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“[...] acho que todo conhecimento deveria estar em uma zona de livre comércio. Seu conhecimento, meu conhecimento, o conhecimento de todo o mundo deveria ser aproveitado. Acho que as pessoas que se recusam a usar o conhecimento de outras pessoas estão cometendo um grande erro. Os que se recusam a partilhar seu conhecimento com outras pessoas estão cometendo um erro ainda maior, porque nós necessitamos disso tudo. Não tenho nenhum problema acerca das ideias que obtive de outras pessoas. Se eu acho que são úteis, eu as vou movendo cuidadosamente e as adoto como minhas” ("O caminho se faz caminhando - conversas sobre educação e mudança social", Paulo Freire e Myles Horton: p. 219).

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domingo, 4 de janeiro de 2026

Paz: mercado$ e negócio$.

 

“Tem um novo Xerife na cidade...”

“Venezuela inteira para Trump, meia Ucrânia para Putin e Taiwan para Xi”.

Nesse seu segundo mandato, Donald Trump inaugurou uma nova política de segurança nacional – intervindo estrategicamente em outros países para abrir negociações e novos mercados.

A política externa norte-americana é uma verdadeira guinada, marcada por medidas unilaterais. Distanciou da Europa porque está em inconformidade com suas políticas. Não acredita mais nas organizações internacionais. Retorna ao pensamento dos anos 1980, em que os EUA têm que ter o controle da Paz e da Segurança Mundial. Assim, sua estratégia de segurança é: “correção de rumos, em que a política externa tem como foco a América Latina e a Ásia”.

Essa nova doutrina estabeleceu uma predisposição ao não intervencionismo, mas sem abrir mão da demonstração de força militar para se alcançar os interesses, chamados de “objetivos nobres” ou “Paz”. A questão é que, em 01 ano de segundo mandato, os EUA já executaram bombardeio em 07 países: Síria, Nigéria, Iêmen, Somália, Iraque, Irã, Venezuela.

No Irã (junho): atingiu 03 instalações nucleares, em uma operação sofisticada, envolvendo a Marinha e a Força Aérea americana. Para isso, serviu-se da falácia de: “conter o desenvolvimento iraniano de armas de destruição em massa”.

O Iêmen também foi alvo de ofensivas. Segundo Trump, foi apenas uma resposta aos grupos extremistas que bombardearam embarcações comerciais no Mar Vermelho. “A missão visava proteger o fluxo de comércio global”.

Síria e Nigéria também tiveram regiões bombardeadas. Disse que os alvos eram instalações ligadas ao Estado Islâmico, organização terrorista fundada no Oriente Médio e que se alastrou pelo continente africano.

Nas tratativas do cessar fogo em Gaza e negociações sobre o fim da guerra na Ucrânia, por exemplo, tudo envolve pressão e mediação dos EUA. Tump sempre acusou seus antecessores de arrastarem os EUA para a guerra, mas agora cria sua própria “estratégia intervencionista” – que também é uma guerra disfarçada de outro nome e potencialmente terrível. O novo Plano de Segurança de Trump é o da paz como oportunidade de mercados e negócios.

Tudo é para os EUA dizer uma coisa: as Américas ou hemisfério Ocidental são um quintal dos EUA, onde a soberania nacional das outras nações praticamente não vale. É uma doutrina proclamada no governo de James Monroe (século XIX), assentada no conceito “esfera de influência” – Trump busca impedir a ação de rivais externos e preservar a hegemonia, ainda que isso leve a um choque na soberania dos países. Veja no mapa abaixo como o Sistema Internacional Atual é um tabuleiro de zonas de influência em disputa, com crescente competição entre as potências: EUA, China e Rússia, além das resistências regionais.

Enfim, como se nota, são rápidas ofensivas militares que fazem uma guerra, mas sem chamá-la pelo nome. Os invasores vão lá, explodem pontos estratégicos, captura o inimigo, põe o resto da nação em refém, implanta seus interesses e vão embora para controlar tudo de longe. Veja o último episódio da Venezuela, por exemplo. Está imposto um centro de influência para mercados e negócios, seja dos EUA ou de grandes aliados, que eles chamam de PAZ. 

Embora tenha as maiores reservas de petróleo provadas do/no mundo (+18%), a produção na Venezuela é pequena, mas o petróleo ainda é quem sustenta esse país empobrecido. A Venezuela nacionalizou os equipamentos de produção de petróleo (estatal com Hugo Chaves, 1975 e 2006); hoje produzindo menos de 1 milhão de barris/dia (já chegou produzir 3,5 milhões/dia).  Trump disse que o próprio setor privado norte-americano vai bancar essa reconstrução e depois faturar com ela (uns US$ 100 bilhões para recuperar nos próximos 10 anos). 

As reservas da Venezuela são quase 20x maiores que a do Brasil com pré-sal e tudo, e mais de 6x do que a dos EUA.

04 destaques: não vai ser fácil para as empresas norte-americanas de Trump se apropriarem de todo esse petróleo da Venezuela. Mas, estão tentando com muita força...

1.     A infraestrutura de produção e refino está totalmente sucateada, por causa de anos de gestão estatal (plataformas, oleodutos, refinarias), todas em péssimas condições; (uns US$ 100 bilhões para recuperar nos próximos 10 anos).

2.     A Venezuela produz um tipo especial de Petróleo que é mais pesado, que nem toda refinaria de petróleo dos EUA consegue processar. Isso dificulta a absorção de todo esse petróleo venezuelano.

3.     As empresas do mundo inteiro estão na trajetória de descarbonização. Com a eletrificação e a busca de biocombustíveis, nessa transição verde. A partir de 2030 o consumo de petróleo vai cair.

4.     Para as indústria de petróleo investirem na Venezuela, precisam de garantias políticas e jurídicas de que o Estado não vai intervir nelas. Daí a ação militar de Trump e sua tentativa de redefinição de quadro geopolítico.