As cidades são um retrato aflitivo da sociedade contemporânea. Lá fora, na paisagem urbana, se mesclam a tensão do trânsito, a agressão ao meio ambiente, a falta de saneamento básico, a dificuldade de mobilidade, o lixo das ruas e a poluição de todos os tipos, o despejo, o desplanejamento, a violência multifacetada, a labuta pelo ganha-pão, entre outras ausências de políticas públicas. Mas, o inferno urbano é estruturalmente interno.
Nenhum de todos esses problemas supera o da solidão. Sim, esse sentimento de não pertencimento a um grupo que cria bolhas e alimenta as buscas ensandecidas e desenfreadas por seguidores e curtidas nas redes sociais. O contraste é forte! Enquanto frequentamos as redes sociais de um modo assíduo, todos ficamos bem mais distantes das pessoas reais. E quando vivemos alguma coisa parece que é só para alimentar os stories. E a solidão gerada pelo medo produz o ódio. Odiar todas essas pessoas à distância é muito mais fácil do que as procurar entender de fato. O universo inteiro vai acontecendo na sua mente e o real se transforma em um incômodo que deve ser transposto?
De fato, nesses últimos 50 anos as pessoas se tornaram mais distantes umas das outras do que eram. Os encontros físicos são mais raros e, quando acontecem, são mediados pelos pré-julgamentos das redes sociais e se esvaem logo. As associações profissionais, como sindicatos, ou de afinidade, como partidos políticos e clubes sociais, ficaram frágeis. Não nos suportamos mais e isso é péssimo para as instituições que precisam lidar com gente.
Enfim, não nos surpreendamos com o tamanho do carnaval de 2026, essa festa do escape. Ali, no ôba ôba, você encontra suspensos traumas, derrotas morais, desilusões amorosas, dificuldades financeiras, fanatismos suspensos, radicalismos à mostra, solidão disfarçada, preocupações guardadas, inúmeras rejeições, gente dançando para superar um pecado original (mas que no final só o reforça), a falta de propósito, a agenda de obrigações suspensas, feridas mal cicatrizadas de todos os tipos e todos aqueles que foram cancelados nas redes sociais.
A carência do encontro
presencial e a falta de uma razão significativa para ele irão superlotar as
avenidas. Foliões vivos e aflitivos – como o nosso tempo. É o caos em festa!
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