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São Francisco do Conde, Bahia, Brazil
Professor, (psico)pedagogo, coordenador pedagógico escolar e Especialista em Educação.
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"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 205 da Constituição de 1988).

Ø Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados. :)



“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A força do Behaviorismo.

Psicologia antiga: Watson, Pavlov e Skinner.

O termo behavior” significa “comportamento”, isto é, qualquer resposta ou atividade observável realizada por um ser vivo.

Escola de pensamento fundada no início do século XX por John B. Watson (1878-1958), o behaviorismo é uma orientação teórica baseada na premissa de que a psicologia científica deveria estudar apenas o comportamento observável.

Foi assim que Watson tornou a Psicologia uma ciência do comportamento. Os psicólogos podem estudar qualquer coisa que as pessoas fazem ou dizem (como fazer compras, jogar xadrez, comer, cumprimentar um amigo), mas não podem estudar cientificamente os pensamentos, desejos e sentimentos que acompanham esses comportamentos. Watson propunha que os psicólogos abandonassem totalmente o estudo da consciência e focassem exclusivamente os comportamentos diretamente observáveis (o que a psicologia científica deveria estudar).

Também o fisiologista russo Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936) provou a ideia de “condicionamento clássico”. Demonstrou como comportamentos e reflexos aprendidos podem ser gerados pela associação entre um estímulo neutro (ex: som) e um estímulo incondicionado (ex: comida). Animais e humanos podem ser condicionados a responder a estímulos anteriormente irrelevantes, influenciados por hábitos e reações automáticas. Ele mostrou que estímulos neutros, se pareados repetidamente com um estímulo natural (comida), passam a eliciar a mesma resposta automática (salivação), chamada de resposta condicionada. O sistema nervoso associa eventos externos com respostas fisiológicas. Seu famoso experimento foi o de treinar cães para salivar ao som de uma sineta, que era tocada toda vez antes de receberem alimento.

“Nossa evidência é de que não temos nenhuma evidência real sobre a herança de traços. Eu me sentiria perfeitamente confiante quanto ao resultado final favorável da criação cuidadosa de um bebê saudável e bem formado, descendente de uma longa linhagem de trapaceiros, assassinos, ladrões e prostitutas” (Watson).

Nessa direção seguiu um psicólogo de Harvard, o B. F. Skinner (1904-1990). Skinner não negava a existência de eventos mentais internos (tão caros aos psicanalistas), mas insistia que eles não podiam ser estudados cientificamente (seriam especulação vaga ou opinião pessoal ainda que por conhecimento exato e confiável). Daí surgiu o princípio simples e poderoso de Skinner: os organismos tendem a repetir as respostas que levam a um resultado positivo e a não repetir as que levam a um resultado neutro ou negativo. Assim, podemos exercer extraordinário controle sobre o comportamento de animais por meio da manipulação do resultado à suas respostas (até mesmo treinar animais para apresentar comportamento não natural). Para Skinner, todo comportamento é governado por estímulos externos, isto é, somos todos governados pelo meio em que vivemos, e não por nós mesmos quando acreditamos que nossas ações são o resultado de decisões conscientes. Portanto, o comportamento é determinado de maneira previsível por princípios válidos e o livre-arbítrio ou a liberdade é uma ilusão!

“De acordo com a visão tradicional, uma pessoa é livre... Ela pode, portanto, ser considerada responsável por seus atos e ser justamente punida quando quebra regras. Tal visão e as práticas a ela associadas devem ser reexaminadas quando uma análise científica revelar relações de controle inesperadas entre o comportamento e o meio” (Skinner).

E isso está correto? Não estão “desumanizando” demais? Como assim, as pessoas não serem donas de seus destinos? E onde ficariam as qualidades exclusivas do comportamento humano, como a liberdade e o potencial de crescimento pessoal? Assim como Freud (e sua ideia de que o comportamento é dominado por compulsões sexuais primitivas), Skinner foi alvo de duras críticas. Parte delas, decorrente de interpretações equivocadas e publicadas na imprensa popular. Por exemplo, suas análises do livre-arbítrio eram frequentemente interpretadas como um ataque ao conceito de uma sociedade livre – que não era. Apesar da polêmica e das desinformações, aqui estamos. Se somos ou não joguetes da nossa herança animal ou de circunstâncias ambientais, cabem ao nosso humanismo desmistificar, à nossa consciência dizer ou as terapias modernas desmascararem. O humano tem potencial e capacidade de crescimento, resta saber se o suficiente para lidar com as forças constantes dos estímulos-respostas.    

“Não tenho uma visão de Poliana da natureza humana... Contudo, uma das partes mais interessantes e estimulantes de minha experiência é trabalhar com [meus clientes] e descobrir as tendências direcionais fortemente positivas que existem neles, como em todos nós, nos níveis mais profundos” (Rogers).

Enfim, esses princípios descobertos por Watson, Pavlov e Skinner nas pesquisas com animais podiam ser aplicados também a comportamentos humanos complexos. Claro que uma visão tão desconcertante da natureza humana foi impactante, mas os caras cravaram o estabelecimento da psicologia como uma disciplina científica respeitada nas instituições de ensino. Hoje, são amplamente aplicados em fábricas, escolas, presídios, hospitais para doentes mentais e em uma variedade de outros ambientes. O próprio Watson se tornou um dos mais proeminentes profissionais da indústria da propaganda. Ele foi o pioneiro a apelar ao medo, aos testemunhos, à venda da “reputação” de produtos e à promoção de estilo sobre a substância, elementos que permanecem princípios básicos no marketing moderno.  

Mito x Filosofia.

 

1.     Mito: explica o presente através de um passado imemorial maluco.

Filosofia: explica o presente, o passado e o futuro em sua totalidade lúcida.

2.     Mito: é feito com narrativas de origem pautadas em rivalidades ou alianças entre forças divinas sobrenaturais e personalizadas, pessoais.

Filosofia: é feita com explicação e produção natural das coisas por 04 elementos naturais primordiais e impessoais (água/úmido, fogo/quente, terra/seco, ar/frio), e seus movimentos de combinação, composição e separação.

3.     Mito: não se importa nem um pouco com contradições, incompreensões e fabulações – vale tudo, o plano é lunático (Kkkk). Afinal, a confiança e a crença vêm da autoridade do perfil do narrador (quem fala, não o que fala).

Filosofia: não admite nada disso, mas exige que a explicação seja coerente, lógica e racional. A confiança e a crença brotam da autoridade da explicação (não na pessoa, mas na razão, que é a mesma em todos os seres humanos).

4.     Mito: é infantil, inocente, no sentido de jogar com o poder da imaginação/encantamento e criar mundos paralelos à realidade (encantamentos e certezas).

Filosofia: é adulto, maduro, no sentido de se infiltrar na realidade para conhecer, não acreditar (incertezas e desafios).

5.     Mito: presença de pais, físicos ou divinos, que preenchem e satisfazem a existência (sobre a morte, por exemplo).

Filosofia: vazio ou ausência de figuras terceirizadas, tem que lidar com as incertezas reais da existência.

Enfim, qual deles é mais confortável, meu povão?

Carnaval de Salvador, 2026.

Abadás x Pipocas.

684 trios elétricos, totalizando quase 1.600 horas de apresentações, com um público de 12 milhões de visitantes, passaram pelo Carnaval 2026 de Salvador, formado por três circuitos principais: Circuito Barra-Ondina (Dodô): mais turístico e elitizado; Circuito Campo Grande: mais tradicional e popular; Circuito Pelourinho: com mais manifestações culturais e blocos afros.

Com tanta gente e dinheiro circulando, o maior desafio é o de evitar que uma das maiores festas populares seja elitizada. A elitização do carnaval começa pelos abadás personalizados, idealizados por empresários que estão por trás dos principais blocos que capturam foliões endinheirados, oferecendo espaços pagos e serviços privilegiados, separados por cordas e mais próximos do trio.

“Alguns empresários se consideram os donos da fila e alugam as vagas a quem tem mais dinheiro” (Armandinho Macêdo).

Na resistência, seguem as Pipocas, os foliões que acompanham o cortejo de fora do espaço delimitado. Uma das artistas que arrasta esses foliões é Daniela Mercury.

“Temos uma história linda, muito clara, toda noticiada, documentada. A única que ficou de lá até aqui desfilando, 30 anos, apesar de tudo, fui eu. Então, por que a turma está antes de mim?” (Daniela Mercury).

Relacionando experiências individuais a contextos sociais, alcançamos uma visão mais ampla. Divertir-se no Carnaval é mais do que ir a uma simples festa. Essa diversão, aparentemente individual, conecta-se com tradições históricas, hierarquias sociais, expressões de resistência política e toda uma economia do entretenimento.

Enfim, o carnaval é um fenômeno social complexo. A festa popular que nasceu para unir, não pode segregar. A elite não se contenta em acumular riquezas, também se mete na alegria do povo. Não pode!

Aí vai um pouco de imaginação sociológica sobre o Carnaval...

A essência do Carnaval.

Metalinguagem carnavalesca.

Por que a escola de samba Viradouro levou a vitória do Carnaval carioca de 2026? Porque foi bem no alvo da festa: exaltou o seu mestre de bateria, a essência do Carnaval.

A pontuação foi perfeita, sem ter um décimo sequer descontado.

O tributo a Moacyr da Silva Pinto, o mais velho mestre de bateria vivo e ainda na ativa há 16 anos na escola, levou para a avenida o principal de tudo o que estava acontecendo ali – a própria cultura carnavalesca.

Para que esperar a saudade para cantar? Ora, quem venceu não foi apenas o sambista. Venceu o próprio Carnaval!

Enfim, “Para cima, Ciça!”. E foi!!!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Psicologia Social.

Como o pensamento dirige nosso comportamento? O que leva as pessoas a se agredirem ou a se ajudarem? Por que há conflitos sociais e de que forma podemos revertê-los? Como podemos transformar punhos cerrados em mãos cooperativas? Os grupos nos fazem mal? Quanto de nosso mundo social está somente em nossas cabeças? As pessoas seriam cruéis se assim ordenássemos? Ajudar? Ou se servir? Que situações fazem as pessoas serem prestativas ou gananciosas? Como os psicólogos sociais buscam explicações do pensamento social, da influência social e das relações sociais? E como eu e você poderíamos usar esses instrumentos analíticos para pensar de maneira mais inteligente?

Grandes ideias da Psicologia Social que nunca devemos esquecer:

1.     Construímos nossa realidade social e ela também nos constrói. Podemos reagir de maneira diferente a situações semelhantes porque pensamos de maneira diferente.

2.     Nossas intuições sociais e processamento inconsciente de informações com frequência são poderosas, mas às vezes enganosas e até perigosas. O pensamento também ocorre fora do palco, longe dos olhos. Pensamento, memória e atitudes operam em dois níveis: 1) consciente e deliberado; 2) inconsciente e automático. O processamento é dual. Sabemos mais do que sabemos que sabemos.  

3.     Influências sociais moldam nosso comportamento. É o poder da situação sobre nós. Como somos animais sociais, respondemos a nossos contextos imediatos.

4.     Atitudes e disposições pessoais também moldam nosso comportamento. Não somos folhas soltas, simplesmente levadas por este ou aquele caminho pelos ventos sociais. Disposições da personalidade também afetam o comportamento.

5.     O comportamento social é biologicamente enraizado. Nosso comportamento tem bases biológicas mais fortes do que supomos.

6.     Princípios da psicologia social são aplicáveis à vida cotidiana. Existem influências sutis que guiam nossos pensamentos e ações.

Enfim, a psicologia social é o estudo científico de como as pessoas pensam, se influenciam e se relacionam. Seus temas centrais incluem como interpretamos nossos mundos sociais; como nossas instituições sociais nos guiam e, às vezes, nos enganam; como nosso comportamento social é moldado por outras pessoas e por nossas atitudes, personalidade e biologia; e como os princípios da psicologia social se aplicam à vida cotidiana e a vários outros campos de estudo.

Ângulos da Vida.

 

Nem pura natureza, nem pura cultura, nem pura psicologia... Somos uma salada biopsicossocial!

A natureza (inata) e a experiência (adquirida) formam, juntas, quem somos. A biologia e a experiência, juntas, nos criam. O comportamento social é biologicamente enraizado!

Nossa natureza humana nos predispõe a nos comportarmos de modos que ajudaram nossos ancestrais a sobreviverem e a se reproduzirem. Levamos os genes daqueles cujos traços permitiram que eles e seus filhos sobrevivessem e se reproduzissem. A seleção natural pode predispor nossas ações e reações ao namorar e acasalar, odiar e machucar, cuidar e compartilhar. A natureza também nos dota de uma enorme capacidade de aprender a se adaptar a ambientes variados. Somos sensíveis e responsivos a nosso contexto social.

Apressados de plantão afirmam que somos esmagados pela cultura. Que o homem é um produto cultural inexorável, cabendo à Natureza apenas oferecer a matéria e a Cultura moldá-la. Todavia, nosso comportamento tem bases biológicas mais fortes do que supomos. A própria psicologia social do século atual vem trazendo um entendimento cada vez mais forte nessa direção, como a neurociência social: Que áreas cerebrais permitem nossas experiências de amor e desprezo, ajuda e agressão, percepção e crença? Como o cérebro, a mente e o comportamento funcionam juntos como um sistema coordenado? O que os tempos de ocorrência de eventos cerebrais revelam sobre nosso modo de processar informações? Enfim, há uma integração de perspectivas biológicas e sociais que explora as bases neurais e psicológicas dos comportamentos sociais e emocionais. 

Muitos de nossos comportamentos sociais refletem uma sabedoria biológica profunda. Desse modo, todo evento psicológico (todo pensamento, toda emoção, todo comportamento) é simultaneamente um evento biológico. É isso que torna possível examinar a neurobiologia subjacente ao comportamento social. Entretanto, isso não quer dizer que comportamentos sociais complexos (como ajudar e ferir) sejam reduzidos a mecanismos neurais ou moleculares simples. Não, não é isso! Significa que, para compreender o comportamento social, devemos considerar tanto as influências sob a pele (biológicas) como aquelas entre as peles (sociais). A mente e o corpo não é uma coisa contra a outra, mas um grande sistema.

Exemplos:

·       Os hormônios do estresse afetam como nos sentimos e agimos;

·       O ostracismo social eleva a pressão arterial;

·       O apoio social fortalece o sistema imune, que combate doenças.

Enfim, somos organismos biopsicossociais. Refletimos a interação de nossas influências biológicas, psicológicas e sociais. Assim como a soma dos ângulos internos de um triângulo formam 180º, a nossa tríade Bio-Psico-Social forma quem somos. Às vezes, e em determinadas condições, um ângulo pode se abrir ou fechar mais, mas ele nunca anulará ou excluirá os outros ângulos. E é sob a perspectiva de diversos ângulos que devemos entender quem somos e como nos comportamos. 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Narcisista.

 Entrar na jaula do Tigre...

Com tanta gente querendo palpitar sobre “ser ou não ser narcisista”, o narcisismo se tornou um rol de rótulos genéricos de mitos com uma ampla gama de comportamentos estereotipados, desagradáveis ou frustrantes.

Apressados dizem que o narcisista:

- é cheio de “agressividade passiva”;

- cria dependência emocional;

- é extremamente encantador e carismático, mas meio morto no olhar;

- tem um transtorno;

- são todos iguais;

- não tem empatia;

- não percebem que são narcisistas;

- nunca vai mudar;

- não receberam amor ou apreciação suficientes dos pais na infância;

- só pensam em si mesmos;

- são bem-sucedidos;

- se acham maravilhosos;

- não sentem remorso.

Mitos! O que dizem os estudos científicos nos ambientes clínicos?

1.     O narcisismo é um traço de personalidade que existe em um contínuo (não vai e volta, é persistente, causa sofrimento e interfere no trabalho, no relacionamento ou outras áreas da vida), através de um impulso de se sentir especial e único;

2.     Para ter o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN), esse sim uma doença, o indivíduo tem uma necessidade inabalável de admiração, um senso inflado de autoimportância e falta de empatia pelos outros;

3.     O TPN é raro. Por exemplo, afeta apenas cerca de 1% a 2% dos adultos nos EUA;

4.     Narcisistas apresentam níveis acima da média de comportamentos ou traços narcisistas: baixa empatia, senso de direito, egoísmo, manipulação, engano, transferência de culpa e um impulso para buscar admiração, status e validação;

5.     Eles têm grande dificuldade em lidar com as próprias emoções;

6.     São especialmente prejudiciais quando se tornam vingativos ou insensíveis, ou quando se aproveitam das vulnerabilidades alheias;

7.     Ser narcisista muitas vezes significa uma vida se sentindo injustiçado, vitimizado, enganado, desconfiado, desconectado dos outros – não é uma forma agradável de se viver;

8.     Pessoas narcisistas não expressam apenas uma forma de narcisismo, mas apresentam combinação de traços (tem o tipo agêntico, o neurótico e o antagonista). A) Agêntico: são confiantes, assertivos, se sentem no direito, têm senso afiado de importância e são focados em status, poder e sucesso; B) Neurótico: necessidade constante de validação e sensibilidade a críticas e rejeição, vivenciam vergonha intensa, ansiedade, instabilidade emocional, insegurança e dúvida sobre si mesmas; C) Antagonista: competitivo, explorador e hostil, dispostas a diminuir os outros para se sentirem superiores, carecem de empatia;

9.     Narcisistas são capazes de empatia quando lhe convém, quando precisam de algo ou que satisfaça o próprio interesse (podem demonstrar empatia quando querem alimentar a percepção de que são empáticos ou podem entender que a empatia é necessária, mas simplesmente não se importam em produzir uma resposta compassiva, pois desaparece assim que consegue o que quer – ou seja, se parece com empatia, mas não é empatia profunda ou compassiva);

10.  Narcisistas podem saber que são narcisistas, inclusive ter consciência dos aspectos negativos de sua personalidade. Por exemplo, eles sabem que soam arrogantes, mas isso não é um problema para eles;

11.  Como a empatia aumenta com a idade, o narcisismo não é um traço estático. Ele até tende a diminuir levemente ao longo da vida adulta;

12.  Causas mistas (criação, sociais e genéticas). Sobre as influências da criação: trata-se mais de exagero de amor do que falta de apreciação. Está mais relacionado à tendência de um pai ou mãe enxergar um filho como mais especial e mais merecedor do que outras crianças. Sobre as influências sociais: amizades, relacionamentos românticos e experiências na escola e no trabalho podem desempenhar papel ainda mais importante do que a criação no desenvolvimento de traços narcisistas. Sobre as influências genéticas: filhos de narcisistas têm maior probabilidade de pontuar alto nesse traço.

13.  Como já foi dito, pessoas narcisistas são capazes de empatia, de cooperação e de serem prestativas, como realizar um trabalho voluntário ou fazer doações para instituições de caridade. A questão não é capacidade de ato, mas no porquê ou como elas fazem isto. A motivação dessas pessoas está longe de ser altruísta. Elas estão mais interessadas em impressionar os outros e receber algum tipo de benefício ou recompensa. E são mais propensas a ajudar publicamente, em vez de anonimamente, para garantir que seus esforços sejam vistos;

14.  Narcisistas podem ser bem-sucedidos ou não. O narcisismo em si pode favorecer ou prejudicar a pessoa. A) Favorece quando: uma dose saudável de narcisismo gera sucesso e vantagens quando tende a ter confiança, assertividade e forte motivação para liderança; B) Prejudica quando: as habilidades sociais são pobres ou desorganizadas, gerando barreiras para conquistas; C) O sucesso deles também depende das expectativas de quem está ao redor; D) Podem ser manipulados: como líderes narcisistas tendem a ser decisivos e agressivos, além de desejarem validação, eles podem ser muito úteis quando é importante mudar as coisas em um curto espaço de tempo ou menos úteis quando é mais importante garantir estabilidade e manter tudo como está.

15.  Narcisismo não é sinônimo de autoestima. Alguns até têm autoestima frágil. Outros só se sentem confiantes apenas quando os outros elogiam sua aparência ou suas conquistas, mas rapidamente se tornam ansiosos ou ressentidos quando essa validação desaparece, deixando sua autoestima em constante oscilação. No geral, mesmo aqueles com tendências grandiosas, a percepção acaba dependendo de validação externa constante;

16.  Pessoas narcisistas não são, nem sabem ser ou evitam ser vulneráveis e responsáveis. Elas atacam quando são confrontadas. Qualquer culpa rapidamente se transforma em vergonha e, depois disso, em transferência de culpa. Exemplo: “Tá, eu te traí. Mas o que você esperava? Você nunca me dá atenção”. Ou seja, pessoas narcisistas sabem quando fizeram algo “ruim”, mas isso não as impede de repetir esse ato.

Podemos reduzir tendências narcisistas quando: a) incentivamos as pessoas a se importarem mais com os outros ou a refletir sobre seus valores; b) torcer para que queiram mudar (porque não se veem como necessitados ou porque podem encarar o tratamento como uma admissão de fraqueza), e buscar ajuda de um terapeuta (por sofrimento relacionado a ansiedade, depressão e instabilidade emocional); c) técnica de “entrar na jaula do tigre”: se você sente que alguém em sua vida está manipulando, mentindo e distorcendo a realidade, e não tem certeza se essa pessoa é narcisista, talvez valha escolher um momento mais calmo para tentar conversar sobre seus sentimentos (e depois decidir se fica ou volta para essa jaula).

Enfim, todos os indivíduos têm algum grau das características descritas acima. Os que estão em nível mais alto em algum espectro costumam ser egocêntricos e vaidosos, com tendência a transferir culpa e raiva (são narcisistas). Os que não estão, demonstram responsabilidade genuína ou possibilidade de reparação e crescimento. Todavia, isso não significa necessariamente que tenham TPN. O laudo clínico pautado em critérios específicos que dirá, e não o nosso vão pré-julgamento apressado.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Caranguejo do Diabo.


A espécie Zosimus aeneus é uma das mais venenosas das Filipinas, só encontrada em recifes de coral da região do Indo-Pacífico (não existe no Brasil ou em qualquer lugar do Oceano Atlântico, até que o aquecimento global e as espécies invasoras provem o contrário). Recebeu esse nome popular por causa da carne e carapaça, de tons vibrantes com manchas vermelhas e marrons.

Venenosa e letal para seres humanos, produz as mesmas neurotoxinas do baiacu: a tetrodotoxina e a saxitoxina, substâncias não inativadas pelo cozimento. Causam intoxicação grave em questões de horas e para elas não há antídoto. Todavia, a gravidade varia conforme a quantidade de veneno e as condições de saúde do paciente.

Assim:

·       O tratamento consiste em suporte intensivo no hospital até que o organismo elimine a toxina;

·       As toxinas impedem que os nervos transmitam sinais aos músculos, levando à paralisia muscular e à insuficiência respiratória;

·       Em situações mais severas, a paralisia pode ser tão intensa que a pessoa desenvolve a “síndrome do encerramento” – condição em que permanece consciente, mas incapaz de se mover.

Enfim, cada presa recebeu da Natureza seus sistemas de defesa contra predadores. Isso vale para plantas e animais. Pelo visto, vale também para nós: não dá para brincar de “estátua” com essa espécie. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Caos urbano em festa.

 

As cidades são um retrato aflitivo da sociedade contemporânea. Lá fora, na paisagem urbana, se mesclam a tensão do trânsito, a agressão ao meio ambiente, a falta de saneamento básico, a dificuldade de mobilidade, o lixo das ruas e a poluição de todos os tipos, o despejo, o desplanejamento, a violência multifacetada, a labuta pelo ganha-pão, entre outras ausências de políticas públicas. Mas, o inferno urbano é estruturalmente interno.

Nenhum de todos esses problemas supera o da solidão. Sim, esse sentimento de não pertencimento a um grupo que cria bolhas e alimenta as buscas ensandecidas e desenfreadas por seguidores e curtidas nas redes sociais. O contraste é forte! Enquanto frequentamos as redes sociais de um modo assíduo, todos ficamos bem mais distantes das pessoas reais. E quando vivemos alguma coisa parece que é só para alimentar os stories. E a solidão gerada pelo medo produz o ódio. Odiar todas essas pessoas à distância é muito mais fácil do que as procurar entender de fato. O universo inteiro vai acontecendo na sua mente e o real se transforma em um incômodo que deve ser transposto?

De fato, nesses últimos 50 anos as pessoas se tornaram mais distantes umas das outras do que eram. Os encontros físicos são mais raros e, quando acontecem, são mediados pelos pré-julgamentos das redes sociais e se esvaem logo. As associações profissionais, como sindicatos, ou de afinidade, como partidos políticos e clubes sociais, ficaram frágeis. Não nos suportamos mais e isso é péssimo para as instituições que precisam lidar com gente.

Enfim, não nos surpreendamos com o tamanho do carnaval de 2026, essa festa do escape. Ali, no ôba ôba, você encontra suspensos traumas, derrotas morais, desilusões amorosas, dificuldades financeiras, fanatismos suspensos, radicalismos à mostra, solidão disfarçada, preocupações guardadas, inúmeras rejeições, gente dançando para superar um pecado original (mas que no final só o reforça), a falta de propósito, a agenda de obrigações suspensas, feridas mal cicatrizadas de todos os tipos e todos aqueles que foram cancelados nas redes sociais.

A carência do encontro presencial e a falta de uma razão significativa para ele irão superlotar as avenidas. Foliões vivos e aflitivos – como o nosso tempo. É o caos em festa!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

“Penduricalhos” no Serviço Público.

A estratégia do “troco a mais”.

Vamos falar aqui de exageros da extrema-direita (aqueles definidos por resoluções, normas, portarias e outros expedientes), não dos benefícios concedidos por lei.

A direita sabe como pautar da pior forma aquilo que deseja destruir. De modo paralelo, nunca abandonou a ideia de (des)Reforma Administrativa, que pretende diminuir os servidores públicos e, com isso, enfraquecer o Estado e seus serviços sociais, em prol das privatizações.

Sabendo que a proposta será engavetada porque não é do interesse do Governo Lula, encontrou na Câmara (Congresso e Assembleias de todas as instâncias) o jeito paralelo de pautá-la – ironizando excessos. Trata-se da multiplicação anômala de verbas indenizatórias que turbinam vencimentos do funcionalismo, fora do Teto e da Lei, pagas pelos três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) de União, estados e municípios a servidores e funcionários.

Os chamados “penduricalhos em excesso” são verbas indenizatórias, como supostos auxílio-paletó, auxílio-panetone, auxílio-peru, auxílio-Iphone, entre outros (até os tipos de nomes afrontam o decoro das funções públicas), que complementariam os ganhos de agentes públicos, sobre os quais não incide Imposto de Renda. Isto é, a natureza é claramente remuneratória e não de indenização. Nessa lista também se encaixam alguns excessos de:

- licenças compensatórias convertidas em dinheiro;

- gratificações por acúmulo de funções exercidas na mesma jornada;

- auxílios diversos sem comprovação de despesas;

- conversão recorrente de férias e licenças em pecúnia.

Nota: essas vantagens só valem para a elite do funcionalismo (1%). O médico do SUS, a enfermeira, o policial na rua, o professor, o bagrinho - a imensa maioria fica com os salários mais baixos. 

"Por este caminho, certamente será mais eficaz e rápido o fim do império dos penduricalhos, com efetiva justiça remuneratória, tão necessária para a valorização dos servidores públicos e para a eficiência e dignidade do serviço público" (Flávio Dino, Ministro do STF). 

O teto do funcionalismo é o equivalente ao salário de um ministro do STF (hoje em R$ 46.366 ao mês ou R$ 556,32 mil anuais). Apenas parcelas indenizatórias expressamente previstas em lei podem ficar fora do teto, conforme entendimento já consolidado pelo STF. Fora isso, supostos benefícios esdrúxulos só servem para arruinar o debate e manchar a reputação de servidores, sob alegação de fura-teto.

O Ministro Flávio Dino determinou revisão e suspensão de todos eles. Assim, órgãos de todos os níveis da Federação têm até 60 dias para passar um pente fino nessas verbas e suspender todas aquelas que não possuírem base legal. O Congresso Nacional deverá também editar uma Lei definindo a regulamentação de quais verbas indenizatórias são efetivamente admissíveis como exceção do teto.

Enfim, é preciso superar a Escala 6x1 e melhorar a qualidade de vida do trabalhador. Valorizar os servidores pela melhoria dos salários e das condições dignas de trabalho. Mas, com essas estratégias de excessos e “troco a mais” para pautar a questão da pior forma possível, não pavimentará a opinião pública.