Quem sou eu

Minha foto
São Francisco do Conde, Bahia.
PsicoPedagogo.
Obrigado pela visita! Volte Sempre!

"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 206, inciso II, da Constituição de 1988; & Artigo 3º, inciso II, da LDB - Lei nº 9.394/1996).

"Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados" (Myles Horton, p. 138). "Não existe revolução real sem esclarecimento do público pelos especialistas" (Jessé Souza, p. 123).

“Por que escrevemos? Além de todas as recompensas, escrevemos porque queremos mudar as coisas. Escrevemos porque temos essa convicção de que podemos fazer diferença –uma nova percepção de beleza, um novo insight sobre a autocompreensão, uma nova experiência de alegria, uma decisão de unir-se à revolução" (Robert McAfee Brown). "Escrevo esperando fazer minha parte para restringir a intuição com o pensamento crítico, refinar os juízos de valor com compaixão e substituir a ilusão por compreensão” (David G. Myers, p. 47). “Escrever é um ato de egoísmo, porque é uma forma de eu não esquecer das coisas que aprendi. Mas também é um engajamento. É a minha maneira de fazer política, de ajudar a pensar nosso país e de mostrar ao Brasil um Brasil que ele não conhece, que foi ocultado das narrativas hegemônicas” (Daniel Munduruku).

“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

Arquivos do blog

18/10/2026

Zumbi Africano X Zumbi norte-americano.

O Zumbi africano.

A origem do zumbi está na África Ocidental e no folclore do Haiti, ligada às religiões de matriz africana e ao trauma da escravidão. Tanto que a palavra vem do kimbundo ndzumbi ("fantasma" ou "espírito que atormenta os vivos").

Com o tráfico de escravizados para as Antilhas (especialmente no Haiti, na época colônia francesa de Saint-Domingue), essas tradições espirituais se fundiram com o catolicismo, dando origem ao vodu haitiano. O Zumbi Haitiano Original (Vodu) ou o feiticeiro (bokor) não era um cadáver que saía devorando as pessoas, mas sim uma pessoa supostamente morta que era "trazida de volta à vida" por meio de rituais ou venenos por um feiticeiro chamado bokor. Esse corpo reanimado ficava sob o controle total do feiticeiro, funcionando como um escravo sem consciência ou autonomia.

Portanto, para os negros escravizados, a figura do zumbi representava o maior pesadelo: continuar trabalhando à força após a morte, tendo perdido a liberdade e a própria alma. Era uma metáfora da escravidão.

O Zumbi norte-americano.

Durante a Ocupação Americana no Haiti (1915–1934), relatos sobre rituais e mortos-vivos começaram a fascinar jornalistas e escritores norte-americanos. Vale ressaltar que o Haiti foi a primeira república negra independente do mundo, depois de uma longa guerra revolucionária. E tudo que é rebelde, o opressor busca estratégias para submeter, seja pelas armas físicas ou simbólicas, como a distorção cultural. 

Assim, começou a transformação por  Hollywood. No começo, os zumbis ainda eram figuras controladas por feitiçaria e misticismo, mas diretores de filmes reinventaram o conceito e, como tudo que é norte-americanizado perde sua essência original, foi abandonada a magia do vodu e transformou o zumbi em um cadáver reanimado por causas científicas/apocalípticas que se levanta para devorar carne humana, criando a base para o terror moderno que vemos em séries e jogos hoje.

Enfim, fiquemos com o zumbi africano. Aquele que faz lembrar "Zumbi dos Palmares". 

17/10/2026

Zumbi: MATAR a esquerda I.

O que mata a esquerda?

Irracionalizar a racionalidade ética do mundo.

Se ninguém contou quem é o inimigo nem como ele age, o povo vai se contrapor a quem? Quem retira prazer de sua situação humilhante e vexatória? 

São várias punhaladas! Mas, a maior delas: é fazer acreditar que a culpa é do voto, da política e do Estado, nunca das nossas sagradas elites do dinheiro.

A direita tem em mãos a mídia tradicional, as redes sociais controladas e uma histórica cegueira política da esquerda que lhe confere um imaginário social sob controle, tudo fácil para ser colonizada!

·         O contexto atual é, umbilicalmente, antiesquerda. Ele consiste em fragmentar e eliminar a possibilidade de narrativas alternativas amplas e abstratas o bastante a fim de permitir o conhecimento real da causalidade social, propiciando, na consciência do sujeito, a compreensão do seu lugar no arranjo social dominante. Logo, não existe esquerda real. Quando aparece, é fatídica, pontual e momentânea. Logo, não consegue se fazer permanentemente, algo necessário para conscientizar seu público. É isso que leva a uma morte anunciada, ainda que lenta, da esquerda. Sem um discurso consistente nem alternativo que dispute o imaginário popular, a vitória total da extrema direita em todos os lugares é mera questão de tempo.

·         A esquerda foi atacada em duas frentes: 1) externa: pela extrema direita crescente; 2) interna: pelo cavalo de Troia do neoliberalismo progressista;

·         A direita tem vantagens não só materiais, mas também as de espírito, delas decorrentes. Ninguém nasce com capacidade de concentração e de pensamento abstrato, hábito de leitura ou pensamento prospectivo que possibilitem enxergar o futuro além do presente imediato. A classe média e a elite “herdam” essas vantagens desde o berço, com exemplos práticos cotidianos, o que é decisivo para o aprendizado dessas disposições de comportamento. O que leva a concluir que: disposições de comportamento fundamentais, que permitem a compreensão do mundo, são diferencialmente distribuídos pela clivagem de classes sociais.

·         A esquerda foi crescentemente tomada por uma pauta, ao fim a ao cabo inócua, da ascensão meritocrática e individual de alguns poucos representantes dos setores oprimidos;

·         Como servir aos trabalhadores e ao mesmo tempo ser cooptado pelo capital financeiro? Ora, outra punhalada veio/vem da “desilusão” ou “ressentimento” para não dizer “frustração” com políticas fracassadas que prometeram “tudo”, de partidos (PT) que haviam historicamente representado os interesses populares. Agora, são os ressentimentos e humilhações provocados pela grande desapropriação do capital infofinanceiro que impulsionam a extrema direita, que também mimetiza o comportamento da velha esquerda, fingindo agora representar os humilhados e ofendidos contra o sistema de poder;

·         Manipulando um público indefeso, sem educação de qualidade e sem informações isentas, algo mais fácil de se fazer dentro das bolhas autorreferidas, uma criação suprema dos algoritmos;

·         Com polarização, criada pela extrema direita para provocar um efeito: encaminhar os partidos de esquerda para o centro do espectro político em praticamente todos os lugares, inclusive no Brasil;

·         A produção de crises, a aplicação de golpes e as privatarias com base na “moralidade”. Exemplos: 1) a elite produziu a crise do mensalão no primeiro governo Lula e 2) o golpe midiático-parlamentar de 2016 que destituiu Dilma Rousseff (no intuito de transferir renda da população para os mais ricos via endividamento e baixos salários e destruir a última instância de soberania popular do sistema político brasileiro – controlar o Executivo é comandar a única instância de poder em que projetos alternativos de nação podem ser confrontados sobre o orçamento público), uma balela da corrupção apenas da política para travestir o saque das riquezas e do orçamento público, realizada com o aval da classe média branca, em suposta defesa da moralidade pública; 3) o Banco Central “independente” e as Emendas Parlamentares obrigatórias ou “Orçamento Secreto”;

·         O interesse por trás do assassinato da esquerda é capital, dinheiro. São as isenções fiscais bilionárias e o saque financeiro que motivam seu homicídio (o Estado perde foco e capacidade de executar políticas públicas transformadoras);

·         A imprensa corporativa é o seu maior instrumento de manipulação e de sistemático engano da população. A elite do mercado rouba e a imprensa mente – esse é o resumo da dominação social, política e econômica no Brasil há mais de cem anos!

·         Esvaziar e criminalizar o Estado e a política para garantir o seu monopólio, a real base de todo o seu poder econômico;

·         Com fortes ataques da extrema direita, cuja estratégia é desviar a atenção das questões sociais fundamentais para a “guerra cultural” por uma moralidade agressiva (exemplos: “voto na direita para meu filho não virar gay na escola da esquerda”; o negro evangélico que vota na direita por causa da “valorização da família”; o homem humilhado pelo capital, inseguro e empobrecido, mas que vota na direita (o pobre de direita) porque sustenta um discurso de que em casa quem manda e oprime a mulher e os filho é apenas ele, ou seja, o humilhado na rua quer saber que no seu lar ele pode ter sua desforra; etc.). O machismo: esse público masculino, desenraizado e fragilizado, e por conta disso agressivo e violento, é o verdadeiro motor da extrema direita em todos os lugares;

·         O racismo: outro elemento agregador da extrema direita (é sentido por todos, mas não pode ser assumido explicitamente, bem aí mora o suposto “país cordial”). Exemplo: veja o mapa da eleição do 1º turno. O que temos ali? Os brancos pobres que são maioria na região Sul e em São Paulo (azul Flávio), o ódio ao nordestino, supostamente “o preguiçoso do Bolsa Família” (vermelho Lula). Não nos esqueçamos que 80% da população nordestina é preta ou mestiça! Enfim, praticamente todas as questões sociais e políticas no Brasil têm um fundo racial reprimido e recalcado;

·         O fingimento, no sentido do comodismo e da não-ação: continua aí viva, mas fingindo que morreu. Some, não adere aos atos, sobe e fica no muro, diz que é neutra;

·         Tomando decisões por discursos e narrativas. Logo, se não tem os fatos, criam-se os boatos. Entretanto, sabemos, assim como os indivíduos, não podemos avaliar uma instituição pelo que ela diz ser, mas sim pelo que ela realmente é. Afinal, só o comportamento efetivo comprova quem se é realmente;

·         A fragilidade de nossa esquerda reside em não assumir a luta simbólica e cultural como sua maior bandeira. Uma luta muito bem assumida pelo Capital e pela Direita, que sabem que “sem dominação simbólica não existe capitalismo”. Por exemplo: a fascinação do pobre com Lula, muito especialmente do nordestino pobre, tem a ver com processos de identificação imediata e emocional com a “pessoa” de Lula e de sua trajetória. Não é ruim, mas cria um problema: esse enorme patrimônio é “pessoal”, baseado em uma liderança “exemplar” (não em um discurso articulado e coerente). Isso cria uma descontinuidade entre o getulismo e o lulismo, nos deixando sem um projeto nacional articulado e forte o bastante para transformar o imaginário social da sociedade brasileira;

·         A universidade brasileira jamais foi de esquerda, mas sim elitista. E como é ela que forma todos os quadros de comando da sociedade, também a Ciência, o jornalismo, a imprensa e toda a indústria cultural nativa é cativa de envergadura da mesma narrativa. Visto assim, quem forma academicamente a esquerda nessa usina de ideias elitistas travestidas de crítica social? Um pensamento feito para fragilizar a política e, portanto, a participação popular, criminalizando o voto para garantir o acesso irrestrito das elites ao poder de Estado – fonte real de todos os seus privilégios – ao ser percebidas como boas, produtivas e honestas.  “[...] primeiro, quem define se existe ou não corrupção é a mídia dominante nas mãos da mesma elite que corrompe; segundo, aceita-se, implicitamente, que a corrupção é apenas política, ao mesmo tempo invisibilizando a elite de proprietários como fonte de toda a corrupção real, de quebra criminalizando a política, o Estado e a soberania popular” (p. 108).

·         A esquerda não pode assimilar o imaginário de seu inimigo de classe, e ela vem assimilando. Isso é tomar o veneno da elite que quer combater. Ao compartilhar o imaginário elitista dominante na sociedade, sabendo ou não, acaba se transformando em marionete da elite, seu plano B. A esquerda fica condenada a meramente administrar o capitalismo periférico com um toque de empatia popular, sem jamais se contrapor a ele e sem ao menos tentar desconstruí-lo.

·         A esquerda enfraqueceu porque a direita vem conseguindo dizimar todas as suas principais lideranças mais combativas sem se conseguir sequer uma reação mais contundente.

·         Por que as três grandes questões que assombram os seres humanos de todos os lugares e épocas distintas (de onde viemos, quem somos e para onde iremos) e que deram origem a todas as grandes religiões mundiais (budismo, cristianismo, hinduísmo, confuncionismo, islamismo, judaísmo, protestantismo), a elite escolhe aquela versão em que se encaixam e se justificam os seus interesses: a explicação dominante sobre o mundo seleciona e escolhe o rumo da sociedade inteira, a partir de certas interpretações que ganham o público porque atendem às suas necessidades fundamentais de sentido e de pertencimento.

·         É costume atacar a moralidade do povo, animalizando-o ou taxando-o de primitivo:

“Ora, quando se ataca a moralidade se destrói o fundamento mesmo do espírito humano e da humanidade enquanto tal. Negar a moralidade a alguém é, portanto, o equivalente a animalizá-lo, o que não permite a empatia que temos com o sofrimento de outro ser humano. Afinal, a moralidade é a dimensão mais importante do espírito humano, como já dizia Kant. Quem não tem moralidade não tem espírito; e quem não tem espírito é animalizado, deixa de pertencer ao gênero humano. É a legitimação perfeita para o saque e o esbulho das riquezas dos povos supostamente desonestos e primitivos” (Jessé: p. 115).

·         Impregnou em parte da sociedade brasileira a “servidão voluntária”:

“[...] Todo povo colonizado culturalmente, como é boa parte do povo brasileiro, age como um escravo fiel, que procura antecipar o desejo de seu dono para melhor servi-lo. [...] Esse é o “bloco de poder” que manda no país, unindo as classes proprietárias e a classe média branca que irá se contrapor à “África”, feia, pobre e inconfiável, que é como essas classes percebem as classes populares, ou seja, cerca de 80% da opulação. Do mesmo modo que na dimensão planetária, a dominação interna no capitalismo periférico brasileiro também é legitimada pela suposta “moralidade superior” das classes brancas” (Jessé, p. 115).

·         Qualquer tentativa de inclusão social no Brasil foi sempre um problema para a elite, que logo procurou um pretexto para evitá-la. Como deseja ser a referência da moralidade superior, geralmente chama os “investimentos” em “gastos” e a “inclusão” de “corrupção”. “[...] nunca foi a corrupção o problema dessas classes do privilégio e sim a inclusão popular, especialmente dos negros nas universidades, o bastião do privilégio racista dos brancos. Para a classe média branca, a corrupção, desde que seja de elite que ela inveja e admira, não é um problema” (p. 116).

·         A esquerda caiu em uma condição de defensiva e nela se acomodou, devido: a) desorientação; b) falta de estratégia política histórica; c) ausência de um discurso alternativo de fato articulado capaz de construir um imaginário social alternativo e crítico;

·         A esquerda não dispõe de um imaginário alternativo ao elitista, como se um “meme” pontual fosse capaz de restituir os elos de explicação necessários à compreensibilidade social e histórica do sujeito (negados pela força da pregação elitista). Mas, o pior, se joga de corpo e alma no “economicismo”. Veja isso:

Como a imensa maioria dos quadros políticos é de classe média – e a classe média tende, ingenuamente, a universalizar a sua visão privilegiada do mundo, cognitiva e emocionalmente, às classes populares –, imagina-se, infantilmente, que um projeto econômico de redenção popular e de melhoria de vida seria espontânea e imediatamente percebido pelos pobres enquanto tal. As pessoas só entendem, normalmente, uma herança em dinheiro. Exceto para a ínfima elite, o aspecto decisivo é a herança cultural de classe. Por ser invisível à maioria, permite a falácia da meritocracia, como se todo privilégio individual não tivesse um fundo social. Até hoje os negros e pobres existem para servir de mão de obra barata a preço vil para as classes do privilégio, e para ser, além disso, humilhados cotidianamente pela polícia, pelas patroas, pela escola precária e pelas novelas e notícias desastrosas da mídia (é a elite que seleciona tudo o que o povo vai ver na imprensa e na indústria cultural, com força e pregação diária).

·         Há um pacto antipopular histórico entre elite de proprietários e classe média, consolidado desde os anos 1930, que a democracia sempre tem sido um arremedo entre nós por conta desse ataque intestino e encoberto à soberania popular, desvelando mais uma manifestação concreta do escravismo que continua hoje.

·         O imaginário totalizador elitista dominante permite envenenar ou enfraquecer decisivamente a crítica fragmentada solta no mundo. A crítica pontual tem seus limites claros: é uma pequena lanterna num mar de escuridão. Essa crítica parcial é impotente para se contrapor a um imaginário que serve para isolar e enfraquecer as críticas pontuais, fragmentando a compreensão do indivíduo. Enfim, uma crítica sempre pontual e fragmentária é facilmente engolida e mastigada pelo imaginário dominante.

·         A elite prega diariamente com força esses dogmas: a) a imagem de que somos mais corruptos que os outros povos e por isso imbecilizados a ponto de entregar de bandeja a Petrobras e a Odebrecht aos americanos (tidos como os super-heróis honestos, produtivos e confiáveis); b) a crença de que toda corrupção estaria só no Estado e na política; c) culpa-se a política e o Estado por tudo de ruim, o que fragiliza a política como um todo e apequena a participação popular; e de quebra ainda se invisibiliza o saque real da elite sobre o povo; d) a elite aproveita os golpes também para “privatizar” – um eufemismo do saque sobre a riqueza pública – as empresas estatais lucrativas e produtivas a preço de banana.

Enfim, o que sobra? Raiva, muito ódio. Que também são, e essencialmente são, combustíveis de proveito. Essa raiva justa pela opressão diária será canalizada agora pela extrema direita, não pela esquerda. Lançada contra quem? Quais bodes expiatórios? O PT (antipetismo), a mulher (feminicídios), o gay (homofobia), os negros e os pobres (a criminalidade), a política e o voto (o número alto de abstenções e brancos) e até nos bichos e na natureza (os incêndios criminosos e o especismo), etc. Eles vão continuar interpretando seu empobrecimento relativo, provocado pelo golpe de 2016, como causado “pela corrupção do PT”, tal qual noticiado por anos a fio em toda a imprensa brasileira.

Zumbi: REVIVER a esquerda II.

O que ressuscita a esquerda?

A tarefa da esquerda é sempre mais difícil e desafiadora. Como o imaginário dominante e o senso comum compartilhado são racistas e elitistas, qualquer crítica localizada que não denuncie o todo é inócua e de pouco alcance. A esquerda precisa construir uma narrativa própria da história e do real funcionamento da sociedade. Precisamos reestabelecer o vínculo com a totalidade mais abstrata, o ponto de partida para o convencimento das massas, o que permite a compreensão e o conhecimento de nosso lugar no mundo social.

Embora o grande objetivo da extrema direita seja acabar com a empatia dos seres humanos uns pelos outros, é algo que ainda não se consolidou.

Racionalizar a irracionalidade ética do mundo.

·         Ponto de partida para a esquerda: acusar o escravismo continuado com outras máscaras, e propor uma grande narrativa alternativa, verdadeira e crítica.

·         Compreender os erros e aprender com eles: que nos trouxeram até aqui, e que foram muitos, e entender o que fazer a partir de agora. Por isso, é claro que as cartas hoje não estão com a esquerda, hoje na defensiva e crescentemente impedida de governar. Porém, não é para se vitimizar, mas buscar uma noção clara de seu papel e fazer leituras alternativas da realidade. Sem se contrapor ao domínio infofinanceiro e seus prepostos nativos, denunciando sua mentira e manipulação, não existe “esquerda”. Precisamos sair da caverna iluminada por ideias elitistas disfarçadas de crítica social.

·         Desconstruir a Meritocracia ou a leitura do mundo como “vencedores e humilhados”. Qualquer projeto de esquerda tem que desconstruir, em primeiro lugar, essa leitura do mundo compartilhada por vencedores e humilhados.

·         A afirmação dos trabalhadores se deu (e se dá) pelo convencimento público de sua importância e sua contribuição para o bem comum;

·         A esquerda precisa de objetivo claro e mensagem própria à população – visão da sociedade. Sem isso, seremos um joguete de interesses que não se autocontrola e nem controla nada. Afinal, só um “meme” pontual não será capaz de restituir os elos de explicação necessários à compreensibilidade social e histórica do sujeito (negados pela força da pregação elitista). O meme é efêmero, tem eficácia com pouco prazo de validade, pois sem passado e sem futuro.

“[...]. O contra-ataque pontual feito através dos memes ajuda a fragmentação do mundo na consciência do indivíduo, posto que não reconstrói uma narrativa coerente e totalizadora. Explicações isoladas, ainda que brilhantes e radicais, são de pouca valia. Os memes que tiveram mais atenção e visualizações foram exatamente aqueles que uniram, na cabeça da população, algo que jamais havia ouvido: a denúncia da relação carnal entre imprensa, congresso reacionário e os bilionários saqueadores da nação. Isso mostra, precisamente, a extraordinária eficácia da verdade e de denúncia como arma política” (Jessé: p. 124).

·         Qual o papel dos sindicatos e das escolas para a classe trabalhadora? Contribuir para o reconhecimento social da justeza das reinvindicações dos trabalhadores; 

·         Qual seria a maior das vitórias? A possibilidade concreta de os trabalhadores conseguirem controlar o poder de Estado nas suas mãos pelo voto. E isso só seria possível pela coalizão dos trabalhadores ou a união de todos os operários em uma luta comum (é por isso que as nações mais ricas provocam tensões imperialistas ou a luta de classes para rachar, dividir, fragmentar, enfraquecer ou causar uma cisão das bases populares);

·         A possibilidade de união dos jovens estudantes e dos trabalhadores (hoje, considerada a maior ameaça real ao status quo);

·         Lidar com a “guerra cultural”, uma estratégia criada pelo capital financeiro e a extrema direita (a partir de 1980) para destruir o consenso democrático e muito especialmente o Estado de bem-estar social;

·         Assumindo a luta simbólica e cultural como sua maior bandeira. Enfrentar a luta cultural permanentemente, assim como a fazemos tão bem como marketing nos períodos eleitorais. Por que não continuamos? Afinal, essa é uma luta muito bem assumida pelo Capital e pela Direita, que sabem que “sem dominação simbólica não existe capitalismo”. Precisamos criar e estabelecer um discurso articulado e coerente permanentemente. Um projeto nacional articulado e forte o bastante para transformar o imaginário social da sociedade brasileira. “[...] Qualquer projeto de esquerda que não tenha como foco mudar o imaginário social de forma radical está condenado ao fracasso ou aos voos de galinha que jamais chagam à transformação social duradoura. Vargas, por sua vez, havia compreendido que não basta transformar “materialmente” o país, provendo modernização, inclusão social, urbanização e industrialização. É necessário mudar o imaginário, ou seja, como o país inteiro se compreende e se percebe” (JESSÉ: p. 103). Abraçar a luta cultural, com força e permanentemente, a fim da construção de um imaginário social alternativo e crítico!

·         No campo do imaginário social é que se cria e se compartilha a afirmação ou a negação de direitos. A guerra cultural travada precisa dar conta desse campo, combatendo nele o negacionismo e a exclusão, e afirmando ali a dignidade, a humanidade e o valor da pessoa, em prol da “identidade nacional” do Brasil (a herança africana, o samba, o futebol, o carnaval e, no embalo, CLT, política de cotas raciais e direitos universalizados para todos, etc.), de modo a que todos possam se sentir incluídos e participantes do destino nacional. A luta pelo imaginário inclusivo é essencial (evitando a desmoralização do povo, seu voto e participação política)! Logo, jamais abraçar o imaginário social de seu inimigo de classe;

·         A esquerda precisa aprender a usar a máquina de propaganda a seu favor.

·         Combater o isolamento político (em todas as instâncias: Congresso, Mídias, Ruas, etc.) e sair de uma posição meramente defensiva no debate público.

·         Ter a capacidade de fazer leituras alternativas da realidade, sem cair no “economicismo” ingênuo;

·         Evitar o verdadeiro negócio das elites: o monopólio da posse do Estado.

·         Quem forma academicamente a esquerda? A esquerda precisa repensar espaços alternativos de formação de base, já que a universidade brasileira jamais foi de esquerda, mas sim elitista. E como é ela que forma todos os quadros de comando da sociedade, também a Ciência, o jornalismo, a imprensa e toda a indústria cultural nativa é cativa de envergadura da mesma narrativa. No meio de todos eles, o que aparecem, mais individualmente, são alguns profissionais mais brilhantes e de envergadura crítica real.

·         Precisamos construir uma denúncia clara. Precisamos ter um imaginário social alternativo, coerente e crítico ao dominante (e que não seja uma questão abstrata de intelectual que deseja que uma visão “correta” substitua a visão manipuladora), mas que permita esclarecer a população sobre o que efetivamente anda acontecendo. Para ser eficiente, a denúncia do logro político tem de ser feita “de fora” do imaginário dominante, com a proposição de uma compreensão alternativa ao que acontece na sociedade, com capacidade de voz dissonante que possa desconstruir as farsas em jogo (capaz de explicação e sentido, bem como o meio adequado para produzir pertencimento e reconhecimento social). Enfim, a esquerda não pode ficar na posição das cordas que leve pancada de todos os lados e se torne incapaz de governar.

·         A esquerda atual precisa ousar disputar as ideias dominantes.

·         Realizar constantes análises de estrutura e de conjuntura. Compreender o mundo e buscar sentido é importante (necessidade fundante e universal de toda vida social, Max Weber). Há a necessidade de tornar o mundo inteligível como ponto de partida das decisões, falas e posições dentro desse mundo simbólico da imaginação compartilhada que, ao mesmo tempo, acolhe ou exclui, seletivamente, pessoas, classes e grupos sociais, criando, ao mesmo tempo, o sentimento de pertencimento de alguns e de exclusão de outros (pertencimento e reconhecimento social é uma necessidade humana urgente e vital, Hegel).

·         É preciso aprender a lidar com as redes sociais e o uso da IA, bem como o velho problema da imprensa e da mídia tradicional que estão cada vez mais afiadas. O advento delas torna especialmente difícil o trabalho pedagógico e crítico das esquerdas. Os partidos tradicionais da esquerda mundial perdem a cada eleição mais adeptos. Aqui se juntam, em uma engenhosa divisão do trabalho da dominação, as redes sociais privadas e a mídia tradicional também privada. Enquanto esta ainda toca nas grandes questões que envolvem a todos; aquelas lidam com os efeitos do desconhecimento que produz uma multidão desorientada, empobrecida e raivosa, o que explica o manancial de ódios, ressentimentos, escândalos, tentativas desesperadas de chamar atenção (ficou pronta a matéria-prima principal da extrema direita de hoje: a “fragmentação da consciência”). Logo, precisamos reestabelecer o vínculo com a totalidade mais abstrata, que é o que permite a compreensão e o conhecimento de nosso lugar no mundo social.

“Afinal, a imprensa é, de modo muito conveniente, propriedade privada da mesma elite que saqueia todo mundo. Assim, toda vez que um representante popular, apesar de todo o cerco midiático, conseguir chegar ao comando do aparelho do Estado, a elite pode jogar, a qualquer momento, a acusação pré-fabricada de corrupção para explodir todo o processo democrático. É um jogo viciado por dentro há cem anos. Jogo este que quase ninguém se deu ou se dá conta na sua inteireza. O resultado prático é tornar o sufrágio universal ineficaz como forma de participação popular. A mensagem elitista é dupla e enganosa: a gente faz de conta que aceita o sufrágio universal e o jogo democrático, mas os excluídos e marginalizados têm que continuar sem voz e seu voto não pode valer, senão a gente explode tudo. Os marginalizados e indefesos têm que continuar levando uma vida indigna, porque a elite não quer gastos orçamentários com esse pessoal, já que vê o orçamento público como coisa sua. [...]” (Jessé: p. 126).

·         Saber lidar com a mágoa e o ressentimento das classes populares, que pode ser canalisada. As classes populares empobrecidas desenvolvem um ressentimento compreensível pela perda de poder de compra e de direitos, sem ter a menor ideia de quem ou o que é, efetivamente, responsável por sua desgraça. A imprensa venal existe precisamente para que o público jamais compreenda o que efetivamente acontece (esse “efeito desconhecimento” é o principal produto da mídia privada tradicional, ao criar uma realidade virtual que exige sistemático engano e manipulação da realidade – esse é e sempre foi o seu trabalho e sua função social). Precisamos construir e manter mídias alternativas de informação e leituras críticas da realidade.

·         FOCO no que importa: o novo regime de informação fragmenta, bagunça e distrai. Assim, a nossa atenção não se dirige mais aos temas relevantes para a sociedade, mas sim para uma miríade de informações sem qualquer relação umas com as outras. Esse fato instaura um caos cognitivo que pulveriza a percepção do indivíduo (vertigem e “mundo sem história”), impossibilitando a reflexão e a autonomia da consciência (operações cognitivas que exigem concentração, esforço dirigido e continuado). E não existe conhecimento fácil. Qualquer promessa de conhecimento sem esforço é “imbecilização do público”, a nova dominação (Theodor Adorno).

·         A esquerda precisa de um novo discurso articulado e de uma nova visão do mundo e das coisas, não apenas de bons exemplos. Quando não se tem visão própria, é a visão do inimigo que predomina. É preciso, portanto, “[...] reconstruir a história do país de modo crítico e mostrar as causas reais da sua dinâmica atual, que empobrece e despolitiza o povo [...]” (Jessé: p. 119). E fazer isso não apenas como objetivos “acadêmicos” ou na defensiva, mas orgânica e cotidianamente como ação política racional que se pretende transformadora.

·         Não basta melhorar a economia para que o povo perceba quem é amigo e quem é inimigo (que muitas vezes faz o jogo do inimigo para conseguir uma pequena fatia do orçamento público para os pobres). O projeto elitista sempre quis o povo também deseducado e despreparado e, para isso, criou um contexto conservador pelo imaginário que nos domina. A esquerda precisa se descolar efetivamente da influência cultural do ideário elitista (como o de nos fazer acreditar que ela tenha qualquer impulso ou objetivo democratizante). E, para isso, é necessária uma mídia alternativa e crítica.

·         A esquerda precisa de objetivo claro e mensagem própria à população – visão da sociedade. Sem isso, seremos um joguete de interesses que não se controla e nem controla nada. Exemplo: Pesquisa empírica realizada em 2010 com a nova classe C, mostrou que 80% das pessoas entrevistadas que experenciavam ascensão social significativa na época diziam que a causa principal da sua boa ventura era “Jesus”, que é o que ele ou ela ouve todos os domingos no culto evangélico. A esquerda precisa compreender o significado fundamental da construção de um imaginário alternativo que pudesse explicar a esse indivíduo qual a verdadeira causa de sua ascensão. E fazê-lo tão forte como está fazendo agora nas campanhas de marketing das Eleições de 2026. Isso implica “guerra cultural” e formação de base constantes. Tudo feito com antecedência e permanência, assim como fazem as novelas e os cultos.  

·         A esquerda precisa saber fazer o curativo da sua “Ferida de Classe”. A herança imaterial é o fundamento do privilégio da classe média branca que se imagina meritocrática. É responsável pelo sucesso escolar dos filhos dessa classe privilegiada e condenação ou fracasso/insucesso dos filhos dos pobres = consequente marginalização social. Falta uma visão abrangente crítica e alternativa para expor e curar essa ferida, porque todo comportamento é determinado por ideias. E é justamente a ausência dessas ideias que também causa a passividade das massas perante a sua própria dor e sofrimento. Enfim, o conhecimento cura e liberta! Todas as revoluções eficazes e todos os processos de aprendizado social pressupõem uma mudança do imaginário social dominante.  

·         Aproximar especialistas e povo leigo: criar outras opções para o povo escolher se libertar. Movimentos populares diversos precisam atrelar a especialistas diversos, e vice-versa, alinhando o senso comum e a consciência científica e filosófica. Mostar aí que há outras possibilidades em relação à vida percebida como imutável. Ao criar essa e outras opções políticas, é oferecida ao povo mais visão alternativa da sociedade. É preciso esclarecer ao povo, com a linguagem do povo, sobre quem são seus verdadeiros inimigos. Se alguém explicar, o povo vai entender. O povo só foi imbecilizado pela imprensa por séculos, mas nasceu inteligente e pode recuperar sua inteligência roubada se derem a chance para isso. Sem um quadro de compreensão maior, mais abrangente e coerente, nenhuma questão faz realmente sentido, pois a compreensão humana do mundo social depende da articulação totalizadora e coerente de todos os elos que constroem uma compreensão particular.

·         Precisamos não só exercer a empatia como estimular que outros a exerçam, sobretudo as pessoas da classe média. Ponha-se no lugar de um miserável. Ele é o produto típico da escola precarizada e da imprensa venal. Uma verdadeira fábrica de ignorância e ressentimento.

·         Desenvolver a capacidade de perceber o que é principal e o que é secundário na realidade social. E o conceito pode nos ajudar nisso. Sem isso o mundo é apenas confusão e opacidade. E o que existe de mais importante para a compreensão de qualquer sociedade é a sua forma de legitimação. Como toda sociedade é injusta, ainda que em graus distintos, a primeira função que permite a reprodução no tempo de dado arranjo social é a legitimação desse arranjo, do contrário isso não dura um dia sequer.

·         Criar uma “cultura de resistência”, já que o povo sente a humilhação na prática cotidiana, mas não compreende quais são as suas origens. Fazer com que o povo oprimido entenda sua real condição social permitiria uma cultura de resistência que, potencialmente, uniria os 80% de pobres e de humilhados que fazem parte da sociedade brasileira. Afinal, ninguém quer ser tratado ou visto como um escravizado sem direitos.

·         A cegueira de quem não entende como o mundo social funciona nem percebe a importância decisiva da disputa pela hegemonia das ideias precisa acabar. Precisamos de uma concepção que empodere os excluídos e mostre a injustiça flagrante da sociedade brasileira, nas suas raízes reais, é a matéria-prima fundamental de qualquer mudança social real e efetiva. Essa mudança virá com a criação de um novo imaginário totalizador e antielitista, social e crítico, capaz de religar, na cabeça das pessoas comuns, aquilo que foi fragmentado pelas redes sociais e pela extrema direita.

·         A questão aqui é pragmática e coletiva, de salvação nacional, não de vaidade pessoal. Se existir no mercado de ideias outra visão mais verdadeira e mais profunda, capaz de produzir um novo imaginário mais crítico e alternativo, por favor, que seja essa a nova ideia a ser abraçada!

·         A pregação comunista e a crítica ao imperialismo, precisamente por ser oposta ao ideário elitista, passa a ter, também, chances práticas reais de representar a “esquerda” em um futuro próximo.

Enfim, a esquerda pode apostar na leitura e na escrita. Uma leitura e uma escrita críticas e alternativas do mundo social para a compreensão e motivação política, especialmente pelas pessoas que mais são prejudicadas pelo nosso sistema econômico. Compreensão e motivação essas, capazes de criar e gerir um projeto nacional autônomo, de desenvolvimento industrial com soberania econômica e política, alimentado por um imaginário social crítico, alternativo e inclusivo.

14/10/2026

O imaginário social.

“Se você quer controlar um povo, crie um inimigo imaginário que pareça mais perigoso do que você e, em seguida, apresente-se como o salvador deles” (Noam Chomsky). 

“[...] o racismo racial tem de ser recalcado e assumir a forma de racismo cultural [...]. Constrói-se a percepção de que os Estados Unidos são a pátria do protestantismo ascético, da disciplina, da autoiniciativa, do trabalho útil e, acima de tudo, da “honestidade”, tornando-se assim, “cientificamente”, o padrão e um ideal a ser alcançado por todos os demais povos. Enquanto isso não acontece, no entanto, os povos superiores “culturalmente” devem governar e explorar os mais atrasados [...]” (Jessé Souza). 

O imaginário social é um conjunto compartilhado de ideias, símbolos, imagens, mitos, crenças e valores que um grupo humano utiliza para dar sentido à sua realidade e construir a sua identidade coletiva. Ele não é algo natural ou fixo, mas moldado ao longo do tempo pela história, pela cultura, pela literatura, pela religião e pelos meios de comunicação de uma sociedade.

Assim, o imaginário social funciona como uma "lente" através da qual as pessoas enxergam o mundo, influenciando comportamentos, expectativas, leis e estilos de vida. Ou seja, não é neutro e, por isso mesmo, um território de luta política onde diferentes grupos tentam impor seus próprios símbolos e visões de poder — o chamado poder simbólico. Portanto, as principais características desse imaginário são a construção coletiva, o funcionamento como guia de conduta e um campo de disputas de classe.

Quais elementos são usadas para (des)construir esse imaginário? Por exemplo, se o objetivo for construir a ideia de “nação” ou “brasilidade”, isto é, a identidade ou o sentimento de pertencimento ao país, podem entrar em jogo ou disputa os heróis nacionais, as datas cívicas, as bandeiras e narrativas históricas, etc. Outro exemplo vem do Direito e as Leis. A própria aceitação do funcionamento de normas e instituições dependem do modo como a sociedade imagina a justiça e a autoridade.

 Getúlio Vargas    x   Sérgio Buarque de Holanda.

É Getúlio Vargas quem cria a primeira “identidade nacional” do Brasil de modo a que todos pudessem se sentir incluídos e participantes do destino nacional. Para tanto, ele tinha de afirmar e elevar aqueles que anteriormente haviam sido excluídos. Alguns dos elementos que Vargas trouxe para alimentar esse imaginário social inclusivo foram políticas reais: a proteção das classes trabalhadoras urbanas, direitos trabalhistas, a indústria de base, a fundação da Petrobras, a projeção da Eletrobras e a criação da Vale do Rio Doce, a criação do IBGE, a importância para a herança africana, o samba, o futebol, a capoeira, o carnaval e, no embalo, CLT (o salário mínimo, carteira de trabalho, jornada de 8 horas, férias remuneradas e descanso semanal), política de cotas raciais, o voto feminino, o código eleitoral e direitos universalizados para todos... Daí o operário moral e patriótico e o “ser brasileiro” (foi quem criou o DASP visando a profissionalização do funcionalismo público, instituindo o concurso público e acabando, em parte, com o clientelismo oligárquico).

Para se contrapor a ele, um novo imaginário social dominante foi construído em 1936 com a interpretação de Sérgio Buarque de Holanda – que se torna leitura oficial e dominante do país em todas as dimensões até hoje – e procura reverter a concepção de mundo inclusiva getulista. Já os elementos que Buarque trouxe para alimentar esse imaginário foram o homem cordial (que age pelo coração e não as regras impessoais), a ética da aventura e não do trabalho (improviso e busca de lucros fáceis), o mito do paraíso (do acaso como naturalidade ou como bênção que substituem a organização social refletida) e o patrimonialismo (ou a incapacidade histórica de separar a esfera privada da esfera pública). Tudo isso dificulta o Estado Democrático de Direitos, pois substitui a sociedade organizada e bem intencionada por uma aposta no destino. O Estado acaba sendo encarado como uma extensão dos interesses familiares ou pessoais dos governantes (o chamado funcionário patrimonial ou "vagal"/malandro), o que explica a resistência crônica a instituições republicanas modernas e impessoais em favor de laços de favor, compadrio e personalismo. Enfim, Sérgio Buarque joga na lata do lixo o povo como um todo, como símbolo do atraso e da desonestidade.

“Quem assume essa responsabilidade de construir uma identidade nacional elitista, para se contrapor à identidade nacional inclusiva de Vargas, entre nós, é a elite de São Paulo. Essa elite cria fundações e instituições com suposta função pública de modo a legitimar o seu comando da sociedade nacional também na dimensão cultural e política, não apenas econômica. Enfim, tenta difundir a crença de que apenas a elite de São Paulo pode dar jeito no país atrasado e primitivo” (Jessé Souza). 

Partindo dessa visão dúbia, o imaginário social da elite brasileira é construído sobre uma complexa herança histórica que mistura traços do período colonial, dinâmicas de exclusão e uma busca constante por modernização e distinção. Suas características são: é homogêneo e não plural conflitante; tem herança colonial e patrimonialismo ou privatização do espaço público; enxerga as profundas divisões sociais e econômicas do país como "naturais" ou inevitáveis, em vez de históricas; os privilégios corporativos, jurídicos ou fiscais são vistos como direitos adquiridos; busca sua validação cultural, estética e intelectual no exterior (EUA, França); sentimento de desconexão ou estranhamento em relação à cultura popular do próprio país, que por vezes é vista como "atrasada" (eurocentrismo, cosmopolitismo ou o complexo de superioridade local); o amor ao trabalho duro, a iniciativa própria independente, dinamitar o passado, deslegitimar toda a cultura; o discurso do sucesso individual e do esforço pessoal é amplamente adotado para justificar a manutenção da riqueza e do status (a forte Meritocracia em um País desigual, e que serve como uma barreira moral que absolve o indivíduo de responsabilidade direta pela vulnerabilidade social do outro – é a “blindagem social”); preferência por relações baseadas no afeto e na intimidade em detrimento das leis universais (um tratamento "paternalista" com subordinados: “amigão” ou “irmãozão”); preza por uma arquitetura da exclusão: forte isolamento físico e geográfico por meio de condomínios fechados, carros blindados e shoppings de alto padrão; medo para além da violência, mas ao risco social e a perda de privilégios: demanda constante por hipervigilância, privatização da segurança e controle social.

“[...] Os ricos podem roubar o que quiserem que serão admirados como homens de negócio, já que ladrão é apenas o povo pobre, especialmente o negro, e seus representantes políticos. Se alguma coisa sair do arranjo predeterminado, basta inundar a própria imprensa (propriedade privada dessa mesma elite do saque) com denúncias infundadas de corrupção para provocar um linchamento público sem deixar espaço para o contraditório. Esse expediente tem assegurado a posse irrestrita do Estado à elite, mesmo sem o voto popular, nos últimos cem anos. Ninguém pensa nisso, inclusive a imensa maioria dos próprios intelectuais, mas a ciência dominante, ou seja, aquela versão supostamente científica que se torna identidade nacional da maioria dos indivíduos, é produzida “cientificamente”. Depois é essa ciência, e não qualquer outra coisa, que vai permear canções, filmes, romances, peças de teatro, séries e novelas, ajudando a criar um imaginário social muito próprio a partir de uma identidade nacional compartilhada. O peso e a importância de uma explicação coerente e totalizante acerca do mundo social são tamanhos que no nosso caso vão colonizar até os partidos de esquerda que deveriam se contrapor a esses elementos... 

“[...] corruptos entre nós vão ser apenas os pobres, os negros e os mestiços, já que os brancos imigrados da Europa e que seguem para São Paulo e o sul do país vão se ver, até hoje, como “europeus” na África, sem ter nada a ver com o “povinho” mestiço e preto que tanto desprezam e odeiam. Por conta disso, como vimos, quem sai às ruas em todos os golpes de Estado, posando de defensores da “moralidade pública”, são brancos de classe média bem-vestidos. Nesse imaginário elitista hoje ainda dominante, o atraso e a miséria do povo vão ser postos na sua própria conta. Culpa-se a vítima pelo próprio atraso e por sua desfortuna. Que bela tradição de pensamento, não é mesmo? Isso tudo professado pelas “vacas sagradas” do pensamento social brasileiro, que tiram onda de “crítica social [e faz acreditar que a culpa é do voto, da política e do Estado, nunca das nossas sagradas elites do dinheiro]” (JESSÉ: pp. 106-108). 

"[...] E a classe média branca não quer competição de negro e de pobre que ameace seu virtual monopólio do capital cultural e do conhecimento relevante socialmente, o que lhe assegura bons empregos e reconhecimento social em um país de miseráveis" (Idem, p. 127). A classe média sempre foi a “tropa de choque” da elite do saque. É ela que se finge de povo em todo golpe de Estado, para “moralizar” a continuidade da exclusão social dos negros e pobres que garante o monopólio de classe do capital cultural legítimo (p. 133).

Na origem da esquerda existe a luta dos trabalhadores oprimidos por direitos e oportunidades de vida. Logo, a esquerda tem a ver com a universalização de direitos e oportunidades. É por eles que lutamos. Essa luta política pelas ideias dominantes precisa ser travada com boas armas – narrativas sociais totalizadoras, embate intelectual, imaginário social crítico, historicização e amor revolucionário. 

Diante dessas três imagens sociais conflitantes, a esquerda precisa assumir a luta simbólica e cultural como sua maior bandeira. É preciso travar “a luta cultural” permanentemente, assim como a fazemos tão bem como marketing nos períodos eleitorais. Por que não continuamos? Afinal, essa é uma luta muito bem assumida pelo Capital e pela Direita, que sabem que “sem dominação simbólica não existe capitalismo”. O que não podemos, jamais, é abraçar o imaginário social do inimigo de classe. Precisamos, sim, criar e estabelecer um discurso articulado e coerente permanentemente. Um projeto nacional articulado e forte o bastante para transformar o imaginário social da sociedade brasileira. “[...] Qualquer projeto de esquerda que não tenha como foco mudar o imaginário social de forma radical está condenado ao fracasso ou aos voos de galinha que jamais chagam à transformação social duradoura. Vargas, por sua vez, havia compreendido que não basta transformar “materialmente” o país, provendo modernização, inclusão social, urbanização e industrialização. É necessário mudar o imaginário, ou seja, como o país inteiro se compreende e se percebe” (JESSÉ: p. 103). Enfim, abraçar a luta cultural, com força e permanentemente. Afinal, nada foi dado, tudo foi conquistado!

"Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. (...) Saio da vida para entrar na História" (Trecho da Carta-Testamento deixada por Vargas, antes do seu suicídio em 24 de agosto de 1954).