Quem sou eu

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São Francisco do Conde, Bahia.
PsicoPedagogo.
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"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 206, inciso II, da Constituição de 1988).

"Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados" (Myles Horton, p. 138).

“Por que escrevemos? Além de todas as recompensas, escrevemos porque queremos mudar as coisas. Escrevemos porque temos essa convicção de que podemos fazer diferença –uma nova percepção de beleza, um novo insight sobre a autocompreensão, uma nova experiência de alegria, uma decisão de unir-se à revolução" (Robert McAfee Brown). "Escrevo esperando fazer minha parte para restringir a intuição com o pensamento crítico, refinar os juízos de valor com compaixão e substituir a ilusão por compreensão” (David G. Myers, p. 47). “Escrever é um ato de egoísmo, porque é uma forma de eu não esquecer das coisas que aprendi. Mas também é um engajamento. É a minha maneira de fazer política, de ajudar a pensar nosso país e de mostrar ao Brasil um Brasil que ele não conhece, que foi ocultado das narrativas hegemônicas” (Daniel Munduruku).

“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Papai.


Duas crianças pequenas acordam assustadas e gritam: “Papai!”. Uma criança é real e a outra criança não é. Qual delas é sonho e qual delas é realidade? Como identificar o humano e como classificar o monstro? Um punhado de aparências diz tudo sobre a essência? Como seríamos vistos de outras perspectivas, monstros ou simplesmente diferentes?

Papai é um livro escrito pelo francês Philippe Le Saux (pseudônimo Corentin) e traduzido pela professora paulistana Cássia Silveira. Publicada em 2008 e editada em 2014, a obra faz parte da Edição Especial “Leia para uma criança” da Fundação Itaú Social. Seu autor vê a literatura infantil como um instrumento de diversão das crianças e costuma mesclar em seus livros seres fantásticos e humanos de maneira inventiva, dialogando diretamente com o imaginário e os medos infantis.

Como seria eu sonhando com o sonho a sonhar comigo? Ou ainda, o que e como seríamos se o sonho sonhasse com a gente? Seria ele a realidade, e nós, seus monstros? E isso é possível de acontecer? Na Literatura, sim! Na literatura infantil o sonho vira realidade e a realidade vira sonho. E como seríamos vistos de outra perspectiva? Tudo depende do observador, suas opiniões e pré-conceitos. Tendo a Literatura o poder de inverter a realidade, tem também a capacidade de combater o medo como expressão do desconhecido. E ainda vai além – ela tem o poder de questionar nossos preconceitos.

É nesse terreno, o do desconhecido, que moram as diferenças (e não os monstros). A diferença é o outro, aquele que não é igual a mim, um desconhecido. A intolerância pode nascer no berço, ou em nossas camas como porto seguro, quando nelas não estão o papai e a mamãe. Então sonhamos que o outro, como diferente dos membros familiares (ou o desconhecido), é um monstro horrendo – e acreditamos que esse pesadelo seja realidade – nasce o preconceito. São esses preconceitos que precisam ser desfeitos ainda no berço (e não reforçados por pais inescrupulosos que alimentam os temores das crianças com a ideia de “bicho papão” ou “o velho do saco vai te pegar”).

Por isso, essa historinha fala das crianças que nem sempre dormem em paz e sozinhas, quando deveriam descansar. Vivendo numa fase em que é difícil distinguir o sonho da realidade, elas imaginam intrusos em seus quartos. Então desejam aconchego, segurança e acalanto dos pais na hora de dormir. Focado na expressão progenitora paterna, como presença protetora e corajosa, Papai é um livro que desperta na criança o respeito às diferenças como instrumento de destemor dos supostos monstros que habitam nosso imaginário e que ameaçam o sono calmo e tranquilo dos pequenos (e dos grandes também!).

A leitura, o sono e o susto... Papai do Céu, socorro! Que esse susto se transforme em reconciliação entre o nanar e a imaginação saudável! E que nem a barriguinha cheia de torta de maçã ao dormir nos convença do contrário.

Então, boa noite! Durma em paz!!! E bons sonhos...


sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Campanha Eleitoral: o que pode ou não pode?

NÃO PODE:
- Nada de sujeirada na rua, aquele monte de papel no chão com propaganda de candidato.
- Não pode carro de som no pé do ouvido da gente.
- Não pode brindes.
- Nenhum candidato pode pedir voto em outdoor.
- Nada de propaganda eleitoral em parada de ônibus, nem faixa no meio da rua.
- Telemarketing não pode de jeito nenhum.

PODE:
- Pode distribuir material gráfico, como santinho. Mas, propaganda com limite.
- Pode fazer comícios e carreatas.
- Tem que constar o CNPJ ou o CPF da gráfica e da pessoa que estão fazendo os impulsionamentos.
- As campanhas eleitorais pela Internet já estão liberadas (vish!).
- A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV começará dia 31 de agosto.

OBSERVAÇÃO:
- Caso alguém veja algo de errado, poderá fazer a denúncia diretamente para a Justiça Eleitoral. É só entrar no site dela.

Conheça os 13 candidatos à Presidência da República, e suas coligações, até agora...

Houve candidatura de Lula, sim! Pois se ele foi registrado no TSE... O edital será publicado amanhã com todos esses nomes que pediram registro (inclusive o dele). 05 dias depois terminará o prazo para que partidos e coligações ou o MP apresentem ações de impugnação de candidaturas. Depois disso, o candidato é notificado e terá 07 dias para se manifestar. Por Lei, a justiça tem que julgar os registros até o dia 17 de Setembro. Depois disso, Lula poderá recorrer novamente ao TSE que, se mantiver a rejeição da candidatura, cabe ainda recurso ao STF. Como ele vai aguardar a decisão superior, ele só não poderá fazer campanha. Portanto, "até agora", como eu disse, ele é candidato (se continuará na disputa até o final, só saberemos quando esgotarem todos os recursos).


domingo, 5 de agosto de 2018

Na corda bamba...

Como coordenador, já reparei uma coisa: vivemos momentos de tempestade e depois vem a calmaria (que bom!). A criança, e nós, desenvolvemos graças a esses constantes desequilíbrios e equilibrações.

Se o desequilíbrio é ruim, então ele é um mal necessário. Sabe aquele remédio de gosto desagradável, mas importante para curar a moléstia? Só em pensar que vem um novo VOARTE, uma nova UNIDADE, outras novas TEMÁTICAS, mais uma SESSÃO DE LEITURA, outro PROJETO – dá até arrepios imaginar que a casa será bagunçada tudo de novo para depois ter que arrumar outra vez, em outra configuração.

Educar é bagunçar e organizar, sempre de outro jeito. Às vezes, as coisas são as mesmas, os objetos são os mesmos, mas o combinar, sabe? Aquele tal encaixe que deve produzir um sentido que nunca pode ser totalmente igual??? E depois você ainda precisa se enquadrar no novo cenário... Ahhh, educar é um desconforto necessário!

Dificilmente um espaço educativo avança sem turbulências interiores. Se no mar agitado da vida as tempestades são inevitáveis, talvez não devamos reclamar das ondas, mas aprender a remar sobre elas (ou entre elas, saltá-las ou contorná-las, às vezes até respirar fundo, submergir e tomar ar do outro lado). Aí você olha para trás e percebe que a onda passa, tal como a escola continua, e que outra logo vem... Mas, você que não se torna mais o mesmo.

O segredo do sucesso no aprendizado não é fugir dos conflitos, mas encará-los em prol do desenvolvimento. Logo, ensinar e aprender implica coragem – e disposição para reorganizar a casa e experimentar um sentido diferente. E aqui, essa coragem precisa ser muuuuita!

Se amadurecer é sair da zona de conforto e sempre encarar coisas novas, então meu nome é desequilíbrio. Bem-vindos à bagunça da próxima unidade! Que nossa vida seja sempre um esforço pelo equilíbrio! Então... Hora de reconfigurar as coisas.

Boa semana para todos!


sábado, 14 de julho de 2018

Sentir...

Primeiro nos emocionamos, depois aprendemos a sentir graças ao pensar. Funciona assim com as crianças; é assim com a história da humanidade.

O intelecto está ligado ao córtex cerebral, cuja estrutura é resultante de uma evolução moderna do cérebro. Já as emoções e os sentimentos advêm do tronco do cerebelo, da espiral da medula, dos nervos periféricos, enfim, de uma mecânica cuja origem se confunde com o princípio da evolução dos seres vivos. Logo, estamos falando do funcionamento e da ação de uma estrutura com história formativa longa e difícil. Assim, as emoções vêm de um processo biológico que se mescla ao sistema formado por corpo e mente.

Geralmente as pessoas valorizam a razão e menosprezam o afeto. Há quem defenda um comportamento extremamente técnico, com o mínimo de emoções/sentimentos ou suas manifestações. Para muitos, isso seria sinal de menos fraqueza. Porém, é bem mais complicado explicar nossos afetos do que nossa razão justamente porque eles escancaram o que é ser humano. A ideia de que as emoções e o sentir nos guiam não nos diminui. A razão não é o único elemento que nos separa dos outros seres vivos. Apresentamos sentimentos de complexidade e dimensão incomparáveis aos de não humanos. É o que nos torna o animal mais especial deste planeta.

Os sentimentos têm papel essencial no nosso progresso ou no nosso atraso enquanto pessoas. Somados ao conjunto “mente e corpo”, nos define. A raiva, a alegria, a tristeza e outras expressões humanas são motores do processo civilizatório porque delinearam a cultura, as artes, as guerras, a ciência, a tecnologia, tudo o que nos define. Entretanto, por vezes, emoções coletivas podem atrapalhar a tudo isso e nos levar a retrocessos. O descontrole dos sentimentos podem causar muitas mazelas, como o suicídio, o surgimento de governos autoritários, aumento do terrorismo, manifestações culturais negativas e as formas extremadas ou deturpadas de caráter coletivo nas redes sociais, que arrastam multidões a polos sentimentais ou adoção do sentimento alheio. Quem cede a sentimentos coletivos sem autocrítica corre o risco de ser levado a extremismos. O descontrole dos sentimentos coletivos na internet pode levar a autocracias. Logo, um aspecto essencial da vida é a manifestação das emoções e do sentir de forma saudável.

Existem dois aspectos do viver. 1) o orgânico, relacionado ao corpo. Daí vêm as emoções. Se o organismo não está saudável, ele manifesta isso externamente. Nota-se quando alguém se mostra feliz ou tomado pela amargura. Por exemplo, se um indivíduo sente uma dor enorme no coração, devido a uma doença cardíaca, seu sofrimento é evidente, de forma objetiva (outro exemplo vem da depressão, uma doença causada por falhas no cérebro ou alteração química na mente, que nos leva a decisões nada condizentes com o processo evolutivo, como a de se matar. É claro que fatores externos pesam também, por isso que, hoje, com tantas perturbações sociais, o índice de suicídio está aumentando). Do mesmo modo que, organismos em estado regular de saúde buscam a felicidade, por meio de exibições sentimentais. Supondo assim, as emoções estão presentes há bilhões de anos nos seres vivos, mesmo em bactérias. Estas já manifestam fisicamente estados que indicam se estão bem ou mal – sem, no entanto, dominar capacidades mentais. 2) o subjetivo, relacionado a aspectos internos que estão associados à mente ou à alma. Daí vêm os sentimentos. Consequentemente, não se exibem em público. Podemos esconder sentimentos, mas não emoções. As raízes de nossos sentimentos são fruto de milênios de evolução, que nos levaram de manifestações emotivas primárias a processos elaborados.

Como é possível passar da emoção para o sentimento? Graças ao processamento do sistema nervoso, o cérebro, em intrincados organismos multicelulares. Foi quando os humanos progrediram, usando esse avanço como propulsor. Cães, gatos, chimpanzés têm tanto emoções quanto a capacidade do sentir, mas o que acontece conosco é que ligamos isso ao conhecimento acumulado, criando-se assim a humanidade. Foi momento em que passamos a nos reunir em torno de fogueiras que nos tornamos seres sentimentalmente evoluídos. Foi (e é) aí que compreendemos as vantagens sociais dos sentimentos, como a forma como eles nos ligam (conectividade) em laços familiares.  

O leque de emoções com que trabalhamos é o mesmo desde os primórdios. Já com os sentimentos, avançamos em como lidar com eles. Aprendemos a ser menos violentos do que há 1000 anos. Também evoluímos em nossa bondade, o que deu origem a movimentos que pregam a paz. Se por um lado progredimos cultural e cientificamente, por outro precisamos evoluir também em nossos sentimentos. Afinal, estamos desenvolvendo inteligências artificiais capazes de simular emoções, mas não de sentir de verdade, justamente por não terem vida. Isso pode acabar na fabricação de monstros que nos veem como ameaças.

Funciona assim: meu corpo pode se revelar feliz; mas, internamente, talvez eu me sinta deprimido. Ao mesmo tempo, há momentos em que emoções e sentimentos estão em sincronia. Tudo o que um ser humano faz, individual ou coletivamente, é reflexo de demonstrações emotivas e sentimentais.

Se a forma saudável e evoluída da emoção é conquistada com conhecimento, é necessário fazer um esforço para ensinar as pessoas, desde a infância, a lidar com os próprios sentimentos. Precisamos identificar as expressões ou as situações ruins, causadores de efeitos negativos, e combatê-las avidamente. É a forma de cortar na raiz o mal de radicalismos e ditaduras, por exemplo. Para isso, é preciso vontade social e política. Se, por nossa biologia, é natural manifestar sentimentos como o ódio, que levam a conflitos danosos, devemos implementar nas escolas a educação ligada à inteligência emocional. É preciso mostrar as vantagens consequentes dos bons sentimentos e da contenção dos ruins. A esperança é, com isso, criar condições para uma vida melhor, em busca do progresso civilizatório. Pelo ponto de vista da ciência, um começo poderia ser a instituição de aulas ligadas a sentimentos, como as de técnicas de meditação.

Nosso corpo e nossa mente estão programados para a reprodução do que sempre fizemos. Temos de ser racionais em relação a isso. Hoje, a falta, para uma maioria, de conhecimento histórico, sentimental e do estado atual do mundo pode conduzir, mais uma vez, ao surgimento de governos autoritários, ao aumento do terrorismo, ou seja, às manifestações culturais provenientes dos sentimentos negativos. Como vivemos na era das redes sociais que criam sentimentos coletivos rapidamente, precisamos atentar para as radicalizações. Os sentimentos nos levam em direção a situações que achamos que serão mais favoráveis a nós, com menor sofrimento. Trata-se, porém, de uma situação enganosa. É preciso racionalizar. Olhar para os fatos, não para o discurso, e ter perspectiva histórica para avaliar.

Todos os seres vivos possuem emoções, mas somente os humanos têm sentimentos elaborados. Os sentimentos é um fator evolutivo, que nos ajuda a sobreviver no mundo. Somos seres sentimentais e racionais em equivalência. Nosso grande desafio é dominar os sentimentos em busca de tirar o melhor deles a favor do nosso processo civilizatório.  


terça-feira, 12 de junho de 2018

Por que brincamos?


Relatos de um coordenador...

A mamãe está ocupada e a criança ficou ali no chão, sozinha. A criança pega um carrinho ou uma boneca. Se a mãe entra para a cozinha, o carrinho é empurrado para longe. Se a mãe se volta para perto da criança, o carrinho chega ao destino... A criança faz de conta, e vai representando aquilo que a anseia...

Não é só brincar que é interessante na criança. Interessante é o modo como ela brinca. Uma observação atenta do brincar pode revelar as quatro operações necessárias para a formação do eu, claro, de forma velada ou simbólica. Vamos dá um exemplo.

Uma criança da Creche Escola Rural do Gurugé está em cima do colchonete. Ela tem um carrinho, preso a um fio, e alternadamente ela joga o carrinho para fora do colchonete e o puxa para cima, exprimindo vocalização característica a cada um dos momentos. Nesse brincar, a experiência real é representada pela fantasia, substituída simbolicamente. Interpretando os gestos simbólicos dessa criança, temos:

O objeto. A professora/cuidadora representa a imagem do carrinho; assim como a professoras/cuidadora vai e vem, dividida entre seus afazeres e os cuidados a si, o carrinho aparecia e desaparecia de seu campo visual, em cima e fora do colchonete.
A posição. A experiência passiva de está largada ali sozinha, de ser deixada ali pela professora/cuidadora e de ser reencontrada a qualquer momento por elas é transferida pela experiência ativa de controle da situação, assumindo a manipulação do fio.
A relação. O desprazer gerado pela ausência da atenção da professora/cuidadora pelo prazer causado pelo brincar.
O modo. O objeto inerte, representado pelo carrinho amarrado a um fio de linha, por um objeto investido pelo dom amoroso da professora/cuidadora.

No ato de brincar, a criança fantasia e recria a realidade. O produto desse processo é a formação do EU.

A criança que aprendeu a fantasiar, ou seja, representar simbolicamente a realidade, e tirar proveito e prazer disso, aprendeu a suportar a ausência do mundo. Isso significa que ela está formando um EU. Trata-se, portanto, de quatro maneiras diferentes de realizar uma negação: do objeto, da posição, da relação e do modo. No conjunto, esse é o primeiro grande movimento que a criança deve realizar para formar um eu.

Há uma espécie de descompasso entre o que o adulto faz e o que a criança, de fato, recebe e interpreta. Além disso, o adulto reconhece essa ilusão como tal e a sustenta desse modo. A criança tem consciência das imagens sensoriais que a circundam, mas não tem consciência de que possui consciência nem de que essas imagens implicam uma ilusão relativa. Por isso brincamos com nossas crianças. Por isso elas “entram no clima” e brincam com a gente. Compartilhamos dessa ilusão inteligente.

O G3 andou usando a brincadeira para construir disciplina.
Neilton Lima
Coordenador Pedagógico Escolar. 

terça-feira, 5 de junho de 2018

Limitar é censurar.


Cada um de nós decide o que tem significado artístico. Portanto, cabe uma interrogação ao final da frase: “devem existir limites para a arte?”. A paixão oferece, por natureza, um componente necessário para que se dê qualquer contribuição significativa ao conhecimento.

Não se pode perder o equilíbrio argumentativo, mesmo diante do debate e do diálogo sobre gênero, diferença e diversidade. Temas outros de interesse para a vida contemporânea também seguem essa lógica, tais como aqueles que estão no centro da grande discussão pública atual: liberdade de expressão e de escolha, a censura, o acesso ao conhecimento, a verdade dos fatos e as notícias falsas, a difamação e seu impacto social, a tal liberdade de imprensa e seus impactos na democracia.

A censura, seja ela de natureza política, ideológica ou artística, esbarra sobre uma questão basal: o argumento que limita, transforma-se em uma característica subjetiva, que se dissemina pelo território da vontade de cada um, subjugado ao próprio desejo individual. Impor limites à arte seria restringir a produção de conhecimento, porque a arte não é outra coisa. Ela revê muitas das concepções do passado e aponta para outras tantas visões de futuro. Impedir o acesso ao conhecimento também é uma forma de censura.

A Arte é um campo do conhecimento gerado pela expressão, como uma forma de manifestação da criatividade. Sua existência está garantida pela Constituição, logo, é desnecessária uma discussão sobre seu direito de existir, seja numa perspectiva do “como”, do “quando” e da “forma”. Assim, a arte, seja através da sua realidade material ou de seu poder simbólico, não produz objetos criminosos. O máximo que pode acontecer é, ao olharmos para objetos artísticos, projetamos neles nossos preconceitos, crenças e desejos de acordo com expectativas e experiências de vida. Não é diferente de nosso comportamento em relação ao outro.

Nossa liberdade reside em termos a mais ampla possibilidade de escolha, sabendo de antemão que estamos elegendo aquilo que desejamos, de acordo com nossas crenças, história de vida, sensibilidade, generosidade e disposição, na sua presença ou na falta delas.
Neilton Lima
Coordenador Pedagógico Escolar

Rede desigual & uma Associação da Internet.


Na gestão do então presidente norte-americano, Barack Obama garantiu um decreto da “neutralidade da Internet” que ganhou força de lei nos EUA. Segundo esse conceito, o mundo virtual seria composto de uma estrada única, na qual os dados de todos os sites correm na mesma velocidade.

Acontece que, um aval do presidente Donal Trump reverte essa decisão por meio da FCC (Comissão Federal de Comunicação, uma tal de Anatel americana). Sem a neutralidade, as operadoras de telefonia, que controlam a tal estrada, conseguiriam privilegiar certas empresas, como acontece aqui no Brasil – criando duas estradas: uma rápida, pela qual trafegariam aqueles que pagam um “pedágio”; a outra lerda e esburacada, para quem não tem verba para tanto. Aqui em São Francisco do Conde são várias estradas, muitas de chão, que nunca viram sequer uma brita.

A reação foi imediata dos gigantes da Internet. Os representantes da indústria da tecnologia prometeram processar o governo norte-americano (com processos judiciais sobre a FCC) na tentativa de reverter a decisão.  Netflix, Twitter, Pinterest, Kickstarter, Google e Facebook defendem a neutralidade, inovação, liberdade de expressão e, sobretudo, a internet aberta.

O consenso é que existe a necessidade de preservar o acesso igualitário à web para que a competição pelo mercado on-line seja justa para todos. Ou seja, não alimentar uma desigualdade na disputa comercial. O Governo nem pensa em acabar com a neutralidade na rede (o daqui e o de lá).


Neilton Lima
Coordenador Pedagógico Escolar

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Advocacia no paredão...


Temos assistido a ascensão do autoritarismo no Poder Judiciário e no Ministério Público. A advocacia nunca foi tão ultrajada e humilhada por juízes, delegados e promotores. O paradoxo é que é justamente nestes momentos que a profissão de advogado se torna ainda mais imprescindível. Pois, é quando o arbítrio e a injustiça se instalam que a advocacia se torna imperiosa.

Não existe área do Direito que não tenha sido afetada pela inflexão autoritária que ocorreu nos últimos anos no Brasil. A advocacia criminal, por lidar diretamente com a liberdade alheia e se colocar como um contraponto ao poder punitivo, é quem primeiro sente na pele a mudança autoritária. Os exemplos recentes dessa mudança são muitos: a expulsão de um advogado do Plenário da suprema corte, quando atuava em defesa dos direitos de um acusado; as medidas de restrição do Habeas Corpus nas cortes superiores e no STF; a impossibilidade de acesso aos autos em famigeradas operações policiais; e até a despreocupação de ministros do STF quanto ao respeito à Constituição da República de 1988.

A advocacia trabalhista, por sua vez, sofre com os efeitos da alteração radical do sistema de regulação social do trabalho e de sua proteção, uma construção ao longo de décadas no Brasil. O desmonte da CLT em 2017 é eixo central do golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff e se insere em um processo mundial de reorganização do capitalismo, com o ataque e retrocesso em conquistas importantíssimas da classe trabalhadora, ameaçando também suas formas próprias de organização e sociabilidade.

Devemos agir não motivados por questões corporativas, mas porque o exercício pleno da defesa, nesses tempos em que o autoritarismo se impõe como regra no sistema de Justiça, é um antídoto fundamental em defesa da própria democracia. É preciso lutar arduamente contra o autoritarismo legislativo e apresentar propostas para reafirmar e valorizar a advocacia e a democracia.
Neilton Lima

Coordenador Pedagógico Escolar

Estratégia quase suicida: o que tivemos foi o bloqueio da reprodução material da vida.


A paralisação dos caminhoneiros dos últimos dias, que tomou as estradas para expressar as mais difusas insatisfações com o governo e o estado de coisas, serviu para algo – demonstrar que o descontentamento com o sistema político e a condução do país é ainda mais intenso do que antes.

Os dez dias de greve de caminhoneiros levaram ao desabastecimento do país e ao colapso da gestão Michel Temer (MDB). O sofrimento social causado pelos anos de recessão econômica e a quebra de expectativa de que o país melhorasse com a saída de Dilma Rousseff (PT), o que não aconteceu, uniram a população em torno da pauta dos caminhoneiros. Mas, o que de fato a população queria provar? Que pode “desligar os aparelhos do governo”.

A sociedade atentou contra a própria sobrevivência. Ela aceitou o próprio sufocamento para demonstrar revolta contra o sistema político. O que tivemos ameaçou o abastecimento, a produção, a circulação. Vimos a sociedade ameaçando o sistema político de sufocamento. Mas não é um sufocamento do sistema político, é um sufocamento da própria sociedade, que é quem vai ficar sem alimento, sem remédio, sem circulação, sem emprego. Ainda assim, a sociedade resolveu que a única maneira de dizer para o sistema político o quão insuportável está o sofrimento aqui embaixo é sufocando a nós mesmos, até o limite do estrangulamento.

Chegamos ao ponto em que a sociedade aceitou uma coisa absurda, o limite de seu próprio sufocamento para demonstrar a revolta que sente em relação ao sistema político. O governo já acabou, o ponto é saber se Temer chega ao final do mandato. Se depender da grande mídia, sim! Se depender da gente, talvez! Afinal, quem melhor iria substitui-lo nesse curto período de tempo da corrida eleitoral? O clima em que acontecerão as eleições presidenciais, em outubro, depende da construção de um pacto entre as forças políticas que promova alguma estabilidade no país até o fim do ano.
Neilton Lima
Coordenador Pedagógico Escolar

quinta-feira, 31 de maio de 2018

O mercado continua no poder.


As contradições já existentes se acentuaram e outras surgem (surgirão?) como consequência da crise...

Caso a crise dos últimos dias tivesse surtido algum efeito, seria mais provável a saída de Michel Temer da presidência do país do que a saída de Pedro Parente do poder da Petrobras. Tratou-se de uma disputa pelo espólio econômico do Estado e, em segundo lugar, de uma disputa pela direção política do projeto golpista vigente.

Vamos seguir com o alto preço dos combustíveis (a vida cotidiana, como gás e gasolina, simplesmente permanecem como estão, com aumentos permanentes), uma crise econômica acirrada, a política de austeridade liderada pelo projeto neoliberal de Temer, uma base de apoio ainda firmada na burguesia interna e o capital financeiro no comando.

Continua em aberto o espaço que pode ser ocupado pelos setores progressistas. Quem vai pagar a conta desse acordo em que o governo se comprometeu, de modo escandaloso, a continuar drenando riqueza nacional para o capital financeiro? E os impactos das perdas bilionárias oriundas da paralisação?

Um detalhe me chamou a atenção: o comportamento dos militares e setores de segurança. Estes claramente fizeram jogo duplo. Apesar dos anúncios bombásticos do uso da força pelo governo, em muitos lugares foi visível, literalmente, o apoio das forças de segurança. A demora do alto comando das Forças Armadas em negar de modo firme os pedidos de intervenção militar também ficou visível. Entretanto, não se consegue definir se há um apoio amplo em toda a hierarquia ou se é difuso e com mais peso nos setores de patente baixa. Ainda que componham com o governo, também flertaram com o golpismo, fizeram seu teste de até onde possuem apoio popular. As forças militares se consolidaram como força política e com potencial para se tornar um “poder moderador” dos demais poderes da República. Não fazem questão de esconder sua falta de apreço com este governo. Porém, também parece que não querem se arriscar numa aventura golpista.

Enfim, não há respeito ao povo, à nação, aos trabalhadores, nem a democracia. Agora, resta outro cenário de disputa – as eleições de 2018. A política nos salvará? O que você espera do povo? Todas as fichas de desestabilização serão apostadas pelos setores de direita no processo eleitoral para que legitime a força econômica atual.

Para onde vamos? Sem dúvida a conjuntura foi alterada, forças sociais entraram em cena. As eleições de outubro ainda permanecem uma incógnita, o ponto central segue sendo Lula e a falta de opções dos setores golpistas. O governo se mantém, mas já não existe. Não cai porque um novo arranjo neste momento é inviável. Os setores fascistas saíram à luz do dia e ganharam seu espaço. A esquerda ficou atordoada. A inquietação social, o desespero de um país que se esfacela, são combustíveis para novas explosões sociais. Devemos estar preparados!
Neilton Lima
Coordenador Pedagógico Escolar