O Cérebro no Poder
A meta vital para os antigos gregos era a “eudaimonia” ou “a vida digna” = “viver bem” que não era uma questão de alcançar o bem-estar material, honra ou o mero prazer, mas viver de acordo com virtudes fundamentais, tais como sabedoria, piedade e, acima de tudo, justiça. Questões como a defesa da propriedade, liberdade e estabilidade só eram importantes ao criarem as condições que permitiam aos cidadãos viverem bem (o objetivo principal). Logo, seja qual for o sistema de governo, todos vão lidar com um mesmo problema: tendem a agir segundo seus próprios interesses, em vez de pensar no bem do Estado e do povo (por ignorância).
· GRÉCIA (594 a.C.) – a base da filosofia política ocidental. Assim como na China, a Grécia não era uma única nação, mas várias cidades-estado separadas sob diversos sistemas de governo. A maioria era governada por um monarca ou uma aristocracia, mas Atenas estabeleceu uma forma de democracia sob uma constituição apresentada pelo estadista Sólon em 594 a.C. (Sólon cria uma constituição para Atenas que abre caminho para uma cidade-estado democrática). O acerto de Sólon foi estabelecer leis que servem de alicerce para a democracia grega (foi um legislador ateniense). A cidade se tornou o centro cultural da Grécia e proporcionava um espaço intelectual no qual filósofos podiam refletir sobre qual seria o Estado ideal, qual seria seu propósito e como dele deveria ser governado.
- Foco nos “reis-filósofos”
e o racionalismo como ideologia.
- Platão
ou Aristócles (“grande”, aparência musculosa): defendia um governo
administrado por uma elite de “reis-filósofos” (que possuem a sabedoria e o
conhecimento para entender a natureza de uma vida digna).
- Aristóteles: comparou as várias formas possíveis
de governo para uma cidade-estado e sugere a politeia – o governo constitucional – como a mais prática dentre as
melhores formas de administrar o Estado (suas teorias formariam a base da
filosofia política ocidental).
- Cícero: escreve “Da república”, defendendo uma
forma mais democrática de governo que a sugerida por “A república” de Platão.
- Os Sofistas, incluindo Protágoras,
alegam que a justiça política é uma imposição de valores humanos, não um
reflexo da justiça na natureza (“A justiça política é uma imposição de ideias
humanas, não um reflexo da justiça natural”);
- Esse ambiente
político rapidamente transformou Atenas num grande centro cultural, atraindo
alguns dos maiores pensadores daquela época. Dentre eles...
- Sócrates (natureza questionadora e atitude cética),
preferiu morrer a renunciar a seus pontos de vista: ateniense, cujo
questionamento das noções aceitas de justiça e virtude lhe valeu jovens
discípulos (bônus). Infelizmente, isso também atraiu a atenção indesejada das
autoridades que persuadiram a assembleia democrática a sentenciar Sócrates à
morte pelo crime de corromper os jovens (ônus). Após anos de questionamento da
política e da sociedade em Atenas, Sócrates é condenado à morte (399 a.C.). Ele
escolheu tomar veneno em vez de renunciar às suas opiniões. O julgamento e a
condenação de Sócrates motivaram Platão a duvidar das virtudes do sistema
político democrático de Atenas. Vejamos...
- A revolta de Platão ou Aristócles (“grande”, aparência musculosa): Platão era um dos jovens seguidores de Sócrates. Após presenciar a assembleia democrática sentenciar a morte de seu mestre, isto é, o tratamento injusto imputado a ele (persuadida pelas autoridades), desiludiu-se com o sistema ateniense. Platão tornou-se um filósofo tão influente quanto Sócrates e, ao final de sua carreira, voltou seu enorme intelecto para a política, sendo “A república” o fruto mais famoso. Como era de se esperar, dado que Platão viu Sócrates ser condenado, e sendo ele mesmo membro de uma família nobre, o filósofo tinha pouca simpatia pela democracia. Mas tampouco achava algo sugestivo em qualquer outra forma de governo existente, acreditando que todas elas levavam o Estado a diversos “males”, isto é, na opinião dele não havia existido nenhum sistema que cumprisse o objetivo da eudaimonia – e os defeitos neles encorajavam o que concebia como sendo esses “males”, ou seja, o oposto dessas virtudes: sabedoria, piedade e justiça. Naquele contexto, a meta vital para os antigos gregos era a “eudaimonia” ou “a vida digna” = “viver bem” que não era uma questão de alcançar o bem-estar material, honra ou o mero prazer, mas viver de acordo com virtudes fundamentais, tais como sabedoria, piedade e, acima de tudo, justiça.
“A democracia vira despotismo” (Platão).
“Democracia... é cheia de variedade e desordem, dando igualdade para os iguais e para os desiguais da mesma forma” (Platão).
- O propósito do Estado segundo Platão ou Aristócles (“grande”,
aparência musculosa): Platão acreditava que o propósito do Estado era
promover essas virtudes (sabedoria, piedade e justiça) de modo que seus
cidadãos pudessem levar essa vida digna. Questões como a defesa da propriedade, liberdade e
estabilidade só eram importantes ao criarem as condições que permitiam aos cidadãos viverem
bem.
- A razão disso,
dizia Platão, é que os governantes, quer numa monarquia ou oligarquia (o
governo de poucos), quer numa democracia, tendiam a agir segundo seus próprios interesses, em vez
de pensar no bem do Estado e do povo (ignorância).
- Para Platão,
isso se dava por causa da ignorância geral das virtudes que constituem a vida
digna, as quais, por sua vez, induziam o povo a querer as coisas erradas, em
especial os prazeres transitórios da honra e da riqueza. Esses prêmios vêm com
o poder político, e o problema é mais forte nessa esfera.
- O desejo de
governar, para aquilo que Platão via como as razões erradas, leva ao conflito
entre os cidadãos. Com todos buscando um poder maior, minam-se a estabilidade e
a unidade do Estado. Quem for vitorioso na disputa pelo poder priva os seus
oponentes da possibilidade de alcançar os seus desejos, o que leva à injustiça –
um mal que é contrário ao alicerce da noção platônica de vida digna.
- Em contraste,
argumentava Platão, existe uma classe de pessoas que entende o significado da
vida digna: os filósofos. Só eles reconhecem o valor das virtudes sobre o
prazer da honra e do dinheiro e devotaram suas vidas à busca desse objetivo.
Por essa causa, eles não anseiam a fama e a fortuna, não tendo, assim, o desejo pelo poder político
– de modo paradoxal, isso é o que os qualificava como governantes ideais.
- Grosso modo, o argumento de Platão parecia ser simplesmente que os “filósofos entendiam mais” e (vindo de um filósofo) parecia contradizer sua permissa de que eles não tinham nenhum desejo de governar (na verdade, por trás desse argumento, um raciocínio mais rico e sutil).
- Platão e a sua Teoria das Formas Ideais: não
estão no mundo onde vivemos, mas podemos acessá-las com raciocínio e indagação.
1.
A
virtude não é algo inato, mas depende do conhecimento e da sabedoria, e, para
viver de maneira virtuosa, é necessário primeiro entender a natureza essencial
da virtude;
2.
Enquanto
reconhecemos exemplos individuais de qualidades como justiça, bondade ou
beleza, não nos permitimos entender o que dá a elas sua natureza essencial;
3.
Podemos
imitá-las – agindo da maneira que achamos justa, por exemplo –, mas isso seria
mera mímica e não um comportamento verdadeiramente de acordo com essas
virtudes;
4.
Existem
arquétipos ideias dessas virtudes (e de tudo o que existe), que consistem a
essência de sua verdadeira natureza;
5.
O
que vemos como modelos de virtudes seriam apenas exemplos dessas Formas e só mostrariam
uma parte de sua natureza. Seriam como reflexos inadequados ou sombras das
Formas reais;
6.
As
Formas Ideais ou Ideias existem numa esfera fora do mundo onde vivemos,
acessíveis apenas por meio do raciocínio filosófico e de indagações;
7.
É
justamente isso que separa o “filósofo” da “pessoa comum”. Os filósofos
especialmente qualificados fazem isso para definir o que constitui a vida digna
e leva a uma vida verdadeiramente virtuosa, em vez de uma simples imitação de
exemplos individuais de virtude.
8.
Para
ser bom, o Estado precisaria ser governado pelos virtuosos, e, enquanto outros
valorizavam o dinheiro ou a honra acima de tudo, só os filósofos valorizavam o conhecimento e a sabedoria,
portanto a virtude.
9.
CONCLUSÃO: Logo, só os
interesses dos filósofos beneficiariam o Estado e, portanto, os filósofos
deveriam se tornar reis. Eles deveriam ser compelidos a assumir posições de
poder de modo a evitar o conflito e a injustiça inerentes às outras formas de
governo.
10.
Situação
utópica: “aqueles agora chamados reis
devem genuína e adequadamente filosofar”. Educação para uma potencial
classe de governantes como uma proposta mais prática. Ou seja, ensinando as
habilidades filosóficas necessárias para se entender a vida digna, assim como
outras úteis para a sociedade.
11.
Nem
todo cidadão tem a aptidão e a habilidade intelectual para aprender essas habilidades.
Então essa educação apropriada nem deve ser oferecida, mas imposta para uma
pequena elite intelectual. Aqueles escolhidos para o poder devido aos seus “talentos
naturais” devem ser separados de suas famílias e agrupados em comunas, garantindo
sua lealdade ao Estado.
12. “E o maior castigo consiste em ser governado por alguém ainda pior do que nós, quando não queremos ser nós a governar” (Platão).
CONCLUSÃO FINAL:
Platão influenciou mais do que foi levado a sério.
·
Os
escritos políticos de Platão foram influentes no mundo antigo, em especial no
Império Romano, e ecoavam as noções de virtude e educação da filosofia política
de eruditos chineses como Confúcio e Mozi. É possível que eles até tenham
influenciado Kautilya na Índia quando ele escreveu seu tratado sobre o
treinamento de potenciais governantes. Nos tempos medievais, a influência de
Platão se espalhou para o Império Islâmico e para a Europa cristã, onde Agostinho
os incorporou aos ensinamentos da Igreja. Mais tarde, as ideias de Platão foram ofuscadas pelas de
Aristóteles, cuja defesa da democracia se assemelhava mais à dos filósofos
políticos do Renascimento.
·
As noções políticas de Platão têm sido
vistas por pensadores posteriores como inaceitavelmente autoritárias e
elitistas e desaprovadas por muitos no mundo moderno, mesmo que
essas noções lutassem por estabelecer a democracia. Ele tem sido criticado como alguém que professou um
sistema de governo totalitário, ou
pelo menos paternalista, governado
por uma elite que alega saber o que é melhor para todos os outros. Mais
recentemente, no entanto, sua noção central de uma elite política de “reis-filósofos”
tem sido reavaliada por pensadores políticos.
·
Em
Atenas, Platão fundou a Academia, que teve como aluno Aristóteles. Enquanto
ensinava, escreveu vários livros na forma de diálogos, geralmente
protagonizados por seu mestre Sócrates, explorando ideias sobre filosofia e
política. Acredita-se que tenha seguido ensinando e escrevendo até sua velhice
e que tenha morrido com cerca de 80 anos (348/347 a.C.).
· Diz-se que o imperador Nero não fez nada para ajudar durante o incêndio de Roma. O ideal platônico de rei-filósofo tem sido culpado por alguns pelo surgimento de tiranos assim.
Platão influenciou mais do que foi levado a sério.
LIVROS:
· Críton e A república.
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