As Contradições dos EUA.
As 13 colônias britânicas tornaram-se independentes em 1776, depois de muita resistência de seus colonos. Suas lutas foram fundamentadas em princípios iluministas, que fizeram surgir o Estado Liberal como “a verdade econômica”. Todavia, 250 anos depois, o que os 50 estados e o Distrito Federal dos Estados Unidos da América não aprenderam com a sua própria história dita republicana?
No curso da história, o foco de exploração foi sendo alterado pelos exploradores de riquezas. A princípio, estava centralizado nas commodities, depois passou a ser o comércio, adiante a terra e em seguida chegou no “trabalho humano”. Atualmente, quem domina a tecnologia e os centros de informação tenta controlar todos os focos anteriores e se impõe no mercado e no mundo.
Sabemos que o liberalismo econômico é a cartilha do capitalismo, que condena o controle estatal e aposta na exploração do trabalho como fonte de riqueza. Para isso, aplica o racionalismo na produtividade através da concorrência, da divisão do trabalho e do livre-comércio, prometendo uma coisa que não vem se consolidando – o equilíbrio social. A alta concentração de renda pela formação de nichos fechados de bilionários e trilionário, por um lado, e um sistema frágil de seguridade social e má distribuição de renda do outro, escancara as desigualdades sociais produzidas pelo sistema de classes. Esses são os atuais EUA...
Ora, uma nação que encorajou e valorizou as experiências individuais, mas deixou de lado o princípio da igualdade entre as pessoas. Que deu exemplo de superação dos laços de sujeição e valorização das ciências, mas cujo progresso alcançado tem concentrado tecnologia a serviço da espionagem, do poderio bélico, da tomada de recursos alheios, da monopolização do comércio global e do controle espacial. Que é o berço da democracia na América e exemplo dos movimentos emancipacionistas, mas que nos primórdios de sua nova república ficava restrita às decisões de homens comerciantes e latifundiários, tradicionalmente brancos, ingleses ou descendentes. Que tem uma das mais sólidas e concisas Constituição, mas ainda prega o negacionismo, a barbárie e a negação de direitos.
O próprio país que lutou para tornar-se independente de taxações abusivas e leis intoleráveis dos ingleses, hoje tenta aplicar tarifaços excessivos a parceiros comerciais. O mesmo país que foi formado por nativos indígenas asiáticos miscigenados com estrangeiros africanos escravizados e europeus, hoje levanta muros xenofóbicos e tentam aplicar uma política intolerante à imigração. A mesma nação que nasceu defendendo os princípios da liberdade, da autodeterminação, da vida, da segurança, da livre expressão, do espaço privado e da felicidade, provoca ou financia guerras mundo a fora, tentando violar a soberania de outras nações e impor a homogeneização de seus valores aos diferentes povos.
A liberdade pode ser perigosa se
entendida como um conceito irrestrito, puramente político-ideológico e econômico, desvinculado do
compromisso ético e existencial. Vale dizer um populismo anti-institucional e anti-sistema. Imagine um grupo livre e frustrado pela
recessão, pela insegurança e pelo desemprego, formado por gente
ignorante que, em nome da sua suposta liberdade individual, promove comícios com seguranças
armados, retórica racista, misógina e homofóbica, estimula a formação de
milícias, rotula e condena medidas e programas sociais como “tirania socialista” ou "comunista" e fala até numa nova guerra civil. Uma liberdade individual dessas, sobreposta ao
Estado, como possibilidade do indivíduo
decidir, por si próprio, onde e como deve aplicar seus recursos, priorizando a
esfera privada em relação à esfera pública, e a primazia dos interesses
pessoais sobre os interesses coletivos, é uma liberdade fantasiada de patriota
ignorante – e esperto, com disposição a cometer suicídio democrático ao atacar
o próprio voto e as urnas em nome da liberdade de abusos e excessos. Ela existe nos EUA (trumpismo), e por aqui
ficou bastante conhecida como “bolsonarismo”.
Enfim, fora da lei, ninguém é livre para suprimir a liberdade de outros! Um governante deve estar a serviço dos governados e não o contrário. Caso não cumpra sua função, é legítimo que os cidadãos se levantem contra ele, nas ruas e nas urnas. Afinal, se há alguma soberania ela deverá ser popular e com qualidade, onde a liberdade caminha de mãos dadas com a responsabilidade, a igualdade, a Constituição e a Democracia. Caso contrário, esses são os EUA a
quem não queremos pertencer!






