O ser humano é o animal que mais mata indivíduos da própria espécie. Sim, somos nosso pior inimigo!
Guerras sempre foram comuns (são pré-históricas) e continuam a nos assolar. Mas, elas pioraram quando deixamos nossa vida nômade de caçadores-coletores, entre 15 mil e 5 mil anos atrás, em diferentes regiões do planeta. Situamo-nos nas épocas que surgiram as cidades e a agricultura.
Foi nessa época que os humanos ocuparam territórios determinados e acumularam bens, como depósitos de mantimentos, que atraiam a cobiça de outros grupos. Não mera coincidência, foi bem nessa época que surgiram os exércitos, no início grupos armados, como as quadrilhas de hoje.
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Há
relatos históricos e esqueletos com crânios esfacelados e outras evidências
físicas de violência na pré-história, mas não era uma violência coletiva com dimensões de guerras comuns;
· “Mass graves”: locais onde dezenas ou centenas de corpos com sinais de violência foram enterrados juntos, os ossos empilhados de maneira desordenada, mas nada se compara às covas enormes onde os nazistas depositaram os restos de judeus exterminados durante a 2ª Guerra Mundial;
· Dezenas de locais como esses já foram encontrados e muito contêm corpos enterrados até milhares de anos antes de Cristo. Nesses túmulos coletivos geralmente são encontrados esqueletos de homens, mulheres e crianças, quando uma vila era dizimada, ou só de homens, quando os mortos eram resultado de uma batalha entre exércitos;
· As mulheres eram capturadas para fim reprodutivos ou eram escravizadas com as crianças. Causou surpresa a descoberta de um túmulo coletivo no norte da atual Sérvia (próximo da cidade de Gomolava), contendo esqueletos principalmente de mulheres e crianças mortas de forma violenta (um feminicídio 750 a.C.);
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A
violência coletiva surgiu com a sedentarização das comunidades e a transição de
uma economia de predação para uma de produção. Diversas razões podem explicar
essa ausência de guerras coletivas intensas na pré-história – uma população pequena, um
território de subsistência suficientemente rico e diversificado, a falta de
recursos e uma estrutura social igualitária e menos hierárquica. Entre esses
pequenos grupos de caçadores-coletores nômades, a colaboração e o apoio mútuo
entre todos os membros do clã eram necessários para sua sobrevivência. Além
disso, um bom entendimento entre eles era essencial para garantir a reprodução
e, portanto, a descendência.
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Da
predação à produção: vestígios de atos de violência são mais frequentes no
período neolítico. Esse período foi marcado por muitas mudanças de natureza
diferente. Mudanças ambientais (aquecimento global); econômicas (domesticação
de plantas e animas, busca por novos territórios, excedente e armazenamento de
alimentos); sociais (sedentarização, explosão da população local, surgimento de
castas e de uma elite) e, no final do período, religiosas (deusas deram lugar a
divindades masculinas). A
mudança na economia (da predação à produção), que levou a uma mudança radical
nas estruturas sociais desde o início do período, parece ter desempenhado um
importante papel no desenvolvimento de conflitos. Diferentemente da exploração
de recursos na natureza, a produção de alimentos permitia a opção de um excedente
de alimentos, o que deu origem ao conceito de propriedade – e,
consequentemente, ao surgimento de desigualdades.
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As
origens da guerra parecem estar correlacionadas com o desenvolvimento da
economia de produção, que desde o início levou a uma mudança radical nas estruturas
sociais.
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A
violência não está gravada em nossos genes. Seu surgimento tem causas
históricas e sociais – o conceito de “violência primordial (original)” é um
mito. A guerra não é, portanto, inseparável da condição humana, mas sim o
produto das sociedades e das culturas que geram. Como mostram os estudos das
sociedades humanas primitivas, quando confrontados com crises, uma comunidade é
mais resiliente se for baseada em cooperação e apoio mútuo, em vez de
individualismo e competição.
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Quanto
à realidade da vida de nossos antepassados, ela provavelmente está em algum
lugar entre duas visões – ambas míticas – a hobbesiana e a idade de ouro do florescimento
humano, imaginada pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau.
Enfim, a violência e a coragem de matar
pessoas desprotegidas, como mulheres e crianças, não é causada unicamente pelo
ambiente em que vivemos nas sociedades atuais. Mas, foi ampliada pelos sistemas
de acúmulo e competição que montamos para nelas sobrevivermos. Essa violência
faz parte de nossa história profunda e nos persegue desde
nossa pré-história. Isso não quer dizer que é impossível combatê-la, mas mostra
quão difícil é essa tarefa.

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