O que mata a esquerda?
Irracionalizar a racionalidade ética do mundo.
Se
ninguém contou quem é o inimigo nem como ele age, o povo vai se contrapor a
quem? Quem retira prazer de sua situação humilhante e vexatória?
São várias punhaladas! Mas, a maior delas: é fazer acreditar que a culpa é do voto, da política e do Estado, nunca das nossas sagradas elites do dinheiro.
A direita tem em mãos a mídia tradicional, as redes sociais controladas e uma histórica cegueira política da esquerda que lhe confere um imaginário social sob controle, tudo fácil para ser colonizada!
· O contexto atual é, umbilicalmente, antiesquerda. Ele consiste em fragmentar e eliminar a possibilidade de narrativas alternativas amplas e abstratas o bastante a fim de permitir o conhecimento real da causalidade social, propiciando, na consciência do sujeito, a compreensão do seu lugar no arranjo social dominante. Logo, não existe esquerda real. Quando aparece, é fatídica, pontual e momentânea. Logo, não consegue se fazer permanentemente, algo necessário para conscientizar seu público. É isso que leva a uma morte anunciada, ainda que lenta, da esquerda. Sem um discurso consistente nem alternativo que dispute o imaginário popular, a vitória total da extrema direita em todos os lugares é mera questão de tempo.
·
A
esquerda foi atacada em duas frentes: 1) externa: pela extrema direita crescente;
2) interna: pelo cavalo de Troia do neoliberalismo
progressista;
·
A direita tem vantagens não só materiais, mas também as de
espírito, delas decorrentes. Ninguém nasce com capacidade de concentração e de
pensamento abstrato, hábito de leitura ou pensamento prospectivo que
possibilitem enxergar o futuro além do presente imediato. A classe média e a
elite “herdam” essas vantagens desde o berço, com exemplos práticos cotidianos,
o que é decisivo para o aprendizado dessas disposições de comportamento. O que
leva a concluir que: disposições de comportamento fundamentais, que permitem a
compreensão do mundo, são diferencialmente distribuídos pela clivagem de
classes sociais.
·
A
esquerda foi crescentemente tomada por uma pauta, ao fim a ao cabo inócua, da ascensão meritocrática e
individual de alguns poucos representantes
dos setores oprimidos;
·
Como
servir aos trabalhadores e ao mesmo tempo ser cooptado pelo capital financeiro?
Ora, outra punhalada veio/vem da “desilusão” ou
“ressentimento” para não dizer “frustração”
com políticas fracassadas que prometeram “tudo”, de partidos (PT) que
haviam historicamente representado os interesses populares. Agora, são os ressentimentos e humilhações provocados pela grande desapropriação do capital infofinanceiro
que impulsionam a extrema direita, que também mimetiza o comportamento da velha
esquerda, fingindo agora representar os humilhados e ofendidos contra o sistema
de poder;
·
Manipulando um público indefeso, sem educação de
qualidade e sem informações isentas, algo mais fácil de se fazer dentro das bolhas autorreferidas, uma criação suprema dos algoritmos;
·
Com
polarização, criada pela extrema direita
para provocar um efeito: encaminhar os partidos de esquerda para o centro do espectro político em praticamente todos os lugares, inclusive no
Brasil;
·
A
produção de crises, a aplicação de golpes e as privatarias com
base na “moralidade”. Exemplos: 1) a elite produziu a crise do mensalão no
primeiro governo Lula e 2) o golpe midiático-parlamentar de 2016 que destituiu
Dilma Rousseff (no intuito de transferir renda da
população para os mais ricos via
endividamento e baixos salários e destruir a última instância de soberania
popular do sistema político brasileiro – controlar
o Executivo é comandar a única
instância de poder em que projetos alternativos de nação podem ser confrontados
sobre o orçamento público), uma balela da corrupção apenas da política para
travestir o saque das riquezas e do orçamento público, realizada com o aval da
classe média branca, em suposta defesa da moralidade pública; 3) o Banco
Central “independente” e as Emendas Parlamentares obrigatórias ou “Orçamento
Secreto”;
·
O
interesse por trás do assassinato da esquerda é capital, dinheiro. São as isenções fiscais bilionárias e o saque financeiro que motivam seu homicídio (o Estado perde foco e
capacidade de executar políticas públicas transformadoras);
·
A
imprensa corporativa é o seu maior instrumento de manipulação e de
sistemático engano da população. A elite do mercado rouba e a imprensa mente –
esse é o resumo da dominação social, política e econômica no Brasil há mais de
cem anos!
·
Esvaziar e criminalizar o Estado e a
política para
garantir o seu monopólio, a real base de todo o seu poder econômico;
·
Com
fortes ataques da extrema direita, cuja
estratégia é desviar a atenção das questões sociais fundamentais para a “guerra cultural” por uma moralidade agressiva (exemplos:
“voto na direita para meu filho não virar gay na escola da esquerda”; o negro
evangélico que vota na direita por causa da “valorização da família”; o homem
humilhado pelo capital, inseguro e empobrecido, mas que vota na direita (o
pobre de direita) porque sustenta um discurso de que em casa quem manda e
oprime a mulher e os filho é apenas ele, ou seja, o humilhado na rua quer saber
que no seu lar ele pode ter sua desforra; etc.). O
machismo: esse
público masculino, desenraizado e fragilizado, e por conta disso agressivo e
violento, é o verdadeiro motor da extrema direita em todos os lugares;
·
O racismo: outro elemento agregador da
extrema direita (é sentido por todos, mas não pode ser assumido explicitamente,
bem aí mora o suposto “país cordial”). Exemplo: veja o mapa da eleição do 1º
turno. O que temos ali? Os brancos pobres que são maioria na região Sul e em
São Paulo (azul Flávio), o ódio ao nordestino, supostamente “o preguiçoso do
Bolsa Família” (vermelho Lula). Não nos esqueçamos que 80% da população
nordestina é preta ou mestiça! Enfim, praticamente todas as questões sociais e
políticas no Brasil têm um fundo racial reprimido e recalcado;
·
O
fingimento, no sentido do comodismo e da
não-ação: continua aí viva, mas fingindo que morreu. Some, não adere aos atos,
sobe e fica no muro, diz que é neutra;
·
Tomando
decisões por discursos e narrativas.
Logo, se não tem os fatos, criam-se os boatos. Entretanto, sabemos, assim como
os indivíduos, não podemos avaliar uma instituição pelo que ela diz ser, mas
sim pelo que ela realmente é. Afinal, só o comportamento efetivo comprova quem
se é realmente;
·
A
fragilidade de nossa esquerda reside em não assumir
a luta simbólica e cultural como sua maior bandeira. Uma luta muito
bem assumida pelo Capital e pela Direita, que sabem que “sem dominação simbólica não existe capitalismo”.
Por exemplo: a fascinação do pobre com Lula, muito especialmente do nordestino
pobre, tem a ver com processos de identificação imediata e emocional com a
“pessoa” de Lula e de sua trajetória. Não é ruim, mas cria um problema: esse
enorme patrimônio é “pessoal”, baseado em uma liderança “exemplar” (não em um
discurso articulado e coerente). Isso cria uma descontinuidade entre o
getulismo e o lulismo, nos deixando sem um projeto nacional articulado e forte
o bastante para transformar o imaginário social da sociedade brasileira;
·
A
universidade brasileira jamais foi de esquerda, mas sim elitista. E como é ela
que forma todos os quadros de comando da sociedade, também a Ciência, o
jornalismo, a imprensa e toda a indústria cultural nativa é cativa de
envergadura da mesma narrativa. Visto assim, quem
forma academicamente a esquerda nessa usina de ideias elitistas
travestidas de crítica social? Um pensamento feito para fragilizar a política
e, portanto, a participação popular, criminalizando o voto para garantir o acesso irrestrito das elites
ao poder de Estado – fonte real de todos os seus privilégios – ao ser
percebidas como boas, produtivas e honestas. “[...] primeiro, quem
define se existe ou não corrupção é a mídia dominante nas mãos da mesma elite
que corrompe; segundo, aceita-se, implicitamente, que a corrupção é apenas
política, ao mesmo tempo invisibilizando a elite de proprietários como fonte de
toda a corrupção real, de quebra criminalizando a política, o Estado e a
soberania popular” (p. 108).
·
A esquerda não pode assimilar o imaginário de seu inimigo de classe, e ela vem
assimilando. Isso é tomar o veneno da elite que quer combater. Ao compartilhar
o imaginário elitista dominante na sociedade, sabendo ou não, acaba se transformando em marionete da elite, seu
plano B. A esquerda fica
condenada a meramente administrar o capitalismo periférico com um toque de
empatia popular, sem jamais se contrapor a ele e sem ao menos tentar
desconstruí-lo.
·
A
esquerda enfraqueceu porque a direita vem conseguindo dizimar
todas as suas principais lideranças mais combativas sem se conseguir
sequer uma reação mais contundente.
·
Por
que as três grandes questões que assombram os seres humanos de todos os lugares
e épocas distintas (de onde viemos, quem somos e para onde iremos) e que deram
origem a todas as grandes religiões mundiais (budismo, cristianismo, hinduísmo,
confuncionismo, islamismo, judaísmo, protestantismo), a elite escolhe aquela
versão em que se encaixam e se justificam os seus interesses: a explicação
dominante sobre o mundo seleciona e escolhe o rumo da sociedade inteira, a
partir de certas interpretações que ganham o público porque atendem às suas
necessidades fundamentais de sentido e de pertencimento.
· É costume atacar a moralidade do povo, animalizando-o ou taxando-o de primitivo:
“Ora,
quando se ataca a moralidade se destrói o fundamento mesmo do espírito humano e
da humanidade enquanto tal. Negar a moralidade a alguém é, portanto, o
equivalente a animalizá-lo, o que não permite a empatia que temos com o
sofrimento de outro ser humano. Afinal, a moralidade é a dimensão mais
importante do espírito humano, como já dizia Kant. Quem não tem moralidade não
tem espírito; e quem não tem espírito é animalizado, deixa de pertencer ao
gênero humano. É a legitimação perfeita para o saque e o esbulho das riquezas
dos povos supostamente desonestos e primitivos” (Jessé: p. 115).
·
Impregnou
em parte da sociedade brasileira a “servidão
voluntária”:
“[...] Todo povo colonizado culturalmente, como é boa parte do povo brasileiro, age como um escravo fiel, que procura antecipar o desejo de seu dono para melhor servi-lo. [...] Esse é o “bloco de poder” que manda no país, unindo as classes proprietárias e a classe média branca que irá se contrapor à “África”, feia, pobre e inconfiável, que é como essas classes percebem as classes populares, ou seja, cerca de 80% da opulação. Do mesmo modo que na dimensão planetária, a dominação interna no capitalismo periférico brasileiro também é legitimada pela suposta “moralidade superior” das classes brancas” (Jessé, p. 115).
·
Qualquer
tentativa de inclusão social no Brasil foi sempre um problema para a elite, que
logo procurou um pretexto para evitá-la. Como deseja ser a referência da
moralidade superior, geralmente chama os
“investimentos” em “gastos” e a “inclusão” de “corrupção”. “[...]
nunca foi a corrupção o problema dessas classes do privilégio e sim a inclusão
popular, especialmente dos negros nas universidades, o bastião do privilégio
racista dos brancos. Para a classe média branca, a corrupção, desde que seja de
elite que ela inveja e admira, não é um problema” (p. 116).
·
A
esquerda caiu em uma condição de defensiva e nela se acomodou, devido: a)
desorientação; b) falta de estratégia política histórica; c) ausência de um
discurso alternativo de fato articulado capaz de construir um imaginário social
alternativo e crítico;
·
A
esquerda não dispõe de um imaginário alternativo ao elitista, como se um “meme”
pontual fosse capaz de restituir os elos de explicação necessários à
compreensibilidade social e histórica do sujeito (negados pela força da
pregação elitista). Mas, o pior, se joga de corpo e alma no “economicismo”.
Veja isso:

Como a imensa maioria dos quadros políticos é de classe média – e a classe média tende, ingenuamente, a universalizar a sua visão privilegiada do mundo, cognitiva e emocionalmente, às classes populares –, imagina-se, infantilmente, que um projeto econômico de redenção popular e de melhoria de vida seria espontânea e imediatamente percebido pelos pobres enquanto tal. As pessoas só entendem, normalmente, uma herança em dinheiro. Exceto para a ínfima elite, o aspecto decisivo é a herança cultural de classe. Por ser invisível à maioria, permite a falácia da meritocracia, como se todo privilégio individual não tivesse um fundo social. Até hoje os negros e pobres existem para servir de mão de obra barata a preço vil para as classes do privilégio, e para ser, além disso, humilhados cotidianamente pela polícia, pelas patroas, pela escola precária e pelas novelas e notícias desastrosas da mídia (é a elite que seleciona tudo o que o povo vai ver na imprensa e na indústria cultural, com força e pregação diária).
·
Há
um pacto antipopular histórico entre elite de
proprietários e classe média, consolidado desde os anos 1930, que a
democracia sempre tem sido um arremedo entre nós por conta desse ataque
intestino e encoberto à soberania popular, desvelando mais uma manifestação
concreta do escravismo que continua hoje.
·
O
imaginário totalizador elitista dominante permite
envenenar ou enfraquecer decisivamente a crítica fragmentada solta no
mundo. A crítica pontual tem seus limites claros: é uma pequena lanterna num
mar de escuridão. Essa crítica parcial é impotente para se contrapor a um
imaginário que serve para isolar e enfraquecer as críticas pontuais,
fragmentando a compreensão do indivíduo. Enfim, uma crítica sempre pontual e
fragmentária é facilmente engolida e mastigada pelo imaginário dominante.
· A elite prega diariamente com força esses dogmas: a) a imagem de que somos mais corruptos que os outros povos e por isso imbecilizados a ponto de entregar de bandeja a Petrobras e a Odebrecht aos americanos (tidos como os super-heróis honestos, produtivos e confiáveis); b) a crença de que toda corrupção estaria só no Estado e na política; c) culpa-se a política e o Estado por tudo de ruim, o que fragiliza a política como um todo e apequena a participação popular; e de quebra ainda se invisibiliza o saque real da elite sobre o povo; d) a elite aproveita os golpes também para “privatizar” – um eufemismo do saque sobre a riqueza pública – as empresas estatais lucrativas e produtivas a preço de banana.
Enfim, o que sobra? Raiva, muito ódio. Que também são, e essencialmente são, combustíveis de proveito. Essa raiva justa pela opressão diária será canalizada agora pela extrema direita, não pela esquerda. Lançada contra quem? Quais bodes expiatórios? O PT (antipetismo), a mulher (feminicídios), o gay (homofobia), os negros e os pobres (a criminalidade), a política e o voto (o número alto de abstenções e brancos) e até nos bichos e na natureza (os incêndios criminosos e o especismo), etc. Eles vão continuar interpretando seu empobrecimento relativo, provocado pelo golpe de 2016, como causado “pela corrupção do PT”, tal qual noticiado por anos a fio em toda a imprensa brasileira.
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