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"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 206, inciso II, da Constituição de 1988).

"Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados" (Myles Horton, p. 138).

“Por que escrevemos? Além de todas as recompensas, escrevemos porque queremos mudar as coisas. Escrevemos porque temos essa convicção de que podemos fazer diferença –uma nova percepção de beleza, um novo insight sobre a autocompreensão, uma nova experiência de alegria, uma decisão de unir-se à revolução" (Robert McAfee Brown). "Escrevo esperando fazer minha parte para restringir a intuição com o pensamento crítico, refinar os juízos de valor com compaixão e substituir a ilusão por compreensão” (David G. Myers, p. 47).

“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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sábado, 31 de janeiro de 2026

Vidas digitalizadas.

Por que a atual turbulência social não é processada cívica e politicamente?

"Toda a atenção dos usuários passa obrigatoriamente pelos filtros e menus oferecidos pelo sistema digital..."

A esfera pública se agita, mas não produz efeitos políticos. Não funciona como espaço para a formação de uma vigorosa “opinião pública”. De quem é a culpa? Da vida digitalizada...

Por muito se acreditou de que a participação de sujeitos bem informados e com argumentos racionais poderia fazer com que a esfera pública produzisse consensos e diretrizes para orientar a tomada de decisão dos governantes. Partidos políticos, imprensa livre, instituições democráticas e organizações da sociedade civil, ao se posicionarem na dinâmica das discussões públicas, contribuiriam de forma importante para que a cidadania ativa chegasse a conclusões politicamente orientadas. Beleza!

Pois bem, no meio dessa tese tinha uma pedra – a vida digitalizada. Ela complicou demais a esfera pública. Hoje, ela é um espaço de confusão e de reduzido efeito democrático. Tornou-se uma espécie de aríete voltado para a imobilização e a crise das democracias.

A revolução digital controla a comunicação e a circulação de informações. A economia é mundializada e controlada por grandes monopólios que usam da liberalidade para capturar dados e informações de governos, empresas e indivíduos em particular. Não percebemos, mas estamos “arrumados” em banco de dados (“nuvens”), porque somos fornecedores inocentes de nossas próprias informações. Assim, essas plataformas trabalham para capturar dados dos seus usuários e colocá-los no mercado por meio de diversas plataformas digitais – aplicativos de entretenimento, serviços e de compras e as redes sociais. O que fazem? Convertem isso em produtos que acreditamos consumir de forma livre e autônoma. 

Desse modo, entenda "vidas digitalizadas" como sendo as plataformas digitais que agem manipulando algoritmos que direcionam as intervenções para longe da democracia – gerando uma grande “autocomunicação de massa” para dentro e sufocante. Ou seja, as falas são movidas por intenções particularistas, às vezes perversas, pelo desejo de visibilidade, por motivos político-eleitorais, por paixões ideológicas descabidas. As narrativas ignoram a complexidade social e não oferecem um horizonte político razoável. A política é amassada por ressentimentos, ódios e identidades fechadas. Desconecta-se da democracia. E o marketing político e a grande mídia também dão sua contribuição para tudo isso, porque já operavam também "pelo filtro". O resultado? O espaço público se degrada.

Visto assim, o que estaria corrompendo a esfera pública política?

1.     Os cidadãos e suas organizações estão pouco empenhados em travar o debate público (falta tempo e leitura, sobra desconfiança e dificuldade de processar o excesso de informação). Também os intelectuais e os partidos políticos não conseguem fomentar a participação cívica. Estão todos consumidos pelo pragmatismo eleitoral;

2.     Ao contrário do que parece, a digitalização da vida provoca dispersão, fragmentação e formação de nichos que arregimentam cidadãos disponíveis, fazendo com que absorvam orientações “mobilizadoras” precárias, sustentadas por fake news e “influencers”. O que se cria é uma esfera pública paralela (semipública), que atua tanto para esvaziar a esfera pública geral como para “colonizá-la” de modo enviesado e paralisante.

Enfim, a esfera pública já não funcionava muito bem na vida real. Na vida digitalizada só piorou. A saída está em encontrar uma forma de ativar de verdade essa esfera pública política. Como e onde? Na escola? Na sala de aula? Na educação? Se essas também não estivessem sendo negligenciadas e digitalizadas, talvez...