Momentos reacionários...
Por que nosso inconsciente se fascina com aquele que está acima da Lei? Torcemos por ele? Somos coniventes com essa regressão à lei da selva? Quem é nossa referência de vida com a qual nos identificamos e à qual nos submetemos? No fundo torcemos pelo super-líder-pai-todo-poderoso? Mundo afora, é esse o ponto que buscamos, a vitória do império sem lei?
A história já provou várias vezes que a
guerra de todos contra todos não é um bom negócio. Já entendemos que o jogo de
forças é inevitável, mas deve ser controlado. Já aprendemos que o poder sobe à
cabeça e, portanto, deve ser dividido, com instituições que controlem a
tentação de roubar nesse jogo. Já experimentamos diversas formas de governo,
inclusive a ausência dele, e sabemos que uma democracia de rodízio no poder é
melhor do que um líder todo-poderoso, seja ele rei ou CEO sem amarras (essa
fantasia de onipotência narcísica sempre à espreita). Refizemos algumas vezes o
pacto social, e parece que tínhamos avançado um pouco no esboço do que seria
uma pessoa “digna”. Entretanto, o limite do gozo do forte ainda se corporifica
como lei.
O resultado das eleições de 2026 no Brasil mostrará a qualidade do nosso pacto social depois de toda prova e tentação que já passamos. Tomara que Flávio imploda o pai e junto com eles o resto do Bolsonarismo. Tudo bem que nunca fomos lá muito amantes da lei laica e não personalista moderna. Que somos um capitalismo de oligarcas com o crime organizado se infiltrando nas instituições. Mas, depois de quase um novo golpe de ditadura, do caso Master, do "anistia é o caralho" e da prisão de Bolsonaro, o que faremos com a nossa Democracia neste ano?
Nosso
Id ancestral e animalesco até pode gostar, mas nada disso é civilizado para o
(Super)Ego e nossa pequena parte consciente e racional. Vejamos:
·
Países
invadem, ameaçam, estupram o que desejam;
·
Governos,
democráticos ou autocráticos, reprimem e matam à bala seus cidadãos;
·
Grupos
roubam: redes organizadas (de empresários, banqueiros, traficantes, políticos,
juízes, influencers) desenvolvem formas de roubar e se sarfar;
·
Pessoas
enlouquecem: cada vez mais gente se aliena nas telas, na violência, nas drogas,
bets, seitas, doença mental, opióides, ideologias, peptídeos;
·
Líderes
e seus porta-vozes parecem ter perdido a razão ou a decência: olham as imagens
de uma execução e a descrevem como “autodefesa”;
·
Não
mais ambiente, sociedade, governança. Agora o que manda é economia, segurança e
geopolítica;
·
Empresas
fazem análise de risco com ajuda do novo cargo de VP de Geopolítica;
·
Países
transferem orçamentos da transição energética para a defesa (leia-se guerra);
·
“Os
fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem” (Tucídides, séc. 5
a.C.);
·
Ano
novo, mundo velho;
·
“Eu
quero é mais que ele exploda tudo e devolva magicamente meu lugar ao sol. E que
sumam daqui todos os feios, sujos, malvados e criminosos que lotam o sistema de
saúde que eu pago, roubam meu emprego, aumentam o valor do meu aluguel”;
· Etc. e tal.
Enfim, até podem ser narrativas da moda que vêm ganhando eleições. Mas, os estragos têm sido grandes, e não só materiais. Massagear o Id e inflar o Ego, despertando em nós aquela parte animal adormecida em nossa ancestralidade remota, por muito tempo trabalhada e mal lapidada pela ciência, pela filosofia e pelas artes, pode custar muito caro ao espírito. Sair da cidade e voltar para a selva, um lugar que nunca deveríamos ter saído, é o primeiro e o último desejo do Id. Uma regressão muito perigosa!