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"Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber" (Art. 206, inciso II, da Constituição de 1988).

"Se eu sou um especialista, então minha especialidade é saber como não ser um especialista ou em saber como acho que especialistas devem ser utilizados" (Myles Horton, p. 138).

“Por que escrevemos? Além de todas as recompensas, escrevemos porque queremos mudar as coisas. Escrevemos porque temos essa convicção de que podemos fazer diferença –uma nova percepção de beleza, um novo insight sobre a autocompreensão, uma nova experiência de alegria, uma decisão de unir-se à revolução" (Robert McAfee Brown). "Escrevo esperando fazer minha parte para restringir a intuição com o pensamento crítico, refinar os juízos de valor com compaixão e substituir a ilusão por compreensão” (David G. Myers, p. 47).

“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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sábado, 31 de janeiro de 2026

Sobre o autoritarismo.


O autoritarismo é um desvio. Porém, não um desvio individual, mas uma estrutura sociopsicológica produzida na vida cotidiana. 

Isso significa dizer que o autoritarismo não chega a ser um distúrbio psiquiátrico ou doença mental, mas um traço de comportamento ou atitude social, caracterizado pela necessidade de controle, obediência cega, hierarquia rígida e imposição (“síndrome do pequeno poder”).

Assim, é sensato falarmos de “comportamento autoritário”, pois ele se define mais como uma escolha de conduta – deseja concentração de poder pela censura, repressão e supressão de liberdades. Embora não seja uma patologia, pode estar associado a inseguranças profundas, traumas, uma forma de lidar com a ansiedade ou transtornos de personalidade. A raiva que torna o autoritarismo atraente provém de mágoas e sofrimentos associados a feridas da infância que não foram suficientemente reconhecidas, lamentadas ou superadas.

O fato é que pessoas autoritárias geram ambientes de trabalho e relações familiares tóxicas, levando a estresse, ansiedade e depressão em quem convive com elas, com características de personalidade muito difíceis. 

Ele possui sinais que ultrapassam fronteiras ideológicas. Pessoas com predisposições autoritárias tendem: 1) à intolerância ao dissenso; 2) à ambiguidade; 3) ao pensamento dicotômico; 4) ao apego a normas absolutas; 5) à dificuldade de lidar com nuances; 6) a moralização da política; 7) a crença de que fins justos autorizam métodos coercitivos; 8) divergências são transformadas em ameaças existenciais; 9) reduz complexidades a dicotomias morais entre “puros” e “culpados”, “legítimos” e “ilegítimos”; 10) o debate deixa de se concentrar criticamente nas políticas de Estado para mirar e atingir a própria presença de indivíduos; 11) adjetivos são convertidos em ferramenta de conveniência ou uma categoria totalizante que demoniza e distorce o significado; 12) suspende a singularidade dos indivíduos; 13) legitima agressões simbólicas e materiais; 14) o debate cede lugar a uma lógica de veto identitário, e a estrutura autoritária se impõe: não se discutem ideias; elimina-se quem as porta; 15) torna-se um passe-livre moral: basta aplicar o rótulo para justificar alguém como alvo, neutralizar sua fala ou normalizar hostilidades que, em qualquer outro cenário, seriam inaceitáveis; 16) atribui-se uma identidade presumida para interditar sua fala; 17) o livre pensamento passa a ser um espaço para o adestramento.

O pior é que a História mostra que dispositivos de silenciamento nunca permanecem nas mãos de quem os criou. Quando essas predisposições vêm à tona, a política deixa de operar no campo do argumento e passa a funcionar no regime da identidade: pessoas são reduzidas àquilo que se presume que elas representam, e não ao que efetivamente dizem ou fazem.  

O que torna o autoritarismo atraente? Segurança, conformidade, raiva e medo.

Ele oferece a falsa sensação de segurança em detrimento da instabilidade (esta associada ao impacto de estrangeiros e imigrantes). Isso empurra a pessoa para a conformidade (associada a tradições e a um passado idealizado) e a obediência leal aos líderes (uma ode a lideranças autoritárias). Também a raiva e o medo produzidos pelo sofrimento financeiro, social ou emocional é um poderoso catalisador para o autoritarismo, pois geram impotência e vitimização (líderes autoritários intensificam esses sentimentos em seu público para obter apoio). A negação e o deslocamento da raiva são uma das contribuições para a adoção do autoritarismo.

Assim:

·       Os autoritários seguem um princípio fundamental do marketing: identificar um problema, criar emoções negativas e oferecer uma solução para o problema;

·       O pensamento dicotômico está associado ao autoritarismo, pois implica rigidez no raciocínio, sem espaço para considerar as nuances da vida. Pensar apenas em "preto e branco" diminui consideravelmente o pensamento crítico;

·       O fascínio pelo autoritarismo está enraizado em uma variedade de fatores complexos de ordem emocional, psicológica, social e política. Dedicar um tempo para refletir sobre esses fatores é essencial para abraçarmos nossa humanidade — tanto para aqueles que se sentem atraídos pelo autoritarismo quanto para aqueles que tentam compreender seu fascínio;

·       Em tom e conteúdo, líderes autoritários intensificam os sentimentos de raiva e medo em seu público para obter apoio;

·       O apelo do autoritarismo deriva do nosso medo da solidão — e da ansiedade inerente ao reconhecermos que estamos sozinhos em nossas escolhas e somos responsáveis ​​por elas;

·       O líder autoritário adora uma “imagem negativa” do outro. Vive buscando falhas, defeitos e erros para reforçá-los e explorá-los. Esse padrão de pensamento o envolve na visão de grupos externos como sendo “outros”, para criar raiva e medo por suas posições políticas , religião, raça, gênero , orientação sexual , etnia ou nacionalidade — como se fossem eles os responsáveis ​​por seu sofrimento. Ele leva a uma fixação na imagem do outro criada na mente, em vez de uma abertura para explorar sua singularidade e humanidade compartilhada. Líderes autoritários reforçam esse pensamento em declarações genéricas que diminuem a humanidade desses grupos — como chamá-los de vermes — e, principalmente, atribuindo o sofrimento dos seguidores (e o seu) a eles. Enfim, eles criam o “bode expiatório”. 

É dessa forma que o autoritarismo opera como um modelo cognitivo: organiza afetos e julgamentos, predispõe à busca de ordem rígida, à punição do desvio e à conversão de conflitos políticos em batalhas morais contra um “inimigo”.

O autoritarismo pode se manifestar em pessoas “boas” ou “más”, no campo da direita ou da esquerda. Qualquer grupo pode reproduzir práticas de supressão do debate e cerceamento do dissenso quando transforma divergências em ameaças existenciais. É o “impulso autoritário”: a substituição do debate pela eliminação do dissenso, a crença de que a justiça da causa autoriza a supressão da fala alheia e a transformação do espaço público em unanimidade obrigatória. São essas tendências que atraem determinados campos políticos a mobilizá-las ou reproduzi-las em benefício próprio.

Enfim, quem defende censura hoje por conveniência política cria, sem perceber, o monstro que amanhã esmagará a todos nós. É preciso parar essa criação enquanto há tempo!