“É preciso cultivar o espírito de sacrificar o eu menor para obter os benefícios do eu maior” (Provérbio Chinês).
Grande parte da vida gira em torno de comparações sociais, que podem ser ascendentes (olhar para quem está melhor) e descendentes (olhar para quem está em situação inferior).
Sentimo-nos bonitos quando os outros parecem feios, inteligentes quando os outros parecem burros, carinhosos quando os outros parecem insensíveis. Quando testemunhamos o desempenho de um colega, não podemos resistir a uma comparação implícita conosco. Podemos, portanto, intimamente sentir prazer com o fracasso de um colega, em especial quando acontece com alguém que invejamos e não nos sentimos vulneráveis a essa má sorte. Aqui corremos o risco de sermos mais mesquinhos e cruéis.
Quando as pessoas pensam bem de nós, isso nos ajuda a pensar bem de nós mesmos. Crianças ou pessoas que são rotuladas pelos outros como talentosas, esforçadas ou prestativas tendem a incorporar essas ideias em seus autoconceitos e comportamento. Do contrário, se pessoas de grupos minoritários se sentem ameaçadas por estereótipos negativos de sua capacidade ou se são ameaçadas por baixas expectativas, elas podem se “desidentificar” com o que vinham mostrando afinidade. Em vez de combater esses pré-julgamentos, elas podem identificar seus interesses em outra parte. Aqui, os rótulos têm efeitos construtivos e destrutivos.
E tudo isso pode voltar contra nós mesmos. Podemos acabar usando o que achamos que os outros pensam de nós como um espelho para percebermos a nós mesmos, tanto para o bem quanto para o mal (é o self do espelho). Importamos para nossos autoconceitos não como os outros realmente nos veem, mas o modo como imaginamos que eles nos vejam. Só que pesquisas mostram que as pessoas geralmente se sentem mais livres para elogiar do que para criticar (elas tendem a expressar mais seus elogios e refrear suas zombarias). Assim, podemos, portanto, superestimar a avaliação dos outros, inflando demais nossas autoimagens.
E ainda tem o peso cultural. Existe mais autoinflação do ego e seu individualismo aqui nos países ocidentais industrializados do que os orientais. Veja a tendência do Donald Trump... Nos EUA, são mais frequentes as muitas palavras de elogio que os amigos oferecem uns aos outros do seu clã (todos os dias). No Japão não é assim (seriam em 4 dias). Por lá, as pessoas são socializadas menos para sentirem orgulho de suas realizações pessoais e mais para sentirem vergonha por faltarem com os outros (os indivíduos do leste asiático pensam mais holisticamente – percebendo e pensando sobre objetos e pessoas em relação uns aos outros e a seu ambiente).
Com as Redes Sociais e as plataformas digitais a comparação foi potencializada. Como as pessoas expõem apenas seus melhores momentos e vidas filtradas, o efeito de comparação social fica desfavorável, aumentando os riscos de ansiedade e frustrações.
Tudo isso causa impactos bons e ruins na autoestima, essa medida psicológica pela qual monitoramos e reagimos a como os outros nos avaliam. E isso tem a ver com aspectos evolutivos. O destino de nossos antepassados dependia do que os outros pensavam deles. Sua sobrevivência aumentava quando eram protegidos por seu grupo. Quando percebiam a desaprovação de seu grupo, havia uma sabedoria biológica em seu sentimento de vergonha e baixa autoestima. Hoje, nós, como seus herdeiros, tendo uma necessidade arraigada de pertencer, sentimos a dor da baixa autoestima quando enfrentamos exclusão social.
Enfim, o sensato é não fazer muitas comparações! Se tiver que fazer, saiba fazer. Quem está no alto pode ser inspirador (motivando-nos a crescer) ou frustrante (causando inveja). Quem está no baixo, serve para proteger a autoestima e gerar alívio, mas pode levar à arrogância.