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“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Formação Nº 02: Violência coletiva.

O ser humano é o animal que mais mata indivíduos da própria espécie. Sim, somos nosso pior inimigo!

Há traços de conflitos gerados na disputa pela predação na pré-história, mas a suposta “selvageria” dos seres humanos pré-históricos é um mito. A violência coletiva se desenvolve com/pela produção e expropriação da propriedade privada, que gerou uma mudança radical nas estruturas sociais e fez surgir as desigualdades econômicas e as classes sociais.

Guerras sempre foram comuns (são pré-históricas) e continuam a nos assolar. Mas, elas pioraram quando deixamos nossa vida nômade de caçadores-coletores, entre 15 mil e 5 mil anos atrás, em diferentes regiões do planeta. Situamo-nos nas épocas que surgiram as cidades e a agricultura.

Foi nessa época que os humanos ocuparam territórios determinados e acumularam bens, como depósitos de mantimentos, que atraiam a cobiça de outros grupos. Não mera coincidência, foi bem nessa época que surgiram os exércitos, no início grupos armados, como as quadrilhas de hoje.

·       Há relatos históricos e esqueletos com crânios esfacelados e outras evidências físicas de violência na pré-história, mas não era uma violência coletiva com dimensões de guerras comuns;

·       “Mass graves”: locais onde dezenas ou centenas de corpos com sinais de violência foram enterrados juntos, os ossos empilhados de maneira desordenada, mas nada se compara às covas enormes onde os nazistas depositaram os restos de judeus exterminados durante a 2ª Guerra Mundial;

·       Dezenas de locais como esses já foram encontrados e muito contêm corpos enterrados até milhares de anos antes de Cristo. Nesses túmulos coletivos geralmente são encontrados esqueletos de homens, mulheres e crianças, quando uma vila era dizimada, ou só de homens, quando os mortos eram resultado de uma batalha entre exércitos;

·       As mulheres eram capturadas para fim reprodutivos ou eram escravizadas com as crianças. Causou surpresa a descoberta de um túmulo coletivo no norte da atual Sérvia (próximo da cidade de Gomolava), contendo esqueletos principalmente de mulheres e crianças mortas de forma violenta (um feminicídio 750 a.C.);

·       A violência coletiva surgiu com a sedentarização das comunidades e a transição de uma economia de predação para uma de produção. Diversas razões podem explicar essa ausência de guerras coletivas intensas na pré-história – uma população pequena, um território de subsistência suficientemente rico e diversificado, a falta de recursos e uma estrutura social igualitária e menos hierárquica. Entre esses pequenos grupos de caçadores-coletores nômades, a colaboração e o apoio mútuo entre todos os membros do clã eram necessários para sua sobrevivência. Além disso, um bom entendimento entre eles era essencial para garantir a reprodução e, portanto, a descendência. A suposta “selvageria” dos seres humanos pré-históricos é, assim, apenas um mito;

·       Da predação à produção: vestígios de atos de violência são mais frequentes no período neolítico. Esse período foi marcado por muitas mudanças de natureza diferente. Mudanças ambientais (aquecimento global); econômicas (domesticação de plantas e animas, busca por novos territórios, excedente e armazenamento de alimentos); sociais (sedentarização, explosão da população local, surgimento de castas e de uma elite) e, no final do período, religiosas (deusas deram lugar a divindades masculinas). A mudança na economia (da predação à produção), que levou a uma mudança radical nas estruturas sociais desde o início do período, parece ter desempenhado um importante papel no desenvolvimento de conflitos. Diferentemente da exploração de recursos na natureza, a produção de alimentos permitia a opção de um excedente de alimentos, o que deu origem ao conceito de propriedade – e, consequentemente, ao surgimento de desigualdades.

·       As origens da guerra parecem estar correlacionadas com o desenvolvimento da economia de produção, que desde o início levou a uma mudança radical nas estruturas sociais.

·       A violência não está gravada em nossos genes. Seu surgimento tem causas históricas e sociais – o conceito de “violência primordial (original)” é um mito. A guerra não é, portanto, inseparável da condição humana, mas sim o produto das sociedades e das culturas que geram. Como mostram os estudos das sociedades humanas primitivas, quando confrontados com crises, uma comunidade é mais resiliente se for baseada em cooperação e apoio mútuo, em vez de individualismo e competição.

·       Quanto à realidade da vida de nossos antepassados, ela provavelmente está em algum lugar entre duas visões – ambas míticas – a hobbesiana e a idade de ouro do florescimento humano, imaginada pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau.

Enfim, a violência e a coragem de matar pessoas desprotegidas, como mulheres e crianças, não é causada unicamente pelo ambiente em que vivemos nas sociedades atuais. Mas, foi ampliada pelos sistemas de acúmulo e competição que montamos para nelas sobrevivermos. Essa violência faz parte de nossa história profunda e nos persegue desde nossa pré-história. Isso não quer dizer que é impossível combatê-la, mas mostra quão difícil é essa tarefa.

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