“Estava encantada demais com a descoberta para renunciar a ela”.
(Marilena Chauí, “Em defesa
da educação pública, gratuita e democrática”).
Em um de seus escritos, Marilena Chauí explica porque se dedicou à filosofia.
Segundo a autora, “ela me chamava desde o final de minha infância”. E daí cita 05 recordações muito vívidas:
1) abriu um livro sobre filosofia da educação (“Sócrates” e “maiêutica”);
2) abriu um livro sobre introdução à psicanálise (“inconsciente” e “complexo
de Édipo”);
3) o primeiro romance “Quo Vadis” (existência ou não da alma nas mulheres);
4) o livro: “Socialismo
utópico e socialismo científico”. E o que descobriu? Descobriu que... “[...] a luta
pela justiça, pela igualdade e pela liberdade não era uma luta moral, nascida
do espírito da caridade, mas uma ação política consciente determinada pela
própria história. Era possível uma sociedade nova, justa e igualitária não
simplesmente por causa de nossa indignação diante da injustiça e da
desigualdade, mas porque era possível compreender suas causas e destruí-las”
(p. 25).
Tanto que a primeira indignação surgiu
quando soube que duas meninas e um menino fora excluídos de uma festa de
conclusão do 4º ano primário pelo diretor da escola porque eles não tinham
condição de vestuário. “A percepção da injustiça, é muito interessante, apareceu
para mim sempre a partir de formas de exclusão, de gente excluída de alguma
coisa a que teria direito”. Tanto que uma das razões de Chauí ter
ficado muito imbuída de cristianismo foi porque achava que ele estava realmente
em busca de justiça. Ledo engano! Só mais tarde ela constatou que a resposta
estava mesmo no socialismo e no marxismo. Aos 13 anos, a garota era socialista!
E era porque pesou o ambiente familiar, de casa – a família de Chauí era muito
sensível a essas formas de injustiça.
5) Aulas de João Villalobos (curso de lógica: expôs o conflito entre Parmênides x Heráclito; a diferença entre a argumentação de Zenão x Górgias). E descobriu Espinosa e Maurice Merleau-Ponty. “[...] não podia tolerar a cultura da culpa em que fomos criados e sentia que era preciso encontrar uma outra ética em que a liberdade e a felicidade pudessem identificar-se – essa procura iria conduzir-me a Espinosa” (pp. 25-26).
Pensar é a
virtude própria da alma, sua excelência (Espinosa).
Para ser inteiramente homem, é preciso ser um pouco e pouco menos homem (Merleau-Ponty).
A experiência de Marilena Chauí perpassa pelo contato com livros. Essa experiência, amadurecida hoje, traz sua concepção forjada de docência e de luta pela universidade.
1.
Uma
ideia de docência que cativa Marilena Chauí: “[...] o
ensino é formador quando não é transmissão de um saber do
qual nós seríamos senhores, nem é uma relação entre aquele que sabe e
aquele que não sabe, mas uma relação
assimétrica entre aquele cuja tarefa é manter
vazio o lugar do saber e aquele cujo desejo é o
de buscar esse lugar. [...] há ensino filosófico quando o professor não
se interpõe entre o estudante e o saber e quando o estudante se torna capaz de
uma busca tal que, ao seu término, ele também queira que o lugar do saber
permaneça vazio. Há ensino filosófico quando o estudante também se torna
professor, porque o professor não é senão o signo de
uma busca infinita, aberta a todos. [...] é o sentido da liberdade que
preside ensinar e aprender” (pp. 28-29).
2. Luta contra a destruição da universidade pública e laica, feita pelo Estado brasileiro, sob os efeitos da sociedade administrada: 1) imposição da universidade funcional: feita para a classe média para rápida ascensão social por meio dos diplomas universitários (“[...] Foi a universidade da massificação e do adestramento rápido de quadros para o mercado das empresas privadas instaladas com o “milagre econômico [...]” (p. 28)). Uma universidade de resultados e de produtividade; 2) implantação da universidade operacional (uma empresa voltada para dentro de si mesma): sob os efeitos do neoliberalismo, fez desaparecer a universidade como instituição social destinada à formação e à pesquisa, surgindo em seu lugar uma organização social duplamente privatizada: “[...] de um lado, porque a serviço das empresas privadas e guiada pela lógica do mercado; de outro, porque seu modelo é a empresa privada, levando-a a uma existência puramente endógena, voltada para si mesma como aparelho burocrático de gestão, fragmentada internamente e fragmentando a docência e a pesquisa. Essa universidade introduziu a ideia fantasmagórica de “produtividade acadêmica”, avaliada segundo critérios quantitativos e de acordo com as necessidades do mercado. Essa imagem da produção universitária tem sido uma das causas de sua degradação interna e de sua desmobilização externa, pois é uma universidade que despreza o pensamento e o ensino” (p. 28). Tudo visava "[...] a adaptar a universidade às exigências do mercado, alterando currículos, programas e atividades para garantir, de um lado, a ascensão social e, de outro, a rápida inserção profissional dos estudantes no mercado de trabalho [...]" (p. 54).
Enfim, não foi Marilena Chauí quem encontrou a Filosofia, mas a Filosofia que a encontrou. Um encontro que se tornou recíproco, duradouro e fecundo na trajetória de estudante engajada que foi e professora/intelectual/pensadora que é. Lindo! Linda!!!
O bom professor nos ensina a alegria e o risco de uma liberdade conquistada à medida que se efetua como prazer de pensar.

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