As faces ‘boazinha e perversa’ do/a professor/a.
“[...] a escola está impregnada de ponta a ponta pelo aspecto político. Ela se configura como um dos espaços em que os interesses contraditórios próprios da sociedade capitalista entram em disputa pela apropriação do conhecimento. [Nosso objetivo...] ver o sentido político da escola mesmo ali onde ele aparentemente não existiria, onde ele está oculto sob a aparência do estritamente técnico [...]” (Pedagogia Histórico-Crítica, SAVIANI: p. 37).
CRÉDITO: “Haverias de querer minha alma?” (Série No Meu Quarto), 2014. Foto: © Monica Piloni.
De quem é a responsabilidade pelo fracasso escolar que atinge as crianças das camadas trabalhadoras? Da incompetência profissional dos professores? Das famílias? Das próprias crianças? Do destino?
Os 03 Instrumentos de trabalho do/a professor/a são o conteúdo (saber), o método (saber fazer) e a técnica (com competência). A questão é que a escola está impregnada de ponta a ponta pelo aspecto político. Logo, não existe neutralidade na técnica. Ela tem um sentido político e tudo o que não está explícito pode ser lido, desde que exista vontade política para se fazer essa leitura. Assim, a política educacional vigente e suas distorções estão atreladas aos interesses dominantes.
No campo da Educação, qual é a principal questão da Classe Dominante? Como organizar e transmitir o conhecimento aos dominados da maneira mais inofensiva possível? E a mesma questão, do ponto de vista do dominado? Como reapropriar-se do conhecimento da maneira mais eficiente possível? Assim, qual é o objeto do trabalho escolar? O saber objetivo!
Quando o assunto é conhecimento, os gregos já separavam “Doxa” de “Sofia” e de “Episteme”. “Doxa” são as opiniões e os palpites. “Sofia” é a experiência de vida. Já “Episteme” é o conhecimento metódico e sistemático. A escola é uma instituição cujo papel consiste na socialização da “Episteme”, que exige vontade política e competência profissional.
Enquanto as Ciências da Natureza procuram identificar os fenômenos naturais, as Ciências Humanas procuram identificar os fenômenos culturais. Já as Ciências da Educação procuram identificar elementos naturais e culturais necessários e adequados à constituição da humanidade e da integridade em cada pessoa.
Enfim, as faces boa e perversa do professor não são geradas naturalmente. Elas são fruto da reação do professor ao ter que lidar com uma prática escolar pautada em uma situação social injusta e opressora, que legitima a divisão entre dirigentes e dirigidos. Vale dizer, essa desconfiguração, essa desmontagem, essa desintegração e esse esquartejamento são produzidos pelo Sistema das Elites. A tarefa de reverter esse estado de coisas é uma questão política que implicam duas coisas: a ORGANIZAÇÃO coletiva dos/as professores/as e a conquista de suas competências políticas, superando essa bagunça física que o Sistema faz não somente com a escola, seus métodos e os trabalhadores, mas também o desarranjo da sua própria alma e subjetividade.
CRÉDITO: “Venice Void” (2022) -
Jana Euler.
“[...] por uma
nova competência técnica que seja produto das lutas do ‘coletivo dos
professores, politicamente organizados’ e articulados com os interesses dos
trabalhadores[...] uma crítica mais profunda contra certa competência
pedagógica, socializando mais a crítica e a denúncia contra concepções
anacrônicas e elitistas da tecnologia educacional dominante [tradicionalistas,
conservadores e reacionários]” (Pedagogia Histórico-Crítica, SAVIANI: pp. 48-49).
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