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Ø Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados. :)



“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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domingo, 12 de abril de 2026

Sutilezas da inteligência.

 Ainda acreditamos no dogma de que só existe inteligência num roteiro de neurônios biológicos produzindo imagens mentais e consciência. É a ideia pré-copernicana de Universo guiado pela Terra ou a centralidade humana como pressuposto para a existência de inteligência.

Pensar não é pré-requisito para ser inteligente. Nem inteligência é só o critério de “nossa imagem e semelhança”. A inteligência está longe de ser um constructo estável e uma propriedade só humana – linguagem, sistema nervoso centralizado, presença inafiançável de neurônios e intenção explícita.

Você sabe o que são Planárias? Elas aprendem por associação (se distanciam de locais não seguros e a resposta aprendida reaparece no novo cérebro regenerado quando se perde o primeiro). Borboletas passam a evitar os riscos que correu quando ainda eram lagartas (as informações ficaram guardadas em seu sistema nervoso). Se você extrair o RNA dos tecidos de animais treinados e injetar em espécimes não treinadas o resultado será compatível à experiência original. Também há memória na reconstrução de partes de organismos regenerativos (tudo o que está no estado fisiológico da criatura antes de sofrer um corte reaparece depois dele). Até em reações químicas oscilantes o sistema exibe memória, isto é, o estado futuro depende de sua história (processamento de informação sem um “alguém aí”). A reação química tem um quê de aprendizado porque os recursos moleculares de que este emerge precedem a própria vida. Não estamos vendo nenhum neurônio aqui, mas outras redes celulares também capazes de filtrar ruídos e orientar condutas, ainda que de maneira mais lenta e menos especializada. O princípio é o mesmo, só o substrato que varia.

É o que também acontece no debate recente sobre inteligência artificial (IA), em que ainda é verdade o fato da “máquina não pensar”, mas isso não a impede de “ser inteligente”. Levamos na cara o monte de coisas que estão aprendendo a fazer muito melhor do que nós. IAs aprendem, generalizam e corrigem erros. Acima de tudo, usam o passado para se orientar ao futuro, ainda que não tenham a menor ideia do que isso significa.

Enfim, não confunda posição funcional com privilégio ontológico. A inteligência está mais para uma coleção de gambiarras extraídas das propriedades do mundo do que para uma condição existencial de seres assim ou assado. 

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