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São Francisco do Conde, Bahia.
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"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 206, inciso II, da Constituição de 1988).

"Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados" (Myles Horton, p. 138).

“Por que escrevemos? Além de todas as recompensas, escrevemos porque queremos mudar as coisas. Escrevemos porque temos essa convicção de que podemos fazer diferença –uma nova percepção de beleza, um novo insight sobre a autocompreensão, uma nova experiência de alegria, uma decisão de unir-se à revolução" (Robert McAfee Brown). "Escrevo esperando fazer minha parte para restringir a intuição com o pensamento crítico, refinar os juízos de valor com compaixão e substituir a ilusão por compreensão” (David G. Myers, p. 47). “Escrever é um ato de egoísmo, porque é uma forma de eu não esquecer das coisas que aprendi. Mas também é um engajamento. É a minha maneira de fazer política, de ajudar a pensar nosso país e de mostrar ao Brasil um Brasil que ele não conhece, que foi ocultado das narrativas hegemônicas” (Daniel Munduruku).

“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

“Zona de Perigo”: o assédio permitido.

Dias de amor sem compromisso... 

A música cantada pelo baiano Leo Santana foi composta por um sexteto de amigos durante uma resenha descontraída (Lukinhas, Adriel Max, Fella Brown, Pierrot Junior, Rafa Chagas e Yvees Santana), ficando pronta em pouco menos de uma hora. Parte do sucesso se deu à dancinha criada pela coreógrafa Edilene Alves, uma coreografia raiz, tipo lambaeróbica de academia. 

Dizem que o carnaval é a razão de ser do verão no Brasil. A lucrativa indústria do “entretenimento” tomou o ranking do ritmo, melodia e letras crônicas das marchinhas e frevos para movimentar cifras de negócios com os “hits do carnaval”. Então vieram o rock, o axé, o funk, o pagode, o forró eletrônico, o pop-sertanejo e toda uma era digital. Além do controle financeiro, está em mira o (in)consciente coletivo, assaltado pela antipolítica que induz a opinião pública. Pronto! O brasileiro está conectado com o som que vai acender o seu ânimo em dias de sol, mar, cerveja, festa e amor sem compromisso.

E o “chiclete do momento” vai inflando o inconsciente coletivo do baiano. Puxa na memória: “Cerol na mão” (Bonde do Tigrão), “Coração” (Rapazolla), “Já sei namorar” (Tribalistas), “Dança do créu” (MC Créu), “Rebolation” (Parangolé), “Ai se eu te pego” (Michel Teló), “Lepo lepo” (Psirico), etc. etc. e... “Zona de perigo”, do Leo Santana...

O que faz uma música virar hit? Quais os ingredientes da receita?

·       Um “grande” refrão;

·       Um diálogo direto com o público;

·       A maneira como o artista se comunica;

·       Fazer a música chegar na favela e na alta sociedade;

·       Gravar, coreografar (a tal dancinha com desafios) e lançar nas redes (Tik-Tok, Instagram, etc.);

·       Fazer o público abraçar: supostamente crescer de forma natural, orgânica, despretensiosa...

·       Combinação explosiva do carisma do artista, dancinhas desafiadoras e uma boa plataforma de streaming.

Enfim, não importa tanto o conteúdo, mas a letra; nem aí para o sentido, mas as palavras. O inconsciente cruza a linha do proibido e comanda instintivamente a realidade quente de verão. Ninguém se dar conta, até que as consequências políticas e sociais venham à tona.

Veja a letra...

Zona De Perigo
Canção de Leo Santana





É sensacional
O jeito que ela faz comigo
É fora do normal
Eu tô na zona de perigo
Foi beijando minha boca com a mão na minha nucaEssa bebê provoca, a bunda dela pulsa
Vem deslizando (vai)Que eu 'to gostando (vem)Ela me pede (mais)Não para não (meu bem)E vem sentando gostosinho pro paiE vem jogando de ladinho, neném
Fonte: LyricFind
Compositores: Adriel Max / Fella Brown / Lukinhas / Pierrot Junior / Rafa Chagas / Yvees Santana
Letra de Zona De Perigo © Warner Chappell Music, Inc

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Temporais não são controláveis. Seus danos são.

Aguaceiro inclemente e o teatro macabro assistido por políticos...

Perdendo vidas para a lama...

59,4% das prefeituras nem sequer têm plano para lidar com os riscos de desastres naturais (Fonte: IBGE). Inépcia e omissão são as causas da tragédia das chuvas. Pelas últimas estimativas, 5% dos brasileiros vivem em áreas sob risco de inundações ou deslizamentos (9,5 milhões de pessoas, a maior parte na região Sudeste, grandes metrópoles. Fonte: Cemaden). Políticos não podem culpar São Pedro pelas consequências catastróficas. O Brasil carece de um plano informando quantas moradias em áreas de risco precisam ser reforçadas e quantas deveriam ser demolidas, com realocação dos moradores.

Os políticos que temem perder votos, não retiram moradores das zonas de risco, mas também pouco fazem para alterar a realidade deles. Quando as chuvas matam, desabrigam e destroem, se apressam em declarar estado de calamidade pública e distribuir donativos. Assim que as águas baixam, deixam que os moradores voltem a ocupar áreas sujeitas a inundação e deslizamentos. Está remontado o palco para a reapresentação do teatro macabro. É a política do imediatismo – hoje as prioridades urgentes deles são isolar as áreas de risco para evitar mais mortes e prestar ajuda aos desalojados. Correto! Só farão um favor se evitarem declarações sobre o ineditismo dos índices pluviométricos. Passada a emergência, é responsabilidade dos gestores públicos trabalhar ao longo do ano para prevenir mais mortes e prejuízos provocados por desastres naturais.

A presença física do líder nos momentos trágicos é importante para a população atingida, e para os demais cidadãos, que se sentem representados com atitudes de “amparo e conforto”. A calamidade não tem cor ideológica. Ela atinge indistintamente cidadãos que necessitam do apoio de um Estado de Bem-Estar Social para tocar a vida adiante. Nesse ponto, Lula acerta na empatia. Conhecendo-o bem, ela ultrapassa a pose de presidente. Ele é mais humano que seu antecessor.

Enfim, precisamos de um plano de políticas públicas para enfrentar os eventos climáticos extremos. Lula acerta de novo no desejo de revitalizar o programa “Minha Casa Minha Vida” e uma política alcançável de financiamento popular de moradias dignas, baratas e seguras para o segmento de baixa renda em áreas providas de infraestrutura. Afinal, temporais não são controláveis. Seus danos são. 

Unidades habitacionais entregues pelo programa Casa Verde e Amarela do governo Bolsonaro:

PL das Fake News.

O Projeto de Lei 2.630 que tem como relator Orlando Silva, deputado do PCdoB, precisa endurecer regras e mirar apps de mensagens nas redes sociais. Algumas delas:

·       Enfraquecer o poder de potencializar a disseminação de notícias falsas;

·       Conter estímulos a atos antidemocráticos na Internet;

·       Fortalecer a regulação dos serviços de aplicativos de mensagens;

·       Remover conteúdos com teor golpista das plataformas;

·       Reduzir a viralização de conteúdos perniciosos ou ilícitos;

·       Tomar cuidado com a censura das liberdades individuais, não interferindo na arquitetura dos aplicativos nem no campo da comunicação interpessoal;

·       Atuar no campo da comunicação massiva, atribuindo consequências, inclusive no plano das responsabilidades pelos conteúdos ilegais disseminados;

·       Trazer regras específicas ou regulação para os aplicativos de mensageria, como por exemplo, limitar a distribuição massiva de conteúdo e listas de transmissão, que só poderão ser encaminhadas e recebidas por pessoas que estejam identificadas, simultaneamente, nas listas de contatos dos remetentes e destinatários;

·       Lidar com esse sentimento coletivo espontâneo e feroz, alimentado pela permissão de se criar canais exclusivos de transmissão ao vivo e integrar grupos com milhares de usuários (como no Telegram) ou a criação de comunidades com alcance maior de participantes, possibilitando organizar grupos com potente envio de mensagens para uma quantidade maior de usuários (como no WhatsApp);

·       Criar mecanismo de rastreabilidade, pautado no processo penal, com ordem judicial específica;

·       Publicação de relatórios semestrais com informações como o número de usuários no Brasil e dados sobre medidas aplicadas a contas e conteúdos por descumprir regras;

·       Remunerar veículos jornalísticos sempre que os seus provedores usarem os seus conteúdos, a fim de valorizar a informação produzida pelo jornalismo profissional como forma de combater a desinformação;

·       Criar obrigações para as plataformas de internet impedirem conteúdo em violação à Lei do Estado Democrático de Direito.

Enfim, o PL das Fake News é só mais uma tentativa de regular a potencial capacidade de mentir que existe de forma inata em todos nós. Afinal, honestidade é aprendida e, portanto, deve ser ensinada em casa, na escola, pelos exemplos das autoridades e das instituições, pela sociedade e, quando não suficiente, pelo rigor da Lei!

Democracia ao capiroto.

Esse coletivo bandido...  

Ampliar a participação e o respeito às diferenças tem sido o tom democrático no Brasil. Essa expansão deve ser tomada com cuidado, pois as liberdades democráticas têm limites legais e constitucionais.

Há coisas erradas que podem acontecer no consenso do coletivo e deixar todos felizes e, ao mesmo tempo, comprometidos entre si. A pior delas é tomar como natural o domínio dos abastados ou a perpetuação do patrimonialismo sobre a superfície do Estado. O vício segue infiltrado em brechas corrompidas da sociedade enquanto o discurso democrático afirma querer superar. Uma sabotagem coletiva.

A democracia enfraquece com irregularidades ao passo que se fortalece com posturas constitucionais. Colocar o livro da Constituição debaixo do braço e pregar discursos democráticos não será suficiente para excomungar o capiroto que possui práticas corruptas.

Veja a comunicação potencializada pelos aplicativos, outro ponto importante. O WhatsApp, por exemplo, deixou de ser um espaço de comunicação interpessoal para se transformar em grandes comunidades de comunicação de massa, no meios das quais sobrevivem perfis sem identificação segura. Um meio potente de viralização de fake news. Enfraqueceu a coesão presencial e fortaleceu a distância política das (e entre as) pessoas. Menos democracia nos espaços públicos e mais atos antidemocráticos na Internet. Viver ativamente em grupo passou a ser a falsa sensação de estar inserido num conglomerado passivo de participantes, expostos a desinformação. 

Bolsonaro usava episódios de desolação (desabrigados, mortos) para colocar em prática seu projeto de dilapidar a política – adversários políticos eram transformados em inimigos reais; o coronavírus foi adotado pelo governo; muita propagação do ódio e da intolerância e uma conduta antirrepublicana na vida em sociedade que alimentou a irracionalidade extremista. Herdamos uma corrosão do ambiente político. O diabo verde e amarelo vestiu paletó e gravata. 

Aí vem 2023, já marcado por pelo menos dois episódios principais que funcionam como teste de convivência institucional entre entes federativos: o da resposta aos atos terroristas de 08 de janeiro e a calamidade pública no litoral Norte de São Paulo. Qualquer posição ideológica que seja democrática atenderá a política como ambiente de debate ideológico e visões de mundo, mas não de aniquilação dos diferentes. Essa construção passa pelo rompimento do cordão umbilical de toda uma linhagem de políticos que se elegeram graças ao sobrenome do ex-presidente que tentou dinamitar a democracia. Até aqui, ninguém conseguiu fazer essa ruptura e continuar viável eleitoralmente. Veremos!

Enfim, o capiroto não é mais vermelho nem está isolado num lugar longínquo. Ele é verde e amarelo e vive infiltrado entre nós, esperando uma oportunidade de (des)construção. Cabe ao coletivo democrático exorcizá-lo até a próxima eleição presidencial em vez de abrir cada vez mais o seu corpo para uma perigosa possessão.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Carnaval: democracia plena e passageira.

 

“O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual” (Joãozinho Trinta).

“A alegria é a prova dos nove” (Oswald de Andrade).

“A criança pode errar na gramática, mas ela nunca erra na poesia” (Manoel de Barros).

E no carnaval é quando estamos autorizados a viver poeticamente...

O Carnaval é uma grande festa da inclusão e da democracia, mas é temporário. Não é só um, mas muitos carnavais no Brasil. As festas permitem às pessoas de todas as classes sociais viverem fantasias grandiosas, deixando sofrimentos e dificuldades de lado, mas por apenas alguns dias.

É como se a desigualdade social fosse suprimida, suspensa, caindo no esquecimento uma realidade muito dura, realizando no imaginário todos os sonhos de interação e alegria – mas, ele vai embora.

As pessoas que reclamam dos carros alegóricos vivem em edifícios e apartamentos. Ao passo que, a pessoa que está ali de calção, muita purpurina e pouco dinheiro é edificada pela multidão. Ela fica poderosa no imaginário, mas é povo que vive em casebre, em rua de lama, no aperto. Pequenas coisas se transformam em grandes alegrias. A roupa é autoproduzida. Uma caixa de catupiry vira adereço. Voltamos à infância criativa, pouco preocupada. Somos todos transportados para outra dimensão mágica que só se encontra no carnaval.

Além de propiciar grande alegria, o carnaval traz o mundo inteiro para cá. Ele pode ser entendido como algum sinal de saúde mental coletiva. Uma alegria muito benéfica, que cura dores e sara feridas. O carnaval inclui todo mundo, mas não vai despolarizar a sociedade porque ele passa, acaba. Pena, porque agora ele faz a sátira da polarização, dos políticos, mas não continua. Quão crítico, pertinente e necessário ele é. Pena que é passageiro!

Há um deslocamento espaço-temporal, acompanhado do reconhecimento pelos outros. Um milagre passageiro que só dura no carnaval. O trio é um denominador comum, mas ele passa como uma escola de samba. Os carnavais não deveriam ser só o dia do esquecimento, mas também a nossa memória. O problema é que o Brasil não curte museu. O país é  desmemoriado. Então diga que valeu? 

Enfim, o carnaval é uma trégua quase de paz ao ano de guerra que temos pela frente. 

Companhias no vermelho.

Ressaca da pandemia: endividamento.

Recorde de pedidos de recuperação judicial

O começo de ano está sendo muito difícil. Não só para os pobres e consumidores, mas até para companhias de grande peso (15 pelo menos), sobretudo as micro e pequenas empresas. O estrangulamento financeiro foi iniciado na pandemia e agravado pela alta no calote de consumidores. Uma inadimplência (pessoa física) puxa outra (pessoa jurídica). A primeira saltou de 4% em junho de 2021, para 5,9%, em dezembro de 2022. Calotes em alta e otimismo em baixa turbinam essas reestruturações. A coisa está feia!

Os sinais de estrangulamento financeiro das empresas começaram a surgir no final de 2022. O ano se encerrou com 6,4 milhões de companhias inadimplentes! Só em janeiro deste ano, 92 empresas recorreram à Justiça e 72 decretaram falência (Fonte: Serasa Experian). É o maior número em 3 anos! Motivo? Vencimento de dívidas renegociadas no passado pelos bancos, fim dos programas governamentais, consumo fraco, inflação alta e juros altos (Selic de 13,75%, a maior desde 2017). Assim, a aprovação de novos financiamentos está mais difícil e mais cara.

E a projeção é aumentar nesse quadrimestre. São esperados 1 mil pedidos de recuperação judicial este ano, nível semelhante ao de 2020 (1.179). Em 2022, foram 833 e no ano anterior 891. Os setores de maior risco são: varejo, agronegócio, indústria e serviços.

Isso causa um efeito cascata no mercado, pois a crise de grandes empresas afeta também a situação financeira dos credores, geralmente outras companhias. Entre as empresas estão: Americanas, Oi, DOK Calçados (dona da Ortopé), Pan (de chocolates), Livraria Cultura, Marisa (setor de vestuário), Grupo Raiola (marca de azeitonas e conservas), companhias aéreas, entre outras.

Enfim...

Carnaval Evangélico?

Igrejas evangélicas botam seus ‘Blocos de Deus’ nas ruas como tática para enfrentar as ‘trevas de Carnaval’ mundano. 

Meter Deus no meio da festa pagã com o objetivo de evangelizar é certo? Pregar o Evangelho no Carnaval funciona? Os fins justificam os meios? Bater em retirada ou encarar o pecado de frente? Será que Jesus faria um bloco para se disfarçar e pregar a Palavra? A igreja precisa tomar a forma do mundo para conquistá-lo?

Evangélicos de denominações diferentes criaram blocos e até escolas de samba cujo objetivo final é pregar aos foliões. Entre as igrejas novatas do neopentecostalismo está a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Silas Malafaia. Michele Bolsonaro (sua igreja é a Batista Atitude) também aderiu ao esquema de usar a maior festa de rua do país para espalhar uma suposta mensagem cristã. Logo quem? Kkkk Enfim, uma maneira de evangelizar os supostos perdidos que se encontram absortos em iniquidade e que precisam desesperadamente de Cristo. 

Dizem que um clima de profanação desvairada toma conta das ruas. Falam também que é a semana mais convidativa ao pecado da carne e outros tantos. Fugir ou bater de frente? O intento é usar as armas do inimigo contra ele mesmo e expandir ainda mais a evangelização. Adotar símbolos carnavalescos para um tipo de evangelho palatável.  Fiéis e pastores fogem à praxe de procurar refúgios cristãos e se jogam na folia, dividindo opiniões entre as denominações.

O fuzuê momesco é impulsionado por muitas pessoas que vivem suas vidas como se não houvesse amanhã e extrapolam seus limites como se fosse o último dia de suas vidas: a mídia dispara os índices de acidente de carro, criminalidade, gravidez indesejada e problemas de saúde. Assim, enquanto a igreja, no Carnaval, se refugiava em acampamentos e retiros, a cidade estava entregue à bebedeira, à prostituição, às drogas e à loucura. A ideia é não deixar isso barato!

Enfim, agora imagina o entrecruzamento de blocos evangélicos x blocos da satisfação humana, tais como: ala de surdos do Cheio de Amor x Só Te Pegando? Ou a Batucada Abençoada Muquiranas? Ou Reação x Daquele Jeito? 

A Paz de Lula

 A visão de Lula sobre a geopolítica global é a de que Putin é um fator de equilíbrio geopolítico:

“Uma coisa que me deixa orgulhoso é o papel desempenhando por Putin na História mundial, o que significa que o mundo não pode ser tomado como refém pela política dos EUA” (Lula, 2019).

Nessa guerra, está escancarada a ajuda dos EUA e de países europeus com armamentos e inteligências para a Ucrânia. Todavia, dizem que o auxílio econômico e militar a uma nação submetida a uma guerra de agressão não transforma os Estados que a apoiam em partes do conflito. Dizem...

É razoável que a China e a Índia figurem como o “núcleo da paz”, mediando Moscou e Kiev. Vitória diplomática para Putin, que exibe a Rússia como nação aberta a negociações.

Enfim, temos mais do que um presidente Lulta. Temos um ator diplomático global.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

A batalha semântica no Brasil.

 


Também há uma batalha ideológica no debate público envolvendo as palavras. A criação de marcas para (des)merecer o adversário ou seu legado é uma herança da guerra eleitoral do ano passado, mas já vem de longe.

A título de exemplo inicial, os liberais tratavam a perda de direitos trabalhistas como “flexibilização” para que as empresas não demitissem (há outros exemplos ao final do texto).

A disputa discursiva não é apenas uma estratégia, mas a própria forma como a política se coloca. Não é a disputa pela palavra, mas pelo sentido. O interlocutor busca tornar a sua interpretação de mundo hegemônica.

Enfim, além de discursos de fundo linguístico, há também instrumentos efetivos para se materializar.

Bem, e a decisão do STF contrária à lei de Rondônia que proíbe o uso da linguagem neutra nas escolas do estado – julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7.019, de iniciativa da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee).

Todes” estão de acordo com esse assunto?

Falamos e escrevemos de forma diferente. Porém, a escrita prevalece sobre as diversidades de falas graças à gramática da norma padrão. Isso tolhe ou potencializa a democracia?

Por um ângulo potencializa, visto que a democracia não é ausência de limites, mas justamente um conjunto de normas e regras para tornar possível a convivência social em sua ampla diversidade. A padronização da linguagem escrita não é a negação da pluralidade nem a resistência à mudança. Pelo contrário, é pilar central de nossa cidadania, amalgamando populações de diferentes regiões que se expressam oralmente de forma diversa. E cria pontes com as populações de países da comunidade lusófona. Modismos da linguagem falada ou “erros da escrita” são filtrados e só incorporados à linguagem formal se aceitos e praticados ampla e permanentemente pela população.  

Por outro ângulo, é preciso considerar que não há aspectos puramente técnicos, portanto, neutros. A pretexto da defesa do aprendizado da língua portuguesa de acordo com a norma culta e as orientações legais de ensino, preconceitos e intolerâncias incompatíveis com a ordem democrática e com valores humanos podem ser propagados. E onde fica o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas?

“A ‘linguagem neutra’ ou ‘linguagem inclusiva’ visa a combater preconceitos linguísticos, retirando vieses que usualmente subordinam um gênero em relação a outro. Trata-se de preocupação em adotar expressões não binárias quanto ao gênero, de forma a atenuar comportamentos preconceituosos” (Edson Fachin, ministro do STF).

E mais outro ângulo, com base no conhecimento científico, quais são os eventuais efeitos da linguagem neutra no aprendizado infantil?  Como fica a alfabetização de crianças? Esse é o ponto central: decisões sobre modificações ortográficas e gramaticais devem ser feitas buscando caminhos para melhor ensinar e aprender a língua portuguesa às crianças. Não basta ser técnico, é precisa que também seja democrático. Mais uma vez fica nítido que a disputa não é só pela palavra, mas também pelo sentido. O técnico não está livre do viés ideológico. Se não há neutralidade a escolha precisa ser pela pluralidade, se assim quisermos (com)viver, democraticamente. 

Como ‘consertar’ a sociedade brasileira?

Há excessos na direita e na esquerda! E muito há que aprender no Centro e em todo lugar!!!

O Brasil é plural, mas em nome disso há consequências práticas e políticas. Elas brotam da educação – ou da falta dela. De um país com mais de 208 milhões, concordâncias e divergências são esperadas em grandes populações. Assim, não se pode definir tanta gente por alguns clichês.

A população fica rachada em temas que aqueles com maior renda ou melhor formação tendem a considerar “resolvidos” ou “pontos pacíficos numa democracia moderna”. Para citar apenas alguns temas polarizados, vejamos:

·       56% dos pais brasileiros consideram normal que crianças que passam dos limites apanhem (42% discordam);

·       41% acham que a escola não é local apropriado para debater sexualidade com adolescentes (56% acham que é);

·       46% se incomodam com gays e lésbicas se beijando em público (48% não veem problema);

·       73% acham que o aborto não deveria ser legal;

·       67% são contra a legalização de cassinos e jogos de apostas.

(Dados: pesquisa Quaest).

A visão conservadora não está restrita à direita, embora seja majoritária. No caso do castigo físico às crianças, apenas 9 p.p. separam eleitores de Bolsonaro e Lula sobre o tema. Na repulsa ao beijo gay, no repúdio à legalização do aborto e no debate escolar sobre sexualidade, a diferença gira em torno de 20 p.p. Isso mostra que o conservadorismo não tem coerência ideológica.

Seria possível encontrar verdade na premissa reversa? Vejamos...

·       67% dos lulistas e 68% dos bolsonaristas reprovam os cassinos;

·       92% dos brasileiros acreditam que é preciso haver mais fiscalização para impedir o desmatamento da Amazônia (percentual idêntico entre eleitores de Lula e Bolsonaro);

·       92% acham que pagamos impostos demais (90% dos lulistas e 95% dos bolsonaristas);

·       64% acham que políticos não deveriam ocupar cargos nas estatais (68% dos bolsonaristas e 60% dos lulistas);

·       58% acham que as mulheres não têm mais dificuldade para alcançar o sucesso profissional (percentuais idênticos nos dois grupos).

(Dados: pesquisa Quaest).

Olhando bem as porcentagens, é preciso levar em conta seus sentimentos para não ter consequências dramáticas. Afinal, o Brasil é mais conservador do que muitos gostariam. Ora, que sentimento é esse? É aquele em que a pauta difusa de reivindicações é menos importante que o impulso de ir às ruas para protestar. Erupções sociais ou movimentos descoordenados de revolta surgem sem aviso prévio ao radar de partidos, sindicatos, academia ou imprensa. É um animal feroz sem rédeas que pode atacar uns e outros.

Não são apenas os políticos que lidam com o público. Todos que mexem com gente não deveriam ignorar ou desafiar o sentimento predominante na população em nome de crenças ideológicas ou de alguma pretensa missão civilizatória.

As minorias precisam ser consideradas e respeitadas, mas nem elas também devem ser impostas. Suas lentes não podem ser o foco de referência que ignora o que se passa ao redor. É uma atitude de extremo risco, altaneira para uns e arrogante para outros.

Enfim, o certo é aprender a conviver com as diferenças e a respeitar opiniões contrárias, em vez de as colocar em conflito, comparação ou competição. Convivência é norma em toda sociedade civilizada, e regra para a sobrevivência social de cada um e de todos.

A beleza está no conjunto.