“A grande questão que nunca foi
respondida, e que eu ainda não tenho sido capaz de responder, apesar de meus 30
anos de pesquisa sobre a alma feminina, é: o que quer uma mulher?” (Sigmund Freud).
Teoria de o feminino nascer da constatação de ausência do órgão masculino.
·
A
concepção freudiana da sexualidade parte sempre de um ponto de vista masculino
– e machista mesmo. Para Freud, a mulher tem uma inferioridade anatômica que a
condena à submissão e à passividade. Ou à neurose.
·
“As
mulheres nunca compraram a ideia de Freud de inveja do pênis”. A visão de
Sigmund Freud sobre o desenvolvimento sexual da mulher é a mais contestada entre
feministas.
·
Toda
menina deseja para si uma mangueirinha acoplada igual à dos meninos – e que sua
personalidade futura será decidida pela forma como aceita essa “desvantagem”.
·
Feministas
contestam, usando a teoria de Freud contra ela mesma, alegando que o feminino
não se define pela ausência do órgão masculino, mas o macho é que teria uma
“inveja do útero”: eles fariam de tudo para ser bem-sucedidos na vida apenas
como forma de compensar a incapacidade de gerar uma criança, uma surpreendente e
intensa inveja da gravidez, do parto e da maternidade.
·
Além
da inveja do pênis, a teoria freudiana sobre a sexualidade feminina tem outros
conceitos nada elogiosos para elas: a mulher como uma criatura castrada sexualmente;
a vocação feminina para o masoquismo; o superego subdesenvolvido (que
transformaria a mulher em um perigo para a civilização); a submissão e o
matrimônio como destino da “mulher normal”… em resumo, a inferioridade em
relação ao homem – inerente e anatômica.
·
A
psicanálise nasceu de sua iniciativa de tratar mulheres neuróticas – não como
loucas desvairadas, e sim como seres humanos com questões profundas, que
precisavam ser externadas.
·
“A
riqueza e a singularidade da psicanálise estão no fato de ela ter se
constituído justamente na tensão discursiva – presente na obra freudiana –
entre dar voz a esse outro, singular, e reafirmar o o masculino como universal
na cultura”.
·
Mesmo
sua polêmica teoria sobre a sexualidade feminina era um avanço: até então, acreditava-se
que a mulher nem era capaz de ter desejo sexual.
·
O
problema é que ele foi de vanguarda até certo ponto – em diversos aspectos, seu
pensamento alinhava-se ao seu tempo e ao lugar em que vivia. “Na sociedade
vienense, as mulheres estavam sujeitas à interdição e intervenção masculinas.
Todos nelas mandavam: pais e irmãos”.
·
“Os
casamentos de mulheres com homens mais velhos e ricos eram comuns, numa clara
afirmativa de que o que elas precisavam era de bem-estar financeiro (nada mais
do que uma forma de prostituição instituída pela hipócrita Viena).”
·
Ao
estereótipo mais negativo para retratar suas personagens femininas: eram
mulheres frívolas, infiéis, maliciosas e que caíam de amores por qualquer um
que lhes fizesse um elogio. Em geral, Freud não pensava muito diferente dos
vizinhos mais machistas. Ainda mais se o assunto fosse o papel das moças na
sociedade.
- O pai da
psicanálise era contra a mulher sair para trabalhar e considerava o fim do
mundo que uma ou outra ganhasse mais do que o marido. A única “profissão”
possível seria o acúmulo de funções de gerente do lar, fiscal da limpeza
domiciliar e gestora da educação das crianças: resumindo bem, dona de casa.
·
Ele
tirou conclusões a respeito do desenvolvimento sexual da mulher. Principalmente
pelo seguinte: toda a sua teoria a esse respeito parte de uma perspectiva
falocêntrica – se essa teoria fosee um sistema solar, o pênis estaria no lugar
do Sol.
·
O
que Karen Horney disse: para Freud, o homem vem primeiro, e é a base de
qualquer pensamento adaptado para a mulher. A sexualidade feminina surge aos
olhos de Freud sempre de um filtro masculino. A tal ponto que, para o
austríaco, meninas são meninos com defeito de fábrica.
·
A TAL INVEJA – a
ousadia de Freud sobre a sexualidade infantil. Para Freud, até
que a puberdade chegue com seus pelos e peitos, vigora entre as crianças um
monismo sexual – a hipótese de que meninos e meninas só admitem um único órgão para
práticas sexuais, que é o pênis.
- O que a menina reconhece em si, até
então, é seu clitóris – um tipo de pênis subdesenvolvido. A compreensão de que
tem uma vagina – estrutura feminina por excelência – só virá na fase genital,
já a partir dos 11 anos.
- Na infância, portanto, não haveria
diferença entre masculino e feminino. A criançada toda é menino – com ou sem
pênis – até prova em contrário. E assim as criancinhas vão levando a vida sem
maiores conflitos até o ponto em que essa diferença anatômica é notada.
- Entre os 3 e os 5 anos de idade, na
fase fálica, surge a primeira curiosidade dos pequenos em diferenciar mocinhos
e mocinhas. E é aí que as garotas terão uma descoberta devastadora: a de que
são “garotos de segunda classe”, que vieram ao mundo com algo faltando.
- Pois é nesse período que elas notam,
segundo Freud, que seus irmãos e amiguinhos do sexo masculino têm pênis. No
mesmo lugar, em seu próprio corpo, elas só enxergam um grande vazio – ou, na
melhor das hipóteses, um órgão homólogo em tamanho miniatura, e ainda por cima
escondido, que é o clitóris. O mundo foi injusto com elas. Então, assim como as
crianças sentem desejo de possuir os
brinquedos das outras, as meninas também passam a querer aquilo que não têm nas
partes baixas, desenvolvendo o sentimento famoso que Freud chamou de inveja do
pênis.
- “Essa falta lhe cai como uma injustiça
e como motivo para se sentir inferior”, explica Freud, referindo-se à menina.
“Por algum tempo, acredita ainda que terá esse órgão tão valioso, ou seja, que
seu pênis irá crescer”.
- Só que não, ele não cresce. O que fica
para a garota é uma frustração enorme e o tal de complexo de castração,
que acaba sendo fundamental para que a menina comece a desenvolver sentimentos
incestuosos pelo
pai. Afinal, ele tem aquilo que ela tanto inveja.
- Nesse período do desenvolvimento sexual
da criança, a mãe – que no início é o objeto de amor de todo bebê – perde
pontos no conceito da menina por dois motivos. O primeiro, segundo Freud, é que
a garotinha culpa a sua genitora pela falta de pênis no seu corpo – a mamãe não
teria caprichado na sua fabricação como fez com o irmãozinho. O segundo é que a
menina coloca na cabeça que pode amenizar sua inveja com um pênis simbólico: um
filho. E não é com a mamãe, outra castrada, que ela vai conseguir isso.
- Então esse conjunto de motivos
associado a uma supervalorização do pênis leva a garota a direcionar seu afeto
agora ao papai, com quem acha que pode casar e gerar um bebê.
- Melhor ainda se esse bebê for um
menino. (Na menina, então, essa ansiedade da castração precede o complexo de
Édipo – o inverso do que acontece com os meninos.) Possuidora de um bebê-pênis,
ela já não precisaria mais invejar seus pares machos.
·
Pois
é. Bebês-pênis, meninas que se acham meninos mutilados, crianças incestuosas…
·
O que acabou revoltando feministas e não feministas do mundo todo
foi o que ele apontou como consequências dessa inveja do pênis no desenvolvimento
da sexualidade da mulher: teorias a respeito das perversões.
- Mulher de Malandro:
- Freud contrapôs sadismo e masoquismo:
Sadismo: uma forma ativa
de unir dor e prazer, impondo a dor a outra pessoa.
Masoquismo: uma forma
passiva, sofrendo o diabo e achando bom.
- Adivinhe qual dessas o pai da
psicanálise liga às mulheres? Se você pensou no bizarro bordão misógino “mulher
gosta de apanhar”, não está muito longe da avaliação freudiana. E o homem,
segundo ele, tem maior inclinação a gostar de bater.
- “A sexualidade da maioria dos homens
mostra um elemento de agressividade, de inclinação a subjugar, cuja
significação biológica estaria na necessidade de superar a resistência do objeto
sexual por algum outro meio além de fazendo-lhe a corte”.
- para Freud, a necessidade de punição e
humilhação vem de um estágio infantil de situação caracteristicamente delas,
que significa ser castrado, penetrado ou dar à luz uma criança. Tudo que dói.
- Fica difícil para a mulher,
porque, segundo Freud, a natureza ativa do sadismo é a virilidade (causar dor é
ser viril), a passividade do masoquismo é relacionada ao feminino (apanhar é
condição do feminino).
- Freud ainda associa a mulher a um
sentimento de culpa provocado por um masoquismo moral, que é uma necessidade
inconsciente de ser punida pela mão do pai, tomar umas boas palmadas, como se
fosse uma criança travessa.
- “Sabemos agora que o desejo, tão
frequente em fantasias, de ser espancado pelo pai se situa muito próximo do
outro desejo, o de ter uma relação sexual passiva (feminina) com ele”.
·
Ferida narcísica é o nome que
Freud dá para um abalo no nosso
amor-próprio, quando o ego narcisista toma
uma bordoada e sai para um canto com o rabo entre as pernas.
- a menina tem essa ferida por conta do seu
sentimento de inferioridade, aquela coisa de se descobrir vítima de uma
injustiça da natureza, que seria a falta do pênis.
- o desenvolvimento da sexualidade feminina pode
seguir três caminhos diferentes, dependendo da forma como a menina vai lidar
com esse sentimento ligado à castração que a inferioriza. Três destinos que
serão determinantes para a mulher adulta.
1 • INIBIÇÃO
SEXUAL OU NEUROSE: A mulher tem desejos sexuais,
profissionais e ambições que a sociedade só permite aos homens. Frustrada com
essa condição e sem forças para vencê-la, a mulher não supera sua inveja do
pênis, reprime suas vontades e permanece frígida e infeliz para sempre. Na
época de Freud, esse seria o destino seguido por muitas das histéricas que
frequentavam seu divã: mulheres cuja repressão dos desejos inconscientes viria
à superfície na forma de sintomas físicos.
2 • COMPLEXO DE MASCULINIDADE: Para
Freud, a mulher não se conforma com sua “castração”, continua querendo ser um
menino e faz de conta que tem um pênis. Tudo isso a leva a se tornar lésbica ou
a uma vocação fálica. Essa vocação, segundo o pai da psicanálise, é o que faz a
mulher querer assumir posições na sociedade “exclusivas do homem”. De acordo
com a teoria do austríaco, um alto cargo numa multinacional, para muitas
mulheres, é um pênis simbólico, que finalmente elas podem bater na mesa.
3 • SEXUALIDADE FEMININA NORMAL: Não se engane: esse “normal” de Freud para a mulher significa a aceitação de um destino como ser humano de segunda categoria. As “vantagens” são a tranquilidade e a estabilidade que vêm com a resignação do lar. A maturidade só acontece quando a ligação com esse pênis fracassado que é o clitóris é abandonada pela adolescente, sendo esse órgão substituído pela vagina – mais passiva e no molde certo para a penetração do marido. Trabalho? Só dentro de casa. A vocação para a maternidade faria com que a mulher funcione no espaço familiar, não no espaço público.
·
FREUD SABIA QUE
NÃO SABIA. Ele
admitiu ignorar a mente feminina. Mas sua teoria pode fazer sentido (não
literal). Quanto menos literal é a
interpretação que se faz dessas ideias sobre a sexualidade feminina, menos revoltante a coisa
fica.
- Quando se pensa literalmente num membro
viril como objeto desse desejo, não dá para concordar com quase nada do que
Freud disse. Mas, pensando no pacote que vinha junto com aquele pênis – autoestima, autoridade,
influência, liberdade, privilégios –, pelo menos o conceito central da inveja
do pênis faz sentido. Basta trocar a expressão por “inveja do poder”.
- Se, em pleno século 21, a mulher ainda
precisa lutar por igualdade de oportunidades em relação aos homens, é evidente
que, lá na Viena da virada do século 19 para o 20, as senhoras que chegavam ao
consultório de Freud – fornecedoras da maior parte do conteúdo das elaborações
do doutor – também queriam ter o que os homens tinham.
- O próprio complexo de castração dos
meninos fica mais tolerável sob esse ponto de vista. Na explicação literal de
Freud, o garoto sente o temor de perder o pênis quando chega à idade de
perceber as diferenças entre eles e elas, e nota que as meninas não têm o que
ele tem.
- enquanto as
meninas eram educadas para ficar quietas à mesa, não sair de casa e repetir os
trabalhos domésticos da mãe, os meninos eram estimulados para a aventura,
demonstrações de força e planos de grandeza. Perder esse “pênis”, essa nítida
vantagem em relação às restrições das meninas, seria, claro, motivo para
ansiedade.
- Seu
fundamentalismo fálico – a noção de que toda a sexualidade, deles e delas,
parte do pênis, ou do homem, melhor dizendo – tornou-o incapaz de reconhecer a
individualidade feminina.
- A visão de que a sexualidade delas é mero desdobramento da deles tem uma jurisprudência tão machista e mítica quanto a perspectiva freudiana: Eva, a primeira mulher, que nasce de uma costela de Adão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário