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“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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domingo, 15 de fevereiro de 2026

O/A Narcisista.

 Entrar na jaula do Tigre...

Com tanta gente querendo palpitar sobre “ser ou não ser narcisista”, o narcisismo se tornou um rol de rótulos genéricos de mitos com uma ampla gama de comportamentos estereotipados, desagradáveis ou frustrantes.

Apressados dizem que o narcisista:

- é cheio de “agressividade passiva”;

- cria dependência emocional;

- é extremamente encantador e carismático, mas meio morto no olhar;

- tem um transtorno;

- são todos iguais;

- não tem empatia;

- não percebem que são narcisistas;

- nunca vai mudar;

- não receberam amor ou apreciação suficientes dos pais na infância;

- só pensam em si mesmos;

- são bem-sucedidos;

- se acham maravilhosos;

- não sentem remorso.

Mitos! O que dizem os estudos científicos nos ambientes clínicos?

1.     O narcisismo é um traço de personalidade que existe em um contínuo (não vai e volta, é persistente, causa sofrimento e interfere no trabalho, no relacionamento ou outras áreas da vida), através de um impulso de se sentir especial e único;

2.     Para ter o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN), esse sim uma doença, o indivíduo tem uma necessidade inabalável de admiração, um senso inflado de autoimportância e falta de empatia pelos outros;

3.     O TPN é raro. Por exemplo, afeta apenas cerca de 1% a 2% dos adultos nos EUA;

4.     Narcisistas apresentam níveis acima da média de comportamentos ou traços narcisistas: baixa empatia, senso de direito, egoísmo, manipulação, engano, transferência de culpa e um impulso para buscar admiração, status e validação;

5.     Eles têm grande dificuldade em lidar com as próprias emoções;

6.     São especialmente prejudiciais quando se tornam vingativos ou insensíveis, ou quando se aproveitam das vulnerabilidades alheias;

7.     Ser narcisista muitas vezes significa uma vida se sentindo injustiçado, vitimizado, enganado, desconfiado, desconectado dos outros – não é uma forma agradável de se viver;

8.     Pessoas narcisistas não expressam apenas uma forma de narcisismo, mas apresentam combinação de traços (tem o tipo agêntico, o neurótico e o antagonista). A) Agêntico: são confiantes, assertivos, se sentem no direito, têm senso afiado de importância e são focados em status, poder e sucesso; B) Neurótico: necessidade constante de validação e sensibilidade a críticas e rejeição, vivenciam vergonha intensa, ansiedade, instabilidade emocional, insegurança e dúvida sobre si mesmas; C) Antagonista: competitivo, explorador e hostil, dispostas a diminuir os outros para se sentirem superiores, carecem de empatia;

9.     Narcisistas são capazes de empatia quando lhe convém, quando precisam de algo ou que satisfaça o próprio interesse (podem demonstrar empatia quando querem alimentar a percepção de que são empáticos ou podem entender que a empatia é necessária, mas simplesmente não se importam em produzir uma resposta compassiva, pois desaparece assim que consegue o que quer – ou seja, se parece com empatia, mas não é empatia profunda ou compassiva);

10.  Narcisistas podem saber que são narcisistas, inclusive ter consciência dos aspectos negativos de sua personalidade. Por exemplo, eles sabem que soam arrogantes, mas isso não é um problema para eles;

11.  Como a empatia aumenta com a idade, o narcisismo não é um traço estático. Ele até tende a diminuir levemente ao longo da vida adulta;

12.  Causas mistas (criação, sociais e genéticas). Sobre as influências da criação: trata-se mais de exagero de amor do que falta de apreciação. Está mais relacionado à tendência de um pai ou mãe enxergar um filho como mais especial e mais merecedor do que outras crianças. Sobre as influências sociais: amizades, relacionamentos românticos e experiências na escola e no trabalho podem desempenhar papel ainda mais importante do que a criação no desenvolvimento de traços narcisistas. Sobre as influências genéticas: filhos de narcisistas têm maior probabilidade de pontuar alto nesse traço.

13.  Como já foi dito, pessoas narcisistas são capazes de empatia, de cooperação e de serem prestativas, como realizar um trabalho voluntário ou fazer doações para instituições de caridade. A questão não é capacidade de ato, mas no porquê ou como elas fazem isto. A motivação dessas pessoas está longe de ser altruísta. Elas estão mais interessadas em impressionar os outros e receber algum tipo de benefício ou recompensa. E são mais propensas a ajudar publicamente, em vez de anonimamente, para garantir que seus esforços sejam vistos;

14.  Narcisistas podem ser bem-sucedidos ou não. O narcisismo em si pode favorecer ou prejudicar a pessoa. A) Favorece quando: uma dose saudável de narcisismo gera sucesso e vantagens quando tende a ter confiança, assertividade e forte motivação para liderança; B) Prejudica quando: as habilidades sociais são pobres ou desorganizadas, gerando barreiras para conquistas; C) O sucesso deles também depende das expectativas de quem está ao redor; D) Podem ser manipulados: como líderes narcisistas tendem a ser decisivos e agressivos, além de desejarem validação, eles podem ser muito úteis quando é importante mudar as coisas em um curto espaço de tempo ou menos úteis quando é mais importante garantir estabilidade e manter tudo como está.

15.  Narcisismo não é sinônimo de autoestima. Alguns até têm autoestima frágil. Outros só se sentem confiantes apenas quando os outros elogiam sua aparência ou suas conquistas, mas rapidamente se tornam ansiosos ou ressentidos quando essa validação desaparece, deixando sua autoestima em constante oscilação. No geral, mesmo aqueles com tendências grandiosas, a percepção acaba dependendo de validação externa constante;

16.  Pessoas narcisistas não são, nem sabem ser ou evitam ser vulneráveis e responsáveis. Elas atacam quando são confrontadas. Qualquer culpa rapidamente se transforma em vergonha e, depois disso, em transferência de culpa. Exemplo: “Tá, eu te traí. Mas o que você esperava? Você nunca me dá atenção”. Ou seja, pessoas narcisistas sabem quando fizeram algo “ruim”, mas isso não as impede de repetir esse ato.

Podemos reduzir tendências narcisistas quando: a) incentivamos as pessoas a se importarem mais com os outros ou a refletir sobre seus valores; b) torcer para que queiram mudar (porque não se veem como necessitados ou porque podem encarar o tratamento como uma admissão de fraqueza), e buscar ajuda de um terapeuta (por sofrimento relacionado a ansiedade, depressão e instabilidade emocional); c) técnica de “entrar na jaula do tigre”: se você sente que alguém em sua vida está manipulando, mentindo e distorcendo a realidade, e não tem certeza se essa pessoa é narcisista, talvez valha escolher um momento mais calmo para tentar conversar sobre seus sentimentos (e depois decidir se fica ou volta para essa jaula).

Enfim, todos os indivíduos têm algum grau das características descritas acima. Os que estão em nível mais alto em algum espectro costumam ser egocêntricos e vaidosos, com tendência a transferir culpa e raiva (são narcisistas). Os que não estão, demonstram responsabilidade genuína ou possibilidade de reparação e crescimento. Todavia, isso não significa necessariamente que tenham TPN. O laudo clínico pautado em critérios específicos que dirá, e não o nosso vão pré-julgamento apressado.

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