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São Francisco do Conde, Bahia.
PsicoPedagogo.
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"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 206, inciso II, da Constituição de 1988).

"Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados" (Myles Horton, p. 138).

“Por que escrevemos? Além de todas as recompensas, escrevemos porque queremos mudar as coisas. Escrevemos porque temos essa convicção de que podemos fazer diferença –uma nova percepção de beleza, um novo insight sobre a autocompreensão, uma nova experiência de alegria, uma decisão de unir-se à revolução" (Robert McAfee Brown). "Escrevo esperando fazer minha parte para restringir a intuição com o pensamento crítico, refinar os juízos de valor com compaixão e substituir a ilusão por compreensão” (David G. Myers, p. 47). “Escrever é um ato de egoísmo, porque é uma forma de eu não esquecer das coisas que aprendi. Mas também é um engajamento. É a minha maneira de fazer política, de ajudar a pensar nosso país e de mostrar ao Brasil um Brasil que ele não conhece, que foi ocultado das narrativas hegemônicas” (Daniel Munduruku).

“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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domingo, 6 de outubro de 2024

O que se aprende com as Eleições - 2024.

·       Neste ano, mais de 462 mil pessoas se candidataram para disputar os cargos disponíveis nas prefeituras municipais de todo o país (em 2020 foram 29.262 candidaturas). 

5.569 municípios. Com 155.912.680 eleitores. 2.619 zonas eleitorais. 94 mil locais de votação. Obrigatório para quem tem 18 anos ou mais e facultativos para os analfabetos, os maiores de 70 anos e as pessoas de 16 e 17 anos. 15 capitais foram para o 2º turno. 11 em 1º turno. 104 candidatos a prefeitos em 52 cidades no Brasil onde terá 2º turno. Eficiência da Justiça Eleitoral Brasileira: em pouco mais de 4 h de apuração, resultados conhecidos.  

Houve um alto índice de abstenção nessas eleições: mais de 33 milhões de eleitores deixaram de votar nesse 1º turno (21,68%). Uma das causas para o desinteresse de parte dos eleitores: corrupção. Para corrigir isso, o aspecto educacional da população. É preciso mapear medidas para incentivar o comparecimento do eleitorado. Garantir a tranquilidade da disputa e a força da Democracia.

A média nacional de abstenção foi de 21,7%. 


·       PSD supera hegemonia de décadas do MDB, é o partido com o maior número de prefeituras pelo país. Avanço dos partidos do Centro, Centro-Direita e da Direita (e Centrão). Esses partidos lideram meio fora da lógica da polarização e/ou nacionalização da disputa – isso não deu certo (Lula foi colocado de escanteio e predominou outra lógica de dinâmica interna). Forças impediram a influência das eleições de 2022. O eleitor quis dizer: “eu quero minha cidade bem administrada: escolas funcionando, saúde atendendo, lixo recolhido...” (houve muita reeleição de prefeitos, logo estão satisfeitos com o que está posto ou sendo apresentado). Forças: da continuidade, da máquina e de Emendas Parlamentares. 

·       Eleições do 1º turno tem mais de 2.600 crimes eleitorais registrados em todo o país (as mais comuns: boca de urna, compra de voto e propaganda irregular). Não depreciar as instituições, na busca de romper com a institucionalidade democrática. As lições que ficam: discurso de ódio e laudo falso forjado assustou a política e a democracia; é preciso ter regramentos firme do ponto de vista legislativo e da justiça para coibir o “vale tudo” dos influenciadores/coach; é preciso respeitar a democracia; o processo eleitoral precisa sair vitorioso e botar por terra o clima de tensão pró-desestabilização; é preciso ter antídotos contra esses novos perigos; a grande vencedora dessa eleição foi a urna eletrônica – com confiança, vitoriosa e credibilidade; show de competência, eficiência e queda da abstenção. 

·       Eleições vão forçar mudança/organização na direita e na esquerda.

- foi teste de força.

- líderes terão que definir novos rumos e reavaliar métodos (plataformas, alianças, etc.).

·       A direita apostou na legitimação e na fratura do bolsonarismo. E Marçal perdeu, felizmente!


ESQUERDA: Discurso e Anseios.

“O brasileiro, goste-se ou não, está mais conservador”.

Qualidades:

·       A capacidade de traduzir o que as pessoas pensam, canalizar os desejos das massas numa linguagem simples e direta, além de saber ouvir opiniões divergentes e traçar uma linha reta.

·       A esquerda tem habilidade de ajustar seu discurso à plateia de ouvintes do momento.  A capacidade quase hipnótica de seduzir a audiência.

Defeitos:

·       A distância entre o discurso da esquerda e os anseios do eleitorado (que deseja algo novo, diferente das promessas que lhes agradavam no passado). Dada a influência da mídia e da nova propaganda nas redes sociais, a galera pobre já não valoriza tanto o emprego com carteira assinada, considera a distribuição de bolsas-auxílio um direito adquirido e pouco se deixam atrair pelos apelos de programas como Minha Casa, Minha Vida (é o chamado “Pobre de Direita”: que só preciso de um dinheiro pra comprá um mé, o leitin das criança e o modes da muié. O resto é só fé, só fé, só fé...). Ou seja, também influenciada pelo avanço das igrejas evangélicas, tanto pela questão comportamental como pelo conceito da ética do trabalho, uma camada significativa de pessoas menos favorecidas que passou a defender o empreendedorismo, a querer ser dona do próprio negócio e, claro, a dar uma imensa importância ao que os políticos pensam dos valores familiares (casamento, aborto, entre outros).

·       Trata-se de um eleitorado coeso, que só cresce, afastando-se dia a dia do discurso tradicional da esquerda brasileira.

·       A esquerda brasileira precisa se atualizar e saber lidar com seu “novo e delicado público”. Existe hoje um imenso ruído entre aquilo que o PT diz e os anseios do povo – particularmente, nos grandes centros urbanos. O brasileiro, goste-se ou não, está mais conservador.

“Depois de serem seguidamente derrotados nas urnas pela defesa de plataformas políticas já superadas, os trabalhistas deitaram no divã e atualizaram suas bandeiras. Deu certo. Por aqui, falta humildade. De fato, não é fácil mudar, fazer um balanço de seu próprio programa, depois de tantas campanhas vitoriosas. Mas, caso não realize essa correção de rota a tempo, poderá colher muito mais do que uma fragorosa derrota nas eleições municipais deste ano. Seria um desastre perder a conexão com o povo brasileiro”.

ESQUERDA

DIREITA

·       Os resultados esperados pelo PT foram modestos.

·       Entrou na campanha com dose razoável de realismo: recuperação pouco pretensiosa, fez concessões importantes a partidos aliados, mas não evitou dissabores e sinais de resistência em parte do eleitorado.

·       Ainda se sente uma forte influência do antipetismo e o distanciamento de eleitores das periferias.

·       Efeitos limitados nas tentativas de reeditar apelos ao antibolsonarismo (pela lógica localista e ameaça representada por um inelegível fora do poder).

·       Para sobreviver, a esquerda precisa saber cuidar do seu (super)ego ferido e ter uma relação mais amigável com o inconsciente (em vez de se permitir o conflito com ele, brincar com ele de forma inteligente). Aliás, é a implosão desse conflito que alimenta a direita.  

·       O que a direita deseja é provocar curto-circuito no nosso sistema lógico e nos desconstruir emocionalmente. Vão jogar com todos os tipos de transtornos do DSM-5 para cima de nós. Além de nos brindar, precisamos reverter esse ataque.

·       Falta união, organização e força. O “enfraquecimento” e o “radicalismo” são linhas tênues. O enfraquecimento é o Meridiano de Greenwich (rotulado de “esquerda fofa”) e o radicalismo é a Linha Internacional da Data (“revolução assassina”). Deu um passo, caiu na direita.

·       Seu radicalismo no método, embora boa nos ideais (uma sociedade mais justa em todos os sentidos), não só a prejudica como a descaracteriza, reforçando a tosca extrema-direita.

·       FÓRMULA DO AMOR SEXUAL MADURO: “ternura + idealização + compromisso com o outro”.

·       A esquerda precisa não só continuar como inovar e reforçar seu projeto de educação como participação consciente. O emburrecimento do eleitor pobre, somado à fúria da direita então enrustida e a batalha incansável do antipetismo da mídia corporativa, bancada pelo capital conservador, foram os motores.

·       Afinal, o voto é obrigatório, mas não é muito. A multa é de R$ 3,51. Vamos combinar que isso não obriga ninguém!

·       A direita apostou na legitimação e na fratura do bolsonarismo.

·       Há uma forte ruptura e desorganização.

·       Na esfera local, houve uma contestação interna à liderança do ex-presidente;

·       O caminho mais provável será o de reagrupamento sob a esperada bandeira da unidade, com o objetivo de enfrentar a esquerda.

·       Pode ser uma trégua temporária ou uma aliança estratégica.

·       Qualquer cenário deixará o domínio da direita muito mais próximo da agressividade (plantada por Bolsonaro e Marçal, sua “cria nº 4”) do que de personagens vendidos como moderados: trocando fogo nas redes sociais e em declarações públicas.  

·       Vão continuar na ofensiva, com gracinhas altamente violentas, colocações irônicas e agressivas, opiniões que não diferenciam o bem e o mal (cheirador, etc.).

·       Diz que a liberdade não tem dono!

·       Para a extrema-direita um xingamento não é uma ofensa, é um elogio. Xingamento para eles é ser educado e civilizado. A comunicação entre eles é pela linguagem violenta. Logo, o que para nós se apresenta como um show de horrores, para eles é uma festa, um espetáculo. Isso vai continuar.

·       A direita que acha que pode comprar tudo, deseja adquirir a esquerda, literalmente. Uma de suas táticas é: “vamos passar um tempo juntos, vai que a paixão acontece”.

 

sábado, 5 de outubro de 2024

Amor doente e Amor saudável.

Defesas psíquicas dos homens em suas vinculações erótico-amorosas. 

Os espaços masculinos vulneráveis descrevem áreas psíquicas doentes que impedem que alguns homens alcancem a maturidade necessária para se entregar a uma experiência profunda de amor. O amor sexual maduro é uma mistura de ternura e idealização, a par de um profundo compromisso com o outro (Kernberg, 1995).

O amor eleva a pessoa escolhida a um espaço psíquico que supera o ato carnal e as miragens da sedução e do namoro. Esse espaço psíquico se afina ao conceito de “erotismo sagrado” e à ideia de sublimação e ética.

·       A hipermasculinidade: é uma defesa que procura expulsar a debilidade (associada com feminilidade) e evitar qualquer possível contaminação com os líquidos femininos vulneráveis. É a a identidade do macho (inscrições genéticas de sobrevivência, arquétipos ancestrais primitivos não superados): a excessiva virilidade do homem, na sua apresentação corporal, a masculinidade hipertrofia-se. Vínculos amorosos em que predominam a sedução machista e a pulsão de domínio. A sexualidade é intensa, com a clara finalidade de dominar a presa conquistada, deixá-la inerme em sua entrega ao macho potente. A pessoa escolhida para gozo e paixão é melhor definida como vítima, para logo abandoná-la, de forma brusca ou através de pequenos golpes de despedida, precedida de intensificação de ilusões. A vingança alia-se à defesa. Costuma se associar a atitudes agressivas e até violentas. Utilizar o pênis como instrumento de submissão e poder sobre o ser escolhido converte-se numa ação imperativa e reconfortante. Uma especial atitude viril que disfarça a impotência sexual latente: a penetração visual – perfura com o olhar. A força e intensidade da mesma é um substituto do pênis, cujo desempenho é deficiente. A penetração restringe-se ao potencial visual, mediante o qual procura ele suprir a dolorosa carência.

·       O amor superficial (amores fóbicos e histéricos): Entrega parcial nas relações amorosas, com frequentes infidelidades e atitudes fugidias; superficialidade dos vínculos reforçada nos casos em que os homens não puderam projetar a figura da mãe em outras mulheres. Em vez de meu parceiro, meu troféu – o que reassegura a potência anterior da hipermasculinidade. Mediante o ato de abandono ou menosprezo, reafirmam sua virilidade deficiente (“não preciso de você”). Na histeria masculina, o homem arma um jogo sucessivo de idealização amorosa e denegridora. A mulher escolhida sobe num pedestal do qual cai estrepitosamente. O gozo sádico encobre profundas ansiedades relacionadas com a dificuldade de amar, o temor aos parceiros e o vínculo intimo afetivo. Num vínculo de comprometimento, o homem desnudaria suas carências e temeria ser ridicularizado. Nas análises, frequentemente se detectam traços depressivos subjacentes a essas superficialidades neuróticas.

·       A aquisição e o cultivo de emblemas de poder. A função pública tem sido durante muitos séculos patrimônio dos homens. Nesse terreno, circulam as estratégias dos poderes, entre os quais assomam os aspectos fálicos. O acesso à estrutura de poder outorga, a quem obtém o mesmo, gratificações narcísicas que acalmam ansiedades tanto de castração como de finitude. O poder ou sua ilusória tendência convertem-se num refúgio psíquico. Na vida amorosa de muitos homens, o desenvolvimento de seu patrimônio (dinheiro, encargos públicos de importância, objetos valiosos, excelência) funciona como um reasseguramento contra possível rejeição afetiva - ao tempo que reduz a exigência de um desempenho brilhante na intimidade da relação sexual, ao lhe garantir a condição de senhor não da produção de prazer e desejo na companheira, mas ao menos de tangíveis bens materiais para deslumbrá-la e dominá-la. O poder como veículo de amor costuma aumentar seu papel na idade adulta ou na terceira idade da vida dos homens, quando experimentam eles a diminuição da potência erétil e de suas forças. Recorrem, então, comumente, a próteses paliativas, através das quais compensam as debilidades com recursos artificiais: medicamentos para aumentar a potência, manobras estéticas dissimuladoras da idade ou aquisição de mulheres-bonecas, nas quais projetam juventude e potência diante de si mesmos e de seus congêneres. O ambiente que envolve o poder é propenso à busca da hipermasculinidade paliativa. O poder comporta-se como afrodisíaco, que ajuda a escamotear os obstáculos eróticos inibitórios. O poder se adere à imagem inconsciente do corpo e ao esquema corporal, encorajando o homem sem graça, de pouca libido, e dissimulando sua dificuldade de se expor por meio de enfeitados atributos de valor que outorgam fama, dinheiro, posições de influência, etc. As disfunções sexuais, os complexos de inferioridade e a irritabilidade narcísica mantêm-se ocultos por trás dessas “cortinas de fumaça”.

·       Conquistas amorosas fracassam seja porque ele se cansa rapidamente delas ou porque é abandonado logo no início de uma relação.

·       RESUMO:

- sentimentos e ansiedades nos homens neuróticos, fonte de atribulação e angústia nas suas vidas amorosas ou cenários de mal-estar e de sofrimento que, durante a travessia vital, incidem nos intercâmbios e relações erótico-amorosas.

- Esses fatores conflitantes baseiam-se: no temor às mulheres; na feminilidade que, supostamente, são portadoras; a relação com seus próprios corpos; a adequada valorização do próprio pênis. A comparação com outros pênis de maior potência, as inibições sexuais e disfunções penianas e a infantil rivalidade com o pai possuidor do corpo da mãe; escolhas predeterminadas de personagens com quem viver amores.

- Em psicanálise, estamos familiarizados com os disfarces tanto das pulsões como dos afetos e das escolhas objetais. Zombar e menosprezar as mulheres pode encobrir profundos sentimentos invejosos e ciumentos; uma escolha sexual homossexual viril, com um companheiro de fortes traços masculinos ou uma escolha heterossexual com uma mulher que exerça funções imaginariamente masculinas pode mascarar ansiedades de feminilização ou de castração.

- A inveja da mãe triunfante, poderosa, pode emergir por trás da pessoa da esposa amada que deu à luz um filho. Regressão mediante esse acontecimento reaviva antigos sentimentos dolorosos de exclusão e dependência infantis, originando atuações de infidelidade ou afastamento afetivo, com o consequente decréscimo no exercício de uma paternidade salutar.

- O homem odeia sua parte feminina, odeia seu corpo desvalorizado e odeia seu pênis, do qual se envergonha em seu empreendimento sexual.

- A luta entre os gêneros instala, às vezes, cenários masoquistas nos quais se expressa o ódio a si mesmo e o consequente gozo. Esse ódio pode nascer de um sentimento de alteração da capacidade amorosa e da intensa inibição em frente a uma mulher.


Aspectos naturais e culturais do ‘ser homem’.

Homens neuróticos: sentimentos e ansiedades.

Em busca da mudança psíquica.

Vejamos alguns espaços masculinos vulneráveis que resumem alguns cenários conflitantes ou traumáticos.

·       De perto, o homem é débil, carente e frágil. A ideia de super-homem (força, domínio e supremacia) é construída no campo do estereótipo cultural e das hegemonias sociais patriarcais.

·       De longe, ser verdadeiramente homem não admitia fraquezas. O domínio sobre a natureza estendia-se, como que por tabela, ao domínio sobre as mulheres.

·       O ‘homem forte’ foi importante um dia. Hoje, perdeu o seu valor. O homem rural, braçal, era valorizado em sua intrépida hombridade e ferocidade (valente e aguerrido) na luta pela sobrevivência e provedor do sustento (raízes do “machismo”). Só que isso perdeu a vigência num mundo recheado de diversidades no que diz respeito às formas de ganhar a vida.

·       Porém, essa mesma cultura que supervaloriza o homem, também pode fragmentá-lo em sua complexidade. Ou seja, para além do binarismo e simplicidade masculina existem quadros psíquicos diversos: a bissexualidade psíquica, a desconstrução da identidade humana em facetas mistas de homem-mulher, a assexualidade, as transexualidades transitórias e outras raridades e identidades parciais, etc. Enfim, o heróico roteiro dos homens tem mudado o estereótipo masculino.

·       Quem ou o que provocaram essa quebra?

- A transformação cultural;

- As reivindicações femininas:

- A sociedade pós-industrial;

- Os estudos sobre a identidade de gênero.

·       As formas biológicas e naturais de base se reduzem a duas: homem e mulher. Mas, nelas se instalam ficções de índoles diversas e coações culturais.

·       A virilidade não é algo concedido, deve ser construída, fabricada”. Ou seja, ser homem não é uma questão tão natural como usualmente se supõe.

·       Elementos que podem ser potenciais fontes de conflito na mente dos homens: cenários neuróticos ou caracteropáticos, isto é, baseados na consideração das invejas pré-edípicas e edípicas das crianças e suas consequências psíquicas patogênicas na idade adulta nos casos em que não puderam ser elaboradas de forma saudável.

- o temor à imagem da mãe fálica devoradora;

- a desconfiança à falsa submissão de algumas mulheres;

- o perigo à contaminação da suposta vulnerabilidade das mulheres;

- o temor à hipercompensação viril;

- os aspectos masoquistas;

- o refúgio em atributos de poder.

·       Existem cenários comuns a todos os seres humanos, construídos na trama das fantasias originárias:

- a sedução (na sua vertente histérica),

- a castração e,

- a fantasia da exclusão da cena primária.

·       Essas imagens arcaicas, reeditadas em vivências infantis, deixam vulnerável o psiquismo através de sofrimentos recalcados que são ressignificados em etapas posteriores da vida.

·       A psicanálise explora a produção de mudança psíquica e de traumatismos em qualquer idade da vida e não unicamente mediante a ressignificação das experiências da primeira infância.

·       Alguns cenários vulneráveis na vida dos homens. Especialmente em suas vinculações amorosas.

- as desvantagens de gênero:

- a dependência:

- a submissão masculina:

- a dor de ser homem.

·       Debilidades e carências, por força das hegemonias sociais patriarcais.

·       Na verdade, os homens são muito frágeis. A supremacia dos homens só existe no estereótipo cultural do homem enquanto pessoa forte e dominadora.

·       O pré-édipo nos homens:

·       A inveja primária ao ventre gestante:

·       O desejo de ser mulher:

·       O temor à mulher.

·       Ao examinar a inveja do pênis nos homens:

- o trabalho pormenoriza a complexidade da masculinidade.

- Descreve o espaço psíquico entre-homens e

·       As defesas dos homens em suas relações amorosas, tais como:

- a hipermasculinidade,

- o amor superficial (amores fóbicos e histéricos) e

- o papel que desempenha a aquisição e o cultivo de emblemas de poder.

·       O papel desempenhado pela inveja ao ventre fértil e a inveja de dar à luz um bebê nos homens:

- a inveja e frustração dos meninos ao ventre gestante e o amor subalterno: a fantasia de ter um filho no ventre é frustrada e o menino se submete ao amor materno pelo resto da vida. Isto é, o pequeno toma consciência de que sua condição de menino o impedirá de gestar.

- A inveja ao ventre fértil da mulher explica parte dos conflitos de rivalidade entre os sexos.

- A inveja da mãe fértil tem raízes no desamparo primário e no superpoder atribuído à figura materna.

- Essas emoções se expressam de diferentes maneiras nas diversas etapas evolutivas: carências e incompletudes; confrontar com restrições; afronta ao sentimento de onipotência; ciúmes dos adultos (inveja ao adulto), inveja ao pênis e ao ventre fértil. A questão é: como se dará a resolução desses conflitos? permite que o menino desenvolva suas próprias potencialidades, incorpore as riquezas psíquicas da bissexualidade e do gênero e, através da criatividade e sublimação, ascenda a novas e saudáveis organizações mentais.

- E a figura do pai para o menino, qual a importância dela?

Estabelecer masculinidade à primitiva identidade genital ou de gênero; a coexistência de identificações com o pai em seu caminho na construção de sua masculinidade e a desidentificação com a mãe. Enfim, na primitiva terra dos homens, o corpo a corpo com o pai ou substitutos, e sua presença transmissora repercutem na formação psíquica do novo ser.

·       O menino tem anseios e desejos femininos.  Mas, a natureza e a cultura vão reprimi-los. A natureza, mostrando que ele não tem ventre e outros aspectos biológicos diferenciais. A cultura, com estereótipos da masculinidade reforçados pela sociedade e pela influência patriarcal geral. Tanto a estimulada separação da órbita maternal como a socialmente aceita desvalorização das mulheres contribuem para que o menino se afaste, desvalorize e reprima seus desejos de possuir atributos femininos. Logo, na constituição saudável do ser menino, nossa preocupação deve estar mais voltada no “como”

·       O homem, seu desejo de ser mulher e seu temor às mulheres.

- todo homem sentiu quando pequeno o desejo de ser mulher e sentiu-se ferido no seu narcisismo (compensado pela retirada da libido dos objetos externos e da sobrecarga libidinal dos genitais).

- o temor a ser rejeitado e ridicularizado é um ingrediente típico na análise de todo homem, não importando qual seja sua mentalidade e a estrutura de sua neurose.

- observa-se com frequência a timidez do homem escondida sob uma fachada de autossuficiência e poder.

·       A inveja do pênis – vida psíquica.

- a representação imaginária é a de um pênis potente, ereto, grande (inclusive) e doador de prazer sexual.

- Pênis: elemento diferenciador dos sexos; falo, representa um valor narcisista máximo, ser inteiro dos homens e os apresentam, comparativamente, num lugar de maior importância e idealização do que o das mulheres, cujos genitais seriam portadores imaginários de uma carência.

- objeto tanto de orgulho viril e também de angústia ante a exigência de cumprir com os requisitos funcionais de máximo rendimento, atributos de máxima valorização em sua aparência e em sua função de falo.

- O temor ao fracasso da função sexual, aos tropeços, à emergência súbita de inibições imperdoáveis, o sentimento de vergonha ao sentir que possui um pênis “feio”, nas intimidades psíquicas, um homem sofre com seu pênis e se lamenta de seu pobre desempenho erótico.

- Algumas oposições são: pênis ereto versus pênis flácido; pênis grande versus pênis pequeno; pênis potente versus pênis impotente, e pênis infantil versus pênis adulto.

·       A problemática homossexual (espaço entre-homens).

- Para Freud, resolver no homem o Édipo negativo (amor e desejo pelo pai) é uma fundamental conquista na cura da neurose.

- A boa penetração psíquica paterna é condição necessária para a instalação de um superego habilitado tanto por proibições como por saudáveis permissões. Ter um bom pai implica ter uma identificação psicocorporal masculina valorizada, o homem encontra no outro homem a transmissão transgeracional indispensável à sua estruturação masculina.

- a identificação ao pai e ao superego portador da lei não se contradiz com a fantasia inconsciente ou consciente da incorporação do pênis paterno em nível carnal. Prevalece nesta observação o caráter estruturante de uma parte corporal narcisista privilegiada no universo psíquico dos homens.

- práticas tribais nas quais a realidade da introjeção do pênis é um passo prévio à assunção da masculinidade positiva.

- A “pedagogia homossexual” se ocupa de transmitir o saber sobre a virilidade de homem para homem. A sucção oral do pênis constitui uma atividade ritual obrigatória mediante a qual o futuro homem incorpora junto com o sêmen as propriedades viris.

- Essa homossexualidade carnal dos povos primitivos desloca-se, nos povos civilizados, em ritos sublimados de contato psíquico pai-filho, ou em intercâmbios entre-homens de uma mesma geração.

- A deficiente homossexualidade sublimada manifesta-se em temores e prejulgamentos extremos contra a homossexualidade. Nessas circunstâncias, o homem pode temer o contato anal durante o coito, ou mostrar um superego excessivamente severo sob o qual subjaz o temor a um pai vivenciado como autoritário e pouco amoroso.

- Os prazeres e ansiedades homossexuais acompanham-se de fantasias que outorgam a medida da virilidade ou feminilidade da relação carnal homossexual: um homem homossexual de aspecto viril deprecia um homossexual de aparência afeminada; um homem heterossexual penetrará, numa festa sexual, em uma ‘bicha’, em divertida manifestação de suas lúdicas qualidades másculas. Homossexual é o homem que, sendo penetrado, somente brinca com seu pênis potente ao exercer uma penetração com um homem homossexual. O cenário homossexual positivo instala uma virilidade sem maiores conflitos. Na representação do pênis se ativam e incorporam propriedades psíquicas de gênero masculino.

- O mesmo não acontece quando predomina o falicismo, que orienta o sujeito em direção à expressão de sentimentos de prepotência e de violência machista.

 

O erotismo

“O erotismo é a aprovação da vida até na morte” (Bataille).

·       O erotismo apresenta muitas facetas e graus de sensibilização.

·       A cópula não é sinônimo de erotismo: pode ter lugar com mínimo prazer e satisfação pontual.

·       O erotismo implica o acréscimo da dimensão do gozo. Escorado na vivência prazerosa, o erotismo incursiona num território especial. A experiência erótica implica entrega, desapossamento, incluindo certa dose de perversão no sentido de fabricação de inventos fantasiosos que incrementam o montante pulsional erógeno.

·        Nas vivências de prazer, pulsa a pulsão de vida, nas vivências do gozo, a pulsão de vida alia-se à pulsão de morte. O gozo outorga ao jogo sexual uma dimensão entre apaixonante e perigosa, ao aproximar os seres de um limite, o abismo desconhecido.

·       O erotismo é um campo privado, íntimo. Cada um, cada dupla, cada jogo entre-corpos dá conta em sua interioridade de intransmissíveis vivências.

·       O erotismo é morte psíquica positiva ao produzir o jogo sucessivo de desaparecimento e ressurreição.

·       A sexualidade limitada a um desempenho simplesmente adequado com rejeição aos jogos preliminares e à entrega converte muitos homens em maus amantes: esses homens descarregam sua tensão sexual e temem a produção de vínculo de gozo com sua companheira. Exercem uma sexualidade pontual, medrosa e prolixa.

·       Os homens também padecem de obscuridades e de mistérios.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Inveja do pênis.

“A grande questão que nunca foi respondida, e que eu ainda não tenho sido capaz de responder, apesar de meus 30 anos de pesquisa sobre a alma feminina, é: o que quer uma mulher?” (Sigmund Freud).


Teoria de o feminino nascer da constatação de ausência do órgão masculino.

·       A concepção freudiana da sexualidade parte sempre de um ponto de vista masculino – e machista mesmo. Para Freud, a mulher tem uma inferioridade anatômica que a condena à submissão e à passividade. Ou à neurose.

·       “As mulheres nunca compraram a ideia de Freud de inveja do pênis”. A visão de Sigmund Freud sobre o desenvolvimento sexual da mulher é a mais contestada entre feministas.

·       Toda menina deseja para si uma mangueirinha acoplada igual à dos meninos – e que sua personalidade futura será decidida pela forma como aceita essa “desvantagem”.

·       Feministas contestam, usando a teoria de Freud contra ela mesma, alegando que o feminino não se define pela ausência do órgão masculino, mas o macho é que teria uma “inveja do útero”: eles fariam de tudo para ser bem-sucedidos na vida apenas como forma de compensar a incapacidade de gerar uma criança, uma surpreendente e intensa inveja da gravidez, do parto e da maternidade.

·       Além da inveja do pênis, a teoria freudiana sobre a sexualidade feminina tem outros conceitos nada elogiosos para elas: a mulher como uma criatura castrada sexualmente; a vocação feminina para o masoquismo; o superego subdesenvolvido (que transformaria a mulher em um perigo para a civilização); a submissão e o matrimônio como destino da “mulher normal”… em resumo, a inferioridade em relação ao homem – inerente e anatômica.

·       A psicanálise nasceu de sua iniciativa de tratar mulheres neuróticas – não como loucas desvairadas, e sim como seres humanos com questões profundas, que precisavam ser externadas.

·       “A riqueza e a singularidade da psicanálise estão no fato de ela ter se constituído justamente na tensão discursiva – presente na obra freudiana – entre dar voz a esse outro, singular, e reafirmar o o masculino como universal na cultura”.

·       Mesmo sua polêmica teoria sobre a sexualidade feminina era um avanço: até então, acreditava-se que a mulher nem era capaz de ter desejo sexual. 

·       O problema é que ele foi de vanguarda até certo ponto – em diversos aspectos, seu pensamento alinhava-se ao seu tempo e ao lugar em que vivia. “Na sociedade vienense, as mulheres estavam sujeitas à interdição e intervenção masculinas. Todos nelas mandavam: pais e irmãos”.

·       “Os casamentos de mulheres com homens mais velhos e ricos eram comuns, numa clara afirmativa de que o que elas precisavam era de bem-estar financeiro (nada mais do que uma forma de prostituição instituída pela hipócrita Viena).”

·       Ao estereótipo mais negativo para retratar suas personagens femininas: eram mulheres frívolas, infiéis, maliciosas e que caíam de amores por qualquer um que lhes fizesse um elogio. Em geral, Freud não pensava muito diferente dos vizinhos mais machistas. Ainda mais se o assunto fosse o papel das moças na sociedade.

- O pai da psicanálise era contra a mulher sair para trabalhar e considerava o fim do mundo que uma ou outra ganhasse mais do que o marido. A única “profissão” possível seria o acúmulo de funções de gerente do lar, fiscal da limpeza domiciliar e gestora da educação das crianças: resumindo bem, dona de casa.

·       Ele tirou conclusões a respeito do desenvolvimento sexual da mulher. Principalmente pelo seguinte: toda a sua teoria a esse respeito parte de uma perspectiva falocêntrica – se essa teoria fosee um sistema solar, o pênis estaria no lugar do Sol.

·       O que Karen Horney disse: para Freud, o homem vem primeiro, e é a base de qualquer pensamento adaptado para a mulher. A sexualidade feminina surge aos olhos de Freud sempre de um filtro masculino. A tal ponto que, para o austríaco, meninas são meninos com defeito de fábrica.

·       A TAL INVEJA – a ousadia de Freud sobre a sexualidade infantil. Para Freud, até que a puberdade chegue com seus pelos e peitos, vigora entre as crianças um monismo sexual – a hipótese de que meninos e meninas só admitem um único órgão para práticas sexuais, que é o pênis. 

- O que a menina reconhece em si, até então, é seu clitóris – um tipo de pênis subdesenvolvido. A compreensão de que tem uma vagina – estrutura feminina por excelência – só virá na fase genital, já a partir dos 11 anos.

- Na infância, portanto, não haveria diferença entre masculino e feminino. A criançada toda é menino – com ou sem pênis – até prova em contrário. E assim as criancinhas vão levando a vida sem maiores conflitos até o ponto em que essa diferença anatômica é notada.

- Entre os 3 e os 5 anos de idade, na fase fálica, surge a primeira curiosidade dos pequenos em diferenciar mocinhos e mocinhas. E é aí que as garotas terão uma descoberta devastadora: a de que são “garotos de segunda classe”, que vieram ao mundo com algo faltando.

- Pois é nesse período que elas notam, segundo Freud, que seus irmãos e amiguinhos do sexo masculino têm pênis. No mesmo lugar, em seu próprio corpo, elas só enxergam um grande vazio – ou, na melhor das hipóteses, um órgão homólogo em tamanho miniatura, e ainda por cima escondido, que é o clitóris. O mundo foi injusto com elas. Então, assim como as crianças sentem  desejo de possuir os brinquedos das outras, as meninas também passam a querer aquilo que não têm nas partes baixas, desenvolvendo o sentimento famoso que Freud chamou de inveja do pênis.

- “Essa falta lhe cai como uma injustiça e como motivo para se sentir inferior”, explica Freud, referindo-se à menina. “Por algum tempo, acredita ainda que terá esse órgão tão valioso, ou seja, que seu pênis irá crescer”.

- Só que não, ele não cresce. O que fica para a garota é uma frustração enorme e o tal de complexo de castração, que acaba sendo fundamental para que a menina comece a desenvolver sentimentos incestuosos pelo pai. Afinal, ele tem aquilo que ela tanto inveja.

- Nesse período do desenvolvimento sexual da criança, a mãe – que no início é o objeto de amor de todo bebê – perde pontos no conceito da menina por dois motivos. O primeiro, segundo Freud, é que a garotinha culpa a sua genitora pela falta de pênis no seu corpo – a mamãe não teria caprichado na sua fabricação como fez com o irmãozinho. O segundo é que a menina coloca na cabeça que pode amenizar sua inveja com um pênis simbólico: um filho. E não é com a mamãe, outra castrada, que ela vai conseguir isso.

- Então esse conjunto de motivos associado a uma supervalorização do pênis leva a garota a direcionar seu afeto agora ao papai, com quem acha que pode casar e gerar um bebê.

- Melhor ainda se esse bebê for um menino. (Na menina, então, essa ansiedade da castração precede o complexo de Édipo – o inverso do que acontece com os meninos.) Possuidora de um bebê-pênis, ela já não precisaria mais invejar seus pares machos.

·       Pois é. Bebês-pênis, meninas que se acham meninos mutilados, crianças incestuosas…

·       O que acabou revoltando feministas e não feministas do mundo todo foi o que ele apontou como consequências dessa inveja do pênis no desenvolvimento da sexualidade da mulher: teorias a respeito das perversões.

- Mulher de Malandro:

- Freud contrapôs sadismo e masoquismo:

Sadismo: uma forma ativa de unir dor e prazer, impondo a dor a outra pessoa.

Masoquismo: uma forma passiva, sofrendo o diabo e achando bom.

- Adivinhe qual dessas o pai da psicanálise liga às mulheres? Se você pensou no bizarro bordão misógino “mulher gosta de apanhar”, não está muito longe da avaliação freudiana. E o homem, segundo ele, tem maior inclinação a gostar de bater.

- “A sexualidade da maioria dos homens mostra um elemento de agressividade, de inclinação a subjugar, cuja significação biológica estaria na necessidade de superar a resistência do objeto sexual por algum outro meio além de fazendo-lhe a corte”.

- para Freud, a necessidade de punição e humilhação vem de um estágio infantil de situação caracteristicamente delas, que significa ser castrado, penetrado ou dar à luz uma criança. Tudo que dói.

- Fica difícil para a mulher, porque, segundo Freud, a natureza ativa do sadismo é a virilidade (causar dor é ser viril), a passividade do masoquismo é relacionada ao feminino (apanhar é condição do feminino).

- Freud ainda associa a mulher a um sentimento de culpa provocado por um masoquismo moral, que é uma necessidade inconsciente de ser punida pela mão do pai, tomar umas boas palmadas, como se fosse uma criança travessa.

- “Sabemos agora que o desejo, tão frequente em fantasias, de ser espancado pelo pai se situa muito próximo do outro desejo, o de ter uma relação sexual passiva (feminina) com ele”.

·       Ferida narcísica é o nome que Freud dá para um abalo no nosso amor-próprio, quando o ego narcisista toma uma bordoada e sai para um canto com o rabo entre as pernas.

- a menina tem essa ferida por conta do seu sentimento de inferioridade, aquela coisa de se descobrir vítima de uma injustiça da natureza, que seria a falta do pênis.

- o desenvolvimento da sexualidade feminina pode seguir três caminhos diferentes, dependendo da forma como a menina vai lidar com esse sentimento ligado à castração que a inferioriza. Três destinos que serão determinantes para a mulher adulta.

1 • INIBIÇÃO SEXUAL OU NEUROSE: A mulher tem desejos sexuais, profissionais e ambições que a sociedade só permite aos homens. Frustrada com essa condição e sem forças para vencê-la, a mulher não supera sua inveja do pênis, reprime suas vontades e permanece frígida e infeliz para sempre. Na época de Freud, esse seria o destino seguido por muitas das histéricas que frequentavam seu divã: mulheres cuja repressão dos desejos inconscientes viria à superfície na forma de sintomas físicos.

2 • COMPLEXO DE MASCULINIDADE: Para Freud, a mulher não se conforma com sua “castração”, continua querendo ser um menino e faz de conta que tem um pênis. Tudo isso a leva a se tornar lésbica ou a uma vocação fálica. Essa vocação, segundo o pai da psicanálise, é o que faz a mulher querer assumir posições na sociedade “exclusivas do homem”. De acordo com a teoria do austríaco, um alto cargo numa multinacional, para muitas mulheres, é um pênis simbólico, que finalmente elas podem bater na mesa.

3 • SEXUALIDADE FEMININA NORMAL: Não se engane: esse “normal” de Freud para a mulher significa a aceitação de um destino como ser humano de segunda categoria. As “vantagens” são a tranquilidade e a estabilidade que vêm com a resignação do lar. A maturidade só acontece quando a ligação com esse pênis fracassado que é o clitóris é abandonada pela adolescente, sendo esse órgão substituído pela vagina – mais passiva e no molde certo para a penetração do marido. Trabalho? Só dentro de casa. A vocação para a maternidade faria com que a mulher funcione no espaço familiar, não no espaço público.

·       FREUD SABIA QUE NÃO SABIA. Ele admitiu ignorar a mente feminina. Mas sua teoria pode fazer sentido (não literal). Quanto menos literal é a interpretação que se faz dessas ideias sobre a  sexualidade feminina, menos revoltante a coisa fica. 

- Quando se pensa literalmente num membro viril como objeto desse desejo, não dá para concordar com quase nada do que Freud disse. Mas, pensando no pacote que vinha junto com aquele pênis – autoestima, autoridade, influência, liberdade, privilégios –, pelo menos o conceito central da inveja do pênis faz sentido. Basta trocar a expressão por “inveja do poder”.

- Se, em pleno século 21, a mulher ainda precisa lutar por igualdade de oportunidades em relação aos homens, é evidente que, lá na Viena da virada do século 19 para o 20, as senhoras que chegavam ao consultório de Freud – fornecedoras da maior parte do conteúdo das elaborações do doutor – também queriam ter o que os homens tinham.

- O próprio complexo de castração dos meninos fica mais tolerável sob esse ponto de vista. Na explicação literal de Freud, o garoto sente o temor de perder o pênis quando chega à idade de perceber as diferenças entre eles e elas, e nota que as meninas não têm o que ele tem.

- enquanto as meninas eram educadas para ficar quietas à mesa, não sair de casa e repetir os trabalhos domésticos da mãe, os meninos eram estimulados para a aventura, demonstrações de força e planos de grandeza. Perder esse “pênis”, essa nítida vantagem em relação às restrições das meninas, seria, claro, motivo para ansiedade.

- Seu fundamentalismo fálico – a noção de que toda a sexualidade, deles e delas, parte do pênis, ou do homem, melhor dizendo – tornou-o incapaz de reconhecer a individualidade feminina.

- A visão de que a sexualidade delas é mero desdobramento da deles tem uma jurisprudência tão machista e mítica quanto a perspectiva freudiana: Eva, a primeira mulher, que nasce de uma costela de Adão.