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São Francisco do Conde, Bahia.
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"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 206, inciso II, da Constituição de 1988).

"Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados" (Myles Horton, p. 138).

“Por que escrevemos? Além de todas as recompensas, escrevemos porque queremos mudar as coisas. Escrevemos porque temos essa convicção de que podemos fazer diferença –uma nova percepção de beleza, um novo insight sobre a autocompreensão, uma nova experiência de alegria, uma decisão de unir-se à revolução" (Robert McAfee Brown). "Escrevo esperando fazer minha parte para restringir a intuição com o pensamento crítico, refinar os juízos de valor com compaixão e substituir a ilusão por compreensão” (David G. Myers, p. 47). “Escrever é um ato de egoísmo, porque é uma forma de eu não esquecer das coisas que aprendi. Mas também é um engajamento. É a minha maneira de fazer política, de ajudar a pensar nosso país e de mostrar ao Brasil um Brasil que ele não conhece, que foi ocultado das narrativas hegemônicas” (Daniel Munduruku).

“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Educação Crítica.

 Perguntas & respostas críticas em Educação.

Como atuar de modo crítico no campo pedagógico?

Como ser um professor que, ao agir, desenvolve uma prática de caráter crítico?

Obra: "A Paixão da Criação" do russo Leonid Pasternak (1915): foco no lado visceral da criação — um esforço diário marcado por dúvidas, concentração profunda e exaustão. Criar exige muita dedicação e esforço! 

É possível fazer a revolução social pela revolução educacional, isto é, através da escola? Realidade ou utopia? É possível transmitir conteúdos mais complexos para as bases populares sem empurrar o professor para os aspectos da escola tradicional? A escola pública, no contexto da sociedade capitalista atual, possui, de fato, a capacidade de gerar emancipação antes que ocorra uma revolução estrutural na sociedade? Quando e como a escola pode atender aos interesses dos trabalhadores? Para que serve ensinar uma disciplina como geografia, história ou português aos alunos concretos com os quais se vai trabalhar? Em que essas disciplinas são relevantes para o progresso, para o avanço e para o desenvolvimento desses alunos? Como tornar o saber sistematizado assimilável pelas novas gerações, ou seja, por aqueles que participam de algum modo de sua produção enquanto agentes sociais, mas participam num estágio determinado, estágio esse que é decorrente de toda uma trajetória histórica? Como a população pode ter acesso às formas de saber sistematizado de modo a expressar de forma elaborada os seus interesses, os interesses populares?

 Perguntas pedem respostas assim como problemas exigem boas soluções. O risco da pergunta crítica é o de não oferecer uma ação concreta como solução. Questionar sem agir é correr o risco de se tornar um crítico-reprodutivista. Isto é, uma pessoa que se revela capaz de fazer a crítica do existente, de até explicitar os mecanismos do existente, mas não tem proposta de intervenção prática, isto é, limita-se a constatar e, mais do que isso, a constatar que é assim e não pode ser de outro modo. Até faz bem a crítica do existente, mas não o ultrapassa nem o supera porque não tem ou não apresenta alternativa ou algo melhor para colocar no lugar.

O principal problema que os educadores enfrentam, ontem e hoje, é o de afundarem em uma teoria crítico-reprodutivista que não pode oferecer resposta às questões supracitadas. Segundo essa teoria, é impossível que o professor desenvolva uma prática crítica; a prática pedagógica situa-se sempre no âmbito da violência simbólica, da inculcação ideológica, da reprodução das relações de produção. Para cumprir essa função, é necessário que os educadores desconheçam seu papel; quanto mais eles ignoram que estão reproduzindo, tanto mais eficazmente eles reproduzem. Consequentemente, não há como ter uma atuação crítica, uma atuação contrária às determinações materiais dominantes; o professor pode até desejar isso, mas é um desejo inteiramente inócuo, porque as forças materiais não dão margem a que ele se realize.

Qual ou quais as saídas possíveis?

·         Abordar as questões educacionais em termos dialéticos;

·         Estar atento a tudo que acontece na escola a fim de evitar que se inculque a ideologia burguesa e recalque a ideologia proletária, ou seja, a tudo aquilo que atua sobre os trabalhadores de modo a enfraquecer a visão ideológica que eles trazem de sua própria classe;

·         Apostar na luta de classes, na revolução e na ação cultural como um trabalho que precede a mudança da estrutura social; e à revolução cultural como um trabalho que se desenvolve após a mudança da estrutura social;

·         Analisar a educação como um processo contraditório (e é no movimento e no processo histórico que as contradições se explicitam). Daí entender que mesmo o aspecto reprodutor da educação é contraditório e não mecânico;

·         Acreditar que a transformação da estrutura social passa pela escola;

·          Admitir que a escola pode ser um instrumento do proletariado na luta contra a burguesia: a ideologia proletária, a cultura proletária, sua resistência, autonomia e consistência também dependem de processos de escolarização além dos movimentos da prática e das lutas populares;

·          Ser movido/a pela necessidade de criar alternativas, e não apenas fazer a crítica do existente;  

·         Relacionar política e educação de modo dialético, isto é, superar o “politicismo pedagógico” que dissolve a educação na política, bem como o “pedagogismo político” que dissolve a política na educação;

·         Ter competência técnica dentro de um compromisso político. Isto é, entender que a função política da educação se cumpre pela mediação da competência técnica. Para realizar essa função política de forma transformadora, é necessário possuir competência pedagógica e dominar os processos internos ao trabalho pedagógico. A escola cumpre sua função política quando exerce bem sua contribuição pedagógica, ou seja, o papel político da educação se cumpre quando se garante aos trabalhadores e dominados o acesso ao saber, ao saber sistematizado, de forma crítica.

Em suma, a educação tem uma função política no sentido de encontrar saídas equilibradas para a questão pedagógica na base de uma valorização da escola como instrumento importante para as camadas dominadas. Essa função da educação é contraditória e, portanto, a classe dominante se empenha em colocar a educação a seu serviço, ao mesmo tempo em que as classes dominadas, os trabalhadores, buscam articular a escola tendo em vista os seus interesses.

Enfim, diante do exposto, precisamos de 02 coisas básicas para ser um educador crítico e fazer uma educação crítica: o desejo coletivo e as condições materiais para realizá-lo. Alguém que tenta fundar o trabalho pedagógico à base da perspectiva histórica.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O método dialético.

 “O fim de um processo é sempre o começo de outro”.

O método dialético é uma forma de raciocínio baseada no confronto de ideias opostas (tese e antítese) para alcançar uma nova compreensão ou conclusão mais ampla (síntese). Essa mesma síntese gera outras teses e antíteses. 

Ele surgiu na Grécia Antiga como a arte do diálogo e da argumentação com filósofos como Sócrates e Heráclito. Foi evoluindo graças a filósofos como Hegel e Karl Marx. Aquele, usou a dialética para explicar que a realidade e a história se transformam através do pensamento e das contradições. Mas, foi com a adaptação de Marx que o método foi retirado da abstração e levado para o materialismo histórico, afirmando que a base da transformação social não está nas ideias, mas nas condições materiais e econômicas da vida real.

“Para a dialética não há nada de definitivo, de absoluto, de sagrado; apresenta a caducidade de todas as coisas e em todas as coisas e, para ela, nada existe além do processo ininterrupto do devir e do transitório” (Engels).

Vejamos alguns exemplos concretos de sua aplicação:

Exemplo 1: No cotidiano (Uso da tecnologia na educação)

  • Tese (ideia inicial): A tecnologia digital deve ser usada amplamente na escola porque facilita o acesso à informação e moderniza o aprendizado.
  • Antítese (ideia oposta/crítica): A tecnologia digital causa distração, diminui o foco dos estudantes e prejudica a socialização presencial.
  • Síntese (conclusão integradora): O uso da tecnologia é benéfico e necessário, mas deve ser regulado e combinado com momentos pedagógicos presenciais, unindo inovação e concentração.

Exemplo 2: Em trabalhos acadêmicos ou redações (Ensino a Distância)

• Tese: O ensino a distância (EaD) democratiza o ensino e amplia o acesso de pessoas de regiões afastadas à universidade.

• Antítese: O EaD aprofunda a desigualdade educacional pela falta de infraestrutura digital adequada e reduz a troca de experiências acadêmicas.

• Síntese: O EaD é uma ferramenta válida de expansão de vagas, mas exige investimentos estatais em inclusão digital e políticas de apoio para garantir a mesma qualidade do ensino presencial.

Exemplo 3: Em análises sociais e históricas (Meio Ambiente)

• Tese: A poluição de um rio ocorre unicamente pela falta de redes públicas de coleta e tratamento de esgoto.

• Antítese: A poluição do rio é gerada principalmente pelo descarte irregular de lixo sólido e de dejetos industriais pela população e empresas.

• Síntese: A degradação ambiental é um problema multifacetado provocado tanto pela ausência de saneamento básico quanto pelo descarte incorreto de resíduos, exigindo uma solução dupla.

Em suma, como se nota, o método dialético é uma forma de raciocínio que busca a verdade e o conhecimento por meio do confronto de ideias contrárias. O processo da dialética funciona quando, a partir de uma tese (uma ideia ou afirmação inicial) é gerada uma antítese (uma ideia oposta ou contraditória que desafia a tese) e delas é produzida uma síntese (um novo resultado que surge do choque entre a tese e a antítese, superando o conflito anterior e gerando um conhecimento mais avançado).

“Toda realidade é movimento e não há movimento que não seja consequência de uma luta de contrários, de sua contradição interna”. 

OUTROS EXEMPLOS: 

1. Tudo tem uma “história”. Tomando como exemplo uma maçã e um lápis, veremos que a maçã resulta da flor, que resulta da árvore – macieira – e que, de fruto verde, a maçã passa a madura, cai, apodrece, liberta sementes que, por sua vez, darão origem a novas macieiras, se nada interromper a sequência. Portanto, as fases se sucedem, necessariamente, sob o domínio de forças internas que chamaremos de autodinamismo. Por sua vez, para que haja um lápis, uma árvore tem de ser cortada, transformada em prancha, adicionando-lhe grafite, tudo sob a intervenção do homem. Dessa forma, na “história” do lápis, as fases se justapõem, mas a mudança não é dialética, é mecânica. Assim, “quem diz dialética, não diz só movimento, mas, também, autodinamismo”.

2. A quantidade transforma-se em qualidade. Um exemplo é o caso da água. Partindo, por exemplo, de 20°, se começarmos a elevar sua temperatura, teremos, sucessivamente, 21°, 22°, 23° … 98°. Durante este tempo, a mudança é contínua Mas se elevarmos ainda mais a temperatura, alcançamos, 99°, mas, ao chegar a 100°, ocorre uma mudança brusca, qualitativa. A água transforma-se em vapor. Agindo ao contrário, esfriando a água, obteríamos 19º, 18° … 1°. Chegando a 0º, nova mudança brusca, a água se transforma em gelo. Assim, entre 1° e 99°, temos mudanças quantitativas. Acima ou abaixo desse limite, a mudança é qualitativa. Outro exemplo, na sociedade, seria o do indivíduo que se apresenta como candidato, a determinado mandato. Se o número de votos necessário para que seja eleito é 5.000, com 4.999 continuaria a ser apenas um candidato, porque não é eleito. Mas se recebesse um voto a mais, a mudança quantitativa determinaria a qualitativa: de candidato, tornar-se-ia um eleito. Da mesma forma, mais outro exemplo, se um vestibulando necessita de 70 pontos para ser aprovado, com 69 será apenas um indivíduo que prestou exame vestibular, mas, com 70, passará a universitário.

3. A contradição é interna. Exemplo: a planta surge da semente e o seu aparecimento implica o desaparecimento da semente. Isto acontece com toda a realidade: se ela muda, é por ser, em essência, algo diferente dela. As contradições internas é que geram o movimento e o desenvolvimento das coisas.

4. A contradição é inovadora. Exemplo: é na criança e contra ela que cresce o adolescente; é no adolescente e contra ele que amadurece o adulto. Não há vitória sem luta. “O dialético sabe que, onde se desenvolve uma contradição, lá está a fecundidade, lá está a presença do novo, a promessa de sua vitória”.

5. Unidade dos contrários. Exemplos: existe, em um dia, um período de luz e um período de escuridão. Pode ser um dia de 12 horas e uma noite de 12 horas. Portanto, dia e noite são dois opostos que se excluem entre si, o que não impede que sejam iguais e constituam as duas partes de um mesmo dia de 24 horas. Por sua vez, na natureza existem o repouso e o movimento, que são contrários entre si. Para o físico, entretanto, o repouso é uma espécie de movimento e, reciprocamente, o movimento pode ser considerado como uma espécie de repouso. Portanto, existe unidade entre os contrários, apresentando-os em sua unidade indissolúvel.

“Essa unidade dos contrários, essa ligação recíproca dos contrários, assume um sentido particularmente importante quando, em dado momento do processo os contrários se convertem um no outro” (o dia se transforma em noite e vice-versa); “a unidade dos contrários é condicionada, temporária, passageira, relativa. A luta dos contrários, que, reciprocamente, se excluem, é absoluta, como absolutos são o desenvolvimento e o movimento”. 

As dores e as desgraças comuns.

Obra "Cristo como o Homem das Dores" de Albrecht Dürer (1493), representa o justo que paga pelos pecados de um mundo injusto (detalhes: coroa de espinhos, chicote de três nós e o feixe de varas). 

Desgraça nº 01: Acreditar que cultura é acumular informação em vez de historicizá-la pela crítica.

“Nas condições atuais, o saber escolar é dominado e controlado pela burguesia. É de interesse da classe trabalhadora não só dominar esse saber, mas proceder à crítica dele. Precisamos apostar na capacidade da classe trabalhadora de, ao se apropriar do saber “burguês”, inverter-lhe o sinal desarticulando-o dos interesses burgueses e colocando-o a serviço de seus interesses pela historicização e crítica dos conceitos. Se a crítica for submetida à ordem então vigente, isso não será possível. Mas, se a crítica for autônoma, serão desvendados os mecanismos regentes – isso é historicização.” (Guiomar Namo de Mello em “Magistério de 1º Grau: da competência técnica ao compromisso político” citado por Dermeval Saviani em “Pedagogia Histórico-Crítica (PHC): primeiras aproximações”, p. 64).

“É através da crítica da civilização capitalista que se forma ou está se formando a consciência unitária do proletariado, e crítica quer dizer cultura, e não já evolução espontânea e naturalística. [...] E não se pode obter isso se não se conhece também os outros, a sua história, o suceder-se dos esforços que eles fizeram para ser isto que são, para criar a civilização que criaram e que nós queremos substituir pela nossa. Quer dizer, ter noções de que coisa é a natureza e as suas leis para conhecer as leis que governam o espírito. [...] A cultura não se resume a uma coleção de noções, a uma somatória de conhecimentos. Do verdadeiro ponto de vista cultural, a crítica ao passado não significa, pois, outra coisa senão a apropriação ativa do saber acumulado que é, assim, depurado de seus elementos anacrônicos [...]” (Gramsci). 


“Cristo Operário”, de Alfredo Volpi (1951). Mural localizado no altar da Capela do Cristo Operário (Alto do Ipiranga, SP). Cristo é representado sob a ótica e o contexto da classe trabalhadora - sem pompa nem opulência eclesiástica, simples como a dignidade do trabalhador. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O técnico e o político (na Educação).

 O que é a “competência técnica” e quem tem medo do “compromisso político”?

"... Há, sempre, uma direção histórica que os produziu..."

"...O (des)compromisso político governa o mundo e a todos!"

“O conhecimento tem um caráter interessado. A suposta neutralidade é uma questão ideológica. Não existe conhecimento desinteressado e a neutralidade é impossível”!

A “técnica” é a maneira considerada correta de se executar uma tarefa. Já a “competência técnica” é o conhecimento e o domínio das formas adequadas de agir – é o “saber-fazer”. 

O “compromisso político” envolve participação cidadã, responsabilidade ética, atuação profissional e social e, sobretudo, superação da neutralidade. Logo, ele mira o bem comum, a justiça social e a transformação da realidade coletiva. Há engajamento em debates, decisões e ações que afetam a sociedade, indo muito além do pragmático. Também a defesa de direitos fundamentais, como saúde, educação e igualdade, buscando uma sociedade mais justa. Nessa caminhada, há a aplicação de valores democráticos no cotidiano, como o compromisso de educadores com a formação crítica de alunos ou de lideranças com políticas públicas. Enfim, a escolha consciente de se posicionar diante de injustiças, opressões e problemas que afetam a vida em comunidade.

Assim, a suposta pureza de processos técnicos eficientes para o ensino-aprendizagem acaba por mistificar, pulverizar, iludir e desanimar... Pois, o ato educativo carrega sempre consigo determinado conteúdo político. É pelo saber-fazer que as intenções sociais gerais se materializam. É pela metodologia que atua o compromisso político. O caráter mediador da competência técnica se expressa no interior do projeto político. A competência técnica não pode ser considerada "em si", universal, acima dos interesses de classe. Ela é sempre referida a determinada perspectiva política devendo ser aferida a partir daí e não o contrário (in/competências são qualificações atribuídas no interior de uma visão de cultura historicamente determinada). Portanto, qualquer tentativa de distinção entre os aspectos técnico e político será simples abstração. 

Nossa concepção de cultura foca em tudo o que é desenvolvido pela força do trabalho crítico. O mesmo não acontece com a noção de saber universal, presa a uma concepção metafísica (abstrata e a-histórica). É do ponto de vista dialético, centrado na categoria da totalidade concreta, que se podem resgatar as raízes históricas. 

Não seria inteligente nem crítico uma polarização enviesada que contrapõe, de um lado, a competência técnica e, de outro, o compromisso político. Precisamos assumi-los de forma integrada em prol dos interesses das camadas trabalhadoras. Então, o que seria a “incompetência”? Algo ruim ou pura expressão de incapacidade? Depende...

1.      Quando a “competência técnica” NÃO ESTÁ atrelada ao “compromisso político”, a incompetência pode ser muito mais do que um “não-saber”, um “não-poder”, um “não-querer”, um “não-permitir” ou um “não-conseguir”. Ela pode ser muito mais do que a “falta ou carência de bom senso” dos professores sobre a importância da aprendizagem do aluno;

2.      Quando a “competência técnica” ESTÁ atrelada ao “compromisso político”, a chamada “incompetência pedagógica” pode ser um ato de rebeldia, uma postura de transgressão ou uma expressão coletiva de resistência. Pode ser o resultado de um processo de repressão e esvaziamento cultural ou ainda a manifestação de esgotamento da força hegemônica da classe dominante. Pode ser, ainda, UM DESCASO INTENCIONAL do professorado em relação às proclamações do Estado e de sua equipe de técnicos ou para com a tecnologia e metodologias impostas ou ainda o descalabro educacional e a falta de condições, as mais adversas que se pode pensar;

3. É equívoca a bipolaridade entre "competência" e "incompetência". Ideologicamente, ela só mascara o conceito de competência para a cultura dominante e o de competência para as classes emergentes; 

4. A competência técnica não é jamais um momento prévio para o engajamento político, ela já é um determinado engajamento político, um momento no interior do próprio compromisso político (não está antes, não vai depois, nem está fora). É pela competência técnica que se ajuda a desenvolver a capacidade de se caminhar e, portanto, o compromisso político se realiza;

5. O conceito de mediação indica o caráter instrumental da educação. A educação é mediação porque o que se passe em seu interior não se explica por si mesmo, mas ganha este ou aquele sentido, produz este ou aquele efeito social dependendo das forças sociais que nela atuam e com as quais ela se vincula. Logo, a prática do professor tem sempre um sentido político, tendo ele consciência ou não disso.

É impossível fazer uma boa capacitação de professores sem concretizar uma linha política. Para ser boa, a capacitação aflora o compromisso político em vez de adestrar o professor a uma visão assistencialista ou conformá-lo em seu sentimento de impotência, um derradeiro gesto de resistência. Sem ele, jamais terão as condições objetivas para atingirem a nova competência exigida pela concepção histórico-proletária de cultura.

O compromisso político é o ponto crítico do processo educativo. A velha concepção de cultura a define como sendo enciclopédico-burguesa. Isto implica uma escola capitalista à qual devemos desobedecer e quebrar suas regras estabelecidas. O que colocar no lugar? A “visão cultural socialista”, que incorpora as conquistas das culturas passadas e o espírito divergente e oposto, a filosofia da práxis, a caminhada e a capacidade de caminhar, o horizonte e o engajamento político, aprofundar e ampliar a reflexão crítica. Tudo mirando um objetivo: realizar o encontro das massas trabalhadoras deste país consigo mesmas ao reconhecerem seus direitos, seus deveres, sua história, seu futuro. 

Assim entendido, longo de se opor à "concepção histórico-proletária de cultura", o saber escolar constitui o seu ponto de partida, ver a competência técnica dentro do compromisso político, já que é ele que: 

“cria os primeiros elementos de uma instituição do mundo liberta de toda magia ou bruxaria, e fornece o ponto de partida para o posterior desenvolvimento de uma concepção histórico-dialética do mundo, para a compreensão do movimento e do devenir, para a valorização  da soma de esforços e de sacrifícios que o presente custou ao passado e que o futuro custa ao presente, para a concepção da atualidade como síntese do passado, de todas as gerações passadas, que se projeta no futuro. É este o fundamento da escola elementar” (Gramsci). 

Quem tem medo do “compromisso político”? Temem o compromisso político aqueles mesmos que temem a competência técnica. Isso porque, aquilo que efetivamente teme a classe dominante é a concretização do compromisso político transformador. Ela o teme, ao mesmo tempo em que tenta se apropriar dele, reformulando-o como mecanismo de manutenção/recomposição de hegemonia. Então, esse discurso será tolerado ou combatido das mais diferentes formas, inclusive a de buscar esvaziar a educação escolar de sua contribuição especificamente pedagógica para a transformação social, sem excluir a repressão violenta quando os demais recursos não se revelarem eficazes. 

Na atual etapa histórica, os interesses da burguesia tendem cada vez mais a se opor à objetividade do conhecimento encontrando cada vez mais dificuldades de se justificar racionalmente, ao passo que os interesses proletários exigem a objetividade e tendem cada vez mais a se expressar objetiva e racionalmente. É assim porque a burguesia é beneficiária das condições de exploração, por isso, não tem interesse algum em desvendá-las, ao passo que o proletariado que sofre a exploração tem todo interesse em desvendar os mecanismos dessa situação que é objetiva. Portanto, o conhecimento tem um caráter interessado. Qualquer conhecimento é sempre histórico, isto é, seu surgimento e desenvolvimento é condicionado historicamente (possui interesses particulares de pessoas, classes, épocas e lugar). A suposta neutralidade é uma questão ideológica. Não existe conhecimento desinteressado e a neutralidade é impossível!

Por uma fusão e uma subordinação da competência técnica ao compromisso político, a seu serviço. A função política da educação (escolar) se cumpre também, embora não somente, pela mediação da competência técnica. Esta é concretização daquele. Afinal, não se faz política sem competência e não existe técnica sem compromisso; além disso, a política é também uma questão técnica e o compromisso sem competência  é descompromisso. Uma competência “técnico-política”, comprometida com as forças emergentes constituídas pelas massas trabalhadoras. Como realizar isto? Priorizando a reflexão crítica e a análise polêmica que abrem caminhos e processos coletivos e históricos. 

Enfim, deve-se desconfiar da pressa em superar a reflexão crítica e a análise polêmica. Também é necessário ultrapassar a fase meramente negativa da crítica e da denúncia. Não é exato afirmar que o momento da crítica já passou, tendo soado a hora da ação. Penso, isto sim, que são os conteúdos tanto da crítica e da denúncia como da ação que estão mudando. Importa, pois, aprofundar esse processo de modo a se atingir um novo patamar. Importa passar da fase romântica à fase clássica, racional, encontrando nos fins a atingir a fonte para a elaboração das formas adequadas de realizá-los (o que implica competência política e técnica). Logo, sem competência técnico-política não é possível sair da fase romântica. Cabe, enfim, acumular forças, unificar as lutas visando a consolidar os avanços e tornar irreversíveis as conquistas feitas trilhando um caminho sem retorno no processo de reapropriação, por parte das camadas trabalhadoras, do conhecimento elaborado e acumulado historicamente.

domingo, 13 de setembro de 2026

Promessas Reais.

 01. O governo quer combater o abandono escolar e ajudar na permanência dos jovens na sala de aula. Por isso, em 2027, Lula deseja ampliar o incentivo financeiro do Pé-de-Meia para todos os alunos do Ensino Médio da rede pública. O Pé-de-Meia garante uma poupança para alunos com bom desempenho na escola e a frequência mínima exigida nas aulas. Desde que começou, em 2024, o Pé-de-Meia vem ajudando a manter os estudantes dentro da sala de aula. Entre 2022 e 2025, a reprovação dos estudantes do Ensino Médio na rede pública caiu 62% e o abandono escolar, 61%. A taxa de abandono chegou ao menor nível da série histórica: 2,5%. Revolução na Educação é a Obsessão!

(Fonte: "Campanha Eleitoral do Governo Lula, 2026"). 

(Fonte: "Pesquisa IA, Google, 2026"). 

 02. A Segurança Pública é preocupação central, com Saúde em segundo lugar. Em terceiro vem a Corrupção. 
(Fonte: "Jornal: Valor Econômico", 11/09/26). 

(Fonte: "Campanha Eleitoral do Governo Lula, 2026").