"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 206, inciso II, da Constituição de 1988).
"Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados" (Myles Horton, p. 138).
“Por que escrevemos? Além de todas as recompensas, escrevemos porque queremos mudar as coisas. Escrevemos porque temos essa convicção de que podemos fazer diferença –uma nova percepção de beleza, um novo insight sobre a autocompreensão, uma nova experiência de alegria, uma decisão de unir-se à revolução" (Robert McAfee Brown). "Escrevo esperando fazer minha parte para restringir a intuição com o pensamento crítico, refinar os juízos de valor com compaixão e substituir a ilusão por compreensão” (David G. Myers, p. 47).
“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).
O que está e o
que não está em nosso poder? Até onde vai a nossa liberdade? Ela só depende de
nós mesmos ou está completamente fora de nós? Nesse texto, vamos encará-la como
uma responsabilidade nossa. A liberdade é uma força interior do sujeito que o
impulsiona a viver nas várias adversidades do caminho. Parece ser algo pendular
entre os fracassos e as vitórias, ou seja, a própria dinâmica de lutar que se
realiza como um meio, meio esse
sujeito a dores e delícias! A liberdade é a condição da nossa humanidade e tudo
o quanto a implica.
Vamos tomar o
problema da liberdade analisando essa tirinha encontrada na internet. Na
primeira cena, estamos diante do acaso,
contrário à liberdade. O novo indivíduo, antes de vir ao mundo, não escolheu
que ele tivesse aquele corpo e que fosse parar ali na contingência daquela rua suja e entregue à própria sorte. Não
escolhemos onde, como, quando e na companhia de quem nascemos. E é por isso que
não há espaço para a liberdade na dimensão da necessidade, pois é negada a condição de escolha do sujeito.
Com base ainda
na primeira cena, e tomando toda a tirinha, poderíamos supor que uma vontade
sobrenatural tivesse selado o destino dessa criaturinha. Sem que saibamos como
e nem por que, mas apenas acreditando e tendo fé, alguma força divinizada a fez
parar ali. Assim, também não encontramos espaço para a liberdade no campo da fatalidade. Novamente, é privada ao
indivíduo a capacidade de escolher e definir o seu próprio destino, pois uma
força misteriosa já o teria selado.
Poderíamos
supor que o ovo foi parar ali por forças da natureza. Esta tem leis próprias e necessárias que, por motivação própria,
exigiu vida e, portanto nascimento, a esse ser. Ora, se a natureza é o todo da
realidade, existente em si e por si, que age sem nós e nos insere em sua rede
de causas e efeitos, condições e conseqüências, então nada poderemos fazer
senão obedecer as leis naturais a partir das quais poderíamos ser dissecados?
Então estariam determinados nossos pensamentos, sentimentos, ações e toda a
vida, tornando a liberdade ilusória. Logo, não haveria liberdade no campo do determinismo.
Observemos
ainda no todo da tirinha que o ovo com seu novo indivíduo vai parar numa rua
escura e poluída. Existem construções, lixo e esgoto lançados ali provavelmente
por outros indivíduos que chegaram antes dele. Quando chegou nesse mundo, esse
indivíduo já o encontrou assim, definido com regras e normas, problemas e
conflitos que não foram escolhidos por ele. Portanto, em que medida há
liberdade no campo da cultura?
Vamos olhar agora
na terceira e última cenas. O novo ser, ao se espantar diante do mundo que
encontrou ao nascer, decide retornar ao ovo. Há covardia em sua atitude, pois decide não encarar a realidade
externa que encontrou com seus problemas, limitações e desafios. Parece mais
seguro o lugar de onde nasceu, que agora não é simplesmente mais a casca de um
ovo, mas sua própria prisão, aparentemente segura, escura e isolada. Não há
liberdade quando se tem medo dela.
Parece que o verdadeiro campo medíocre em que sua ausência é mais sentida e
notada é no comodismo, na inércia resignada do próprio sujeito frouxo diante da
vida.
A liberdade é
uma luta constante. Mas uma luta contra quem? A resposta depende de onde
partiram as “correntes” ou as amarras. Se, por exemplo, elas vierem de
terceiros, então temos que lutar contra o próximo, nosso dominador. Mas se elas
são o nosso medo de um passo além, então temos que lutar contra nós mesmos! Se
for dada pelo mundo, então lute contra esse mundo.
O nosso
personagem tomou consciência do mundo e de si. Mas a surpresa maior – e o que
parece ter sido mais arrebatador – foi a
consciência de si nesse mundo e a descoberta de que ele mesmo é senhor da
sua direção. E agora? Ir adiante ou preferir voltar para o lugar de onde nunca
deveria ter saído? Na situação do nosso amiguinho, que também é a nossa
situação, não basta saber nem só querer ir adiante, mas de ter o poder de
fazer, de saber a direção, de sustentar a escolha para que ela se torne algo
concreto. É a liberdade como possibilidade objetiva!
A respeito da
tirinha e do debate sobre a liberdade do seu personagem, ainda resta uma
observação. Não é na solidão de uma vontade individual que podemos ser livres,
mas sim na companhia dos outros que podemos enfrentar o mundo. Logo, somos
livres não contra o mundo, mas no mundo. Isto é, não somos livres apesar do
mundo, mas graças a ele. Somente tendo contato com o mundo, conhecendo seus
limites e suas aberturas para os possíveis é que poderemos exercer nossa
liberdade na criação de um mundo novo. E isso é feito na companhia dos outros.
Então, a
liberdade existe! E está nas nossas liberações, nas intervenções diárias que
fazemos no curso da vida, nas decisões racionais e nos resultados obtidos. A
segunda cena da tirinha isoladamente é a mais interessante para mim, pois
parece ser o momento em que o sujeito se afirma. A casca do ovo com a qual
rompe não é sinônimo apenas de uma jaula, mas também uma ruptura com o
preconceito, o conformismo e a inércia. É uma consciência e uma vontade de
viver. Ou seja:
üO que mais importa não é saber o que fizeram de
nós e sim o que fazemos com que quiseram fazer conosco (Sartre). Assim, a
liberdade é um ato ou vários atos de decisões e escolhas entre vários
possíveis. Não podemos nada nem podemos tudo, impotentes ou feito um poderio
incondicional, mas podemos algo: agir. Nossas escolhas estão condicionadas
pelas circunstâncias naturais, psíquicas, culturais e históricas em que
vivemos, chamadas de totalidade natural e cultural em que estamos situados e
sobre as quais devemos lidar;
üLiberdade é ação. É a consciência simultânea das
circunstâncias existentes e das ações que, suscitadas por tais circunstâncias,
nos permitem ultrapassá-las, dando-lhe outro rumo e um novo sentido, que não
teriam sem a nossa ação. É abrir um futuro para muitos outros, mudando o curso
do presente, que parecia ser inevitável.
A liberdade
precisa ser ética. Não basta apenas saber o caminho a seguir, é preciso
segui-lo com responsabilidade. Quantas vezes nossa razão e nossa inteligência
não nos dizem para onde ir, mas preferimos ouvir nossa vontade e seguir a
direção contrária? Uma liberdade ética implica a harmonia entre a direção
apontada por nossa consciência e o exercício da nossa vontade. Daqui nascem as
leis. Elas servem para lembrar à nossa vontade que nem tudo podemos para o
nosso próprio bem. Portanto, não é uma mera coação vinda de fora, mas a própria
liberdade se auto-afirmando de forma sistemática. Ser livre também é seguir e
alterar as leis que nós mesmos nos instituímos. E a lei maior é eliminar a
violência na relação com o outro, mantendo a fidelidade a nós mesmos, a
coerência de nossa vida e a inteireza de nosso caráter. Avante criaturinha,
saia desse ovo que “ele não mais te pertence”!
Na sociedade contemporânea, uma
sociedade do controle, o urgente não vem deixando tempo para o importante. A
correria cotidiana imposta pelo relógio e as metas da vida prática nos rouba
nossa liberdade consciente mais elementar: a capacidade de reflexão e consciência, continuada e deliberada. "Sem tempo para pensar”, nos tornamos vulneráveis aos
imperativos do mundo dos negócios e da comunicação, verdadeiras presas do
mercado. E nos tornamos meros consumidores vorazes e insanos, autômatos.
Tudo isso não só ameaça a nossa
liberdade de decidir, escolher, optar e aderir, como também nos cansa, tirando
o sono, o lazer e o sossego necessários a uma vida saudável. A conseqüência é a
ameaça de um abismo do vazio. Muitas pessoas com aversões à civilidade, “deixando
a vida nos levar” incertos, repousando na irracionalidade e vivendo dilemas da inconseqüência.
Sem liberdade, individualidade e
privacidade. Sem o exercício do pensar e a atividade da reflexão. Vivemos numa
verdadeira ditadura implícita, disfarçada, cujas amarras estão numa “mercadolatria”
que seqüestrou nossa subjetividade. As forças de mercado criam necessidades
artificiais o tempo todo e nos faz viver em função delas. E todo o desenvolvimento
tecnocientífico vem sendo usado ao seu favor, fazendo-nos viver numa verdadeira
Matrix.
Não devemos aceitar esse presente
e esse futuro de carência, de falta, de ansiedade e de antecipação. E o ponto
de partida parece ser a retomada da nossa capacidade de pensar e, junto com
ela, de aprender a dizer “não”.
O presente texto pretende acompanhar o raciocínio do filósofo Aristóteles, a partir do Livro I de sua
obra “Ética a Nicômaco”. É um
trabalho de síntese conclusiva, ilustrado com vídeos complementares.
Em linhas gerais, todas as
ações e escolhas humanas possuem finalidades. Entre os fins um é o Bem maior, ou seja, é desejado e bom por
si mesmo como causa da bondade de todas as coisas. Auto-suficiente. Esse bem
absoluto e incondicional é a felicidade. Ela
existe como o propósito de tudo e pode ser conquistada.
A felicidade é objeto da ciência política, pois esta é quem subordina as demais ciências,
determina o que se deve fazer e abster-se na coletividade e, assim, direciona
os rumos de uma cidade. Desse modo, o maior objetivo da política é atingir e
preservar a bondade e a felicidade dos cidadãos, “já que o homem é um animal
político”. Por isso ela deve cultivar as ações mais belas, nobres e justas
possíveis, acabando por ser o seu objetivo a honra ou o reconhecimento de seu
valor.
FELICIDADE (ÓLEO SOBRE TELA) 80 X 80 — Rio de Janeiro, do artista Adilson Dias.
As discussões políticas giram
em torno dos fatos da vida, onde mora
a felicidade. Exige-se que seus interlocutores sejam experientes e predispostos
a agir de acordo com a razão. Pois o bem viver e o bem agir equivalem a ser
feliz.
O que é a felicidade e com o
que ela se identifica? Seria preciso que a resposta viesse de “alguém” que
realmente foi feliz e a identificou com a coisa certa. Também dependeria da
condição e das circunstâncias desse “alguém”, pois uma pessoa doente diria ser
a saúde ou uma pessoa pobre, a riqueza. As pessoas simples acreditam que ela se
identifica com algo óbvio, tal como o prazer ou as honras etc. Porém, assim como
podem ser dadas, todas essas coisas também podem ser tiradas. A felicidade não
poderia ser identificada com nenhuma delas porque como sumo bem é algo próprio de uma pessoa e dificilmente lhe poderia
ser tirado, como a sabedoria. E mesmo o homem que deseja ser sábio é porque
antes quer ser feliz.
Ora,
parece que a felicidade, acima de qualquer outra coisa, é considerada como esse
sumo bem. Ela é buscada sempre por si mesma e nunca no interesse de uma outra
coisa; enquanto a honra, o prazer, a razão, e todas as demais virtudes, ainda
que as escolhamos por si mesmas (visto que as escolheríamos mesmo que nada
delas resultasse), fazemos isso no interesse da felicidade, pensando que por
meio dela seremos felizes. Mas a felicidade ninguém a escolhe tendo em vista
alguma outra virtude, nem, de uma forma geral, qualquer coisa além dela própria
(ARISTÓTELES, p.26).
Existem três tipos principais de vida: a política, a contemplativa e a que é fundamentada no prazer. A vida que visa tão somente o prazer é comparável à dos
animais; a vida política almeja honras e reconhecimento. Poderia ainda apontar
a vida dedicada a ganhar dinheiro, o que seria uma vida forçada, visando uma
coisa útil, desejada no interesse de outra coisa, nada mais (é um bem em função
de outro, algo útil e subordinado).
Filósofo Paulo Ghiraldelli Jr
fala sobre "paixões humanas". Este vídeo é o da Felicidade.
A
felicidade está associada com a vida contemplativa. [E parece ser possível
aproveitar todas as outras formas de vida através desta]. Pois a função ou
peculiaridade do homem que o torna tal é a capacidade que tem de pensar ou o
seu elemento racional ativo (descartados aqui os animais, as crianças e os
jovens movidos apenas por prazeres e paixões). É a parte racional da alma,
visto que ela é constituída por um lado privado de razão. Portanto, um
fragmento de vida não é suficiente para tal, mas uma vida inteira para fazer
uma pessoa feliz e venturosa, ou não. A felicidade implica virtude completa e
uma vida completa, cuja metade não seja igual ou superior de dores, sofrimentos
e todo tipo de miséria.
Mônica Waldvogel entrevistou JORGE FORBES, psicanalista e VIVIANE MOSÉ, filósofa, no programa DOIS A UM, do SBT. Veja a entrevista em 03 partes.
Aristóteles
reconhecia que a psique humana é constituída de ego, id e superego. E que o id (pulsões, instintos, impulsos orgânicos e desejos inconscientes
visando o prazer) era o elemento contrário ao princípio racional, ou seja, a
luta contra a racionalidade e lhe oferecendo resistência. E essa luta
incessante é complexa porque é invisível [“Mas ao passo que, no corpo, vemos
aquilo que se desvia da direção certa, no caso da alma não o podemos ver”]. Como
a felicidade foi definida como atividade da alma conforme a virtude perfeita,
no homem continente esse elemento irracional deve obedecer ao princípio
racional, sendo ainda mais obediente nas pessoas temperantes e valorosas.
Acreditando que o elemento irracional pode ser persuadido pela razão, está a
indicar o fato de aconselharmos alguém, e de exortarmos e censurarmos de um
modo geral.
A
felicidade torna a vida desejável por não ser carente de nada. O homem feliz
vive bem e age bem, visto que definimos a felicidade como uma espécie de boa
vida e boa ação. Assim, há uma estreita relação entre felicidade e virtude, e
aqui temos a expressão maior da Ética, pois “é graças a ela que os homens
tendem a praticar ações nobres”.
Os bens
são classificados em exteriores e os relativos à alma. A felicidade está ligada
à alma, entretanto necessita igualmente dos bens exteriores, pois é impossível,
ou pelo menos não é fácil, praticar ações nobres sem os devidos meios. Assim, o
homem feliz não deixa de ser dependente de alguns atributos, tais como:
descendência, beleza, origem, certa fortuna e até os amigos e o poder político
quando usados como instrumentos para realizar certas ações.
A
felicidade é construída. Diante da dúvida se ela é adquirida pelo hábito ou se
é dada por alguma providência divina ou ainda pelo acaso, parece sensato crer
que seja uma conquista da capacidade para a virtude com estudo, exercício, esforço
e aprendizagem. Pois o que constitui a felicidade são as atividades virtuosas,
e as atividades viciosas conduzem à situação oposta. Por isso pessoas que
dedicaram suas vidas ao bem são lembradas pelas gerações posteriores.
Uma
grande e frequente quantidade de sucessos tornarão nossa vida mais feliz, pois
aumenta a sua beleza. Ao contrário, muitos e constantes revezes poderão
aniquilar e mutilar a felicidade. De modo que, a vida feliz não é uma vida
privada de obstáculos, mas inteligente para agir e superá-los. Pois se lembre, as atividades é que dão caráter à vida.
E o homem verdadeiramente feliz não se tornará desgraçado, pois ele jamais
praticará atos odiosos. “Pensamos que o homem verdadeiramente bom e sábio
suporta com dignidade todas as contingências da vida e sempre tira o maior
proveito das circunstâncias (...)”.
A
felicidade é algo louvável, divino e perfeito. Ela é um primeiro princípio e
causa dos bens, pois fazemos todas as coisas tendo-a em vista. É uma atividade
da alma conforme a virtude perfeita. Esta é o foco do homem verdadeiramente
político, pois o seu desejo acima de todas as coisas é tornar os cidadãos
homens bons e obedientes às leis.
“Os nossos conhecimentos são os germes das nossas produções”. (Buffon)
A atual geração é pouco dedicada aos estudos. A
parte que ainda o faz, talvez não seja movida pelo desejo, mas pela necessidade
imposta das exigências sociais. O
prejuízo não é apenas para o próprio indivíduo, que ao aumentar sua ignorância,
também aumenta sua vulnerabilidade social.
O prejuízo é catastrófico para toda uma nação. Com pessoas menos instruídas
diminui também o número de cidadãos críticos (que não aceitam ideologias
manipuladoras), participativos (que não aceitam idéias autoritárias) e
autônomos (que criam projetos de vida com mais dignidade e qualidade, rumo a
uma sociedade melhor). A indiferença aos estudos faz toda uma nação se perder,
aumentando ainda mais as desigualdades sociais e, conseqüentemente, colocando a
todos nós sujeitos aos seus possíveis riscos.
É verdade que a qualidade técnica das nossas
escolas públicas não é das melhores. Entretanto, a raiz dos problemas da educação
no Brasil é muito mais político-social do que técnico. A sociedade fundada em
desigualdades sociais terríveis não dá as mesmas oportunidades para os filhos
da classe pobre aproveitar a escola e o que de bom ela possa ferecer (se ela fosse de
qualidade), como aproveita os estudantes das classes mais favorecidas. São critérios
que precedem o fator técnico de diferenciação baseados nas possibilidades de
poucos, e por se fundamentar na exclusão e afastamento dos menos aptos.
Que geração é esta, que não lê e disto nem se envergonha? Ora, é uma geração historicamente relegada e excluída da condição de se educar. Romper com os problemas da educação requer a paralela ruptura com os problemas sociais, e o começo deles é a superação das desigualdades sociais.
Os atos determinam a natureza das disposições morais, então,
como devemos praticá-los? Essa investigação não visa tão somente ao
conhecimento teórico (o que é a virtude?), mas nos estimular a uma vida virtuosa. Um tratamento sobre a conduta não deve ser encarado
de maneira precisa, mas em linhas gerais.
O presente texto pretende
acompanhar o raciocínio do filósofo Aristóteles,
a partir do Livro II de sua obra “Ética a
Nicômaco”. É um trabalho de síntese conclusiva.
As
virtudes ou disposições louváveis de espírito não são geradas por natureza nem
contrariamente a ela. O que a natureza faz é dá a capacidade de recebê-las, e
tal capacidade se aperfeiçoa com a prática ou exercício, por isso e para isso
existem os mestres. Essas virtudes se dividem em intelectuais e morais. As
virtudes intelectuais devem sua
geração e crescimento ao ensino, e por isso requer experiência e tempo, como a
disposição de espírito para a sabedoria
filosófica e prática e a compreensão; já as virtudes morais são construídas pelo hábito, como o caráteramável, calmo e temperante de uma pessoa.
“(...)
de todas as coisas que nos vêm por natureza, primeiro recebemos a potência e só
depois exteriorizamos a atividade. (...) Efetivamente, as coisas que temos de
aprender antes de poder fazê-las, aprendemo-las fazendo (...), tornamo-nos
justos praticando atos justos, moderados agindo moderadamente [se os homens
praticam atos justos e temperantes, é que já têm essas virtudes], e igualmente
com a coragem, etc. (...) pelos atos que praticamos em nossas relações com
outras pessoas, tornamo-nos justos ou injustos; pelo que fazemos em situações
perigosas e pelo hábito de sentir medo ou de sentir confiança, tornamo-nos
corajosos ou covardes. O mesmo vale para os desejos e a ira (...)” (ARISTÓTELES,
pp. 40-41).
Logo,
desde a infância é preciso educar pelo exemplo. O modelo é importante ou será
decisivo para as disposições morais ou caráter, pois nascem de atividades
semelhantes a elas, ou seja, sua prática coerente. É por esta razão que se deve
atentar para a qualidade dos atos praticados, pois além da formação moral do
sujeito ator há a formação do sujeito espectador.
Para
que as ações virtuosas sejam originais é necessário que o agente dos atos se
encontre em certas condições ao praticá-los: em primeiro lugar deve ter conhecimento do que faz; em segundo
lugar, deve escolher os atos, e
escolhê-los em função dos próprios atos; e em terceiro lugar, sua ação deve
proceder de uma disposição moral
firme e imutável.
Está na
natureza das virtudes serem destruídas pela deficiência e pelo excesso. Logo,
devemos agir buscando o uso nas devidas proporções ou mediania para que as
virtudes sejam produzidas e preservadas e, junto com elas, os bons resultados.
“(...)
O homem que tem medo de tudo e de tudo foge, não enfrentando nada, torna-se um
covarde; e de outro lado, o homem que não teme absolutamente nada e enfrenta
todos os perigos, torna-se temerário [arriscado, aventureiro]. De modo análogo,
o homem que se entrega a todos os prazeres e não se abstém de nenhum torna-se
intemperante, ao passo que o homem que evita todos os prazeres, como fazem os
rústicos, torna-se de certo modo insensível” (ARISTÓTELES, pp. 42-43).
As
virtudes (excelência moral) são criadas e destruídas pelas ações. As pessoas
que praticam o bem se tornam pessoas bondosas; o mal, pessoas maldosas. Ou
controlamos nossos sentimentos ou eles nos controlarão. “É habituando-nos a
desprezar e enfrentar coisas temíveis que nos tornamos corajosos, e é quando
nos tornamos corajosos que somos mais capazes de fazer frente a elas”, de forma
espontânea. Pois o homem que sofre quando enfrenta coisas temíveis ainda é
covarde.
A dor e o sofrimento interferem nas virtudes. É por causa do prazer que
muitas más ações são praticadas, e por causa do sofrimento que deixamos de
praticar várias ações nobres. Talvez a educação, para ser correta, deveria
instruir desde a infância, de maneira a nos deleitarmos e de sofrermos com as
coisas certas (com certa lógica para o castigo). Pois tudo que é certo nem
sempre causa só prazer, mas também dor e sofrimento. É preciso está preparado
para suportá-los a fim de manter nossas ações corretas. Assim como é preciso
evitar o prazer para não alimentar certos males.
Nossas
ações são medidas pelo critério do prazer e do sofrimento. Desde a infância se
aprende o que é agradável e doloroso. Tanto a virtude como a arte se preocupam
sempre com o mais difícil, pois as coisas boas se tornam até melhores quando
difíceis. Assim, as virtudes giram em torno de prazeres e sofrimentos, de tal
modo que, o homem que os usa bem é bom, e o que os usa mal é mau.
Existem três objetos de escolha
e três de rejeição: o nobre, o vantajoso, o agradável; e seus contrários, o vil,
o prejudicial e o doloroso. Em razão dos prazeres e
sofrimentos os homens se tornam maus, buscando-os ou deles se desvencilhando. É
também em relação a todos eles que o homem bom tende a agir certo e o homem mau
a agir errado, sobretudo no que diz respeito ao prazer, sobre o qual é mais
difícil lutar do que contra o sofrimento. Isso porque tendemos mais
naturalmente para os prazeres, e por isso somos levados mais facilmente à
intemperança do que à moderação.
Na alma
se encontra três espécies de coisas: paixões,
faculdades e disposições. Se a virtude é uma atividade da alma, qual delas é a
virtude? As paixões significam os
apetites, a cólera, o medo, a audácia, a inveja, a alegria, a amizade, o ódio,
o desejo, a emulação, a compaixão e de um modo geral os sentimentos que são
acompanhados de prazer e sofrimento. As faculdades
significam aquelas coisas em razão das quais dizemos que somos capazes de
sentir as paixões, como a faculdade de nos encolerizarmos, magoar-nos ou
compadecer-nos. As disposições
significam as coisas em razão das quais nossa posição em relação às paixões é
boa ou má, como por exemplo, em relação à cólera, nossa posição é má se a
sentimos de modo violento ou de modo fraco, e boa se a sentimos moderadamente.
Isso vale para todas as outras paixões. Paixões
e faculdades são naturais, disposições para elas são escolhas.
As
virtudes são disposições. Ou seja, nossa posição em relação às paixões ou o
modo pelo qual as tomamos. Esse modo precisa ser moderado para se tornar uma
virtude, pois outro modo que seja excessivo ou insuficiente será o seu oposto,
isto é, um vício ou deficiência moral. Logo, nos tornamos bons ou maus,
louvados ou censurados, por causa das nossas virtudes ou vícios e não por causa
das paixões, mas certa maneira ou medida de intensidade em que são
experimentadas e sentidas.
As
paixões são espontâneas e a elas somos movidos, mas a virtude e o vício são
certos modos de escolhas ou envolvem escolha. Logo, ser bom ou mau não é uma
faculdade natural, mas sim uma disposição que diz respeito à nossa
responsabilidade. “(...) temos as faculdades por natureza, mas não é por
natureza que nos tornamos bons ou maus (...) toda virtude não apenas põe em boa
condição a coisa a que dá excelência, como também faz com que a função dessa
coisa seja bem desempenhada” (ARISTÓTELES, p.47). De modo que poderíamos
concluir que o objetivo da educação é levar o sujeito ao ponto de equilíbrio
das suas paixões e faculdades. E nesse equilíbrio agir e pensar com excelência
de virtudes.
“(...)
Em tudo que é contínuo e divisível pode-se tirar uma parte maior, menor ou
igual (...) e o igual é um meio-termo entre o excesso e a falta (...). Desse
modo, um mestre em qualquer arte evita o excesso e a falta, buscando e
preferindo o meio-termo (...)”. Ora, com isso Aristóteles não quer condenar as
paixões e ações, mas chamar a atenção do homem ao seu bom uso, abrindo até
exceções para certas extrapolações desde que em momentos oportunos para se
alcançar o meio-termo:
“(...)
pode-se sentir tanto o medo, a confiança, o apetite, a cólera, a compaixão, e
de uma forma geral o prazer e o sofrimento, em excesso ou em grau insuficiente;
e em ambos os casos, isso é um mal. Mas senti-los no momento certo, em relação
aos objetos e às pessoas certas, e pelo motivo e da maneira certa, nisso
consistem o meio-termo e a excelência característicos da virtude” (ARISTÓTELES,
p. 48).
Porém,
algumas exceções são feitas. Segundo ele, nem toda ação ou paixão admite um
meio-termo, pois algumas entre elas têm nomes que já em si mesmos implicam
maldade independente da falta ou excesso, como, por exemplo, o despeito, o
despudor, a inveja, e, no âmbito das ações, o adultério, o roubo, o assassinato
e outras semelhantes que seja ações injustas, covardes ou libidinosas. Nelas
nunca será possível haver retidão, mas tão-somente o erro independentemente da
intensidade.
A
realidade é que não é nada fácil ser bom, pois em todas as coisas é difícil
encontrar o meio. Fácil mesmo é ceder e praticar os prazeres. Qualquer um pode
encolerizar-se, embriagar-se, dar ou gastar dinheiro, mas proceder na
justa-medida, ou seja, ter discernimento sobre: a) a pessoa que convém; b) na
medida certa; c) a ocasião oportuna; d) o motivo e a maneira que convém; isso
sim não é fácil nem é para qualquer um. Por isso, agir bem tanto é raro como
nobre e louvável.
Visto
que alcançar o meio-termo é extremamente difícil, devemos afastar-nos primeiro
do que lhe é mais contrário, contentar-nos com o menor dos males e atentar aos
erros para os quais nós somos mais facilmente arrastados. Após isso, devemos
nos forçar a ir à direção do extremo contrário, pois chegaremos ao estado
intermediário afastando-nos o mais possível do erro. E como podemos reconhecer
os erros da vida? A vida mostra nossos erros através da dor e do sofrimento que
experimentamos, assim como os acertos são sentidos por certa medida de prazer
comedido. Entretanto, o prazer e o que é agradável são, entre todas as coisas,
contra o que mais devemos nos precaver. Primeiro porque os erros têm uma
relação muito próxima dos prazeres e depois porque quem experimenta o prazer
tem dificuldade em julgá-lo com imparcialidade, pois se acha seduzido pela
situação que lhe convém. E nem sempre o que lhe convém é certo. [“tudo que é
percebido pelos sentidos é difícil de definir; tais coisas dependem de
circunstâncias particulares, e a decisão depende da percepção em quem nem
sempre devemos confiar”].
Enfim,
a virtude é uma disposição de caráter relacionada com a escolha de ações e
paixões, e consiste numa mediania, determinada por um princípio racional
próprio do homem. É um meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por
falta. Em todas as coisas o meio-termo é digno de ser louvado, todavia às vezes
devemos inclinar-nos no sentido do excesso e outras vezes no sentido da falta,
pois assim chegaremos mais facilmente ao meio-termo e ao que é certo e
excelente.