Entrar na jaula do Tigre...
Com tanta gente querendo palpitar sobre “ser ou não ser narcisista”, o narcisismo se tornou um rol de rótulos genéricos de mitos com uma ampla gama de comportamentos estereotipados, desagradáveis ou frustrantes.
Apressados dizem que o narcisista:
- é cheio de “agressividade
passiva”;
- cria dependência emocional;
- é extremamente encantador e
carismático, mas meio morto no olhar;
- tem um transtorno;
- são todos iguais;
- não tem empatia;
- não percebem que são
narcisistas;
- nunca vai mudar;
- não receberam amor ou
apreciação suficientes dos pais na infância;
- só pensam em si mesmos;
- são bem-sucedidos;
- se acham maravilhosos;
- não sentem remorso.
Mitos! O que dizem os estudos científicos nos ambientes clínicos?
1. O
narcisismo é um traço de personalidade que existe em um contínuo (não vai e
volta, é persistente, causa sofrimento e interfere no trabalho, no
relacionamento ou outras áreas da vida), através de um impulso de se sentir
especial e único;
2. Para
ter o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN), o indivíduo tem uma necessidade
inabalável de admiração, um senso inflado de autoimportância e falta de empatia
pelos outros;
3. O TPN
é raro. Por exemplo, afeta apenas cerca de 1% a 2% dos adultos nos EUA;
4. Narcisistas
apresentam níveis acima da média de comportamentos ou traços narcisistas: baixa
empatia, senso de direito, egoísmo, manipulação, engano, transferência de culpa
e um impulso para buscar admiração, status e validação;
5. Eles
têm grande dificuldade em lidar com as próprias emoções;
6. São
especialmente prejudiciais quando se tornam vingativos ou insensíveis, ou
quando se aproveitam das vulnerabilidades alheias;
7. Ser
narcisista muitas vezes significa uma vida se sentindo injustiçado, vitimizado,
enganado, desconfiado, desconectado dos outros – não é uma forma agradável de
se viver;
8. Pessoas
narcisistas não expressam apenas uma forma de narcisismo, mas apresentam
combinação de traços (tem o tipo agêntico,
o neurótico e o antagonista). A) Agêntico:
são confiantes, assertivos, se sentem no direito, têm senso afiado de
importância e são focados em status, poder e sucesso; B) Neurótico: necessidade constante de validação e sensibilidade a
críticas e rejeição, vivenciam vergonha intensa, ansiedade, instabilidade
emocional, insegurança e dúvida sobre si mesmas; C) Antagonista: competitivo, explorador e hostil, dispostas a diminuir
os outros para se sentirem superiores, carecem de empatia;
9. Narcisistas
são capazes de empatia quando lhe convém, quando precisam de algo ou que
satisfaça o próprio interesse (podem demonstrar empatia quando querem alimentar
a percepção de que são empáticos ou podem entender que a empatia é necessária,
mas simplesmente não se importam em produzir uma resposta compassiva, pois
desaparece assim que consegue o que quer – ou seja, se parece com empatia, mas
não é empatia profunda ou compassiva);
10. Narcisistas
podem saber que são narcisistas, inclusive ter consciência dos aspectos negativos
de sua personalidade. Por exemplo, eles sabem que soam arrogantes, mas isso não
é um problema para eles;
11. Como
a empatia aumenta com a idade, o narcisismo não é um traço estático. Ele até
tende a diminuir levemente ao longo da vida adulta;
12. Causas
mistas (criação, sociais e genéticas). Sobre as influências da criação: trata-se
mais de exagero de amor do que falta de apreciação. Está mais relacionado à
tendência de um pai ou mãe enxergar um filho como mais especial e mais merecedor
do que outras crianças. Sobre as
influências sociais: amizades, relacionamentos românticos e experiências na
escola e no trabalho podem desempenhar papel ainda mais importante do que a
criação no desenvolvimento de traços narcisistas. Sobre as influências genéticas: filhos de narcisistas têm maior
probabilidade de pontuar alto nesse traço.
13. Como
já foi dito, pessoas narcisistas são capazes de empatia, de cooperação e de
serem prestativas, como realizar um trabalho voluntário ou fazer doações para
instituições de caridade. A questão não é capacidade de ato, mas no porquê ou
como elas fazem isto. A motivação dessas pessoas está longe de ser altruísta.
Elas estão mais interessadas em impressionar os outros e receber algum tipo de
benefício ou recompensa. E são mais propensas a ajudar publicamente, em vez de
anonimamente, para garantir que seus esforços sejam vistos;
14. Narcisistas
podem ser bem-sucedidos ou não. O narcisismo em si pode favorecer ou prejudicar
a pessoa. A) Favorece quando: uma dose saudável de narcisismo gera sucesso e
vantagens quando tende a ter confiança, assertividade e forte motivação para
liderança; B) Prejudica quando: as habilidades sociais são pobres ou
desorganizadas, gerando barreiras para conquistas; C) O sucesso deles também
depende das expectativas de quem está ao redor; D) Podem ser manipulados: como
líderes narcisistas tendem a ser decisivos e agressivos, além de desejarem
validação, eles podem ser muito úteis quando é importante mudar as coisas em um
curto espaço de tempo ou menos úteis quando é mais importante garantir
estabilidade e manter tudo como está.
15. Narcisismo
não é sinônimo de autoestima. Alguns até têm autoestima frágil. Outros só se
sentem confiantes apenas quando os outros elogiam sua aparência ou suas
conquistas, mas rapidamente se tornam ansiosos ou ressentidos quando essa
validação desaparece, deixando sua autoestima em constante oscilação. No geral,
mesmo aqueles com tendências grandiosas, a percepção acaba dependendo de
validação externa constante;
16. Pessoas narcisistas não são, nem sabem ser ou evitam ser vulneráveis e responsáveis. Elas atacam quando são confrontadas. Qualquer culpa rapidamente se transforma em vergonha e, depois disso, em transferência de culpa. Exemplo: “Tá, eu te traí. Mas o que você esperava? Você nunca me dá atenção”. Ou seja, pessoas narcisistas sabem quando fizeram algo “ruim”, mas isso não as impede de repetir esse ato.
Podemos reduzir tendências narcisistas quando: a) incentivamos as pessoas a se importarem mais com os outros ou a refletir sobre seus valores; b) torcer para que queiram mudar (porque não se veem como necessitados ou porque podem encarar o tratamento como uma admissão de fraqueza), e buscar ajuda de um terapeuta (por sofrimento relacionado a ansiedade, depressão e instabilidade emocional); c) técnica de “entrar na jaula do tigre”: se você sente que alguém em sua vida está manipulando, mentindo e distorcendo a realidade, e não tem certeza se essa pessoa é narcisista, talvez valha escolher um momento mais calmo para tentar conversar sobre seus sentimentos (e depois decidir se fica ou volta para essa jaula).
Enfim, todos os indivíduos têm algum grau das características descritas acima. Os que estão em nível mais alto em algum espectro costumam ser egocêntricos e vaidosos, com tendência a transferir culpa e raiva. Os que não estão, demonstram responsabilidade genuína ou possibilidade de reparação e crescimento. Todavia, isso não significa necessariamente que tenham TPN. O laudo clínico pautado em critérios específicos que dirá, e não o nosso vão pré-julgamento apressado.

