Quem sou eu

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São Francisco do Conde, Bahia.
PsicoPedagogo.
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"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 206, inciso II, da Constituição de 1988).

"Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados" (Myles Horton, p. 138).

“Por que escrevemos? Além de todas as recompensas, escrevemos porque queremos mudar as coisas. Escrevemos porque temos essa convicção de que podemos fazer diferença –uma nova percepção de beleza, um novo insight sobre a autocompreensão, uma nova experiência de alegria, uma decisão de unir-se à revolução" (Robert McAfee Brown). "Escrevo esperando fazer minha parte para restringir a intuição com o pensamento crítico, refinar os juízos de valor com compaixão e substituir a ilusão por compreensão” (David G. Myers, p. 47).

“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

As novas diretrizes para o Ensino Médio foram homologadas pelo MEC. E agora?

As DCN’s fazem para das tais Reformas do Ensino Médio e servirão como parâmetro para a BNCC. Uma das novas regras é a possibilidade de aulas à distância – a ideia é usar a tecnologia para que os alunos façam pelo menos 20% da carga horária de longe (para quem estuda à noite, até 30%). No caso da EJA (Educação de Jovens e Adultos) pode chegar a 80% (risos aflitos...)!

Outra ideia é dá ao aluno a opção de escolher uma área de conhecimento com a qual ele se identifica muito, a fim de poder se aprofundar já no Ensino Médio. Quando estiver em vigor, a carga horária será dividida em duas partes: a maior parte (60%) será base dos conteúdos que todo mundo terá que estudar; e a outra (40%), serão cinco opções oferecidas ao aluno para ele escolher uma delas para se aprofundar (segundo o MEC, cada município deve se organizar para oferecer no mínimo dois itinerários).

Um dos argumentos utilizados para essas reformas é o da evasão no Ensino Médio brasileiro, que gira em torno dos 12%. Com os adolescentes e jovens supostamente “familiarizados” com as novas tecnologias e seus aparelhos eletrônicos, a proposta é tornar o ensino mais atrativo e conectado. Rai ai... Agora, estão eles preparados para aprender conteúdos escolares e acadêmicos usando a internet? Terão eles disciplina e responsabilidade para fazer as aulas à distância? As escolas públicas conseguirão se organizar física e pedagogicamente para tornar isso concreto, real e de qualidade?

Embora embelezada pela modernidade, essa mudança não deve ocorrer imediatamente. Depende da aprovação da nova BNCC para o Ensino Médio (que está em discussão no CNE – Conselho Nacional de Educação). Questão de tempo? Sim! Deve demorar aí uns dois anos para efetivar nas escolas e talvez uma vida toda para ter grau de eficiência e qualidade, sobretudo nas escolas das margens.

Segundo o CNE, a aula a distância terá obrigatoriamente a coordenação de professores e em muitos casos deve ser oferecida na própria escola (a maioria delas sem laboratório de informática decente até hoje, diga-se de passagem). Com essas propostas de mudanças, o ENEM também será modificado para avaliar os conteúdos específicos (os tais itinerários). Entretanto, o exame só será alterado a partir de 2021.

As escolas conseguirão se organizar para oferecer essas cinco opções aos alunos (os tais itinerários) com qualidade? As tecnologias salvarão o ensino? Viveremos para ver?!

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Surrealismo Político: prognósticos, poder e realidade...

Sobre as eleições de 2º turno no Brasil...

Sou leitor assíduo das publicações Abril e telespectador fiel do telejornalismo da Rede Globo. Também procuro saber como pensa a vanguarda midiática brasileira porque sou adepto da máxima conheça bem o inimigo para combatê-lo. Aliás, sirvo do mesmo estratagema, só que às avessas, do que hoje eu chamaria #ElesNão! (no plural, porque o candidato fascista que não merece ser chamado pelo nome, ou seja, B, não chegou sozinho, nem acidentalmente, na posição em que se econtra). Ele é uma cobra criada pela mídia, sim, e pactua com ela sob máscaras e bons disfarces. Mas, como?

Vejamos:
  1. Teoria da Conspiração. A mídia não fracassou nem é vítima. Pelo contrário, vem tendo êxito com a utilização da mesma "psicologia obscura e dissimulada" que elegeu Donald Trump, sob a falsa alegação do “também não esperávamos por essa”. Isso mesmo, para driblar o povo e os intelectuais, a mídia se transformou no “inimigo oculto”. A revista Veja, por exemplo, nasceu na Ditadura Militar que a Globo apoiou. E o motivo maior de assumir esse papel está no tópico seguinte:
  2. O Capital. As partes mais produtivas do pré-sal já foram entregues previamente, por meio de leilões, a grandes empresas estrangeiras, retirando o protagonismo da Petrobras. Essa eleição não significa apenas uma eleição. Estamos falando de algo muito maior: a garantia do entreguismo do país, da privatização e dos lucros de grandes empresas e empresários sugados a longo prazo.
  3. A ditadura da subjetividade. A cultura do ódio que “legitimou” o impeachment de Dilma Rousseff é o sussurro do “inimigo oculto”, pois se relaciona pela voz íntima que fala ao inconsciente. Sempre me questionei sobre o interesse da Globo “defender” abertamente a homossexualidade e supostamente “combater” o machismo e o racismo (esses dias a novela "O Segundo Sol" estava dizendo que "negro combina com pobreza", a um título de exemplo). Hoje, encontro três razões para a questão:
A) conquistar confiança e legitimar seus fiéis telespectadores consumidores;
B) “unir sem se juntar” com a sua concorrente cristã, Rede Record;
C) e agora utilizar as minorias como massa de manobra política para avolumar votos para B alegando resgatar os antigos valores perdidos da família heterossexual branca (sim, fomos e estamos sendo usados esse tempo todo pela psicologia reversa!).
  1. Globo alia a B e “une sem se juntar” com a Record (sem declarações: estão no centro do palco, mas "invisíveis" aos telespectadores distraídos com novela e muita música). É verdade que, politicamente, a Globo se enfraqueceu bastante batendo injustamente no PT. Por isso mesmo ela deixou de fazer cerimônia com o PSDB (com quem veio dividindo o poder econômico, mas que agora o quer só para si. Aliás, a ideia de pacto com B é justamente essa: a Globo quer conduzir a economia do país, coisa que B já deixou bem claro nas entrelinhas). É verdade que B não é esperto o suficiente para imaginar um “pacto perfeito” com a Record (a ideia foi da Globo). Também é verdade que há anos ela vem disputando o mercado televisivo no Brasil com a Record. Particularmente, do ponto de vista técnico, as produções da Globo são muito melhores que as da Record (o nível de produção das telenovelas, dos telejornais e dos programas de entretenimento como a nova plataforma do Gshow que está investindo pesado em séries). Entretanto, a força da Record vem do aspecto religioso, ponto que a Globo encontrou os mecanismos para se aliar temporariamente (vide a ditadura da subjetividade acima). Em resumo, a Globo engoliu a Record nessa eleição para colocar B lá. Ela bateu politicamente em parte da população petista/esquerda e agora está USANDO a outra parte (o das minorias historicamente excluídas) pelo viés religioso moralista da Record (xeque-mate!). E todo mundo acreditando que a Globo não tem lado, que apenas está fazendo a mediação do processo eleitoral, e que realmente se importa com os negros, os marginalizados da periferia e os homossexuais, como vem discursando de forma rala nos últimos anos (isso só até o segundo turno passar).
  2. Conhecer o inimigo. A direita não só conhece bem os princípios neoliberais e capitalistas, como estuda a miúdo e detalhadamente a esquerda (e nesse ponto acho que o PT/Esquerda ainda não soube fazer o mesmo a seu favor, estratagema que sigo). Depois, infiltra-se nela para trazer à tona todas as suas fraquezas. Duvido de espiões infiltrados na esquerda para desmoralizar sua reputação ética. Parte da corrupção, dos escândalos e das delações foi forjada pelo inimigo. A morte de Eduardo Campos nas eleições passadas, mas, também, a morte de Marielle Franco e do Ministro Teori Zavascki, bem como a manipulação do STF pela presidente Cármen Lúcia que por lá passou e agora a estratégica posição da ministra Rosa Weber na presidência do TSE (que, diga-se de passagem, foi o voto fatal da prisão de Lula) são indícios disso. Essa questão leva à pior de todas:
  3. Manipulação do TSE. O maior risco que corremos é o de uma (parte, um empurrãozinho) votação fraudulenta em B diante de um segundo turno bem pareado e disputadíssimo. O impeachment, ou melhor dizendo, o golpe em Dilma e a prisão injusta de Lula são sinais evidentes de que farão de tudo para evitar a vitória de Fernando Haddad. Essa lição veio da reeleição de Dilma, pois eles sabem claramente da chance do PT voltar ao poder. Não está descartado o “crime perfeito” de uma eleição muito bem forjada. Portanto, se todos os aspectos anteriores não forem suficientes para garantir a permanência da mídia/B/direita no poder pelo viés "legítimo, transparente, democrático", esse mecanismo não está descartado como “última alternativa” (pois, é muito mais interessante um ditador no poder pelas próprias vias “democráticas”, muito bem forjadas, mas “justamente democráticas” e justificáveis. Todavia, se fizer necessário...). Quero dizer que, numa primeira tentativa, a ideia é eleger Bolsonaro pela via “legítima” da Democracia pelo termômetro das pesquisas de intenção de voto. Se não for possível, virá o plano B (fraude das urnas que tentaram nos vender como 100% seguras).
  4. Quero muito errar, e acreditar com firmeza que a nossa jovem democracia é confiável e segura em seus sistemas de apuração com a vitória de Haddad. Pois, se ele vencer, cairá por terra o sentimento que tenho de que “tudo está dominado e sob controle nas mãos deles”.
  5. A grande verdade. A mídia está montando um grande cenário de "novela nacional" com desfecho incerto de final de capítulo, o mesmo clima criado nas eleições dos EUA. “Todo mundo esperançoso, primando por um resultado (Hillary Clinton) e veio outro (Trump)”, supostamente surpreendendo as próprias agências de notícias (mentira!). A mídia que joga no Brasil é prima-irmã da dos EUA (tudo farinha do mesmo saco). Estou muito pessimista, e se eu dormir hoje e acordar na próxima segunda-feira com Bolsonaro no poder, não ficarei surpreso. Tomara que esse pesadelo não aconteça! Mas, seria preciso não dormir, e permanecer em vigília constante porque TODOS ELES ESTÃO AGINDO NA CALADA DA NOITE. Conseguiremos permanecer acordados até ao final do segundo turno? E depois dele, teremos alguma noite de sono tranquilo?
  6. Religião não serve para justificar pobreza. Quando o governo ignora o povo e o desespero bate à porta das pessoas o consolo vem da religião. A carência absoluta (de bens, de educação, de trabalho e das condições dignas de vida) empurra o povo para a fé porque ela simboliza a esperança em dias melhores. É preciso acreditar em uma força superior, divina, que supostamente oferecerá solução para problemas sociais de responsabilidade do Estado e do Poder Público? São nos lugares muito pobres que costuma reinar a “fé cega”. Portanto, a religião é uma resposta a alta necessidade de esperança que pode até servir para a morte, o sentido da vida, a doença, o medo... Mas, imprestável para canalizar a desigualdade social humana. Até nossa crença precisa ser crítica, pois uma coisa é ter fé; outra coisa é ser manipulado por ela. Empobreceu o povo brasileiro, de recursos e de espírito, para então pregar o nacionalismo e os valores como salvação, apelando à religião o golpe de misericórdia na democracia. Sendo assim, não deixa sua fé colocar um ditador fascista no poder. É preciso observar o contraste entre os que professam o amor pela pátria e aqueles que de fato o praticam. Vote 13!

Atenciosamente (e muito aflito),


Neilton Lima da Silva.
(Coordenador Pedagógico Escolar)


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Rinocerontes não comem panquecas.

É um livro escrito por Anna Kemp, traduzido por Hugo Langone e ilustrado por Sara Ogilvie, da Editora Paz e Terra Ltda. Ele fala de família, amizade e mais atenção ao que as crianças têm a nos dizer.

A história é assim: Daisy estava tomando café da manhã quando um rinoceronte grande como um ônibus, roxo como um repolho e esfomeado entrou na cozinha, mordeu a panqueca da menina e foi para o andar de cima. A garota correu de encontro à mãe e ao pai para contar o ocorrido, mas, como sempre, eles deram pouca importância. A mãe sugeriu que simplesmente jogasse o bicho pela janela e o pai achou que fosse só mais uma aranha que poderia esperar, dentre outros possíveis bichos, como um tubarão no banheiro ou um urso polar na geladeira. Afinal, já era praxe rir e caçoar dos supostos devaneios da menina, acompanhada do velho jargão familiar: “Fique quieta! Você não vê que estamos OCUPADOS?!”.

Daí uma questão é levantada: quem realmente está distante da realidade, as crianças ou esses pais indiferentes?

Numa família tão distraída com os afazeres do dia a dia, o rinoceronte aproveitou o dia para ficar bem à vontade: usou casacos, passeou pelo jardim, utilizou a privada do banheiro... Enfim, como os pais de Daisy ficaram ocupados a semana inteira, a garota começou a conversar com o rinoceronte. E logo eles se tornaram bons amigos. E o resultado dessa grande amizade? Muitas brincadeiras, pizzas, cócegas... Daisy descobriu que ela não era a única que se sentia em terra estranha dentro da própria casa, exilada dentro do próprio lar. O próprio rinoceronte estava ali com ela porque sua casa também ficava mito longe dali. E ele também estava triste por isso. Então, à noite, a menina pensou em como poderia levar o rinoceronte de volta para casa. De balão na dava porque era muito pesado; de bote de borracha também não, porque o bicho era muito grande; de bicicleta era inadequado porque o capacete nunca caberia.

Então os pais de Daisy tiveram uma ideia muito boba – levar a menina ao zoológico para mostrar-lhe um rinoceronte de verdade. Claro que ela já havia visto um rinoceronte perfeitinho sentado no sofá, mas preferiu não dizer mais nada. Afinal, de que adiantaria? Ninguém prestaria atenção. No zoológico, Daisy viu muito outros animais: girafas amarelas, papagaios vermelhos e reluzentes, tigres pintados de laranja e preto, cobras verdes como a grama. Mas, havia um bicho que ela realmente não conseguia esquecer – seu pobrezinho rinoceronte roxo. Os pais então resolveram levar a garota para a ala dos rinocerontes, e tiveram uma grande surpresa: se depararam com um anúncio de rinoceronte “DESAPARECIDO”! O animal possuía todas as características descritas pela menina.

Enfim, os pais ficaram assustados e perplexos! Naquele exato momento foram tomados pelo mundo de Daisy. Então, voltaram correndo para casa e, ao chegar, se depararam com O MAIOR E MAIS ROXO RINOCERONTE DA CIDADE! Estava deitado no sofá, assistindo TV e comendo panquecas. A mãe quis ligar para o zoológico, mas Daisy evitou. Ela queria que o rinoceronte fosse para casa, que ficava Muito Longe Daqui. A família decidiu que fosse no próximo voo, que saía à tarde. O rinoceronte fez as malas, Daisy procurou o chapéu dele e todos o empurraram para o banco de trás do carro – e foram para o aeroporto.

O rinoceronte embarcou, deixando Daisy com um abraço grande e roxo. Ambos prometeram sentir muita falta um do outro. Sim, o velho e conhecido problema da FALTA. Em casa, Daisy começou a se sentir sozinha novamente. Quem escutaria o que ela tinha a dizer agora? Mas, ela mal sabia que tudo iria mudar. Agora os pais de Daisy se tornaram ouvintes atentos sobre a história do rinoceronte grande e roxo. Eles quiseram saber tudo o mais sobre ele, e escutaram até ela não ter mais nada a dizer. FOI MARVILHOSO! 

Chegou a hora de ir para a cama. A mãe de Daisy a colocava para dormir e perguntou se ela tinha algo mais que gostaria de contar. Enquanto olhava para a porta do quarto, Daisy disse sorrindo que não tinha. Não sabia a mãe o que a menina acabara de ver espiando da sua porta – um urso polar cor-de-rosa que podia esperar até amanhã. Boa noite!

Daisy representa o tipo de criança para quem os adultos pouco prestam atenção. Não se trata só de escutar ou fingir um diálogo, mas ouvir de verdade e interessar-se pelo conteúdo da fala, ou seja, interagir com a criança pelo diálogo. Por que a maioria dos adultos não dá a mínima para o que a criança está falando? Talvez porque subestimem a complexidade do vocabulário dela ou a veracidade do conteúdo que é capaz de construir. Isso nos faz perder um aspecto importante da conversa infantil, para o qual essa historinha desperta nossa atenção: a criatividade do discurso e sua capacidade inventiva.

Quando a criança verbaliza suas fantasias ela expressa um dos conteúdos que realmente merecem nossa atenção. Devemos ouvir mais e melhor nossas crianças. Precisamos prestar mais atenção no que elas têm a nos dizer. Ou então, corremos o risco de um rinoceronte grande como um ônibus, roxo como um repolho e bastante esfomeado passear por toda a nossa casa e não ficarmos sabendo de nada.

Quando a criança cria amigos imaginários porque está na fase de inventá-los, é uma coisa, tudo bem. Mas, quando os cria para lhes fazer companhia porque os pais já não mais se importam com os filhos. Aí, não! Isso já merece atenção. Quando a imaginação se torna a melhor companhia para preencher uma lacuna de ausência deixada pelos pais, o maior risco que a família pode correr é o de perder a importância para a criança. Afinal, quem muito se ausenta um dia deixa de fazer falta.

Um dia de abelha.

É um livro da Editora Fapi Ltda. Escrito pela mineira e pedagoga Frances Rodrigues Pinto e ilustrado por Márcio Luiz de Castro. Desde pequena, a autora gostava de escrever poesias e histórias. No ano 2000, o ofício nato ganhou profissionalismo e surgiu a Coleção Francesinha, da qual faz parte essa história. Ela escreveu também a coleção “Divertindo com os Numerais” e o famoso “Dia-a-dia do Professor – Datas Comemorativas”.

A história fala sobre o preguiçoso ursinho Bilu-Bilu, que só sabia dormir e roubar, a pedrada, o apetitoso mel da colmeia das abelhas. Depois de se deliciar com o mel alheio, lambuzando-se dos pés à cabeça, dormia dias inteiros com o barrigão cheio. Claro que com esse tipo de comportamento, despertava a ira das abelhas. Afinal, em poucos minutos ele explorava o trabalho árduo das operárias. Esse tal de Bilu-Bilu até parece com o famoso ursinho Puff!

O malfeitor Bilu-Bilu gerou um zum, zum, zum entre as abelhas, que decidiram dar uma lição no ursinho. Já cansadas de verem suas colmeias destruídas, elas resolveram se unir e agrupar em uma grande nuvem, e combater o comilão. O ursinho foi adormecido por um pó mágico jogado pelas abelhas, que o carregaram para a colmeia real. Ao acordar, veio o grande susto – Bilu-Bilu havia se transformado em uma abelha. Até quis gritar, mas o ruído que soltou foi um zzzuuummm!

Agora, na pela de uma abelha, as operárias puderam ter uma conversa de igual para igual. Primeiro, o conscientizou da sua transformação em abelha e depois “passou a real”: o mel comido das colmeias derrubadas é feito por um árduo e difícil trabalho. Inserido no enxame, agora fazendo parte da comunidade de abelhas, a Abelha Rainha chamada de Bizum explicou as regras da casa: “Nós somos muito organizadas e distribuímos tarefas para todos. Eu, que sou a rainha, fico encarregada pela reprodução da espécie e colocar ordem na colmeia. Ao Zangão cabe a fecundação da rainha, e as operárias, são as responsáveis por todo trabalho que é feito dentro e fora da colmeia”.

Eu acho que esse ursinho é uma abelha... E lá se foi Bilu-Bilu cumprir suas tarefas, trabalhando em todos os cargos, funções e setores da nova vida e profissão. Foi ser Babá, alimentando as crias; Faxineira, cuidando da limpeza; Guardiã, protegendo a colmeia; Arquiteta, moldando as células que formam as colmeias. Quando, enfim, foi voar à procura de pólen para fazer o mel, suas asas desapareceram e ele teve uma baita “queda de realidade”. Bizum, a abelha rainha, devolveu a vida de urso para Bilu-Bilu. Como ele já havia percebido na pele como era uma vida de abelha e aprendido a trabalhar direito e ser útil na vida, Bizum deu-lhe uma nova chance de viver honesto e produtivamente como urso.

Bilu-Bilu aprendeu que trabalhar é bom e muito importante, pois o trabalho nos traz recompensa, responsabilidade e satisfação. Para isso, é preciso algumas mudanças de comportamento, como ter iniciativa e dedicação, ou seja, superar o comodismo e mudar o próprio modo de ser. Além desse importante aprendizado, o ursinho aprendeu a cozinhar e especializou-se tanto que abriu na floresta o restaurante Ki-Delícia. Parece que o negócio deu certo, pois todos os habitantes da floresta passaram a frequentar o local, inclusive as próprias abelhas da Colmeia Real, que saboreavam de graça seus quitutes gostosos.

Dizem que, mais importante do que dá o peixe é ensinar a pescar. Aqui, o ursinho Bilu-Bilu aprendeu que menos cômodo do que roubar o mel é aprender a melar (melar a barriga no pé do fogão) Kkkk. A historinha começa atacando os maus hábitos, como o comodismo e a exploração, desenvolve a capacidade de se colocar no lugar do outro (a palavra é empatiacomo forma de aprendizado e termina estimulando o empreendedorismo. Primeiro, a força da necessidade; segundo, a boa vontade e a iniciativa; terceiro, o conhecimento e a formação; quarto, as condições e boas oportunidades de negócio. Gerir a própria vida nunca foi fácil. Embora sendo um caminho árduo, é necessário.

Dizem que, quando o mel é bom a abelha sempre volta. Pois é, entrando na pele de uma abelha você saberá o quão difícil é produzir esse mel gostoso. Na Natureza uma espécie pode até sobreviver explorando a outra. Mas, na sociedade humana a história é bem diferente. Quer docinho? Vai trabalhar! Kkkk...

O Piquenique da Fada Pesseguinho.

É um livro impresso na China, com tradução de Flávia Busato Delgado e Ilustrações de Michelle Todd; da Editora Ciranda Cultural Ltda. A história é um convite para acompanharmos uma fadinha em seus rodopios e em suas tentativas de bater as asas, enquanto suas melhores amigas a ajudam a voar. Será que ela conseguirá? O título da história já dá uma boa pista da resposta.

Na Escola das Fadas, todos estão animados com a Feira de Verão, mas Pesseguinho está triste, pois ainda não consegue voar pelo céu. Na festa havia muitas barracas, fadas alegres porque já tinham aprendido a voar, mas ao lado da bengala de doces está alguém envergonhado. Pesseguinho não aceita sua limitação e decide treinar, ali mesmo, na colina roliça ao lado da mesa dos bolos. Ao saltar de olhos fechados em direção ao céu, sente o voou por apenas um segundo. Mas rodopia, cambaleia e esborracha bem em cima do maior bolo de creme.

Pesseguinho corre para a escola chorosa. Enquanto isso, Moranquinho, Cerejinha e Docinho observam preocupadas a condição e as lamentações da amiga. Mas, o consolo mesmo vem de Pão de Mel, sua professora. É ela quem faz o elo entre a necessidade de Pesseguinho e a ajuda das amigas.

Um aperto de mão e uma gentileza das amigas levaram Pesseguinho a realizar o grande sonho em pouco tempo. Lá estava ela rodopiando e voando pelo céu por entre as fofas nuvens cor-de-rosa. E, para comemorar a tão sonhada conquista, as fadas prepararam um piquenique especial nas nuvens. Havia muitos bolinhos saborosos e guloseimas e, claro, um grande sorriso de gratidão!

Desenvolver habilidades requer tempo, paciência, esforço, vontade, treino e, sobretudo, a ajuda e a solidariedade de outras pessoas. A história mostra o quanto é lindo sermos solícitos e prestativos ao próximo durante a conquista de seus próprios sonhos.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Fazendo uma DR: discutindo a relação entre indivíduo e sociedade.


Como podemos compreender a relação entre indivíduo e sociedade no mundo contemporâneo? Mas, afinal, como podemos entender a sociedade? O que a constitui e como podemos observá-la?

A sociedade é formada a partir da ação individual ou, ao contrário, a ação individual é determinada pela organização social? Afinal, quem é o agente que estabelece os padrões das relações sociais? O indivíduo ou a sociedade? Como a sociedade pode ser externa aos indivíduos? Como as regras a que obedecemos podem estar além da nossa vontade ou da decisão racional de obedecer a elas?

Se pensarmos no padrão básico da alimentação brasileira, poderíamos colocar a questão da seguinte forma: o arroz com feijão tornou-se a base da alimentação no Brasil porque a maioria dos indivíduos gosta dessa combinação ou, por motivos exteriores às vontades individuais, esse prato se tornou um padrão social, e assim se impôs aos indivíduos?

Podemos responder a todas essas perguntas se pensarmos que os padrões sociais atuam no comportamento social do mesmo modo como os padrões gramaticais organizam a fala e a escrita. As regras gramaticais e o vocabulário de uma língua são exteriores à intenção de quem fala e de seu discurso. Quando conversamos, não refletimos sobre as regras gramaticais que utilizamos, as quais nos permitem ser compreendidos. Portanto, meu caro...

VOCÊ É UM MOLDE da estrutura social (ponto).


sábado, 25 de agosto de 2018

Filme 01: As aventuras do Barão Münchausen.


“Num mundo sem fantasia não há lugar para mim”.
Amalucado e extravagante, mentiroso e egocêntrico, é um filme para quem gosta de aventuras e ama o mundo da fantasia. Já velho, o aristocrata Barão precisa encontrar e reunir os antigos companheiros de aventuras, espalhados pelo mundo, para liderar a resistência aos moradores cidade onde mora a criança, cercada e bombardeada pelos turcos. As aventuras incluem um passeio com um balão feito de calcinhas femininas, uma viagem à Lua, encontros com o deus Vulcano, um flerte romântico com Vênus e até uma passagem pelo ventre de um monstro marinho.

Seu tema central é a dualidade razão x fantasia, com ênfase na importância desta última para a sobrevivência sadia em um mundo decadente. Temos no protagonismo um sujeito aparentemente louco, que enfrenta a tudo e a todos por um objetivo que parece racionalmente impossível, mas cuja fé na fantasia termina por superar as barreiras e vencer no final.

Merece destaque a personagem que funciona como centro emocional do enredo – uma menina, com espírito aventureiro e senso aguçado de fantasia – e um objetivo dramático que funciona como fio condutor para a série de aventuras do barão.

Ele é tão verdadeiro ao contar suas mentiras que fica bom. O barão conta todas as suas aventuras, uma mais absurda que a outra, mas sempre com muitos detalhes. E ai de quem duvide da honestidade dele.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O Carneirinho...


É um livro importado pela editora Happy Books (Santa Catarina – SC/Brasil), da Coleção Dedinhos Divertidos, impresso na China, com tradução de Ana Cristina de Mattos Ribeiro e revisão de Karin E. Rees de Azevedo. A historinha é indicada para crianças a partir de 01 (um) ano de idade, mas o material do livro não é recomendado pelo Inmetro para crianças menores de 03 (três) anos, por conter parte(s) pequena(s) que pode(m) ser engolida(s) ou aspirada(s).
O livrinho é maravilhosamente divertido e interativo para bebês. Ele contém ilustrações encantadoras e um fantoche de dedo (do Carneirinho). Também é excelente o enredo da história, pois convida o leitor/ouvinte a juntar-se ao protagonista (o Carneirinho) em uma missão: procurar sua mamãe. Como na vida a gente encontra não apenas aquilo que procura, mas também tudo o que se acha pelo caminho, encontramos nesse enredo todos os animais de uma fazenda.

A historinha fala sobre um Carneirinho perdido que berra em procura da sua Mamãe Ovelha. Sentindo-se pequeno e sozinho em uma fazenda tão grande, em sua busca ele encontra o Porquinho Cor-de-Rosa, a galinha Cocoricó com seus pintinhos e o Pato. Todos os bichos decidem ajudar o Carneirinho em sua busca e, se cada bicho tem seu próprio lugar, nada mais inteligente que procurar no celeiro. Conduzidos pelo som do “Bée, bée...” eles encontrarão o que tanto o Carneirinho procura, bem atrás do fardo de feno.

Uma aventura no desconhecido é gostosa quando é segura, vivida com outras pessoas dispostas a nos ajudar. Mas, nada mais é aconchegante que o conforto do nosso lar, ao lado de quem nos ama e nos protege.

Do livro e sua história ainda podemos retirar as seguintes lições:

- O cenário da história é uma fazenda. Ela ensina que cada bicho tem seu som familiar (onomatopeias) e um cantinho característico.

- A historinha trabalha a adaptação e o desapego obstinado à figura materna. Embora as crianças da Creche desejem estar com os pais, é preciso desenvolver a autonomia e aprender a olhar o mundo de forma independente, observando nele outras pessoas e vivendo novas experiências diferentes daquelas do bojo familiar.

- A historinha ensina que somos aventureiros, quer quando desejamos enfrentar o mundo por conta própria, quer quando fazemos parte de projetos e aventuras de outras pessoas ou ainda quando somos vítimas das surpresas do acaso. De um jeito ou de outro, somos levados a adquirir experiências no exercício do caminhar, do buscar, do enfrentar a realidade e seus desafios.

- É muito simbólica a passagem em que “O Carneirinho olha da esquerda para a direita. A mamãe ovelha não está à vista”. Quem conhece um pouco da história da China comunista e da esquerda política do Brasil e no mundo, poderá fazer aí uma boa interpretação política desse detalhe sutil. 

A história é coerente com a proposta da Sessão Simultânea de Leitura, pois na medida em que as crianças têm a liberdade de fazer suas próprias escolhas do livro, elas também buscam e experimentam, juntas, o resultado de suas descobertas. Nessa busca elas interagem numa fantástica viagem de desencontros e reencontros, aventuras e encantamento, produções e aprendizado, conduzidas e orientadas por adultos. Na medida em que escolhemos, moldamos nosso próprio destino, e por ele somos aperfeiçoados e responsáveis.


BINHO & PIPA: Pipa ganha rodas.


Quando nos tornamos as pernas do outro...

O que vemos na capa deste livro?

A Natureza inspiradora, dando um exemplo de solidariedade pela perspectiva do olhar humano.  Quando já não é mais suficiente contar para o outro o que de melhor experimentamos na vida, o levamos para COMPARTILHAR a própria experiência, vivendo-a juntos. A amizade verdadeira são dois corpos em um só.

Binho e Pipa: Pipa ganha rodas! É um livro impresso na China, da Editora TodoLivro Ltda, escrito e ilustrado por Nathalie Jane Parker, traduzido e adaptado por Ruth Marschalek e publicado pela Brolly Books em 2008. Embora a historinha seja encantadora para todas as idades, ela é indicada para a faixa etária dos 5 anos em diante.

Binho, a formiguinha, se doa a Pipa, a flor, para conduzi-la em suas aventuras na Floresta. A prova verdadeira de amizade supera todas as limitações da florzinha, como não ter pernas, para possibilitá-la a uma experiência inovadora de vida. “Binho adorava contar para Pipa suas travessuras, como observar os vaga-lumes no céu, à noite, ou ver seu reflexo sorrindo para ele, nas águas frescas de um riacho. Pipa quer participar das aventuras de Binho, mas não sabe como. Juntos e com a ajuda de algumas Joaninhas amistosas, eles encontram um jeito...”.

Esse jeito vem de Beto, uma joaninha que pede ajuda a sua família numerosa para construir um carrinho de madeira para Pipa. Binho completa o carrinho com rodas e corda que tinha em sua casa. Todos enchem o carrinho de terra boa e fértil, e muda Pipa para dentro dele. Ou seja, uma amizade verdadeira sofre as limitações da vida e as desavenças ou contribuições do grupo, mas supera todas as aprovações juntos. Logo, é conduzida pela frase mágica, recheada de altruísmo e cortesia: “Aonde você gostaria de ir primeiro?”.

Se existe uma grande vantagem das plantas sobre os seres humanos é que elas não precisam trabalhar (kkkk...). Mas, muitas vezes nossa força também é a nossa própria fraqueza, havendo uma lógica para isso. Plantas não andam porque são capazes de produzir seu próprio alimento (a glicose). Graças à fotossíntese que conseguem realizar, elas transformam os nutrientes que tiram do solo e o gás carbônico que retiram do ar e, na presença da luz, realizam a fotossíntese. Por isso Pipa é um ser autotrófico.

No mundo da imaginação, os vaga-lumes viram estrelas, e as estrelas, vaga-lumes. Você acaba revelando muito mais do que aquilo que viveu e viu (a realidade externa). Você conta aquilo que sentiu (a realidade interna). E, muito mais do que segredos íntimos e confissões reservadas, na amizade verdadeira dois ou mais seres vivem uma experiência só. Primeiro, gostam da companhia uns dos outros; depois compartilham as experiências e seus aprendizados de vida, em seguida transformam impressões em verdades, confiança em confidências dos próprios segredos a ponto de compartilhar tristezas e alegrias. E, mais importante, não se traem, mas tomam para si as limitações uns dos outros a fim de crescimento conjunto.

Estamos falando aqui de algo que não monopoliza, não escraviza e não cria dependentes. De algo que faz um amar o outro da forma que ele é. De algo que não exclui, machuca, despreza, destrata, inferioriza e magoa. De algo maior que envolve lealdade, igualdade e mútuo benefício.

A historinha é um mergulhar profundo na essência humana. Naquilo que vem se tornando cada vez mais raro nos dias atuais – a vida pacífica em coletividade. Em um mundo onde quase tudo é vendido, ou usado numa relação de força e poder para controlar e dominar, enxergar a limitação do outro, criar uma solução possível para superá-la e ser seu coadjuvante é muito mais do que qualquer coisa chamada de dominação ou caridade. É amizade verdadeira, denominada de amor fraterno.