, permanências e avanços, ela é um projeto contínuo de liberdade e revoluções.

O que se comemora no dia 07 de setembro na verdade foi uma aliança de interesses entre realeza e elite dirigente, com disposição autoritária e absolutista de um lado, e comércio livre e capitalista do outro. Rompeu-se com o monopólio e a dependência política de Portugal, mas deixou o Brasil vulnerável a interesses hegemônicos da Inglaterra e outras nações. Herdamos uma estrutura hierárquica comandada por comerciantes, grandes proprietários rurais, traficantes de escravos e funcionários de alto prestígio, sem falar do legado cultural e simbólico, presentes não só no racismo estrutural como também no forte preconceito contra o trabalho manual, tido como desonroso e ocupação de desclassificados.

A memória da Independência do Brasil ainda é construída em cima de indivíduos especiais e heroicos, mas sabemos que sua verdadeira consolidação só se dará como obra coletiva de lutas e avanços sociais. Segundo dados de historiadores e especialistas, o Brasil de 1822 tinha aproximadamente 4,5 milhões de habitantes e 99% dessa população era analfabeta, com 5% apenas de idosos e expectativa de vida de 25 anos! Hoje, no século XXI, passamos dos 213 milhões de habitantes, com 4,9% de analfabetos e chegaremos a 40% de idosos até o final do século, com a atual expectativa média de vida de 76,6 anos. Estaríamos assim hoje sem revoluções de resistência pela autonomia e emancipação política, econômica e social?  

Tudo isso mostra que é preciso fortalecer a consciência nacional ou a identificação definida da soberania brasileira. Nenhuma Independência ocorre sem o desenvolvimento da autoconsciência política, econômica, cultural e ideológica, acompanhada da reivindicação de autodeterminação delas. Sem isso, a história revela aglutinações internas ou movimentos separatistas que acabam lutando pela substituição de um tirânico por outro, tornando a independência um fenômeno social incompleto. É preciso ir além, e avançar essa espiral de liberdade e democracia. Afinal, só a autonomia crítica aliada ao desenvolvimento social reunirão as gerações do caboclo, do sertanejo, do indígena, da mulher, do branco pobre e do negro marginalizado em novas e originais resistências para evitar neocolonizações.

Enfim, independência não é pacto político com tempero tropical de um príncipe absolutista e uma elite escravista e liberal. Não pode ser um acordo restrito e centralizado apenas aos grupos partidários dominantes. É pelo passado e pelo presente que a independência é um projeto contínuo de igualdade e liberdade do povo, movido por um sentimento nacional coletivo. Esse projeto só terá futuro se for uma arte da educação e da não violência de todos nós, o que implica engajamentos e superações - de "tarifaços", do comércio injusto, da concentração de riquezas e privilégios, da extrema direita, do neofascismo, da depredação do meio ambiente e da fome.