Por que vivemos tão juntos?
As pessoas são simples, mas vão se tornando complicadas. Por quê? Porque vão se misturando. A convivência torna-nos mais complexos! Vivemos em cidades porque isso facilita a nossa vida, mas também cria um monte de problemas.
No início, as pessoas viviam em pequenos grupos que andavam por aí caçando animais e colhendo plantas. Com o tempo, a tendência foi de a maioria parar quieta e começar a plantar e criar animais. E as pequenas comunidades se transformaram nas cidades que conhecemos hoje.
Logo, a origem da cidade está no mercado. Enquanto as pessoas conseguiam viver com o que elas mesmas faziam, dava para morar longe e sozinho. Mas o mundo foi ficando mais complicado, e passou a fazer mais sentido dividir as tarefas. Eu planto arroz, você planta feijão e o fulano descola o frango. Nesse novo cenário, a gente pode até morar separado, mas precisa de um lugar para ir trocar nossas coisas.
Resultado: 08 em 10 pessoas do planeta vivem em grandes centros urbanos, cidades menores ou vilarejos. No Brasil, são quase 9 a cada 10.
Assim:
1.
As
cidades reúnem as pessoas. Fica mais fácil resolver as coisas que dependem dos
outros se a gente estiver morando todo mundo perto;
2.
As
pessoas começam a se reunir umas com as outras para trocar suas coisas. Se você
morar no campo, você vai produzir alguma coisa e levar para a cidade, onde vai
poder vender e comprar outras coisas;
3.
Não
são só as pessoas que vão ficando mais “complicadas”. Suas “coisas trocadas”,
também! As indústrias surgiram para isso. Antes, se vivia com o dinheiro da
colheita das plantações, então as pessoas não precisavam estar sempre nos
mesmos lugares. As fábricas mudaram tudo;
4.
Juntar
para dividir o trabalho. Pessoas e fábricas ficaram mais juntas para trabalhar (as
fábricas fizeram as cidades crescer);
5.
Antes,
uma pessoa ou pequeno grupo ganhava dinheiro vendendo um produto que produzia do
começo ao fim. Mas, no modo de produção capitalista, isso o fragmentou
internamente por partes de produção, e externamente, em uma rede de fábricas.
Perdeu-se a verdade do todo, por causa da fragmentação;
6.
Qualquer
pessoa pode influenciar como as coisas funcionam na cidade. A cidade vira
cidade pelas pessoas, que chefiam representantes políticos para decidir o que é
feito em cada canto dela;
7. Todos nós somos uma força para produzir e organizar as cidades. O que muda é o poder que cada um de nós tem;
Mas, nem tudo funciona na cidade como deveria. Vivemos juntos, mas nem todo mundo vive bem. Onde e como as pessoas moram?
1.
Nas
favelas, por exemplo, a cidade é
construída de forma paralela ao modo como a Lei manda. O sistema capitalista
separa os que têm dos que não têm. Sem condições e excluídas, muitas pessoas constroem
suas casas, ao longo do tempo, por conta própria e sem autorização da
prefeitura. Muitas até pagam pelo espaço, mas não por vias oficiais;
2.
Como
é a qualidade da habitação? Há
pessoas que não têm onde morar ou moram em más condições. E existe a questão de
onde ficam as casas, se tem água tratada, iluminação pública, esgoto e coleta
de lixo;
3.
Há
o crime organizado: pessoas que se
juntam para quebrar leis. Essas pessoas às vezes ocupam regiões da cidade e
tomam decisões que, em teoria, deveriam ser dos políticos;
4.
Como
é a qualidade do transporte? Se as
pessoas não conseguem morar perto do trabalho, elas precisam ir até onde há
serviço. Isso também vale para hospitais, escolas, cinemas e teatros, parques e
tudo mais. Daí surgirem o trânsito, os ônibus e metrôs abarrotados, etc.;
5. As mudanças climáticas e o Aquecimento Global vão mudar o jeito de viver nas cidades. A temperatura do mundo está aumentando por causa da poluição humana. Isso faz com que problemas que já existiam, como enchentes e secas, piorem. Ter um morro ali não é um desastre natural. O desastre é colocar alguém para morar no morro. Isso também vale para a ocupação de espaços que já são dos rios (várzeas).
Ora, se as cidades produzem problemas, também podem produzir soluções. Os especialistas estão aí para isso, como os urbanistas, que são treinados para pensar em como as cidades são e podem funcionar. Que tal uma “cidade-esponja” capaz de utilizar grandes parques para absorver a água das chuvas e evitar alagamentos (como Curitiba, cidades da China e dos EUA)? Ou um ótimo BRT, tipo de corredor de ônibus que faz com que eles funcionem quase como um metrô a céu aberto? Etc.
Viajar é legal, não só para alcançar outro destino, mas reparar como outros lugares foram construídos, como se organizam e as pessoas dali vivem. Cidades inusitadas, que propõem diferentes maneiras de viver junto:
1. Veneza: surgiu dos romanos fugindo das
invasões bárbaras (séc. V), que encontraram em uma grande laguna (lagoa rasa de
água do mar) o melhor refúgio (norte do mar Adriático). Ali fincaram milhares
de troncos e fizeram uma base para soerguer as construções. Em vez de avenidas,
canais de água; em vez de carros, são os barcos que cruzam de um lado para o
outro. Atualmente, a cidade recebe mais de 30 milhões de turistas todos os anos;
2. Roma: ganhou cara de cidade com os etruscos
no ano 600 a.C. que construíram redes de esgotos, estradas, pontes e lugares
como o Fórum – onde as pessoas se reuniam para discussões, cerimônias e
julgamentos. Foi governada por reis (monarquia), comandada por representantes
eleitos pelo povo (república) e potência de impérios. Atualmente, é um grande
museu a céu aberto, com a vida moderna convivendo com ruínas milenares (como as
do Coliseu, ano 70 d.C.);
3. Machu Picchu: está em nossa América! Civilizações
pré-colombianas como a dos incas, construíram um império do atual Equador até o
Chile (1450) – uma cidade de pedras numa montanha a 2.430 m de altitude. Nem
precisou Colombo chegar aqui (em 1492) para tudo isso existir. Hoje, Machu
Picchu é uma das 7 maravilhas do Mundo Moderno, e recebe 1,6 milhão de turistas
todos os anos.
4. Brasília: construída do zero pelo modernismo
brasileiro (em 1950, Juscelino Kubitschek transferiu a capital do Rio de
Janeiro para o planalto central de Goiás), foi encomendada sob promessa de
evitar o caos das metrópoles, a setorização: Esplanada dos Ministérios (para
abrigar prédios do governo), Quadras (grandes quarteirões residenciais),
Quadras Comerciais Únicas (para farmácias, outra só para pet shops, o setor
hoteleiro, etc.).
5. Pompeia: cidade inteira soterrada no ano 79,
pelo vulcão Vesúvio (Itália). Foi redescoberta só em 1748, por escavações na
região.
6. Pripyat: foi fundada nos anos 1970 para abrigar
trabalhadores da usina nuclear de Tchenóbil (Ucrânia). Mas, com o maior
acidente nuclear da história em 1986, os quase 50 mil habitantes deixaram tudo
para trás, fugindo dos efeitos mortais da radiação. E serão necessários mais
900 anos para voltar a ser habitada novamente com segurança.
7. Qiddiya: construída em 2017 pela Arábia Saudita
(Oriente Médio) para ser a capital mundial do entretenimento (possui a mais
rápida montanha-russa do mundo, a Falcon’s Flight, com 195 m de altura e
velocidade de 250 km/h). Tudo graças à descoberta de grandes reservas de
petróleo, que enriqueceram a região e a transformaram num novo polo de
desenvolvimento de negócios e de turismo.
8. Chongqing: cidade 8D, no sudoeste da China, com geografia montanhosa e prédios gigantescos em vales e alto dos morros (32 milhões de habitantes). Todos são conectados por praças, terraços e trens que os atravessam com se estivessem atravessando túneis.
Enfim, a história da convivência humana
em grupos é longa, tão antiga quanto a própria história da humanidade. Seus
problemas também trazem oportunidades que perpassam por inovações e esforço
político para aplicar soluções aos desafios das cidades (como bons Planos Diretores). É preciso desconstruir
a prática segregadora e excludente do capitalismo, e investir em um Estado
forte e operante, capaz de construir espaços públicos com equidade. A
Constituição está aí, não faltam leis; falta mesmo que elas saiam do papel, sem
antes serem devoradas pelas privatizações que não entregam aquilo que prometem –
a melhoria dos espaços e seus serviços públicos.
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